Venezuela – Como se fabrica um golpe de Estado. Por Lidia Falcón

america latina 1

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Obrigado a Lidia Falcón e ao Publico

Como se fabrica um golpe de Estado

lidia falcón Por Lidia Falcón

Publicado por publico es es em 28 de janeiro de 2019

Diz-se que na guerra a primeira vítima é a verdade, e na guerra do império norte-americano e da direita mundial contra o governo bolivariano da Venezuela a verdade foi assassinada traiçoeiramente na propaganda de todos os meios de comunicação fascistas e reacionários.

Estou a ver na televisão as manifestações de milhares de pessoas contra Maduro e a favor do autoproclamado presidente Guaidó, enquanto este organiza uma conferência de imprensa para dezenas de meios de comunicação internacionais em plena rua. E os porta-vozes da direita, incluindo alguns esquerdistas reconvertidos, não param de qualificar a Venezuela de ditadura. Como cada vez devemos ser menos os sobreviventes da ditadura franquista quase ninguém dá testemunho daquilo que é uma ditadura. Na Venezuela convocaram-se eleições periodicamente durante vinte anos e a elas apresentaram-se todas as formações políticas que quiseram; os meios de comunicação da oposição difundem todas as críticas ao governo que entendem, incluindo um monte de falsidades como pude comprovar pessoalmente nas minhas viagens à Venezuela; ninguém é denunciado nem detido por criar um partido político contrário ao governo ou por organizar um acto público, na rua ou num local para criticar o regime. E continua a dizer-se desde o altifalante ocidental que a Venezuela é uma ditadura.

Produziram-se três golpes de Estado contra o governo bolivariano desde que Hugo Chávez ganhou as eleições em 1998

Desde 2002, na Venezuela, quando se organizou o primeiro golpe de Estado contra o comandante Hugo Chávez o governo bolivariano foi vítima de todo o tipo de conspirações para o derrubar. E a partir da eleição de Maduro a oposição montou os antros, grupos de rufias e assassinos que se dedicaram a assaltar e assassinar os manifestantes chavistas, atentados que também provocaram vítimas entre a população civil. Os EUA impuseram-lhe o boicote económico, nomeadamente ao petróleo, da mesma forma que o faz com Cuba, o que está a conduzir o país à escassez de alimentos e medicamentos.

Os golpes de Estado organizados pelos EUA na América Latina têm tido diferentes origens. Desde os que se impuseram rapidamente pela invasão militar do país: República Dominicana a primeira vez em 1916-1924, a segunda em 1965, em que o Corpo de Fuzileiros Navais entrou na ilha e mudou o governo que atuava naquele momento.

O golpe de estado que abalou a Guatemala em 1954 foi o resultado da operação encoberta chamada PBSUCCESS (Criptónimo CIA). Esta foi organizada pela CIA para derrubar Jacobo Arbenz Guzmán, o presidednte da Guatemala democraticamente eleito, por se opor aos interesses da United Fruit Company e por permitir que os membros do minoritário partido comunista da Guatemala —Partido Guatemalteco do Trabalho— influissem nas decisões mais importantes do seu governo.

Nicaragua, Granada, Panamá, Cuba, sofreram invasões diretas e a ocupação do país pelo exército dos EUA, para mudar governos e regimes. Salvador Allende, presidente democraticamente eleito no Chile pelo seu povo, foi assassinado no dia 11 de setembro de 1973 pelo golpe de Estado do general Pinochet, financiado e organizado por Kissinger, Secretário de Estado dos EUA.

No dia 28 de junho de 2009 o presidente das Honduras, Manuel Zelaya, foi sequestrado em sua casa pelo exército do seu país, a meio da noite, e enviado, em pijama, num avião para a Costa Rica, numa operação organizada e financiada pelos EUA. Zelaya pretendia mudar a Constituição mediante um referendo popular.

Outros golpes foram arquitetados mediante a pressão económica e mediática, ou organizando uma oposição armada no interior do país ou nas suas fronteiras, como sucedeu na Nicarágua. A intervenção do Departamento de Estado dos Estados Unidos e da CIA nos países latinoamericanos, desde a guerra de Cuba em 1898, é uma constante na história de ambos os continentes.

O governo dos EUA não pode consentir que no seu “pátio traseiro” se possam criar regimes socialistas. E muito menos na Venezuela, que possui as reservas de petróleo mais importantes do mundo, e coltane, ferro, diamantes.

O personagem que acaba de ser nomeado novo enviado dos EUA para Venezuela como representante especial do Governo de Trump, com o objetivo de encabeçar a “restauração da democracia” na Venezuela, é Elliott Abrams, o que foi o arquitecto do golpe contra Chávez em 2002. Espera que Abrams coordene todos os esforços diplomáticos dos EUA para substituir o presidente Nicolás Maduro pelo autoproclamado presidente Juan Guaidar, que foi reconhecido por Trump meia hora depois da sua autoproclamação.

Este tal Elliot Abrams , foi secretário de Estado adjunto de direitos humanos da Administração Reagan na década de 1980. Abrams apoiou os ditadores respaldados pelos Estados Unidos em Guatemala, El Salvador e Honduras. Também participou no escândalo Irán-Contra: altos funcionários do Governo de Reagan, apesar da proibição do Senado, autorizaram a venda de armas ao Governo do Irão durante a guerra Irão-Iraque. Depois utilizaram a receita dessas vendas para financiar o movimento armado Contra nicaraguense, criado pelos EUA para atacar o Governo sandinista.

Abrams, finalmente, foi declarado culpado de mentir ao Congreso sobre o caso Irão-Contra, mas foi indultado de imediato pelo presidente George H.W. Bush. Na década de 1990 converteu-se em membro fundador do Projeto para o Novo Século Americano, um grupo de peritos neoconservadores com ideias belicistas. Em 2001, voltou ao Governo estadounidense e foi nomeado diretor do Conselho de Segurança Nacional do presidente George W. Bush. Abrams exercia uma influência fundamental na política dos EUA no Médio Oriente nesse momento, e foi um dos arquitectos da guerra do Iraque de 2003. Além disso, desempenhou um papel chave na tentativa de golpe de Estado de 2002 na Venezuela contra o presidente Hugo Chávez, prejudicando a relação entre Washington e Caracas após o fracasso do complot.

Esta, e não outra, é a radiografía do papel que o Departamento de Estado dos Estados Unidos está a desempenhar na Venezuela contra os governos bolivarianos, desde 1998. Nada tem que ver com os planos do governo norteamericano a defesa dos direitos humanos, a implantação da liberdade e a luta contra a pobreza, e outros falsos argumentos que tanto Trump como os seus aliados de direita na América e na Europa estão a esgrimir. Entre outros, os ilustres líderes do PP e Ciudadanos, que nada dizem dos governos tirânicos da Arabia Saudita, do Kuwait, dos Emiratos árabes, do genocídio palestiniano por parte de Israel, dos continuados massacres no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, da guerra no Iémen.

Como se fabricam as condições para justificar o golpe de Estado na Venezuela.

Desde o fracasso do golpe de 2002, os EUA e os seus aliados, e ante as evidentes dificuldades para proceder a uma invasão militar, decidiram bloquear a economia do país. A primeira medida foi baixar repentinamente o preço do petróleo, com o que prejudicavam também o Irão e a Rússia. Boicotou-se a produção e importação dos produtos de primeira necessidade. Tendo em conta a permissividade do governo bolivariano com os seus inimigos, os cinco grandes setores de produção fundamentais para a sobrevivência do país permanecem em mãos privadas sem que tenham sido confiscados e socializados, entre as quais se encontram as grandes empresas norteamericanas.

A comida que produz, importa, processa e distribui a empresa venezuelana La Polar, mantendo o monopólio que sempre teve, permite-lhe esconder e retirar do mercado os abastecimentos alimentares, provocando carestia e mal-estar na população. A roupa, o calçado, os tecidos, que se fabricam ou importam por várias multinacionais, são também objeto de sequestro por parte dessas corporações. Os productos farmacêuticos, os cosméticos, de higiene e de limpeza. O telefone fixo e móvel. E o petróleo, que apesar de ter sido nacionalizado somente se pode comercializar quando extraiu, refinou e transportou. Tudo operações que estão em mãos das empresas estadounidenses.

Dependente, portanto, o governo venezuelano do abastecimento e distribuição dos produtos de primeira necessidade por parte das empresas privadas, a contínua sabotagem e a ocultação de insumos causaram a pobreza e o mal-estar da população venezuelana, da mesma forma que no governo de Allende se sequestraram os alimentos, se confiscou o cobre e se mobilizaram certos setores, como os transportadores, contra o seu governo, antes de proceder ao golpe militar e assassinarem-no.

Ao mesmo tempo, faz-se uma campanha continuada contra o governo de Maduro em todos os meios de comunicação da oposição, imprensa escrita e digital, televisão, rádio, que ele nunca impediu, apesar do que transmitem as informações da direita.

A CIA organizou uma guerra de baixa intensidade na fronteira com a Colômbia com guerrilheiros sem ocupação, narcotraficantes e evasores de divisas, o que levou o governo a deslocar muitas forças armadas para os millares de quilómetros da fronteira com o país vizinho, provocando o desgosto das populações, da mesma maneira que organizou uma guerra na fronteira entre as Honduras e a Nicarágua que arruinou o governo sandinista.

Este é um resumo sumário e incompleto do papel do Departamento de Estado e da CIA estadounidenses no golpe de Estado que se está a perpetrar na Venezuela. Por isso é ainda mais infame o apoio que vários países europeus estão a dar ao usurpador Guaidó, e o ultimatum dado por Pedro Sánchez, absolutamente ridículo em termos de imposição sobre a soberania de outro país e que somente beneficia a direita do nosso país e a imposição imperialista.

Madrid, em 27 de janeiro 2019.

Texto disponível em https://blogs.publico.es/lidia-falcon/2019/01/28/como-se-fabrica-un-golpe-de-estado/

Lidia Falcón é licenciada em Direito, em Arte Dramática e Doutora em Filosofia. Nomeada doutora Honoris Causa pela Universidade de Wooster, Ohio. É fundadora das revistas Vindicación Feminista, e Poder y Libertad, que atualmente dirige. Criadora do Partido Feminista de Espanha e da Confederação de Organizações Feministas do Estado Espanhol. Participou no Tribunal Internacional de Crimes contra a Mulher de Bruxelas, no congresso Sisterhood Is Global de Nova York, em todas as Feiras Internacionais do Livro Feminista e noutros Foruns Internacionais da Mulher.

É colaboradora de numerosos jornais e revistas de Espanha e dos Estados Unidos. Tendo 42 livros publicados, destacam-se no ensaio Mujer y Sociedad, La Razón Feminista, Violencia contra la mujer, Mujer y Poder Político e Los Nuevos Mitos del Feminismo e na obra narrativa Cartas a una idiota española, Es largo esperar callado, Los hijos de los vencidos, En el Infierno, El juego de la piel, Rupturas, Camino sin retorno, Postmodernos, Clara, Asesinando el Pasado, Memorias Políticas, Al Fin estaba Sola, Una Mujer de nuestro Tiempo, Ejecución Sumaria e o livro de poesias Mirar Ardiente y Desgarrado.

 

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