A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 11. Porque é que a redução do défice orçamental provoca a redução do défice comercial ou um aumento no desemprego? (1ª parte). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

11. Porque é que a redução do défice orçamental provoca a redução do défice comercial ou um aumento no desemprego? (1ª parte)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 22 de maio de 2017

 

Num curto artigo de opinião recente e muito comentado, George P. Shultz e Martin Feldstein argumentam que a única maneira, ou pelo menos a melhor maneira, para reduzir o défice comercial americano é que Washington reduza o défice orçamental americano. É, no entanto, muito provável que o corte do défice orçamental vá simplesmente aumentar a dívida ou aumentar o desemprego.

 

Em 5 de maio, George P. Shultz e Martin Feldstein explicaram, de acordo com o título do seu artigo no Washington Post, “tudo que é preciso saber sobre comércio internacional em 70 palavras.” Shultz é um antigo Secretário de Trabalho, do Tesouro e de Estado dos EUA, e Feldstein, cujo recente artigo em Project Syndicate me levou a escrever uma peça em Bloomberg duas semanas depois, é professor de economia da Universidade de Harvard, ex-presidente do Conselho de Conselheiros para os Assuntos Económicos e presidente do National Bureau of Economic Research.

Aqui estão as setenta palavras:

  • Se um país consome mais do que produz, ele deve importar mais do que exporta. Isto é assim mesmo; isto é pura aritmética.
  • Se conseguirmos negociar uma redução do excedente comercial chinês com os Estados Unidos, teremos um aumento do défice comercial com algum outro país.
  • Os défices orçamentais americanos, um acto massivo e contínuo de desentesouramento (poupança negativa) são o verdadeiro responsável. Controlem-se as despesas públicas e controlaremos os défices da balança comercial.

 

O ponto de vista dominante: o item poupança determina a balança de capital

Esta visão é também a visão dominante, mas baseia-se em pressupostos implícitos sobre o comércio internacional que eu diria que se tornaram obsoletos. O modelo que Shultz e Feldstein utilizam é o mesmo modelo, na superfície, que eu e a maioria dos outros economistas de comércio internacional utilizamos e é construído em torno de identidades contabilísticas que nunca podem ser violadas.

No entanto, as identidades contabilísticas não nos dizem qual é a direção da causalidade e, portanto, todos os argumentos baseados na identidade utilizada devem implicitamente basear-se em hipóteses sobre qual das variáveis deve determinar a outra. É aqui que estes argumentos se podem tornar terrivelmente confusos.

O investimento americano excede a poupança americana, e os Estados Unidos têm um défice comercial que é, por definição, igual à diferença entre investimento e poupança. [1] Têm também um excedente na balança de capital igual à diferença entre investimento e poupança porque esta diferença é a quantidade de fluxo de capital estrangeiro líquido que cobre a diferença entre investimento e poupança, e a balança de transações correntes e a balança de capital para qualquer país deve sempre equilibrar-se a zero. Até agora não há aqui nenhuma discordância.

O total de poupança dos EUA, é claro, consiste na soma da poupança das famílias, da poupança das empresas e da poupança do Estado. Os governos geralmente têm uma despesa pública superior às respetivas receitas, e o défice orçamental é uma medida deste excesso de despesa, ou de desentesouramento do estado. Reduzir o défice orçamental, de acordo com Shultz e Feldstein, faz com que a poupança total dos americanos aumente, e como a poupança total nos Estados Unidos aumenta, a diferença entre poupança e investimento deve cair, diminuindo assim tanto o excedente da balança de capital como o défice da balança comercial. É por isso que Shultz e Feldstein afirmam que cortar no défice fiscal dos EUA levaria à queda no défice comercial dos EUA.

Podemos, pois, estabelecer as seguintes fórmulas, identidades contabilísticas das contas nacionais:

  • Défice Balança Comercial= Excedente Balança de Capital = Investimento Total – Poupança Total
  • Poupança Total = Poupança das Famílias+ Poupança das Empresas+ Poupança Pública

E porque o défice orçamental é simplesmente a quantidade negativa da poupança do governo, a segunda fórmula torna-se:

  • Total da Poupança = Poupança das Famílias+ Poupança das Empresas – Défice orçamental

Combinando as duas identidades ficamos com:

  • Défice Balança Comercial = Investimento Total – (Poupança das famílias + Poupança das empresas – Défice Orçamental)

Qual é a variável independente e qual é a dependente?

Aqui é onde a questão começa a ficar mais confusa. De acordo com Shultz e Feldstein, as poupanças das famílias, as poupanças das empresas e o défice público são todas elas variáveis mais ou menos independentes. O investimento total é também uma variável independente. Todas as quatro são determinadas por outras condições que podem incluir o nível de taxas de juro, o crescimento do rendimento familiar, a taxa de tributação, e assim por diante.

Para estarmos seguros, elas não são totalmente independentes umas das outras, e há alguma retroação entre elas. Por exemplo, podemos facilmente defender que as empresas dos EUA e as famílias acompanham e preocupam-se com o défice orçamental dos EUA, e quando o défice orçamental declina, a confiança das empresas americanas e das famílias irá aumentar e incentivá-los a gastar mais. Alternativamente, podemos argumentar que o défice orçamental cria uma procura mais forte na economia, e uma redução fará com que as empresas americanas e as famílias gastem menos. Isto complica o argumento um pouco, mas podemos ignorar com segurança estas ligações sem alterar a força do argumento, e assim vamos ignorar estes efeitos e assumir que as quatro contas podem ser independentes umas das outras. Flexibilizar esta hipótese não tem nenhum efeito sobre o argumento subjacente.

Se aceitarmos as quatro variáveis como independentes, então é óbvio o que acontece, se aumentarmos uma das três contas de poupança. Por exemplo, se reduzirmos o défice orçamental, a poupança total deve aumentar, caso em que a diferença entre a poupança e o investimento deve declinar, e o excedente da conta de capital e o défice comercial a terem de declinar.

Esse é o cerne da argumentação que Shultz e Feldstein apresentam. Eles argumentam que se cortarmos o défice orçamental americano, o défice comercial americano também ele declinará automaticamente.

 

Especificando os pressupostos

Há duas hipóteses importantes que têm de ser verdadeiras se Shultz e Feldstein estiverem certos, o que levará ao terceiro ponto apontado abaixo:

  • Em primeiro lugar, as poupanças americanas, das famílias, das empresas e do governo, são determinadas de forma independente em função das preferências de poupança de cada setor relevante.
  • O investimento americano é determinado de forma independente como função de taxa de juro, da confiança, das perspetivas económicas, e assim por diante.
  • Porque a balança de capital e a balança comercial são totalmente definidas por estas quatro variáveis independentes (as três taxas de poupança e a taxa de investimento), aquelas duas balanças são então as variáveis dependentes e ajustam-se automaticamente para equilibrar as variações havidas no investimento e na poupança americanas.

O regime de comércio internacional, hoje: a balança de capital determina a poupança

A razão pela qual eu chamo ao seu ponto de vista o ponto de vista dominante é porque a maioria das pessoas aceita implicitamente a ideia de que as três taxas de poupança e as taxas de investimento são as variáveis independentes, e que a balança de capital e a balança comercial ajustam-se automaticamente às variações destas três variáveis ditas independentes. Esta é apenas uma maneira de garantir a autonomia da economia dos EUA. [2]

Mas há quase que imediatamente um problema. Se o investimento americano exceder as poupanças dos EUA, então, por definição, a poupança do resto do mundo excede o seu investimento por exatamente a mesma quantidade. As poupanças e o investimento, afinal, têm de equilibrar-se globalmente. Se os EUA determinam o seu próprio investimento e as suas taxas de poupança, então os Estados Unidos devem determinar tanto o excesso de investimento americano relativamente à sua poupança, como o excesso de poupança estrangeira relativamente ao investimento estrangeiro. Significa isto que os EUA determinam as taxas de poupança estrangeiras? (eu chegarei ao motivo pelo qual nos devemos concentrar nas taxas de poupança, e não nas taxas de investimento, mas mais tarde.)

A China, Alemanha e Japão juntos têm entre as mais altas taxas de poupança no mundo e juntos representam a maior parte do excesso de poupança, não porque as suas famílias sejam ferozmente aforradoras mas sim porque distorções muito profundas na distribuição de rendimento deixaram as famílias em cada país com frações muito mais baixas do PIB do que em países como os Estados Unidos, e assim eles sofrem de procura interna deficiente. Por outras palavras. é muito claro que eles têm grandes excessos de poupança doméstica por causa de condições internas muito específicas, e por isso é muito mais fácil argumentar que as suas condições internas determinam as suas taxas de poupança interna do que estar a dizer o mesmo nos Estados Unidos, e ainda que a soma de todos os excedentes de investimento sobre a poupança nos países com défice comercial é exatamente igual à soma de todos os excessos de poupança sobre o investimento em países de excedentes comerciais. Há apenas duas maneiras de explicar isso:

  • Com exceção dos países muito pequenos que podem tratar o mundo como uma fonte essencialmente infinita de procura e de oferta externas, as taxas de poupança e de investimento da maioria dos países, e certamente de todos os grandes países, devem ser determinadas em conjunto, sujeitas à exigência de que o saldo global das balanças comerciais é necessariamente zero. Então, ou as poupanças e as taxas de investimento no resto do mundo são determinadas pelos Estados Unidos, ou as taxas de poupança e de investimento nos Estados Unidos são determinadas pelo resto do mundo, ou cada uma determina a outra, mas ambos os lados não podem ser autónomos.
  • Mercúrio, o Deus do comércio, ou talvez seja Ganesh, anda extraordinariamente ocupado, gastando todo o seu tempo na gestão do comércio, do investimento e da poupança, país a país, com uma tal precisão que em cada ponto no tempo, pelo que parece uma coincidência surpreendente, todas as taxas de poupança e todas as taxas de investimento em cada uma das centenas de entidades económicas mais ou menos autónomas no mundo se equilibram perfeitamente.

Para aqueles agnósticos que pensam que é o primeiro caso, a ideia de que as poupanças americanas podem ser determinadas por estrangeiros parece chocante, mas tenham paciência comigo. Para que isso seja o caso, acontece que só precisamos de colocar duas hipóteses:

  • Os mercados de capitais dos EUA estão completamente abertos aos estrangeiros.
  • São amplos, flexíveis, e suficientemente líquidos para que os estrangeiros possam automaticamente virar-se para o mercado dos Estados Unidos e aí satisfazerem as suas necessidades de financiamento.

Os mercados financeiros dos EUA são o amortecedor global de capital?

Eu já expliquei como é que isso funciona em vários ensaios, incluindo recentes entradas de blog sobre o papel do México nos desequilíbrios comerciais americanos [3] e sobre como é que o défice comercial americano afeta a economia americana [4], juntamente com o meu mais recente artigo publicado por Bloomberg [5]. A história certamente parece sugerir que os mercados de capitais dos EUA são essencialmente amortecedores para as exigências de fluxos de capital em todo o mundo [6]. A economia dos EUA deslocou-se para o centro do comércio global e do regime de capital há cerca de um século atrás, e durante aproximadamente as primeiras cinco décadas desse período, a economia global foi caracterizada por duas guerras mundiais e investimentos necessários e urgentes para reconstruir infraestruturas, a agricultura, a indústria transformadora e a logística.

Este foi um tempo, no entanto, em que o rendimento na maioria dos países ricos tinha sido devastado pela guerra, tornando escassas as poupanças necessárias para reconstruir a economia global. O mundo precisava urgentemente de poupanças e os Estados Unidos, a única grande economia não devastada pela guerra, acomodou-se a essa necessidade, passando a ter os maiores excedentes comerciais da história, juntamente com os maiores défices da balança de capital (ou seja, exportou poupanças líquidas). Os fluxos de capitais para Europa e para o Japão permitiram que o investimento aumentasse e este aumento do investimento impulsionou o crescimento.

No início da segunda década, no entanto, durante a década de 1960 e 1970, as economias dos países ricos tinham sido substancialmente reconstruídas e o rendimento subiu acima dos níveis de antes da guerra. A economia global já não sofria de poupanças escassas, e agora era a procura, não o capital, que era urgentemente necessária. Foi nessa época que a balança de capital dos EUA oscilava em excedentes mais ou menos permanentes, e a balança comercial em défice, como forma de acomodar as necessidades globais.

É por isso que os Estados Unidos têm estado no centro do comércio global e do regime de capital, e por isso, como eu explico no meu ensaio de 16 de dezembro [7], se este regime acaba, a alternativa não é um novo sistema centrado na China, mas sim o desaparecimento de um regime de comércio mundial organizado. Em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, são tomadas decisões de investimento que determinam a direção de grandes quantidades de fluxos de capitais. Durante períodos de excesso de liquidez ou de excesso de poupança global (ou, para dizê-lo de forma diferente, de procura deficiente), especialmente quando os bancos centrais estão a acumular enormes reservas, o excesso de poupança tem que ir parar em algum lugar, e isso significa finalmente que o excesso de poupanças flui para os mercados financeiros dos EUA, deixando os Estados Unidos com um excedente na balança de capital e com o seu oposto, ou seja, com um défice da balança corrente.

(continua)

 

Will a Smaller Fiscal Deficit Cause the Trade Deficit to Decline or Unemployment to Rise? Disponível em: http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/70042

 

Notas

[1] Atualmente, a diferença entre o investimento e a poupança é por definição igual ao saldo da balança corrente, não ao saldo da balança comercial, que é simplesmente parte da -geralmente a parte maior – balança corrente, mas nós ignoraremos a diferença entre a balança corrente e balança comercial para manter as coisas simples. De facto, utilizar este procedimento não terá quase nenhuma influência no argumento atual e não afetará nenhuma das suas conclusões.

[2] Isto permite-nos sentir indignação face aos nossos companheiros, e dizer coisas tolas como: os “americanos (espanhóis, italianos, alemães antes de 2003, sul-coreanos entre 1995 e 1997, e assim por diante) são povos esbanjadores. Ninguém lhes colocou uma arma na cabeça para os forçar a comprar aquela TV de ecrã plano”.

[3] N.E. Texto editado na presente série em 11 de outubro, sob o número 9, “Impacto positivo do México sobre o saldo comercial dos EUA”, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/10/11/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-9-impacto-positivo-do-mexico-sobre-o-saldo-comercial-dos-eua-por-michael-pettis/

[4] N.E. Texto editado na presente série em 27 e 28 de setembro, sob o número 4, “Porque é que um excesso de poupança não aumenta a poupança”, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/27/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-4-porque-e-que-um-excesso-de-poupanca-nao-aumenta-a-poupanca-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguinte.

[5] https://www.bloomberg.com/view/articles/2017-05-08/actually-americans-don-t-spend-too-much-and-save-too-little

[6] N.E. Texto editado na presente série em 12, 13 e 14 de outubro, sob o número 10, “Uma redução no peso dos Estados Unidos no comércio global não vai levar a nenhuma mudança de poder”, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/10/12/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-10-uma-reducao-no-peso-dos-estados-unidos-no-comercio-global-nao-vai-levar-a-nenhuma-mudanca-de-poder-1a-parte/ e seguintes.

[7] N.E. vd. nota 6.

 

Leave a Reply