A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 9. Impacto positivo do México sobre o saldo comercial dos EUA. Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9. Impacto positivo do México sobre o saldo comercial dos EUA

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 3 de abril de 2017

Contrariamente ao que se pode a princípio esperar, o papel do México no comércio global é realmente benéfico para os Estados Unidos. Embora restringir as importações mexicanas vá reduzir o défice americano com o México, esta mesma medida vai aumentar o défice global americano.

Enquanto alguns países ainda decretam políticas mercantilistas que afetam diretamente os preços relativos dos bens comercializados e na forma que David Ricardo teria compreendido há 200 anos atrás, no ambiente do comércio global de hoje, os excedentes comerciais persistentes são geralmente causados por distorções na distribuição de rendimento que forçam as taxas de poupança a subir. Essas altas taxas de poupança, que quase sempre são atribuídas erroneamente aos hábitos aforradores de um país — tal como a baixa taxa de poupança dos EUA é estupidamente atribuída aos hábitos americanos esbanjadores [considerados como as cigarras] —, criam deficiências de procura que devem ter como contrapartida automática excedentes comerciais.

Para a maior parte da história moderna, no entanto, isto não foi assim. Os desequilíbrios comerciais refletiram principalmente os custos relativos da produção de bens. Se os fabricantes de têxteis britânicos podiam produzir e enviar têxteis para a França a um custo muito mais baixo do que os produtores franceses podiam produzir, por exemplo, a Inglaterra teria um excedente comercial nos têxteis com a França, e os banqueiros financiariam os desequilíbrios comerciais. Durante este tempo, 90 por cento de todas as transações financeiras internacionais em Londres consistiram em operações que tinham como base as transações comerciais. O saldo comercial de um país consistia na soma de todos os seus vários desequilíbrios comerciais bilaterais, e os fluxos de capitais líquidos eram primariamente impulsionados pelas finanças comerciais que eram a contrapartida das trocas comerciais.

O comércio e os fluxos de capitais seguem hoje uma dinâmica completamente diferente, mas o antigo modelo é tão intuitivamente atraente que implicitamente está subjacente, e confunde, na maioria das atuais discussões sobre comércio internacional. Duas diferenças fundamentais transformaram o comércio e deveriam ter transformado a maneira como nós pensamos sobre o comércio internacional. Em primeiro lugar, o colapso dos custos de transporte estendeu as cadeias de criação de valor, às vezes, por dezenas de países, de modo que a maioria das trocas internacionais consiste em bens intermediários e não de produtos acabados. Em segundo lugar, as finanças internacionais deixaram de ter como base os fluxos comerciais. Os fluxos de capitais cresceram tanto e de tal forma que os fluxos de investimento ultrapassam e em muito os fluxos comerciais. Como resultado, os desequilíbrios comerciais de um país com outro país podem facilmente ser a consequência de fluxos de capitais criados por distorções originadas noutros países.

 

O comércio global do México

O México é, deste ponto de vista, um caso exemplar. Classificado em terceiro lugar entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, após o Canadá e China, o México vale $525 mil milhões no comércio total com os Estados Unidos em 2016 e é um grande foco de queixas por parte da Administração Trump. Isto pode parecer, em princípio, razoável: as exportações mexicanas para os Estados Unidos no ano passado excederam as importações em $63 mil milhões, constituindo o quarto maior défice comercial bilateral dos EUA, depois dos défices para com a China ($347 mil milhões, Japão ($69 mil milhões) e a Alemanha ($65 mil milhões).

O México, no entanto, é um importador líquido de capital e tem um défice da balança corrente global que é o sétimo maior do mundo, igual em 2015 a 2,8 por cento do PIB. Isto torna-o muito diferente dos outros três países: os seus grandes excedentes comerciais bilaterais com os americanos estão incorporados em excedentes globais ainda maiores com o mundo. Isso significa que estes países são também os três maiores exportadores líquidos de capital do mundo — China ($293 mil milhões, Alemanha ($285 mil milhões e Japão ($138 mil milhões) —pois investem anualmente mais no exterior em ações, obrigações e outros ativos do que os capitais que recebem do exterior.

Isto não é uma coincidência. Os países com excedentes comerciais têm taxas de poupança que excedem as taxas de investimento internas, o que se deve, principalmente, ao facto das famílias comuns nestes países terem como rendimentos disponíveis uma muito fraca parcela do seu PIB –relativamente aos respetivos governos, meios empresariais e aos ricos – para poderem consumir um percentagem elevada do PIB total [1].

É por isso que estes países têm que ter excedentes. As suas altas taxas de poupança têm pouco a ver com a propensão das famílias à poupança e em vez disso, estas taxas elevadas estão estruturalmente incrustadas na economia. Elas só podem ser resolvidas com grandes transferências de riqueza, o que é politicamente difícil. Se não puderem exportar os seus excedentes gémeos da produção e de poupanças a um mundo que os não quer, terão de fechar unidades de produção e despedir trabalhadores.

Os desequilíbrios nem sempre tiveram como causa as distorções na distribuição de rendimento. No século XIX e durante grande da história anterior, o comércio refletiu tipicamente diferenças de custo específicas entre dois países na produção e na troca de produtos finais, e o capital fluiu através das fronteiras principalmente para compensar as trocas comerciais do comércio. As condições comerciais bilaterais explicaram a maior parte da procura e oferta de bens comercializados internacionalmente, e foram as suas necessidades de financiamento que determinaram então os fluxos de capital líquido.

No entanto, desde o século XIX que o comércio tem cada vez mais consistido em bens intermediários à medida que dos custos de transporte caíram nas cadeias internacionais de valor amplamente dispersas pelo mundo. Ao mesmo tempo, os fluxos de capital cresceram para se tornarem várias vezes maiores do que os fluxos comerciais, com o comércio de mercadorias a representar apenas pouco mais de 1 por cento do volume comercial diário das transações internacionais globais, de acordo com a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). As decisões de investimento transfronteiriças são agora feitas independentemente do comércio e, na verdade, forçam os ajustamentos que impulsionam o comércio global.

Os desequilíbrios de capital impulsionam o comércio

Podemos ver como isso funciona, considerando o que impulsiona as mudanças nos fluxos de capital e como estes têm afetado o comércio. Antes da crise da dívida de 1982 dos países menos desenvolvidos, por exemplo, enormes volumes de petrodólares foram reciclados para os países em desenvolvimento, e esses fluxos de capital financiaram aumentos de consumo e de investimento que levaram aos grandes défices comerciais que equilibraram os afluxos de capital líquido. Quando as taxas de juros dos EUA começaram a subir, no entanto, os bancos globais assustados retiraram as suas linhas de crédito e inverteram os fluxos de capital líquido, levando a um menor investimento, ao aumento do desemprego e a desvalorizações monetárias.

Foi o efeito da súbita inversão dos fluxos de capitais que converteu os défices comerciais latino-americanos da década de 1970 nos excedentes da década de 1980. Algo semelhante aconteceu uma década depois, quando os países da Ásia Oriental, após anos de excedentes comerciais mercantilistas, começaram a sofrer de grandes défices comerciais. Estes défices ocorreram quando os meios empresariais sul-coreanos, malaios, indonésios e tailandeses estavam a abarrotar de empréstimos baratos em dólares, o que levou a grandes afluxos de capitais líquidos para estes países. Quando as preocupações sobre a dívida crescente de repente causaram afluxos de capital em sentido inverso em 1997, o resultado foi, mais uma vez, o colapso das moedas e o aumento do desemprego que violentamente converteram os défices comerciais em excedentes.

O capital continua a impulsionar os desequilíbrios na economia mundial pós crise. O capital tem vindo a fugir da China, por exemplo, desde 2012, a princípio principalmente em reação à campanha anticorrupção, mas mais tarde estas saídas de capitais foram exacerbados por preocupações sobre o abrandamento da economia. A China tinha, mesmo antes, enormes excedentes comerciais, quando era o banco central chinês a exportar capital, uma vez que acumulou um dos maiores volumes da história em termos de reservas de banco central nos seus esforços para manter o valor do renminbi, [ou seja subavaliado].

Na Alemanha, desde as reformas do trabalho de 2003 – 2005 que fizeram com que os lucros das empresas subissem à custa dos salários, os bancos alemães exportaram a diferença entre a crescente poupança e o declínio do investimento — diferença esta que aumentou em menos de cinco anos para se tornar uma das maiores jamais registadas. Juntamente com o excedente de poupanças, a Alemanha exportou os produtos manufaturados que as famílias alemãs não podiam consumir e que as empresas alemãs não investiriam, primeiro para o resto da Europa e mais tarde para o resto do mundo.

No contexto de hoje de fraca procura global, tem havido pouca apetência entre as grandes economias pelos excedentes de produção e pelas correspondentes poupanças dessas grandes nações excedentárias, mas a ausência de controlos de capital tem feito dos Estados Unidos o país de ajustamento padrão para os desequilíbrios de capitais globais. Por causa dos seus amplos mercados financeiros e da inexistência de discriminação entre o capital interno e o capital estrangeiro, a economia dos Estados Unidos. absorve automaticamente quase metade das exportações líquidas do mundo em capital. Como corolário, os Estados Unidos também devem absorver automaticamente quase metade dos desequilíbrios comerciais globais, geralmente ajustando-se aos fluxos de capitais através de um dólar mais forte, do aumento da dívida (impulsionado por taxas de juros mais baixas), e por maior desemprego, tudo isto inexoravelmente a forçar à descida da taxa de poupança americana. Prever a forma exata que vai assumir o ajustamento é impossível, mas é um requisito rígido que uma mudança na balança de capital deve ser correspondida por um ajustamento igual na balança comercial.

É por isso que as preocupações americanas sobre o impacto adverso do comércio no emprego são descabidas quando se trata do México. Ao contrário dos países excedentários, o México não sofre de défices de procura interna que requeiram da sua parte excedentes comerciais e a exportação de poupanças em excesso. Enquanto importador líquido de capital e com o seu grande défice na balança corrente, o México ajuda a absorver o excesso de poupança global e de produção que poderia de outra forma forçar ainda a maiores défices comerciais nos Estados Unidos [2]. E isto é feito por duas vias. Em primeiro lugar, os desequilíbrios comerciais originam-se noutros países que os resolvem diretamente através da exportação de poupanças excessivas para os Estados Unidos, e indiretamente exportando o excesso de produção sob a forma de mercadorias intermediárias enviadas para vários países numa cadeia internacional de valor que, por sua vez, leva aos excedentes comerciais com os Estados Unidos. O México é frequentemente a última etapa do processo principalmente por causa dos regulamentos simplificados que regem o comércio bilateral México-Estados Unidos e a conveniência logística de uma fronteira partilhada. Estes excedentes, por outras palavras, não se originam no México. O México é simplesmente um passo ao longo do caminho, e por razões geográficas é normalmente o último passo.

As balanças comerciais bilaterais não nos dizem nada

A segunda via pela qual o México ajuda a absorver os desequilíbrios globais é através das suas próprias perspetivas de crescimento. O acordo NAFTA cria incentivos para que os produtores mexicanos aumentem a produção e a exportação de mercadorias para os Estados Unidos, mas o sucesso das exportações mexicanas cria a necessidade de investimento ou então aumenta o rendimento e o consumo interno, portanto, este sucesso automaticamente aumenta as importações mexicanas de mercadorias do resto do mundo. Alguns destes bens são importados diretamente dos Estados Unidos. O resto é importado de outros lugares, embora em muitos casos incluam fases intermediárias de bens americanos, mas mesmo quando assim não é, eles ainda reduzem o défice comercial global dos EUA por causa do papel acima mencionado que os Estados Unidos desempenham na resolução dos desequilíbrios de capitais globais. Ao absorver o excesso de produção e o excesso de poupança de outros lugares, absorção grandemente intermediada pelos Estados Unidos, o México reduz o montante de capitais e de exportações que devem finalmente ser absorvidas pela economia americana.

Considere o que aconteceria se Washington fosse implementar políticas intervencionistas que reduzam as exportações mexicanas para os Estados Unidos. Ao enfraquecer a economia mexicana, a intervenção comercial tornaria o México menos atraente como um destino de investimento. Como a entrada de capital líquido no México diminuiria, o défice comercial do México também iria cair, provavelmente resultando numa moeda mais fraca e em maior desemprego. Se os afluxos de capitais líquidos vindos do resto do mundo para os Estados Unidos se mantiverem inalteradas (na verdade, eles provavelmente iriam subir, tanto quanto o contágio mexicano se espalharia pelas outras economias da América Latina), a consequência automática seria ainda um maior excedente da balança de capital dos EUA. Tal excedente – forçando o dólar a subir, baixando os padrões de mercado quanto ao crédito, ou algum outro mecanismo – deve inexorável e automaticamente resultar num maior défice comercial americano, mesmo que o défice comercial americano com o México se reduza. Por outras palavras, por causa da intervenção comercial agressiva dos Estados Unidos os ganhos de empregos nos Estados Unidos nas indústrias concorrentes com o México seriam mais do que ultrapassados por perdas de postos de trabalho nos Estados Unidos assim como por um maior défice global americano que acabaria por prejudicar as outras indústrias americanas.

É por isso que temos de ter cuidado com a forma como interpretamos os grandes excedentes comerciais bilaterais do México com os Estados Unidos. Enquanto sétimo maior país a absorver excedentes de capital global no mundo, o México e o seu comércio ajuda a reduzir o défice comercial americano por moderar os desequilíbrios globais. Absorve o excedente de poupança de outros países, juntamente com o excesso de produção de bens de consumo ou de investimento. Porque o excesso de poupanças geradas a nível mundial sempre acaba por entrar nos amplos, sofisticados e ilimitados mercados de capitais americanos, é uma regra de ferro que os excedentes comerciais do mundo acabam igualmente por ser absorvidos pelos Estados Unidos, também.

O sistema de comércio global precisa claramente de ser reestruturado, mas punir os exportadores mexicanos não faz nada para resolver o problema fundamental do excedente de poupança em determinados países. Estas poupanças excedentárias do exterior são a causa principal dos défices americanos. Punir as exportações mexicanas poderia levar a desestabilizar a economia de um país importante, cuja prosperidade aumenta a prosperidade dos EUA e só aumentaria a pressão para os pobres trabalhadores mexicanos emigrarem e, por fim, quase certamente tornaria o défice comercial americano ainda maior.

 

Texto disponível em: http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/68506

Notas

[1] Embora a balança corrente inclua muito mais do que apenas a balança comercial, para maior clareza, vamos ignorar a diferença entre os dois conceitos de balanças. Isso não altera de forma alguma o argumento subjacente.

[2] Veja-se Michael Pettis “Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional?”, de 2 de fevereiro de 2017. N.E. Texto editado na presente série sob o número 8, de 4 a 10 de outubro, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/10/04/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-8-estara-peter-navarro-errado-sobre-o-comercio-internacional-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguintes.

 

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