Está Paris a arder? Por Eugenie Barbezat, editado por L’Humanité

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Está Paris a arder?

Por Eugenie Barbezat, editado por L’Humanité, 1 dezembro de 2018

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Introdução por Júlio Marques Mota

Questionam-se os media se Paris está a arder. Ontem, um dos canais televisivos portugueses, “informava” que os distúrbios ocorridos em Paris se deveriam a organizações ou de extrema-esquerda ou de extrema-direita. E arrumava-se a questão. Pura e simplesmente assim. Politicamente limpava-se assim o sistema, o mal eram os extremos e nunca no que política e economicamente está exatamente entre estes extremos. E como se não fosse isso que gera os extremos para onde se arruma a explicação do que aconteceu.

Sobre o que aconteceu em Paris ontem, dois textos. Um deles é a descrição sumária do que aconteceu – Está Paris a arder? – e o segundo uma busca das razões que estão na base do que aconteceu – As lições de um movimento social.

E de tudo isto resta-nos a pergunta: para quando o mesmo numa outra capital europeia?

A pergunta, se por um lado está ligada ao que expus na minha recente carta aberta ao Primeiro-ministro António Costa, intitulada A minha neta e a crise no Serviço Nacional de Saúde-Ainda algumas reflexões mais sobre a democracia, em Portugal e na União Europeia [1], e ao segundo texto acima referido sobre as razões que estão na base do que aconteceu em Paris, por outro lado, está também ligada à descrição que o relator da ONU para as Questões da Pobreza, Professor Philip Alston, fez agora, na segunda quinzena de Novembro, sobre um dos países mais ricos do mundo, a Inglaterra.

Este texto da ONU, que iremos publicar no anexo 4 à carta aberta ao primeiro-ministro – “A política económica e o custo de nada fazer” – é um libelo acusatório de tal forma duro que eu não imaginaria ser possível ler o que li num texto com a chancela da ONU, onde se afirma por exemplo:

“As administrações locais na Inglaterra têm vindo a sofrer uma redução de 49 por cento em termos reais no financiamento do governo desde 2010, com centenas de bibliotecas, de centros comunitários e de centros de juventude a serem fechadas e os outros que ficam abertos a serem subfinanciados e também com espaços públicos e edifícios, que incluem parques e centros recreativos, a serem vendidos.”

“As políticas governamentais têm infligido, e desnecessariamente, uma grande miséria, especialmente sobre os trabalhadores pobres, sobre as mães solteiras que lutam contra ventos e marés, sobre as pessoas com incapacidades que já estão marginalizadas e sobre milhões de crianças que estão encerradas num ciclo de pobreza a partir da qual muitos terão grande dificuldade em escapar “.

“O governo deve iniciar uma avaliação especializada do impacto acumulado das decisões orçamentais e da despesa pública que foram feitas desde 2010, e deve igualmente dar prioridade à reversão de medidas particularmente regressivas, incluindo nestas o congelamento de subsídios, o limite de duas crianças com direito a subsídio, o teto para os subsídios e a redução do subsídio de habitação no caso das casas de renda social subocupadas.

“O Ministério do Trabalho e das Pensões deve levar a cabo uma análise independente sobre a eficácia das reformas da condicionalidade da ajuda social e das sanções introduzidas desde 2012, e deve imediatamente dar instruções aos respetivos serviços para explorarem vias mais construtivas e menos punitivas para incentivar o respeito das reformas acima enumeradas.”

Percebe-se pois a razão de ser da pergunta “Para quando o mesmo numa outra capital europeia?”

Coimbra, 2 de dezembro de 2018

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Está Paris a arder?

Humanité, sábado, 1 dezembro de 2018

“Isto cheira a Revolução”: da Ópera à Avenida Foch, passando pela Rue de Rivoli e do Boulevard Haussmann, vários bairros finos de Paris foram no sábado teatro de cenas de violência urbana à margem da mobilização dos “coletes amarelos”.

Retroescavadora em chamas, carros voltados e queimados, bicicletas de serviço livre arrancadas, radares e candeeiros das ruas atirados ao chão, paralelepípedos soltos espalhadas pelas ruas cheias de lixo: vários bairros finos do centro e a oeste da capital foram postos num caos, submersos por nuvens de gás lacrimogéneo ou cobertas de grossas nuvens de fumo negro.

Não muito longe daí, o Boulevard de la Madeleine está coberto com paralelepípedos e tijolos arrancados. Um A envolto num círculo, símbolo da anarquia, foi pintado na janela de um banco ao mesmo tempo que se sentia no ar um cheiro persistente a queimado.

Na prestigiada Avenida Foch, cerca de 40 manifestantes erguem barricadas com troncos de árvores e barreiras antes de serem pulverizados com gás lacrimogéneo e forçados a recuarem pelas forças policiais. Mais abaixo da Avenida, um radar caído é pisado por cerca de 50 pessoas.

Bandeiras francesas, algumas das quais foram hasteadas no telhado do Arco do Triunfo, ao lado de bandeiras bretãs ou as que representam cabeças de mortos, alguns motoristas buzinam para os manifestantes ou agitam os seus coletes amarelos através das suas janelas.

Os manifestantes também entraram brevemente no Palais-Brongniart, a antiga sede da Bolsa de Valores de Paris.

Essas cenas de violência urbana repetiram-se em várias partes de Paris, para grande desgosto dos “coletes amarelos”, e dos seus partidários que protestavam pacificamente.

“Sou solidária com os coletes amarelos, mas tenho vontade de chorar diante de toda essa violência, essa bagunça”, diz Fanny, uma enfermeira de 47 anos. “Cheira a Revolução”, disse ela a um jornalista da AFP.

“É muito impressionante, vejo que a tradição revolucionária continua impregnada no povo francês,”, acrescentou Augustin Terlinden, um belga de 33 anos que tinha vindo fazer o seu jogging perto do Arco do Triunfo.

Desde os primeiros confrontos que se ouviam incessantemente os sons de explosões relacionadas com incêndios de carros e sirenes de polícia e camiões de bombeiros, sob o olhar espantado de turistas nos passeios.

Avenue Raymond Poincaré, invadida pela fumaça após o incêndio de vários carros, a intervenção dos bombeiros é feita sob escolta da polícia e sob o olhar dos “coletes amarelos “. “Sabe, nós também temos problemas para chegar ao fim do mês, mas não temos o direito de fazer greve”, diz um membro das forças da ordem.

Num outro ponto da capital, um manifestante, de colete amarelo vestido e com a cabeça cheia de sangue, disse que “se encontrou com um polícia”. Segundo o relatório divulgado às 17H00, os confrontos fizeram 80 feridos, incluindo 14 entre os polícias.

“Com flores na ponta das espingardas não vamos conseguir grande coisa”, diz David, dos seus trinta anos, a trabalhar nas obras públicas na região Rhône-Alpes. Para Romain, de 39 anos. empregado na Ópera de Paris, a degradação é também “um mal necessário”, “uma maneira de nos expressarmos”. Mesmo que, acrescenta, “queimar os carros das pessoas não seja nada bom.” “Há muito mais arruaceiros do que na semana passada, a situação está mais tensa”, acrescenta.

As autoridades procederam a 205 interpelações, segundo informações da polícia.

eugenie barbezat avec AFP

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As lições de um movimento social

Por Jean-Christophe le Duigou, economista e sindicalista

Humanité em 30 de novembro de 2018

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photo : Joseph Korda

 

O declínio da indústria, sacrificado no altar da finança, está na raiz deste mal-estar profundo. Conduz ao empobrecimento no país: um trabalho no setor serviços é pago 20% menos do que um trabalho na indústria.

O movimento dos coletes amarelos foi construído em torno de um objeto específico, a rejeição da decisão de aumentar o preço do combustível diesel. Teria sido necessário, tendo em conta a preocupação com a justiça social, de dar rapidamente uma resposta adaptada à reivindicação. Mas este movimento é também o testemunho de uma profunda crise social. Pode então ser tentador juntar o protesto puro e simples, esperando que a este se virão juntar outros movimentos de protesto. Ilusório, seguramente. Por outro lado, há uma necessidade urgente de questionar as razões subjacentes a estes “encolerizados” e trabalhar para abrir as únicas perspetivas que podem restaurar a confiança a faixas inteiras da sociedade que manifestamente mostram um mal-estar social.

Uma coisa é certa: a maioria das famílias, jovens ou idosos, vivem com a angústia de desclassificação profissional e da precarização. O sociólogo do trabalho Robert Castel demonstrou há vinte anos, que este medo se materializa em cada fim do mês. Não admira que as questões de poder de compra voltem a estar na vanguarda das preocupações sociais. O sentimento de que o nosso país se está a tornar empobrecido ressoa com as dificuldades recorrentes encontradas em cada família. As escolhas económicas das últimas três décadas estão na sua base. O declínio da indústria, sacrificado no altar da finança, está na raiz deste mal-estar profundo. Este declínio arrasta, quer se queira quer não, uma pauperização do país. Deve recordar-se que o emprego nos serviços é menos remunerado do que o emprego industrial. A diferença é cerca de 20%.

Sim, a economia está em plena transformação sob a pressão das mudanças tecnológicas e sociais e de uma nova globalização. Deve cada vez mais incorporar interesses ambientais. Deve ter em conta os requisitos de uma economia que reduz as emissões de CO2. Deve preocupar-se com os territórios em que exerce as suas atividades e de onde obtém a sua riqueza e competências. Assim, misturar-se-ia indústria e serviços industriais, empregando a maioria dos trabalhadores e engenheiros. Um novo mundo industrial está pronto para nascer.

Mas esta transformação da economia não pode ser alcançada com o fim de satisfazer os interesses da finança e sob o cumprimento das suas regras anglo-saxónicas que têm sido impostas desde há trinta anos. Falam-nos de “destruição criadora” para justificar o facto de que a ditadura da taxa de lucro gera custos sociais significativos e conduz a abandonos estratégicos inaceitáveis. É, portanto, urgentemente necessário ter uma política industrial coerente que abra perspetivas sociais e económicas. Não sairemos das contradições, senão em construindo um mundo comum à empresa e à sociedade. Para isso, a autoridade pública deve assumir a responsabilidade pelo futuro das empresas industriais francesas. Em contrapartida, devem participar na reconstrução de uma base produtiva nacional e europeia.

A importância do problema não pode ser subestimada quando somos chamados “a viver de forma duradoura com baixo crescimento”. Precisamos estar cientes do enfraquecimento do tecido produtivo e das sérias ameaças a muitos setores. A ação para um desenvolvimento económico e industrial real é fundamental para neutralizar uma fragmentação da sociedade que tem estado a aumentar profundamente.

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Textos disponíveis em L’Humanité e cujos endereços são:

 

Nota

[1] Vd. A Viagem dos Argonautas em 30 de novembro e em 1 de dezembro e 2 de dezembro de 2018.

 

 

 

 

 

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