O Muro Estados Unidos–México: mostre-me um muro de cinquenta pés e eu mostrar-lhe-ei uma escada de cinquenta e um pés – 1. Tijolos no Muro (1/2), por Greg Grandin. Introdução de Júlio Marques Mota

imagem série escada

A Administração americana está paralisada , por causa de Um Muro, a conhecida situação apelidada de Shutdown, o mais prolongado de toda a história dos Estados Unidos.

Mas será, de facto, por causa do muro que separa a fronteira do México com os Estados Unidos, a maior fronteira do mundo entre dois países, e que se pretende continuar a estender ao longo desta fronteira, que a Administração americana está a ficar administrativamente bloqueada ou será antes por outras razões? Se for pelo Muro então devemos todos estar de acordo com os Democratas, pois isto significaria uma reversão da politica migratória até aqui defendida pelos Democratas desde as últimas décadas. Se não é pelo Muro, querer derrubar Trump pelas então falsas razões parece-me ser politicamente um errado e moralmente inaceitável. Significa o equivalente a não querer perceber porque é que Trump ganhou as eleições e assim estar-se-á disponível para cometer os mesmos erros que nas eleições anteriores e abrir as portas do poder a um outro populista, ou ao próprio Trump.

Uma coisa seria querer derrubá-lo na base das políticas seguidas interna e externamente pela atual Administração que está a romper tratados e acordos de décadas e que levaram igualmente décadas a consolidar. Uma outra coisa seria querer derrubá-lo por falsas razões e aqui a questão do Muro seria então apenas um pretexto, a confirmar a incapacidade dos Democratas em se posicionarem face ao povo americano contra as políticas aplicadas por Trump. Uma tal situação só confirmaria o que nos disse Bacevih: os democratas gostam do que Trump faz, simplesmente não gostam que seja ele a fazê-lo.

Quanto ao Muro, relembro aqui a política de Bill Clinton. Bloqueiem-se as entradas aos migrantes pelas cidades, teremos como aliada a geografia, e os migrantes recuarão perante as vias alternativas que lhes deixamos, o sol escaldante e as ravinas do deserto do Arizona ou as planícies escaldantes do Sul do Texas. Esta foi a decisão da Administração Clinton bem expressa pela voz da Comissária do Serviço de Imigração e Naturalização desse tempo, Doris Meissner. Os tormentos do deserto fariam milagres como obstáculo à entrada de migrantes nos EUA, foi a ideia da Administração Clinton e a partir da sua materialização o chão destas regiões ficou juncado de mortos.

Por tudo isto aqui vos deixo uma síntese da história de construção do Muro. Tirem depois as vossas conclusões.

Júlio Marques Mota

Coimbra, em 17 de janeiro de 2019

___________________________________

1. Tijolos no Muro (1/2)

greg grandin Por Greg Grandin,

Publicado por tomdispatch_logo_v2 em 13 de janeiro de 2019

[Eu quero aqui referir um próximo livro no topo da minha lista de leitura! O autor de hoje, o soberbo Greg Grandin, escreveu o que parece ser o livro totalmente adequado para o nosso momento “Grande, Grande Muro”: The End of the Myth: From the Frontier to the Border Wall in the Mind of America. Metropolitan Books vai publicá-lo em março e iremos falar mais dele aqui no nosso sítio. Sobre o livro, Andrew Bacevich escreveu: “Muitos historiadores contaram a lendária saga do expansionismo americano. Escrito com discernimento, paixão e com uma intransigente clareza moral, The End of the Myth torna obsoletas todas as interpretações anteriores. A Era de Trump precisa de uma história que seja ao mesmo tempo ousada e subversiva. Em ambos os casos, Greg Grandin fá-lo”. Portanto, não esqueça! Peça-o já! Tom]

_____________________________________________

texto 1 1 muro

Introdução de Tom

Ele chegou à cena política em 2015 prometendo um futuro “grande, grande muro”, mesmo que originalmente não fosse mais do que um “dispositivo mnemónico” inventado pelos seus manipuladores para o lembrar de que devia colocar a questão da imigração no trajeto da campanha. Ok, e então? E se o grande muro original ao qual ele certamente se referia – ele até falou sobre isso durante a campanha – não puder ser visto do espaço, não a olho nu? (Partes dele podem, no entanto, ser vistas numa foto tirada em órbita da Terra por um astronauta chinês.) Estou-me a referir, é claro, à Grande Muralha da China.

O Donald Trump da China, o Imperador Qin Shi Huang, ordenou a sua construção no século III a.C. a partir de muros já existentes, embora os toques finais não tenham sido concluídos até à Dinastia Ming no século XVII. E que lições se podem tirar da sua longa, muito longa história? Acontece que não é provável que estas entusiasmem o Presidente Trump, não quando a estrutura original e os mitos sobre ela são tão impressionantes. Foi, é claro, construída para manter afastados aqueles que os chineses consideravam ser os “bárbaros” das estepes da Ásia, assim como o Donald quer construir o seu muro em cimento – ou é em aço, ou em lâminas, ou em vedação de aço ? –… uma obra para manter fora dos Estados Unidos aqueles que ele considera os “bárbaros” do momento presente, aqueles que o seu próprio país tanto tem contribuído para o seu desenraizamento e deslocamento

Na verdade, uma resposta a essa pergunta sobre lições não é difícil de desenterrar: basta perguntar aos imperadores da Dinastia Yuan (originalmente Mongóis situados fora do Muro ) ou da Dinastia Ching (originalmente Manchus situados fora do Muro ) o quão bem sucedido esse Muro terá realmente sido. Então, se Donald Trump conseguir construir o seu monumental muro, terá ele sucesso onde os chineses falharam? Confira a explosão de fortificações (muitas vezes utilizando tecnologia muito mais moderna do que a que o presidente Trump tem na sua muito cimenteira cabeça) já construídas na fronteira EUA-México na situação atual. Essa cronologia, desde 1945 ao presente, é-nos oferecida Greg Grandin, colaborador habitual no sítio TomDispatch, autor do livro que em breve será publicado: The End of the Myth: From the Frontier to the Border Wall in the Mind of America. Este livro, deve fazê-lo pensar sobre a eficácia de qualquer tipo de fortificações fronteiriças – se, isto é, se o leitor não for o Donald. Tom.

________________________________________

Como se não deve construir um “Grande, Grande Muro”

A história da fortificação de fronteiras ao longo do tempo.

Por Greg Grandin

O problema era menos o de construir “o muro” do que anunciar constantemente a construção do muro. “Começámos a construir o nosso muro. Estou tão orgulhoso com isso ” tuitou Donald Trump. “Que coisa tão bela”.

Na verdade, nenhum muro, ou certamente não o “grande, grande, bonito muro ” o muro prometido por Trump, está a ser construído. Verdade, milhas de um qualquer tipo de barreira – arame farpado, correntes e vedações em aço, painéis corrugados e, sim, até mesmo comprimentos do que só pode ser descrito como parede de cimento – estendem-se ao longo da fronteira EUA-México, a terem começado pelo menos desde a administração do Presidente William Taft, no início do século passado. Trump reivindicou reparações e expansões dessas barreiras como prova de que ele está a cumprir a sua assinada promessa de campanha. As placas já foram aparafusadas como atualização das cercas existentes, creditando-lhe o trabalho iniciado e financiado por administrações anteriores.

E, no entanto, o muro fantasmagórico de Trump, quer se materialize ou não, tornou-se um artefacto central na política americana. Pense na sua promessa de uma fita de cimento e aço de mais de 1.000 milhas de comprimento e 30 pés de altura ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos como o novo mito dos Estados Unidos. É um monumento ao encerramento final da fronteira, um símbolo de uma nação que acreditava ter escapado da história, mas agora se vê presa pela história, e de um povo que acreditava ser o capitão do futuro, mas que agora é prisioneiro do passado.

Das Fronteiras Abertas às Fronteiras Fechadas

Antes da Primeira Guerra Mundial, a fronteira – estabelecida no final da década de 1840 e início da de 1850, após dos EUA terem invadido militarmente o México e absorvido uma parte significativa do território daquele país – era relativamente não policiada. Como a historiadora Mae Ngai observou, antes da Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos “tinham as fronteiras virtualmente abertas” em todos os sentidos do termo. A única exceção: as leis que explicitamente excluíam migrantes chineses. “Ninguém precisava de passaporte”, diz Ngai. “Ninguém precisava de visto. Não existia uma tal coisa como um Green Card. Se alguém aparecesse em Ellis Island, andasse sem coxear, tivesse dinheiro no bolso e passasse num teste muito simples [de QI] no seu próprio idioma, era admitido”.

Uma abertura semelhante existia na fronteira com o México. “Não havia linha que indicasse a fronteira internacional, relatava em 1909 Motor Age, uma revista dedicada à promoção do turismo automobilístico. A única indicação de que se tinha passado para um novo país, em direção ao sul, era a forma como uma estrada bem classificada se transformava num “caminho de terra batida, cheia de buracos e poeira”.

No ano seguinte, o Departamento de Estado fez planos para aplicar “grandes bobinas de arame farpado… em linha reta ao longo da planície” através da cordilheira da fronteira aberta, onde texanos e mexicanos faziam pastar o seu gado. A esperança era construir “a melhor linha de fronteira de arame farpado da história do mundo”. Não, porém, para manter as pessoas afastadas, pois a fronteira ainda não era um obstáculo para os trabalhadores migrantes mexicanos que viajavam de um lado para o outro, diária ou sazonalmente, para trabalhar em casas, fábricas e campos nos Estados Unidos. Essa barreira de arame farpado era destinada a colocar em quarentena o gado de chifres longos infestado de carraças. Tanto Washington como a Cidade do México esperavam que tal vedação ajudasse a conter a “febre do Texas”, uma doença parasitária que dizimava rebanhos de gado em ambos os lados da fronteira e levava a um rápido aumento do custo da carne bovina.

Tanto quanto posso dizer, a primeira utilização da palavra “Muro” para descrever um esforço para fechar a fronteira deu-se com a tumultuosa Revolução Mexicana. “As tropas americanas”, anunciou o Departamento de Guerra em março de 1911 durante a presidência de Taft, “foram enviadas para formar um sólido muro militar ao longo do Rio Grande”. Sim, Donald Trump não foi o primeiro a colocar o Exército dos EUA na fronteira. Vinte mil soldados, uma grande percentagem de militares para a época, juntamente com milhares de voluntários das milícias estatais, foram enviados para parar o movimento de armas e homens não para fora mas para dentro do México, num esforço para cortar os abastecimentos às forças revolucionárias. Um tal “muro” iria “mostrar ser uma lição importante para o mundo”, afirmou o Departamento de Guerra. O problema: destinava-se a tranquilizar os investidores europeus no México de que os EUA tinham a situação ao sul da fronteira sob controlo. “A revolução na República ao sul do país deve terminar” foi a lição que aos soldados enviados foi dada para ensinar.

A revolução, no entanto, intensificou-se e as empresas petrolíferas na fronteira como a Texaco começaram a construir os seus próprios muros privados de fronteira para proteger as suas explorações. Então, em abril de 1917, mês em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, o presidente Woodrow Wilson assinou a lei de um conjunto de abrangentes restrições à imigração em geral, incluindo testes de alfabetização, impostos de entrada e restrições de cotas. A partir desse ponto, a fronteira alongou-se – literalmente, com quantidades de arame farpado a serem aplicadas e cada vez mais em ambos os lados dos dois postos alfandegários.

O que se segue é uma cronologia tanto da fortificação física da fronteira EUA-México quanto do investimento psíquico em tal fortificação – a fantasia, procurada pelos democratas e republicanos durante mais de meio século, de que, com suficiente dinheiro, tecnologia, cimento, aço, folhas de vedação em aço, arame farpado e pessoal, a fronteira poderia ser selada. Esta cronologia ilustra como alguns dos presidentes mais voltados para o exterior, homens que insistiam que a prosperidade da nação era inseparável da prosperidade do mundo, também presidiram ao levantamento de uma série mortífera de barreiras fronteiriças, sejam elas chamadas de vedações ou muros, que viriam a separar os Estados Unidos do México.

Uma Cronologia

1945: A primeira barreira física significativa, um gradeamento em ferro com cerca de 8 km de comprimento e 2, 5 metros de altura, cresceu ao longo da fronteira mexicana perto de Calexico, Califórnia. Os seus postes e redes de arame foram reciclados do Campo de Internamento de Crystal City, na Califórnia, que tinha sido utilizados durante a Segunda Guerra Mundial para conter os nipo-americanos.

1968: A “estratégia do sul” de Richard Nixon foi famosa pelos ressentimentos dos democratas brancos do Sul que se opunham aos direitos cívicos. No entanto, o presidente também tinha em mente outra estratégia do Sul, uma “estratégia de fronteira”. Como o historiador Patrick Timmons escreveu, concorrendo à presidência em 1968, Nixon prometeu ser duro com as drogas ilegais do México – o “problema da marijuana “, disse ele. Pouco depois de ganhar a Casa Branca, Nixon lançou a “Operação Intercept”, uma breve, mas profética repressão, estilo militar, mas altamente teatral, ao longo da fronteira. Essa operação criou três semanas de caos, o que foi descrito pela analista do Arquivo de Segurança Nacional, Kate Doyle, como uma “desaceleração sem precedentes da utilização de aviões, caminhões, carros e de pessoas – autorizados ou não – que fluem do México para o sul dos Estados Unidos”. O facto desta Operação ser dirigida por duas figuras de direita, G. Gordon Liddy e Joe Arpaio, deveria fazer recordar as continuidades entre a era Nixon e o tipo de demagogia que agora governa o país. Arpaio tornar-se-ia o xerife racista do condado de Maricopa, no Arizona, que impôs de forma gratuita condições humilhantes, brutais e muitas vezes mortais aos seus prisioneiros, na sua esmagadora maioria latinos. Ele também se tornaria um dos primeiros apoiantes de Donald Trump e receberia o primeiro perdão da presidência de Trump depois de um juiz o ter considerado culpado num caso de perfil racial. Liddy, é claro, continuou a dirigir os “Canalizadores” de Nixon, os assaltantes que invadiram infamemente a sede do Comité Nacional Democrático no Hotel Watergate, precipitando a queda do presidente. Nas suas memórias de 1996, Liddy disse que a Operação Intercept não se tratava principalmente de interromper o fluxo do pote. Em vez disso, o seu “verdadeiro objetivo ” era “um exercício de extorsão internacional, pura, simples e eficaz, destinada a vergar o México à nossa vontade” – para forçar o país a ser mais cooperativo com os EUA numa série de políticas.

texto 1 2 trump pardons sheriff

(continua)

Greg Grandin (1962-), colaborador habitual de TomDispatch, professor de História na New York University. O seu mais recente livro, The End of the Myth: From the Frontier to the Border Wall in the Mind of America (Metropolitan Books), será publicado em março. É autor de Fordlandia, selecionado para o prémio Pulitzer e o prémio National Book, de The Empire of Necessity, que obteve o prémio Bancroft de história americana, e de Kissinger’s Shadow.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: