Os especuladores marcham sobre Roma. Por Jean-Luc Gréau

especuladores marcham s Roma

 

Os especuladores marcham sobre Roma

greau jean luc Por Jean-Luc Gréau

Publicado na revista  com o título Italie : monnaie européenne, dette nationale -Depuis son entrée dans l’euro, l’Italie s’enfonce dans la récession et creuse sa dette publique, em 24 de Julho de 2018

Agradecemos ao autor e ao diretor da revista Causeur, Gil Mihaely, a disponibilização e autorização de publicação do presente texto

 

Introdução de Júlio Marques Mota

Depois de Luís Peres e Margarida Antunes terem publicado um texto em que desmontam a argumentação do nosso Primeiro-ministro e do seu ministro das Finanças, que considero ser equivalente a Morgenthau Jr. do tempo em que Roosevelt recuou na sua política expansionista, a argumentação de que é possível cumprir as regras impostas por Bruxelas e avançar com uma política expansionista, depois de Bill Mitchell ter publicado um outro texto em que desenvolve de forma um pouco radical praticamente todos os argumentos apresentados pelos dois universitários da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra citados, depois de tudo isto, publico agora um texto sobre a Itália, país que agora é alvo também das críticas das autoridades portuguesas, exatamente de Centeno e António Costa, um texto da autoria de Jean-Luc Gréau, um homem que foi antigo conselheiro do Patronato francês, o MEDEF. Um texto em consonância com as críticas dos autores acima referidos.

Coimbra, 21 de novembro de 2018

______________________________________________________________________

Os especuladores marcham sobre Roma

Jean-Luc Gréau, Revista Causeur,  

 

Quanto maior for, mais isso passará. O MEDEF entrou na companha para as eleições europeias por este aviso! “A Europa trouxe prosperidade aos povos“. No entanto, verifica-se que a zona euro é a região do mundo que teve o menor crescimento desde a introdução da moeda única em 1 de janeiro de 1999. A observação seria ainda mais severa se estivéssemos confinados aos últimos dez anos, que viram precisamente a crise do euro e o seu fracasso não declarado.

Mas como o fracasso é distribuído de forma desigual, desde logo o que foi chamado no seu tempo a “Zona Marco” – RFA, Países Baixos, Áustria, Bélgica, Luxemburgo – teve crescimento honroso, a propaganda europeia concentra a sua crítica sobre os seus companheiros de estrada que não foram capazes de subir às suas alturas em termos de competitividade. É a Itália que está agora a sofrer as críticas mais intensas, não obstante o facto de os governos centristas que têm vindo a governá-la desde há vinte anos terem aplicado, ano bom, ano mal, a receita chamada redução de despesa pública e a flexibilidade do trabalho, calorosa e constantemente recomendado pelos magistrados de Bruxelas e de Frankfurt.

No entanto, de todos os países da zona euro que lutam com dificuldades, a Itália oferece a pedra de toque para o fracasso da unificação monetária. Geox, Todd’s, Luxottica e muitos outros mostram que a criatividade italiana continua a existir. Os 5 400 000 italianos que trabalham no estrangeiro comprovam que não existe, para lá dos Alpes, nada igual à nossa preferência nacional pelo desemprego. Longe de se endividar indiscriminadamente como os espanhóis, os irlandeses e os portugueses, os italianos exibem uma das maiores taxas de poupança da Europa. E a despesa pública foi comprimida além do que é razoável. O infortúnio da Itália procede da perda da sua soberania monetária.

Tu assim o quiseste, Georges Dandin [ou O Marido Confundido, comédia de Molière]. A Itália pertence a estes países do Sul que abraçaram o euro com entusiasmo. Há alguns anos, quatro em cada cinco italianos apoiavam a moeda única. A crença na virtude de uma moeda forte, uma moeda alemã, devastou as mentes da Itália como aconteceu com outros países do Sul, para não falar da França. Mas o erro monetário tem essa peculiaridade que não pode ser facilmente corrigido [1]. Não se sai da moeda única como se suprime um mau imposto ou uma despesa improdutiva. E o novo governo italiano que está no poder apenas desde há quatro meses, populista ou soberanista, como se quiser, está a enfrentar este obstáculo. Ele sabe que não podemos sair do euro sem tomar riscos incalculáveis. Mas como está empenhado em mudar a trajetória da gestão pública, o governo tem de dar à opinião pública provas da sua boa-fé e da sua boa vontade. Sob o olhar crítico dos Comissários irresponsáveis da Europa [2].

O governo Conte anunciou algumas medidas importantes: relançamento dos grandes trabalhos públicos, cuja tragédia em Génova indica a necessidade prática além de considerações económicas, a compensação para os aforradores espoliados pela falência dos seus bancos, baixa das taxas de tributação das empresas que investem e aumentam os postos de trabalho, reformas antecipadas, numa base voluntária, para libertar empregos para os jovens e candidatos a emprego – esta medida reclamada por um patronato italiano manifestamente menos tacanho que o do Hexágono. Não há nisto nada que possa assustar as consciências neoliberais. A medida mais pesada, consistindo na criação de um rendimento mínimo de 780 euros associada a uma procura de emprego só se tornará realidade em 2019. O projeto de orçamento mostra um défice de previsão de 2,4% em vez de 0,8% reivindicado pelos professores de Bruxelas. Mas esse défice ainda mostra um excedente primário, com receitas que ainda excedem as despesas. Em termos keynesianos, ele ainda trai uma orientação mais recessiva do que expansiva [3].

Cada um de nós pode assim ver que o novo poder italiano não se atreveu a saltar o passo que o teria colocado numa política de estímulo tipicamente keynesiana no sentido mais forte da expressão, com um grande programa de infraestruturas plurianual, uma diminuição substancial dos impostos sobre os particulares e as empresas, a dedução fiscal dos juros de empréstimos contraídos para adquirir ou modernizar a sua habitação, ou mesmo novas despesas adicionais com armamentos, com o pretexto certo de avançar para o valor de referência de 2% do PIB que foi fixado pela NATO  Isto não impediu a Comissão Europeia de rejeitar o projeto italiano. Entendemos que se trata de uma questão de princípio: as autoridades nascidas da democracia “formal” têm o dever de executar as agendas estabelecidas pelos “verdadeiros” democratas, agindo em nome dos tratados europeus que constituem uma espécie de constituição económica comparável à da defunta da União Soviética.

O governo de Roma recusou-se a passar sob as forcas caudinas europeias. E isso honra-o e em muito. Ele só reconheceu como seu Senhor os italianos que lhes deram o mandato para mudar a trajetória económica do país. Mas como é que podemos explicar, então, que não tenha ido mais longe no estímulo à economia e, especialmente, ao investimento deprimido que está e é a causa da estagnação da produtividade?

A fragilidade dos bancos

São os especuladores que Conte, di Maio e Salvini temem acima de tudo. A dívida italiana está à mercê da sua apreciação. A dívida pública, mas também a dívida privada, ambas ligadas. A taxa de juro sobre o Tesouro italiano a dez anos de maturidade subiu 1,7% no início de Junho para 3,6% até ao final de Outubro. A deriva não significa, como o expressam os ignorantes da esfera dos media, que os italianos serão desencorajados de contrair empréstimos. As taxas efetivas, ou seja as taxas de juro reais, mantêm-se muito aceitáveis pelos candidatos aos empréstimos.

Mas o aumento das taxas é significativo da desvalorização dos empréstimos em causa. Essa é a questão. Cada vez que as taxas aumentam, o valor dos empréstimos registados nos balanços das companhias de seguros, nos fundos de investimento e, especialmente, nos bancos, diminui proporcionalmente. Este processo de desvalorização é o fenómeno crucial que esteve na origem das duas crises financeiras na Europa, a de 2008 e a de 2010, um aperto sistémico, cavando centenas de milhares de milhões de dólares e de euros em perdas nas contas dos agentes financeiros envolvidos. Se as taxas continuarem a aumentar, este mesmo processo poderia ser a fonte de uma falência em grande escala dos bancos italianos. Como os credores italianos detêm 387 mil milhões de euros em empréstimos públicos ao Tesouro local, como os bancos ainda estão sobrecarregados com 180 mil milhões de créditos de má qualidade, percebe-se imediatamente o impacto da degradação se esta continuar, mesmo sem ter em conta o efeito colateral sobre os empréstimos privados. Os “artistas” dos mercados financeiros estão, portanto, impacientemente à espera. Eles estão a apostar que o governo italiano vai recuar sob o medo de uma falência dos bancos da Península.

Mas o Banco Central Europeu, ainda dirigido por mais algum tempo por Mario Draghi, não poderia ele intervir em apoio da dívida italiana, como o fez para toda a zona euro entre 2014 e hoje? A questão não é ela a mesma, evitar o risco de um incêndio financeiro que poderia espalhar-se para além das fronteiras da Itália? Isto significaria, no entanto, que Draghi e o seu Conselho de política monetária estão a aceitar a política orçamental de Roma e o precedente que esta constitui. Não o podemos afirmar nesta rentrée de 2018.

Mas não haveria quase nada a dizer sobre o assunto se os países ocidentais não tivessem, há quase 40 anos atrás, decidido colocar o seu crédito nas mãos dos bancos. Eles estabeleceram então um pacto “Faustiano” com a burocracia bancária. Em troca do bom fluxo das suas obrigações públicas, semana após semana [4], concordaram em não interferir no negócio mais ou menos tóxico da corporação bancária. Nós vimos os resultados incríveis dessa decisão em ambos os lados do Atlântico entre 2008 e 2010.

Ora, eles apoiavam-se outrora na confiança dos aforradores, nacionais ou estrangeiros: era nas nossas modestas contas que as obrigações do Tesouro público e as dificuldades financeiras deste Tesouro não ameaçavam em nada a saúde dos bancos. A “modernização” dos procedimentos de empréstimo teve esta consequência incalculável de ligar, para o melhor e especialmente para o pior, os bancos e os Estados. Uma relação conivente entre os burocratas do Estado e os burocratas bancários substituiu a relação de confiança entre os políticos no poder e os aforradores. A Itália oferece um muito evidente exemplo da situação assim criada.

Este exemplo permite-nos entender duas coisas. Primeira, os aforradores foram espoliados a favor dos bancos. E a segunda, por consequência, os eleitores foram despojados a favor dos especuladores. A democracia está pois em suspenso.

 

Notas

[1] Ver Jean-Jacques Rosa « L’erreur européenne » Editions Grasset 1998

[2] A começar por Pierre Moscovici, encarregado das questões orçamentais, de que se terá apagado das memórias a sua passagem por Bercy entre 2012 e 2014.

[3] O orçamento francês apresenta, pelo contrário, um défice primário.

[4] Segundo o procedimento dito dos « Primary dealers » ou « Especialistas em valores do Tesouro » que veem os bancos selecionados tomarem «firme” os novos empréstimos emitidos por eles. .

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: