A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 16. A Globalização a caminho da bancarrota? Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

16. A Globalização a caminho da bancarrota?

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Foreign Policy em 18 de novembro de 2009

 

A integração global é conduzida não pela política ou pela Internet ou pela Organização Mundial do Comércio, ou mesmo – acredite-se ou não – pelo McDonald’s. Não, ao longo da história, a globalização foi impulsionada principalmente por expansões monetárias. Os períodos de forte expansão do crédito estimulam os períodos de integração económica, enquanto as contrações de crédito rapidamente os reprimem. Estará o mundo de hoje à beira de outro grande colapso da globalização?

 

Somente a geração jovem que teve uma educação universitária é capaz de compreender as exigências dos tempos“, escreveu Alphonse, um Rothschild da terceira geração, numa carta a um membro da família em 1865. Na época, o mundo estava no meio de um boom tecnológico que parecia estar a mudar a face da terra para lá do que poderíamos imaginar e, certamente, para além da capacidade dos mais idosos em a poderem entender. Como parte desse boom, o capital fluía para os cantos mais remotos da Terra, arrastando as sociedades isoladas para a modernidade. O progresso parecia imparável.

Oito anos depois, no entanto, os mercados em todo o mundo entraram em colapso. De repente, os investidores afastaram-se das aventuras no estrangeiro e das novas tecnologias. Na depressão que se seguiu, muitas das mudanças abraçadas com entusiasmo pelos jovens educados – mercados livres, bancos desregulados, imigração – pareciam demasiado dolorosas para poderem continuar. O processo de globalização, ao que parece, não era nem inevitável nem irreversível.

O que hoje chamamos de globalização económica – uma combinação de rápido progresso tecnológico, fluxos de capital em larga escala e um florescente comércio internacional – aconteceu muitas vezes antes ao longo dos últimos 200 anos. Durante cada um desses períodos (incluindo o nosso), engenheiros e empresários tornaram-se heróis populares e criaram fortunas enquanto transformavam o mundo ao seu redor. Eles exploraram os avanços científicos, aplicaram uma sucessão de inovações a descobertas antigas e disseminaram a aplicação comercial dessas tecnologias em todo o mundo desenvolvido. As comunicações e o transporte estavam geralmente entre as áreas mais afetadas, de tal modo que com cada avanço tecnológico o mundo parecia tornar-se mais pequeno, com tudo a ficar mais próximo, como se o mundo encolhesse.

Mas, apesar do entusiasmo pela ciência que acompanhou cada onda de globalização, como regra histórica era principalmente o comércio e as finanças que impulsionavam a globalização, não a ciência ou a tecnologia, e certamente não a política ou a cultura. Não é por acaso que cada um dos principais períodos de progresso tecnológico coincidiu com uma era de expansão do mercado financeiro e um vasto crescimento no comércio internacional. Especificamente, uma expansão súbita da liquidez financeira nos principais centros bancários mundiais – seja um aumento nas reservas de ouro britânicas na década de 1820 ou a enormíssima transformação na década de 1980 de empréstimos hipotecários ilíquidos em títulos hipotecários muito líquidos ou alguma outra mudança estrutural no setor dos mercados financeiros – tem sido o catalisador por detrás de cada período de globalização.

Se as expansões de liquidez historicamente levaram ao aprofundamento da integração global, as subsequentes contrações de liquidez levaram a globalização a uma paragem inesperada. O dinheiro fácil permitiu que os investidores ganhassem fortunas pela disponibilidade em assumirem riscos, e a riqueza gerada pelo aumento dos valores dos ativos e pelos novos investimentos fez com que a ideologia liberal por detrás da rápida expansão do mercado parecesse inatacável. Quando as condições mudaram, no entanto, a saída de dinheiro dos centros financeiros foi revertida. Os investidores apressaram-se a retirar o dinheiro de empreendimentos arriscados e a colocá-lo em ativos mais seguros. Os bancos apertaram os seus requisitos para a concessão de empréstimos e recusaram-se a fazer novos empréstimos. Os valores dos ativos entraram em colapso. Os custos da globalização, sob a forma de rutura social, desigualdade crescente de rendimento e dominação por elites estrangeiras, tornaram-se inaceitáveis. Os fundamentos políticos e intelectuais da globalização, que até aí pareciam tão seguros, foram expostos como altamente frágeis, e o contra-ataque popular contra a lógica da globalização tornou-se irresistível.

A Grande Expansão

O processo através do qual as expansões monetárias levaram à globalização económica manteve-se consistente nos últimos dois séculos. Normalmente, por cada conjunto de poucas décadas, uma grande mudança na distribuição do rendimento, na oferta de dinheiro, nos padrões de poupança ou na estrutura dos mercados financeiros resulta numa grande expansão de liquidez nos centros financeiros dos países ricos. A expansão inicial pode assumir uma variedade de formas. Na Inglaterra, por exemplo, o desenvolvimento das sociedades bancárias ações (sociedades de responsabilidade limitada que emitiam moeda) nas décadas de 1820 e 1830 – e mais tarde durante as décadas de 1860 e 1870 – produziu uma rápida expansão do dinheiro, depósitos e crédito bancário, o que rapidamente se traduziu em investimentos especulativos e empréstimos internacionais. Outras expansões monetárias foram provocadas por grandes aumentos nas reservas de ouro dos EUA no início da década de 1920, ou por grandes reciclagens de capital, como o pagamento de indemnizações massivas do governo francês após a Guerra Franco-Prussiana de 1870, a reciclagem de petrodólares da década de 1970 ou a reciclagem do enorme excedente comercial do Japão nos anos 80 e 1990. As expansões monetárias também podem resultar da conversão de ativos em instrumentos mais líquidos, como a explosão de empréstimos imobiliários especulativos nos Estados Unidos na década de 1830 ou a criação do mercado de títulos hipotecários na década de 1980.

A expansão inicialmente faz com que os mercados de ações locais cresçam enormemente e as taxas de juros reais caiam. Os investidores, ávidos por altos rendimentos, despejam o dinheiro em novos investimentos não tradicionais, incluindo empreendimentos destinados a explorar tecnologias emergentes. O financiamento está disponível para projetos novos e arriscados, como caminhos-de-ferro, cabos de telégrafo, teares têxteis, fibras óticas ou computadores pessoais, e o forte clima de negócios que geralmente acompanha a expansão da liquidez rapidamente torna esses investimentos rentáveis. Por sua vez, essas novas tecnologias aumentam a produtividade e reduzem os custos de transporte, acelerando assim o crescimento económico e aumentando os lucros das empresas. O ciclo reforça-se a si mesmo: o sucesso gera sucesso e, em breve, o impacto da rápida expansão das tecnologias de transporte e comunicação começa a causar um impacto notável no comportamento social, que se adapta às novas tecnologias.

Mas não são apenas os novos empreendimentos tecnológicos que atraem capital de risco. O financiamento também começa a fluir para as economias “periféricas” em todo o mundo, que, devido ao seu pequeno tamanho, reagem rapidamente.  Esses países, então, começam a experimentar a força da moeda e o crescimento económico real, o que apenas reforça a decisão de investimento inicial. À medida que mais dinheiro flui, os mercados locais começam a crescer. Como consequência do crescimento súbito tanto do valor dos ativos como do produto interno bruto, os líderes políticos nos países em desenvolvimento geralmente movem-se no sentido de  reformar as políticas governamentais nesses países – quer a reforma consista em expulsar um monarca espanhol retrógrado na década de 1820, em expandir o transporte ferroviário dos Andes na década de 1860, em transformar o profissionalismo da burocracia mexicana na década de 1890, em desregulamentar mercados na década de 1920, ou em privatizar empresas estatais ultradimensionadas na década de 1990. Ao fornecer ao governo os recursos necessários para superar a resistência das elites locais, as entradas de capital permitem reformas de políticas económicas.

Esta relação entre capital e reforma é frequentemente mal interpretada: as entradas de capital não respondem apenas a reformas económicas bem-sucedidas, como geralmente se pensa; em vez disso, elas criam as condições para que as reformas ocorram. Elas permitem o financiamento fácil dos défices orçamentais, fornecem aos industriais que se podem opor ao livre comércio um capital de baixo custo, criam novas infraestruturas e geram muita riqueza baseada em ativos para satisfazer a maioria dos membros da elite económica e política que podem opor-se às reformas. Os formuladores de políticas tendem a projetar tais reformas para atrair investidores estrangeiros, uma vez que as políticas que incentivam o investimento estrangeiro parecem ser rápida e ricamente recompensadas durante períodos de liquidez.

Na realidade, no entanto, é igualmente provável que o capital entre em países que não conseguiram introduzir reformas. Não é uma coincidência que os mais famosos “doutores do dinheiro” – pensadores formados na cultura ocidental como o economista francês Jean-Gustave Courcelle-Seneuil na década de 1860, o historiador financeiro Charles Conant na década de 1890 e o economista da Universidade de Princeton, Edwin Kemmerer, na década de 1920, sob cuja influência muitos países em desenvolvimento empreenderam grandes reformas liberais – todos exerceram a máxima influência durante esses períodos. Durante a década de 1990, os seus homólogos modernos aconselharam o comité monetário da Argentina [na criação do sistema cambial e monetário de indexação do peso ao dólar], aconselharam a aplicar uma “terapia de choque” à Rússia, convenceram a China dos benefícios da adesão à Organização Mundial do Comércio e, por todo o lado, espalharam a ideologia do livre comércio.

O padrão é claro: a globalização é principalmente um fenómeno monetário em que a expansão da liquidez induz os investidores a assumirem mais riscos. Esta maior apetência pelo risco traduz-se no financiamento de novas tecnologias e investimentos em mercados menos desenvolvidos. A combinação dos dois efeitos provoca um “encolhimento” do globo à medida que as tecnologias de comunicação e transporte melhoram e o capital de investimento flui para todas as partes do globo. O comércio externo, facilitado pelos avanços tecnológicos, expande-se para se acomodar a esses fluxos. Por outras palavras, a globalização ocorre em grande parte porque os investidores estão de repente ansiosos por assumir riscos.

A Grande Crise

Todavia, como é frequentemente esquecido durante booms de crédito e investimento, tal como se expandem as condições monetárias também se contraem. Na verdade, a contração é geralmente o resultado inevitável das próprias condições que levaram à expansão. Em tempos de crescimento, as instituições financeiras muitas vezes exageram, criando distorções nos mercados financeiros e deixando-se vulneráveis a choques externos que podem forçar uma redução repentina no crédito e no investimento. Num período de aumento dos preços dos ativos, por exemplo, muitas vezes é fácil até mesmo os devedores fracos obterem empréstimos com base em garantias, o que aumenta o risco para o sistema bancário de uma queda no valor da garantia. Por exemplo, os empréstimos imobiliários nos anos 80 dominaram e finalmente derrubaram o sistema bancário japonês. Como ficou evidente no Japão, se a estrutura financeira se tornou suficientemente frágil, uma contenção pode levar a um colapso que se espalha rapidamente por toda a economia.

Uma vez que a globalização é principalmente um fenómeno monetário, e como as condições monetárias acabam por se contrair, o processo de globalização pode parar e até mesmo reverter-se. Historicamente, tais reversões provaram ser extraordinariamente disruptivas. Em cada um dos períodos de globalização anteriores à década de 1990, as contrações monetárias geralmente ocorriam quando os banqueiros e as autoridades financeiras começavam a afastar-se dos excessos do mercado. Se a liquidez se contrai – no contexto de um sistema financeiro perigosamente sobrecarregado – a probabilidade de incumprimento por parte dos bancos e de instabilidade do mercado de ações é alta. Em 1837, por exemplo, os sistemas bancários dos EUA e do Reino Unido, excessivamente dependentes de empréstimos imobiliários e de matérias-primas, entraram em colapso numa série de quedas que deixaram o setor financeiro da Europa em frangalhos e os Estados Unidos no meio de falências bancárias e incumprimentos dos governos estaduais.

O mesmo processo ocorreu algumas décadas depois. O ciclo de Alphonse Rothschild na década de 1860 terminou com as quedas do mercado de ações que começaram em Viena em maio de 1873 e se espalharam pelo mundo durante os quatro meses seguintes, levando, entre outras coisas, ao encerramento da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em setembro à beira do colapso dos títulos ferroviários americanos. As condições eram tão más que o resto da década depois de 1873 foi popularmente referido nos Estados Unidos como a Grande Depressão. Quase 60 anos depois, esse nome foi transferido para um episódio semelhante – aquele que encerrou os Loucos Anos 20 e começou com o quase colapso do sistema bancário americano em 1930-31. A expansão da década de 1960 foi um pouco diferente, pois começou a desenredar-se no início e meados da década de 1970 quando, em parte graças aos aumentos nos preços do petróleo da OPEP e à subsequente reciclagem de petrodólares, ocorreu um segundo boom de liquidez e continuaram até ao final da década os empréstimos a tomadores soberanos nos países em desenvolvimento. No entanto, o ciclo finalmente desmoronou-se completamente quando o aumento das taxas de juros e a contração de dinheiro projetados pelo então presidente do Federal Reserve, Paul Volcker, ajudaram a precipitar a crise da dívida do Terceiro Mundo na década de 1980. Com efeito, com exceção do período de globalização do início dos anos 1900, que terminou com o advento da Primeira Guerra Mundial, cada uma dessas eras de integração internacional concluiu com fortes contrações monetárias que levaram a um colapso ou retração do sistema bancário, declínio dos valores dos ativos, e uma redução acentuada da apetência pelo risco do investidor e dos empréstimos internacionais.

Após a maioria dessas quebras do mercado, o público vê as práticas prevalecentes do mercado financeiro como mais sinistras, e as críticas aos excessos dos banqueiros tornam-se um desporto popular entre os políticos e a imprensa nas economias avançadas. Quando o capital deixa de fluir para os países menos desenvolvidos e sedentos de capital, o consenso doméstico a favor da reforma económica e da integração internacional começa a desfazer-se. Quando as entradas de capital deixam de ser suficientes para cobrir os custos de curto prazo para as elites locais e as classes médias da maior integração internacional – incluindo custos psíquicos, como sentimentos de orgulho nacional ferido – o apoio à globalização diminui rapidamente. Os movimentos populistas, nunca completamente adormecidos, tornam-se revigorados. Os países voltam-se para dentro de si mesmos. Os argumentos a favor do protecionismo de repente começam a parecer atraentes. Os fluxos de investimento rapidamente tornam-se fuga de capitais,

Este padrão surgiu no rescaldo do crash da década de 1830, quando a confiança nos mercados livres caiu a pique e a subsequente reação populista e nacionalista perdurou até ao fracasso das tão temidas insurreições liberais europeias de 1848, que presenciaram os primeiros movimentos do comunismo e a publicação do Manifesto Comunista. Mais tarde, na década de 1870, a depressão económica que se seguiu ao massivo encerramento dos bancos na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina foi acompanhada por um aumento do radicalismo político e da indignação populista, juntamente com surtos de protecionismo em toda a Europa e nos Estados Unidos no final da década. Similarmente, a Grande Depressão dos anos 1930 também promoveu instabilidade política e uma revolta popular contra os excessos do capitalismo financeiro, culminando na expansão de movimentos de esquerda, a aprovação de legislação anti-bancos e até a prisão do presidente da NYSE.

Lucros de perdição

Será que estes padrões se manifestarão novamente? De facto, uma nova contração monetária global pode estar já em andamento. Em cada uma das contrações anteriores, os mercados de ações caíram, liderados pelo colapso do então bem sucedido setor de tecnologia; os empréstimos aos mercados emergentes secaram, trazendo consigo uma série de incumprimentos soberanas; e os investidores clamavam por segurança e proteção. Considere o colapso de 1873, um caso típico: então, o equivalente ao setor de alta tecnologia de hoje era o mercado de ações e títulos ferroviários, e a década anterior tinha visto uma onda de novas ofertas de ações e títulos que atingiram proporções quase maníacas no início da década de 1870. O período também viu um rápido crescimento dos empréstimos para a América Latina, sul e leste da Europa e Médio Oriente. Veteranos de Wall Street expressaram nervosismo com os excessos do mercado durante anos e que levaram ao crash, mas a exuberância dos investidores que acreditavam na promessa infinita das ferrovias, em casa e no exterior, juntamente com a crescente proeminência dos especuladores do mercado em alta como Jay Gould. e Diamond Jim Brady, varreu os veteranos. Quando o mercado entrou em colapso em 1873, os títulos ferroviários foram os mais atingidos, com muitas empresas indo à falência e fechando as portas. Os principais tomadores de empréstimos do mundo em desenvolvimento não conseguiram encontrar novos financiamentos, e uma série de incumprimentos espalharam-se do Médio Oriente para a América Latina em questão de meses. Nos Estados Unidos, o Congresso e a imprensa ficaram furiosos com a ação dos especuladores do mercado de ações e perseguiram os escândalos financeiros até ao gabinete do presidente Ulysses S. Grant. Até mesmo o cunhado de Grant foi acusado de estar em conluio com um grupo notório que tentou uma brutal manipulação do ouro.

Hoje, vemos muitas das mesmas coisas. O setor de tecnologia está em frangalhos, e o sentimento popular voltou-se contra muitos dos heróis de Wall Street que mais lucraram com o boom. Os empréstimos aos mercados emergentes praticamente desapareceram. Até ao momento, os analistas mais sofisticados preveem que um incumprimento da dívida na Argentina é quase certo – e desencadearia uma série de outros incumprimentos soberanos na América Latina e no mundo. As diferenças de rendimento entre ativos de risco e os ativos mais seguros e mais líquidos estão em máximos históricos. Em suma, os investidores parecem muito mais relutantes em assumir riscos do que há alguns anos.

Esta menor tolerância ao risco não é um bom presságio para as nações pobres. Historicamente, muitos países em desenvolvimento apenas experimentam crescimento económico durante períodos de forte ingresso de capital, que por sua vez tendem a durar apenas enquanto o ativo inspirado na liquidez cresce nos mercados financeiros dos países ricos. O consenso internacional que apoia a globalização durará quando o capital parar de fluir? A perspetiva não é muito positiva. Embora ainda haja amplo apoio em muitos círculos para o livre comércio, a liberalização económica, os avanços tecnológicos e os fluxos livres de capital – mesmo quando os custos sociais e psíquicos são reconhecidos -, estamos já a assistir a uma forte reação política contra a globalização. Essa reação é evidente no regresso dos movimentos populistas na América Latina; confrontos de rua em Seattle, Praga e Quebec; e o crescente desencanto em alguns setores com as perturbações e incertezas que se seguem à onda da globalização.

Os líderes agora reunidos em oposição à globalização – do presidente Hugo Chávez na Venezuela ao primeiro-ministro malaio Mahathir bin Mohamad, ao ativista anti-comércio Lori Wallach nos Estados Unidos – não devem ser ignorados demasiado facilmente, não importa quão duvidosos ou frágeis possam parecer alguns dos seus argumentos. A lógica dos seus argumentos pode não ganhar o dia, mas, ao contrário, uma contração monetária global pode reverter o consenso político que era necessário para apoiar as mudanças sociais amplas e às vezes disruptivas que acompanham a globalização. Quando isso ocorra, os debates sobre políticas serão influenciados pelos ataques menos emocionais e mais ponderados à globalização de pessoas como Robert Wade, professor de economia política da London School of Economics, que argumenta energicamente que a globalização realmente resultou em maior desigualdade de rendimento e em piores condições para os pobres.

Se uma contração da liquidez global já estiver em andamento, os argumentos antiglobalização terão ressonância mais forte à medida que muitos dos alertas sobre a ganância de Wall Street e os perigos da reforma liberal parecerão tornar-se realidade. Tendências supostamente irreversíveis de repente inverter-se-ão. Tentativas adicionais de aprofundar a reforma económica, disseminar o livre comércio e aumentar a mobilidade de capital e mão de obra podem enfrentar oposição política que será muito difícil de superar, particularmente porque os banqueiros, os mais comprometidos defensores da globalização, podem perder muito prestígio e tornar-se o alvo de ataques populistas após um sério declínio no mercado de ações. Como os banqueiros são tão identificados com a globalização, qualquer crítica de Wall Street também implicitamente será uma crítica aos mercados globalizantes.

Afinal de contas, nos anos 1930 os financeiros não eram os heróis populares que tinham sido durante a década de 1920, e os eventos atuais parecem espelhar os retrocessos do passado. A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, que foi criada durante a Grande Depressão dos anos 1930, já está a investigar o papel de banqueiros e analistas em enganar o público a propósito dos excessos do mercado nos anos 90. Em junho de 2001, o grupo de lobi da indústria, a Securities Industry Association, propôs um código voluntário, eufemizado como sendo “uma compilação das melhores práticas … para garantir a integridade da pesquisa e análise de títulos”, em grande parte para impedir a expansão da regulamentação externa. Cada vez mais, os especialistas lamentam os conflitos de interesse inerentes aos megabancos que dominam as finanças norte-americanas e globais.

A globalização sempre aumentará e diminuirá com a liquidez global. Para aqueles comprometidos em promover a integração internacional dentro de uma estrutura económica liberal, os sucessos do passado recente não devem gerar complacência, uma vez que as condições mudarão e o mandato para a expansão liberal desaparecerá. Para aqueles que procuram reverter as mudanças socioeconómicas que a globalização provocou, o futuro poderá trazer muito mais progresso do que eles esperam. Se a liquidez global se contrair e se os mercados mundiais recuarem, a nossa imaginação voltar-se-á mais uma vez para os custos cada vez mais visíveis da globalização e afastar-se-á do potencial de todos os povos prosperarem. A reação contra a globalização de repente parecerá imparável.

Michael Pettis, Will Globalization Go Bankrupt? Disponível em http://foreignpolicy.com/2009/11/18/will-globalization-go-bankrupt/

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