CARTA DE BRAGA – “do espaço de escolha”- por ANTÓNIO OLIVEIRA

O actor, compositor e cantor Miguel Rios, já conta mais de cinquenta anos de palcos e nem sequer pensa em mudar de vida. Gravou também um sem número de canções que marcaram muita gente em todo o mundo, sempre num estilo bem pessoal e do qual nunca fez quaisquer concessões.

Numa entrevista já com umas semanas, o granadino refere os seus princípios, afirmando ‘agora são tantas as coisas que nos ensinam mal! Há um retrocesso na música e na arte, algo essencial na educação – era a educação! Hoje é apenas um elemento decorativo para ratos perdidos, um caça bobos para poderem pôr música nos anúncios.

E que se perdeu?

A liberdade e a capacidade para tentares mudar a tua própria vida!

Não passa de um roqueiro, dirão alguns dos que se dignam ler estes sofríveis textos mas penso também, como li algures, ‘um artista não é uma classe especial de pessoa, pois cada pessoa é uma classe especial de artista. Trabalhos domésticos e cozinhar são, do mesmo modo que cantar e dançar, formas de arte, mas formas que menosprezamos, apesar de a simplicidade estar sempre junto da autenticidade

Cuido que a razão deste quiproquó está no facto de a sociedade actual, olhe-se para onde se olhar, se mostrar como um amontoado de empregados e consumidores (não escrevo consumistas como gostaria, por demasiado redutor!), mas um amontoado onde as relações são comandadas pelo conceito sinistro da ‘obrigação’, conceito que arreda quase sempre, a relevância da dignidade.

A dignidade, diz José António Marina, ‘não é uma noção científica, nem um padrão que se possa sacar do big data. Vem da experiência histórica conjugada com a experiência individual

Com efeito, toda a gente pode constatar que as novas tecnologias são fantásticas para manipular informação, mas muito lentas no entendimento dos valores.

Talvez seja assim a compreensão da dignidade, por a grande maioria a entender, através dos ecrãs, apenas como uma quase ficção (!?!).

Não resisto a transcrever a conclusão de um relato da poetisa e letrista Maria do Rosário Pedreira, num DN do mês passado, depois de uma aula a falar de poesia para alunos do 11.o ano, a convite do professor. Ao terminar, disse-lhes para perguntarem o que lhes apetecesse. Deixou escrito a concluir tal relato, ‘só quiseram saber quanto se ganhava com a poesia, se o trabalho que se tinha a encontrar rimas compensava e porque não passava a escrever em inglês, podendo assim vender livros em todo o mundo e receber mais dinheiro. Adeus, futuro!

George Steiner, a quem por vezes recorro, afirmou não há muito tempo ‘os jovens já não têm tempo… de ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas vitais, foi tão poderosa como hoje. Há necessidade de se ter tempo, para procurar tempo!

 A enorme importância do tempo também se manifesta naquele curto espaço entre o estímulo e a acção ou entre a pergunta e a resposta. Um espaço exíguo mas necessário para se poder revigorar tanto a liberdade como o crescimento, não o físico, mas o interior, o da ética e da responsabilidade.

Se ponderarmos bem, só nesse espaço exíguo mas vital, existem e subsistem o poder e a liberdade da escolha.

Então poderemos confirmar como um qualquer acontecimento da nossa vida material ou espiritual, já se constitui em si mesmo, como uma resposta. O maior dos problemas está no facto de raramente darmos atenção à pergunta, a quem ou como a faz, porque os ecrãs e a tal aceleração quase mecânica das rotinas vitais, também levam a esquecer ou a omitir que, só nesse exíguo espaço, se pode considerar que…

… a escolha individual, é aquela onde se desenham futuros!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

One comment

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha

    Obrigada, meu amigo, por, nesta corrida infernal e virtual em que nos vemos envolvidos, termos já tão pouco e tãchao poucos que nos façma pensar…És um Pensador, um pedagogo, uma rocha de carácter que nem a erosão do tempo conseguiu diminuir a profundidade dos pensamentos…OBRIGADA!Adoro este bocadimho!!!1
    Pára-se , sorri-se….pensa-se….Enchemos um bocadinho mais o nosso “copo”
    Um abração CL

    Gostar

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