Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 9. Ameaças europeias

Mario Draghi e sua equipa tomaram de empréstimo o plano da Reserva Federal e, se possível, tornaram-no  ainda mais louco. Pode-se ver no gráfico que eles estão a reduzir as compras de ativos. O ritmo deve chegar a zero no início de 2019. Mas isso não tem  em conta outros programas de empréstimo sortidos, que alguns gostariam de ver continuar ou até mesmo de expandir. A Alemanha opõe-se a todas essas políticas e acho que vai conseguir o que quer, especialmente porque Mario Draghi vai sair no próximo ano.

draghiy

 

Ameaças europeias

(Por John Mauldin, Dezembro de 2018)

Alguém me perguntou ainda muito recentemente quantas vezes é que eu tinha “atravessado o lago” para a Europa. Realmente não sei. Certamente algumas  dezenas de vezes. Tem sido várias vezes por ano, desde que me lembro.

Isso faz de mim um americano extremamente fora do comum. A maioria dos americanos nunca visita a Europa, exceto talvez para umas raras férias de sonho. E isso é bom porque o nosso próprio país é maravilhoso e temos tanta coisa para ver que nos pode levar uma vida inteira para o poder fazer. Mas isso afeta a nossa perspetiva sobre o mundo. Muitos de nós não entendemos completamente a importância da Europa para os EUA e para a economia global.

Talvez em breve aprendamos uma lição sobre isso. Falei da atual crise da dívida da Itália, que não está a melhorar, mas a Europa também tem outros problemas. Pior ainda, os acontecimentos estão-se a encadear de tal forma que várias crises potenciais – cada uma delas importantes por si só – podem ocorrer ao mesmo tempo, e não por muito mais tempo a partir de agora. Como tenho vindo a dizer desde há cerca de três anos, não há nenhuma razão para os EUA terem uma recessão isoladamente. Penso que os acontecimentos noutros lugares nos empurrarão para a recessão, e a Europa é um risco atual realmente muito grande. Sei, pelas minhas visitas à Europa e discussões com os meus amigos, que eles veem todo o tipo de problemas com Trump e, em especial, com as suas tarifas.

No entanto, outra preocupação é que os vários intervenientes na Europa não se comportam muito bem uns com os outros. Digo aos meus amigos europeus que as mesmas forças que levaram Trump ao poder estão agora a vir para um país europeu perto deles. Nalguns casos, isso já aconteceu.

Então, na minha interminável missão de vos querer manter atualizados vou rever o que está a acontecer “por lá”. Esta pode ser uma reviravolta para os leitores europeus que confiam em mim para descrever o que está aqui a acontecer. Mas como se vai ver, estamos muito mais interligados do que separados pela distância.

(…)

Retirada de Drogas Monetárias

Na semana passada o meu amigo britânico Jim Mellon enviou-me um artigo fascinante com um título alarmante: “Notícias da Eurolândia-Recessão Iminente”. Não tenho certeza quando é que Jim dorme, pois recebo alguns e-mails dele todos os dias em horários aparentemente aleatórios, sempre com material de leitura conciso e a acertar no alvo. (Embora eu possa normalmente descobrir quando é que ele está na Grã-Bretanha, segundo o seu timing.)

Agora, não sou prisioneiro dos títulos dos jornais (nem o Jim) e também estou bem consciente de que a economia europeia está a enfraquecer. Eu não teria dito que a recessão era iminente, mas ao ler este artigo fiquei mesmo muito mais preocupado. O autor, o economista Victor Hill, liga os acontecimentos de uma forma que muitos não o têm feito.

Hill começa assim o seu texto :

Em toda a Europa, e particularmente na zona euro a 18 membros, as notícias económicas fazem-nos refletir. Está agora claro que a contração do crédito nos mercados emergentes, que se prolongou durante a maior parte deste ano, e o abrandamento na China, estão a ter consequências negativas na Europa. No entanto, apesar do traumatismo continuo do Brexit, o Reino Unido está a andar relativamente bem, pelo menos por agora.

Uma série de eventos críticos estão prestes a coincidir…

O primeiro evento deste tipo é o fim iminente do programa de flexibilização quantitativa do Banco Central Europeu “Programa de Compra de Ativos”, que tem sustentado o preço dos ativos com compras por grosso de títulos, ações e qualquer outra coisa que não esteja muito por baixo em termos de rating.

grf3

Mario Draghi e sua equipa tomaram de empréstimo o plano da Reserva Federal e, se possível, tornaram-no  ainda mais louco. Pode-se ver no gráfico que eles estão a reduzir as compras de ativos. O ritmo deve chegar a zero no início de 2019. Mas isso não tem  em conta outros programas de empréstimo sortidos, que alguns gostariam de ver continuar ou até mesmo de expandir. A Alemanha opõe-se a todas essas políticas e acho que vai conseguir o que quer, especialmente porque Mario Draghi vai sair no próximo ano.

Isto significa que a zona euro está prestes a perder uma droga monetária da qual se tornou altamente dependente. Mas essas 18 nações não serão as únicas afetadas. A União Europeia precisa de um núcleo próspero para estimular o crescimento de todo o continente.

Note que Draghi terminará o seu mandato como presidente do BCE em Outubro de 2019. Os economistas (o que sabem eles?) projetam que ele irá fazer o seu primeiro aumento da taxa de juros apenas um mês antes de partir, em setembro. Isso significa levar as taxas de -0,40 bps para -0,20, ainda abaixo de zero.

Muito provavelmente, a sua substituição terá de ser aprovada pela Alemanha. Qual será o apetite do novo presidente por taxas negativas, mesmo estando-se face a uma recessão? Será que ele vai ouvir o Bundesbank? Será que o BCE vai voltar a expandir o seu balanço? O que é que sobra para comprar? Todas estas perguntas são perguntas sérias, mas ainda sem resposta, mas com potenciais perigos para os mercados.

E se a Europa entrar em recessão no início de 2019, Draghi irá reverter a sua posição e retomar a expansão do balanço, comprando ainda mais ativos que não estão  ao nível do chão ? Os italianos certamente gostariam disso.

Desunião Europeia

O segundo “evento crítico” de Hill é o Brexit, o mais recente plano para o qual está previsto uma votação a 11 de dezembro no Parlamento do Reino Unido. Mas  agora as suas perspetivas parecem fracas, pelo menos sem alterações que a UE diz não aceitar. Isso pode não ser verdade porque, como já sabemos, os funcionários europeus são mestres em prometer inflexibilidade e depois curvar-se quando forçados.

Mas deixem-nos ter alguma simpatia pela Primeira-Ministra Theresa May. Ela está a lidar com uma rebelião no seu próprio partido, perdeu muitos votos e não está claro que possa forçá-los (chamemos-lhe assim) à proposta Brexit-lite através do Parlamento.

Este acordo tem implicações monstruosas para a economia e para os investimentos e realmente precisamos de ter isto em conta. Penso que votaria contra, não que alguém na Grã-Bretanha se importe com isso, pois parece-me que o seu compromisso deixa a Europa com mais controlo sobre  a forma que o acordo “final” possa assumir. Não é exatamente o que a multidão dos defensores da saída do Reino Unido inicialmente pretendia. Mas, na realidade, não há boas escolhas. Se este for rejeitado, vejo aparecerem boas possibilidades de nos depararmos com problemas por todo o lado.

Um outro referendo pode parecer sensato, mas tem o grave senão de transmitir a ideia de que as elites continuam a votar até obterem o resultado que querem. Isso faria com que uma grande parte do país ficasse perturbada, aconteça o que acontecer. Como já disse, não há boas escolhas…

Independentemente disso, é altamente incerto o que pode acontecer a seguir. O Reino Unido notificou formalmente que deixaria a UE em 29 de março de 2019, quer os termos de separação sejam alcançados até então ou não. Um “duro Brexit” seria caótico, para dizer o mínimo, pois deixaria as empresas a tentarem operar num vazio legal. As regras da Organização Mundial do Comércio podem servir de proteção em alguns assuntos, mas o enorme volume de comércio entre o Reino Unido e a UE certamente desaceleraria. Será que podem voltar atrás ? Alterar por exemplo um pouco a data? Isto é a UE. Eles podem fazer tudo o que quiserem. Malditas sejam as regras e à máxima velocidade…

Por outro lado, permanecer na UE iria enfurecer os milhões de pessoas que votaram a favor da saída e provavelmente derrubariam o Governo de May. A partir daí, ninguém sabe para onde se caminharia. É difícil imaginar o “socialista democrático” Jeremy Corbin como primeiro-ministro. Portanto, ambas as economias ficarão provavelmente em estado de choque, a menos que algum milagre se produza sobre os termos da separação ordenada nos próximos três meses, o que parece improvável.

O terceiro evento crítico, diz Hill, é a crescente crise italiana, sobre a qual tenho vindo a alertar desde há já algum tempo. Essa caldeira está quase em condições de começar a ferver. Agora os bancos na Itália estão a ter dificuldades para refinanciar as suas emissões de títulos, o que os obriga a reduzir os empréstimos a um setor privado já fragilizado. O aumento das taxas hipotecárias está a reduzir os gastos dos consumidores. É possível que a Itália já esteja em recessão, mas a situação parece piorar – o que é um grande problema para os seus credores, principalmente para a Alemanha, o que discutiremos daqui a pouco.

Mas Hill diz, o que acho correto, que a crise italiana não é mais apenas económica, se é que alguma vez foi “apenas” económica. É emblemático de uma guerra cultural que está a colocar os movimentos populistas anti-imigração contra as “elites” que acreditam serem hostis aos seus interesses. Como aconteceu já noutros lugares, os desempregados e os trabalhadores estão a perder a fé no sistema. Vemos isso mais recentemente nos protestos violentos contra o imposto sobre o gás em França.

Este movimento de protesto ganha todo um outro sentido quando o analisamos cuidadosamente. Não se trata apenas de impostos mais altos sobre o combustível. Trata-se de quase metade do país estar descontente, irritado com a educada elite urbana, enquanto o peso do aumento dos impostos recai sobre uma classe média rural cada vez mais sobrecarregada. O governo francês consome agora 46,2% do PIB, o que torna a França na nação mais tributada da OCDE. Mesmo um ligeiro aumento dos impostos afeta desproporcionalmente a classe trabalhadora. E quando aumenta os impostos sobre algo como o gasóleo, que é crítico nas zonas rurais, a situação torna-se particularmente difícil.

gr41

Na Europa e em todo o mundo, vemos esse retrocesso contra o que é visto como o grupo de elite do topo (o grupo dos “Protegidos”), que não presta atenção aos problemas dos seus irmãos “Desprotegidos”,  menos bem sucedidos. E esses irmãos estão a exigir  atenção.

Este “jogo de moralidade” está a espalhar-se por toda a Europa. Vemos agora o patriarca político alemão Wolfgang Schauble a apoiar um candidato para substituir Merkel como chefe da CDU (União Democrática Cristã), que está abertamente a cortejar os mesmos eleitores que deixaram o seu partido e foram para a Alternativa anti-imigração e populista da Alemanha (AfD). Isso significa um impulso conservador para a Alemanha e uma abordagem mais populista para os principais partidos.

O fio condutor destes acontecimentos é a ideia de uma Europa unida. Esta ideia foi uma força motriz na fundação da União Europeia e é comum no establishment político e nas suas “elites”. Até há poucos anos, a ideia era popular em todo o espectro político, mas o apoio popular foi enfraquecendo à medida que os tempos económicos mudaram. Nunca foi particularmente viável, mas o esforço fez sentido para um continente tão danificado por séculos de guerras repetidas. O problema é que a UE não pode alcançar os seus objetivos a menos que se torne mais forte e que grande parte da sua população  aceite uma certa centralização. Não sei como poderão responder a isto. O Brexit, se acontecer, pode vir a ser o caso de teste para uma dissolução total.

Como é que a situação se vai desenrolar, isso é difícil de prever. Por enquanto, há problemas mais imediatos. Victor Hill pensa que “um Brexit desordenado será a faísca que incendiará o barril de pólvora da zona euro no primeiro semestre de 2019”. Este barril já esta a barrotar em Itália e em França. Não vai ser preciso muito calor para que a caldeia comece a ferver.

Mas isto não é tudo.

Ameaças comerciais

Falando de unidade, a Cimeira do G20 realizada em Buenos Aires no passado fim-de-semana foi uma oportunidade para os líderes mundiais criarem uma base comum sobre questões globais importantes. Não foi exatamente isso que aconteceu, mas a discussão comercial do Presidente Trump com o Presidente chinês Xi Jinping parecia inicialmente ser um ponto brilhante. Concordaram em deixar de se estar a degradar as coisas durante alguns meses, pelo menos. Os mercados estavam mais céticos depois de digerir as notícias – com razão, pelo menos do meu ponto de vista.

Como já disse, há problemas reais com a China sobre propriedade intelectual e muito mais. Não é despropositado pedir que se pratiquem as regras do jogo abertas e equitativas. A China já não é uma nação de mercado emergente. Ela emergiu, pelo menos na sua parte oriental. Pequim deve obedecer às mesmas regras que o resto do mundo desenvolvido. Mas chegar a acordo com a China não vai ser uma tarefa fácil.

Um evento encorajador, mas pouco relatado do G20: O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, reuniram com os seus pares do grupo menor do G7 para um jantar não programado. De acordo com Ian Bremmer, eles fizeram progressos significativos no trabalho conjunto para responder às questões levantadas pela China, facto este que deve ser considerado positivo, se continuado.

Entretanto, Louis Gave explica porque é que os problemas com a China podem ser más notícias para a Europa numa altura em que a Europa não precisa de mais desafios (o sublinhado é meu).

Não é nenhum segredo que Trump está rodeado de homens que querem “derrubar a China”, que argumentaram longamente que a China é um castelo de cartas construído sobre crédito insustentável, e que tudo o que os EUA têm de fazer é dar um suave empurrão para que todo o edifício se desmorone. Até agora, esta conversa sobre a vulnerabilidade da China provou estar longe do seu objetivo. Apesar de todas as previsões terríveis de uma crise iminente da dívida e do colapso financeiro, a China está ainda sustentadamente de pé.

Então, se Trump quer uma vitória, onde é que a deve procurar? Se uma longa guerra fria de atritos com a China não parece promissora, talvez esmagar especificamente a indústria automobilística da Europa e a ausência de despesas na defesa – poderia ser mais atraente, especialmente porque a Europa está agora politicamente sem ninguém ao seu leme e em desaceleração económica. A minha aposta seria que, nas próximas semanas, Trump irá deixar de falar sobre a China, e em vez disso começa a bater na Europa. E, sem dúvida, os seus alvos favoritos serão a França e a Alemanha, talvez como resposta às fortes criticas de que foi alvo aquando da comemoração do armistício da Primeira Guerra Mundial no mês passado. Quanto mais não seja, Trump mostrou que acredita firmemente no velho adágio de que a vingança é um prato melhor servido frio.

Pessoalmente, dou muita atenção ao que Louis Gave escreve. Ele frequentemente vê eventos que acontecem “ao redor da curva”. A sua premissa é simples: A indústria automobilística impulsiona a economia alemã. A Alemanha, por sua vez, impulsiona a economia europeia. Portanto, se Trump decidir dar seguimento às tarifas dos automóveis, como já ameaçou, pode ser um duro golpe. Os altos quadros da indústria automóvel alemães já se encontraram com ele em Washington esta semana, mas a ameaça ainda está bem presente.

Ah, e mais uma coisa. O Deutsche Bank, a jóia da coroa financeira da Alemanha, parece estar em apuros profundos. As suas ações, que nunca se recuperaram da crise que rebentou em 2007-2008, caíram para mínimos históricos esta semana depois que a polícia alemã invadiu os escritórios do banco sobre um problema de lavagem de dinheiro. Não sabemos exatamente o que é o incêndio, mas com certeza há mesmo muita fumaça. Outros bancos europeus não estão propriamente em situação próspera, mas o DB parece estar a ter problemas específicos.

É difícil para nós, nos EUA, percebermos a importância dos bancos europeus. As empresas europeias, particularmente as pequenas, obtêm quase todo o seu financiamento através dos bancos. Quando os bancos italianos têm dificuldade em financiar as suas obrigações, isso significa que as empresas italianas irão sofrer.

Então, some tudo isto. Poderíamos ver a Europa confrontada com uma contração do crédito, com um duro Brexit, um colapso italiano, uma forte agitação popular não só em França, mas em todo o lado, uma guerra comercial e uma crise bancária alemã/italiana ao mesmo tempo. Mais uma vez, esta não é uma possibilidade remota. Tudo isto pode estar a acontecer nos próximos três ou quatro meses.

Se alguma combinação destas crises se transformar numa tempestade perfeita, os seus estragos não ficarão só pela na Europa. As empresas norte-americanas, canadianas, latino-americanas e asiáticas que fazem negócios com a Europa perderão vendas e terão de despedir trabalhadores. Os credores de todos os países que possuem dívida em euros enfrentarão perdas. Os derivados altamente alavancados podem explodir, forçando a resgates e a intervenções cambiais. Não sabemos até aonde isso nos levaria, mas certamente não nos levaria a nenhum bom lugar.


Artigo original aqui

 O décimo texto desta série será publicado, amanhã, 25/01/2019, 22h


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: