Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 8. Duas grandes linhas de falha para 2019 – Parte II

Na edição de Novembro de 2018 da Master Investor Magazine escrevi nesta coluna que existem três dimensões da análise global: a dimensão dos mercados financeiros globais, dos fundamentais económicos subjacentes (crescimento do PIB etc.) e da geopolítica. 

Duas grandes linhas de falha para 2019 – Parte II

(Por Victor Hill, 07 de Janeiro de 2019)

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A evolução da União Europeia

A União Europeia (como é chamada desde o Tratado de Lisboa, 2011) – ou a Comunidade Económica Europeia (CEE), como era chamada originalmente – surgiu cerca de uma década depois da criação da ONU, numa altura em que parecia que os Estados precisavam de se unir para progredir. A Grã-Bretanha não era signatária do Tratado de Roma (25 de Março de 1957) que deu origem à CEE. Os seis países iniciais eram: França, Alemanha Ocidental, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. Para cinco dessas nações a lógica era convincente: já não precisariam de se preocupar com o expansionismo alemão.

O Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca aderiram à CEE em 1973; a Grécia em 1981; a Espanha e Portugal em 1986; a Suécia, a Finlândia e a Áustria em 1995. Dez países da Europa de Leste e do Mediterrâneo aderiram em 1 de Maio de 2004; e, depois, a Bulgária e a Roménia em 2007. A Croácia foi a adesão mais recente, em 2013.

Europa: linhas de falha Norte-Sul – e Este-Oeste

Existem duas grandes linhas de fratura na UE, uma das quais em particular na própria zona euro de 18 Estados. Essencialmente, a fratura da zona euro é de Norte para o Sul: reflete a disparidade entre os países excedentários, como a Alemanha e os Países Baixos, e os países deficitários que se encontram na margem do Mediterrâneo. (Estes países são por vezes referidos, o que, a meu ver, é um pouco depreciativo, como o “Cintura de Oliveiras”).

Depois, há uma falha ainda mais profunda nas linhas culturais que vão de Leste a Oeste. Os Estados ocidentais da UE são liberais e relativamente recetivos à imigração em massa; os Estados orientais da UE são socialmente conservadores, como a Polónia católica, e consideram totalmente inaceitável a perspectiva da imposição obrigatória de quotas de migrantes.

Vejamos primeiro o fosso Norte-Sul dentro da zona euro. Chamo a isto Bruxelas contra Roma, mas talvez queiram também chamar-lhe Frankfurt (a casa do BCE) contra Atenas; ou mesmo Berlim contra o Sul.

Bruxelas versus Roma

O impasse entre Roma e Bruxelas sobre o orçamento de 2019 da Itália provocou a sua primeira baixa em 12 de novembro. Os principais bancos italianos foram forçados a associar-se para apoiar uma emissão obrigacionista de emergência da Banca Carige SpA (BIT:CRG) após o aumento dos rendimentos dos títulos do Estado italiano – desencadeado pela batalha orçamental Bruxelas-Roma – ter desgastado a base de capital de segundo nível (second tier)  do banco, colocando-o à beira da falência. Essa intervenção evitou um fracasso e o contágio que se seguiria inevitavelmente. Mas a necessidade de um resgate sublinha que o ciclo vicioso da interdependência entre bancos em dificuldade e o país endividado (expressão aproximadamente equivalente à do Banco Mundial), entre a dívida pública italiana e os bancos italianos é um acidente à espera de acontecer. Este é um problema tanto para os bancos do país como para o governo italiano.

Desde 2008, os bancos italianos mais do que duplicaram a sua dívida pública que passou de 165 mil milhões de euros para 387 mil milhões de euros. Isto aconteceu em grande parte desde 2011, quando o BCE introduziu o seu programa de concessão de empréstimos preferenciais aos bancos da zona  euro, a fim de estimular os empréstimos ao setor privado. Esta concessão  permitiu  aos bancos italianos contrair empréstimos junto do BCE a taxas fixas tão baixas como seja  a taxa negativa de (-) 0,4% e investir o produto em títulos da dívida pública italiana (que tem uma ponderação de risco zero ao abrigo do quadro de Basileia III relativo à adequação dos fundos próprios). Tais transações permitiram bons rendimentos por efeito de diferença de taxas.

Como resultado, os bancos italianos detêm hoje 20% de todos os títulos soberanos italianos em circulação – 10% da sua base de ativos – quando era de menos de 5% antes da crise. Agora, os planos orçamentais do novo governo populista italiano transformaram a dimensão dessa participação numa questão importante para os mercados.

Depois que Roma apresentou propostas orçamentais  que elevarão o défice da Itália em 2019 para 2,9% do PIB (de acordo com Bruxelas), o rendimento dos títulos do governo italiano a 10 anos subiu de 1,71% após a eleição de Abril para 3,27%, como escrevi. Isso implica automaticamente  uma grande queda no valor dos títulos públicos existente nos balanços dos bancos, corroendo suas bases de capital. Parece que os mandarins europeus agora acreditam que os italianos poderiam derrubar o euro….

Os alemães contra os outros

No seu livro Brexit: the road to freedom, Will Podmore explica que a UE foi concebida como um meio para alcançar o comércio livre dentro da Europa – muito em benefício da Alemanha – mas nunca teve como objetivo o comércio livre. Os fundadores da UE – franceses e alemães – nunca defenderam o objetivo do comércio livre internacional. Pelo contrário, o seu objetivo era proteger a UE contra a concorrência externa, impondo tarifas sobre produtos importados dos seus rivais industriais na América e noutros países. Quando a UE falava de livre comércio, significava proteger-se por meio de tratados contra outros blocos comerciais como o NAFTA e a Parceria Trans-Pacífico. A moeda única foi em grande parte um meio bem sucedido para que os exportadores alemães poderem eliminar o risco cambial dos seus principais mercados de exportação. O resultado é um sistema que é inerentemente defeituoso – e que pode não ser capaz de resistir a outra recessão à escala europeia.

A América contra a Europa

Pouco antes da comemoração do centenário do armistício de 1918, o Presidente Macron anunciou que a Europa precisava de construir o seu próprio exército para proteger a Europa contra os seus potenciais adversários: os EUA, a China e a Rússia. Isso foi uma coisa estranha de se anunciar diante de um presidente americano visitante – especialmente O Donald.

O discurso de Macron provocou uma tirada de Donald Trump, cuja relação de amizade com o Presidente francês terminou claramente ali. Mas no dia 13 de Novembro, Merkel, num discurso proferido no Parlamento Europeu em Estrasburgo, falou inequivocamente a favor da criação de um exército europeu. Afirmou que um exército da UE contrariaria aliados não fiáveis. (Ouvintes franceses e alemães teriam compreendido a América e a Grã-Bretanha).

Como que para sublinhar a divisão Leste-Oeste na Europa, os polacos celebravam o centenário do restabelecimento da sua nação. Num evento do Dia da Independência em Varsóvia, o Presidente polaco Duda dirigiu-se à multidão. Os soldados polacos ficaram lado a lado com membros de um grupo de direita (comparável, talvez, à Liga Inglesa de Defesa) que se opõe veementemente à imigração muçulmana, bem como com representantes da Forza Nuova, um movimento italiano de direita.

A tentativa de Monsieur Macron de reconfigurar o aparelho de segurança ocidental, apoiada pela chanceler alemão cessante e cada vez mais fraca, faz dele uma figura muito mais perigosa do que Trump. Está agora claro que a aliança franco-alemã está a tentar empurrar a Europa – e particularmente os 18 países da zona euro – no sentido da harmonização fiscal (o que significa um orçamento comum e impostos idênticos) e da união política – tudo isto com uma identidade de defesa comum.

Como de costume, os franceses e os alemães estão em desvantagem. Quem vai pagar por este novo e brilhante exército europeu? Como o Presidente Trump quis  recordar aos europeus, a maioria dos membros da NATO nem sequer satisfaz a aspiração da aliança de gastar apenas 2% do seu PIB na defesa. A maioria dos países da zona euro tem níveis de dívida em relação ao PIB em níveis recordes. Os seus Estado-Providência estão a expandir-se e o custo dos cuidados de saúde está a aumentar. De onde virá o dinheiro para este novo acordo de defesa?

Além disso, nem todos os Estados da zona euro são membros da NATO, mesmo agora. A República da Irlanda, a Suécia, a Áustria e a Finlândia eram Estados resolutamente neutros durante a Guerra Fria (os dois primeiros por opção, os dois últimos por força de tratados). Beneficiaram do colapso da União Soviética – mas nada contribuíram para a defesa da Europa face ao  (como lhe chamou Ronald Reagan) império maléfico. É engraçado que a equipa de negociação da UE tenha tomado uma posição tão favorável aos irlandeses sobre a questão da fronteira entre o Reino Unido e a Irlanda, quando a Irlanda, ao contrário do Reino Unido, nada contribuiu para a sua liberdade atual. Mas a verdadeira questão é que a proposta de Macron mudou fundamentalmente a opinião dos EUA na direção da perspetiva de Trump. Não só os EUA subsidiam os custos da defesa europeia – na medida em que os alemães podem gerir um enorme excedente comercial com os EUA – como agora Macron & Co querem potencialmente apontar os mísseis da force de frappe da França para Washington. Isso seria um erro muito grande.

Penso agora que Trump fará campanha nas eleições presidenciais de 2020 na base duma plataforma em que os EUA deixarão completamente a NATO. A Europa é, na verdade, uma distração para os EUA do seu principal objetivo – que é, evidentemente, a contenção da China. A maioria dos americanos está agora cansada da combinação da Europa com a sua arrogância e a sua mesquinhez. Se Putin decidisse agora anular a Estónia como anulou a Geórgia em 2008, suspeito que a maioria dos americanos concluiria que Macron e Merkel (se ela ainda estiver por perto) deveriam resolver o problema com o seu próprio exército.

Assim, o centro da atenção do Presidente Obama para a Ásia irá, na verdade, acelerar-se sob o comando de Trump. A Europa está a cometer um enorme erro no seu desprezo liberal-globalista por Donald Trump. E os seus povos podem muito bem viver para o lamentar.

Conclusão & Acção

O que é que os investidores devem fazer com essa reconfiguração da paisagem geopolítica global?

Vivemos num período de rápida mudança tecnológica – que oferece enormes oportunidades – mas também de uma revolução do sistema de Estados que se tem produzido desde há quase 75 anos. A paz de 1815, que foi selada no Congresso de Viena, e que traçou uma linha sob a era que agora chamamos as Guerras Napoleónicas, durou 99 anos até 1914. Será que o período de paz entre grandes potências, iniciado em 1945, durará tanto tempo?

Os investidores não podem realmente preparar-se para um grande choque que muito provavelmente ocorrerá num momento indeterminado a médio e longo prazo. Mas eles podem-se posicionar para mudanças fundamentais que provavelmente ocorrerão no curto prazo.

Um possível resultado de uma Guerra Fria EUA-China (ainda mais do que uma guerra quente) é que os países que mais investiram na internet (a rede mundial) podem começar a querer fragmentar essa rede em silos mutuamente impenetráveis. O dia do julgamento dos gigantes da internet está a chegar – especialmente para os titãs dos media sociais, Facebook (NASDAQ:FB) e Twitter (NASDAQ:TWTR) – à medida que a Europa e os EUA começam a regular esse setor de forma mais proativa.

A influência chinesa estende-se agora muito para além da Ásia Central e do Sul até à Europa Central e mesmo à Grécia, e os gigantes dos meios de comunicação chineses fazem parte do jogo do poder chinês; tal como as empresas de construção chinesas são fundamentais para a implantação da Nova Rota da Seda. Na minha opinião, a segunda fase da guerra fria de Trump contra a China será que, para além dos direitos aduaneiros, a administração tomará medidas para estancar o fluxo de capitais americanos para a China. Isso terá inevitavelmente um impacto na bolsa de valores na China, mas especialmente no seu sector tecnológico, que está amplamente fora da China. Os gigantes dos media social chineses – Baidu (NASDAQ:BIDU) e Alibaba (NYSE:BABA), em particular – sofrerão uma queda semelhante à dos seus análogos nos EUA.

Haverá outras consequências que eu gostaria de explorar em 2019. Na Europa, o risco de uma crise grave tem sido até agora subestimado pelos mercados. A economia da zona euro já está a abrandar num momento de risco crescente de choque económico – seja devido a um incumprimento italiano ou a uma grande recessão que revelaria os enormes desequilíbrios económicos em que a moeda única se mantém. Muito em breve estarei a fazer incidir e fazer brilhar um raio laser nesse enorme buraco negro.


Artigo original aqui

 O nono texto desta série será publicado, amanhã, 23/01/2019, 22h


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