Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 10. O problema das interdependências dos mercados globais – Parte II

Que a desaceleração económica da China esteja a ocorrer em face de uma bolha histórica no imobiliário complica significativamente a formulação de políticas. Pequim certamente preferiria esvaziar cautelosamente essa bolha colossal. Mas, neste ponto, a aplicação de medidas agressivas para estimular a economia da China prolongariam ainda mais a precária “Fase Terminal” do excesso de hipotecas e de casas de habitação.

O problema das interdependências dos mercados globais – Parte II

(Por Doug Nolan, in Credit Bubble Bulletin, 7 Janeiro 2019)

credit

O movimento do iene na quinta-feira foi rapidamente transmitido pelos mercados de títulos globais. Depois de iniciar o novo ano com um incrivelmente magro valor positivo de 0,005%, os rendimentos japoneses a 10 anos “JGB” nas transações de sexta-feira caíram para o valor de 0,054% negativo, antes de fechar em 0,045% negativo – o seu mais baixo valor em 13 meses. As taxas de rendimento dos títulos do Tesouro americano a dez anos iniciaram-se a ser negociadas na quarta-feira em 2,69%. Os rendimentos, em seguida, afundaram-se e desceram para 2,54% no final do dia na quinta-feira, o seu mais baixo nível desde há quase um ano. Chegados a este valor, os rendimentos dos títulos do Tesouro haviam caído 70 bps desde o encerramento em 8 de Novembro em que estiveram a 3,24%. Os rendimentos dos títulos alemães a 10 anos, depois de começar o ano de 2019 a 23bps, os Bunds, caíram para tão baixo quanto 15 bps nas transações de quinta-feira (queda de 30bps desde 8 de novembro).

Os rendimentos dos títulos italianos, depois de se transacionarem na quarta‑feira ao seu mais baixo nível de cinco meses de 2,66%, inverteram abruptamente a tendência na quinta-feira para fechar a sessão 20 bps mais alto em 2,86% (terminando a semana com uma subida de 16bps para 2,90%). Com os seus rendimentos relativamente elevados, os títulos italianos têm sido provavelmente um alvo dos aforradores japoneses e dos especuladores que deslocam ienes para outra moeda para ganharem pelas diferenças nas taxas de juro e de câmbio ( o “carry trade” do iene).

Curiosamente, os rendimentos dos títulos portugueses a 10 anos, negociando-se a 1,69% na quarta-feira, inverteram a tendência e atingiram o seu valor mais alto a 1,82% na sexta-feira antes de terminarem a semana com nove pontos de base para 1,81%. Esta semana, os spreads para os Bunds alemães aumentaram 19 pontos base em Itália, 12 pontos base em Portugal, nove pontos base em Espanha e sete pontos base na Grécia. O CDS de alto rendimento europeu (iTraxx Crossover) subiu 12 bps para a semana no fecho de quinta-feira, e o seu valor mais alto remonta a Junho de 2016. Os preços dos CDS sobre o índice bancário europeu também subiram para máximos de dois anos nas negociações de quinta-feira.

Vale a pena notar que os preços do Goldman Sachs Credit default swap (5yr CDS) subiram 19 bps na quinta-feira para 129 bps, o valor mais alto remonta ao período dos mercados em tumulto, no início de 2016. O CDS do Goldman foi negociado abaixo de 60 no início de outubro, antes de terminar ainda em Outubro em 77 bps, Novembro em 87 bps e fechar o ano de 2018 em 106 bps. O CDS do Deutsche Bank subiu sete pontos base na quinta-feira para 218 pontos base, perto do nível mais alto desde 2016. Muitas grandes instituições financeiras viram os preços dos CDS subirem esta semana para máximos desde 2016 (Goldman subiu 17bps, Morgan Stanley 14 bps, Nomura 11 bps, Citigroup 9 bps e BofA 8 bps).

Os títulos de notação lixo dos EUA estavam sob pressão significativa. Os rendimentos dos títulos de empresas de alto rendimento dos EUA (índice OAS médio do Bloomberg Barclays) saltaram 10 bps na quinta-feira, passando para 5,37%, o valor mais alto remonta a Julho de 2016. A dívida relacionada com a energia não foi ajudada pela transações em bolsa do petróleo bruto WTI, um valor tão baixo quanto $44,35 nas transações de quarta-feira, antes de inverter a tendência e terminar a semana em quase 6% de alta, atingindo $47,96. Os spreads dos rendimentos das obrigações sobre empresas de grau de investimento face aos rendimentos dos Títulos do Tesouro foram negociados na quinta-feira para novos máximos a dois anos (e estreitaram-se pouco na sexta-feira).

O ouro é digno de menção. O lingote foi negociado no mercado à vista a $1.299 na manhã de sexta-feira (antes do anúncio sobre evolução do emprego e das declarações de Powell), em alta desde junho. O lingote ganhou $10 nas transações de quinta-feira e subiu $18 ao longo da semana com o valor mais alto na sexta-feira (antes de fechar a semana em $4 de alta para se situar em $1,285). À medida que o risco sistémico global aumenta, o ouro está a demonstrar atributos de porto seguro.

E por falar em risco sistémico global: a China.

2 de janeiro – Wall Street Journal (Nathaniel Taplin): “Com champanhe ou não, a véspera de Ano Novo deve ter sido um caso sombrio para os líderes da China, com a notícia de que a atividade de produção diminuiu em dezembro pela primeira vez desde 2016. A má notícia do índice oficial de gestores de compras foi confirmada na quarta-feira pelo índice Caixin, compilado pelo setor privado, que confirmou as novas ordens de compra em dezembro em baixa, o que acontece pela primeira vez em 2½ anos. É um sinal de que nove meses de flexibilização monetária pelo banco central não conseguiram impulsionar o crédito à economia real, embora tenha conseguido empurrar os preços da habitação e dos títulos do governo para o território de bolha. Essa falha na política monetária da China é um mau presságio para 2019, e faz com que as previsões de que o crescimento pode atingir o fundo no primeiro trimestre pareçam otimistas. A quem os bancos estão novamente a emprestar é, principalmente, a outras instituições financeiras e ao governo, não às empresas privadas em situação de falta de liquidez e quando são elas que realmente impulsionam o crescimento”.

O índice Hang Seng de Hong Kong caiu 2,8% durante o primeiro sessão de transações de 2019 (queda de 3,6% desde o início do ano até à data com a baixa de quinta-feira). O índice Composto de Xangai caiu mais de 2% no início da sexta-feira, sendo negociado ao nível mais baixo desde novembro de 2014. Uma recuperação abrupta de 3% empurrou o índice positivo (alta de 0,8%) para as primeiras sessões de 2019. O Banco Popular da China anunciou na sexta-feira outra redução nas reservas mínimas (0,5%).

Da Reuters (Kevin Yao e Lusha Zhang): “O anúncio dá-se poucas horas depois de que o primeiro-ministro Li Keqiang ter dito que a China iria tomar novas medidas para reforçar a economia, incluindo cortes no rácio de reservas obrigatórias (RRR) e mais cortes nos impostos e taxas, destacando a urgência de enfrentar o aumento dos ventos contrários. Este corte rápido de RRR com grande intensidade demonstra plenamente a determinação dos formuladores de políticas para estabilizar o crescimento”, disse Yang Hao, analista da Nanjing Securities”.

Dificilmente pode ser considerado coincidência que os comentários agradáveis para os mercados feitos por Powell tenham sido seguidas por apenas algumas horas pelo anúncio de politicas do Banco da China. A situação tornou-se mais grave – na China, nas finanças globais e nos mercados dos EUA. A baixa anunciada na quinta-feira pela Apple nos seus lucros foi mais uma indicação importante da rápida desaceleração da procura chinesa.

Que a desaceleração económica da China esteja a ocorrer em face de uma bolha histórica no imobiliário complica significativamente a formulação de políticas. Pequim certamente preferiria esvaziar cautelosamente essa bolha colossal. Mas, neste ponto, a aplicação de medidas agressivas para estimular a economia da China prolongariam ainda mais a precária “Fase Terminal” do excesso de hipotecas e de casas de habitação.

31 de dezembro – New York Times (Alexandra Stevenson e Cao Li): “Os apartamentos não desejados estão a pesar na economia da China – e, por extensão, a arrastar o crescimento em todo o mundo. As vendas de imóveis estão em queda. Os apartamentos não estão a ser vendidos. Os promotores que apostam muito na continuação dos bons tempos estão agora a cambalear sob milhares de milhões de dólares de dívida. As perspetivas do mercado imobiliário são sombrias’, disse Xiang Songzuo, economista importante da Universidade de Renmin, afirmando… “O mercado imobiliário é o maior rinoceronte cinzento”, disse ele, referindo-se a um termo que o governo tem utilizado para descrever problemas visivelmente grandes na economia chinesa que são ignorados até que comecem a ganhar peso… Mais de um em cada cinco apartamentos em cidades chinesas – aproximadamente 65 milhões – estão por habitar, estima Gan Li, professor da Southwestern University of Finance and Economics em Chengdu.”.

É difícil imaginar 65 milhões de apartamentos vazios – mais de 20% do parque habitacional da China. Qual é o alcance das futuras dívidas incobráveis e da deterioração dos bancos associados a este fiasco? Impacto económico – na China e globalmente? Ramificações financeiras? Com um mercado em baixa sobre as ações de empresas chinesas, a vulnerabilidade da economia chinesa às bolhas e o declínio do crescimento global, é perfeitamente razoável que o mundo comece a se preocupar realmente com o vulnerável bolha de apartamentos da China. Com toda a excitação de sexta-feira em torno de Powell e da recuperação das ações americanas, vale a pena notar que as ações asiáticas tiveram baixo desempenho esta semana. O cobre caiu mais 1,3%.

Para além de fazer cair os rendimentos dos títulos do Tesouro e os rendimentos dos Bund alemães, há claros factos a indicarem-nos que há qualquer que se esconde lá fora e que está a gerar um grau palpável de angústia. E eu gostaria de ser mais otimista sobre as perspetivas económicas dos E.U.A., especialmente considerando os fortes dados da folha de pagamento dos salários em Dezembro. Na verdade, não estou à espera que a economia caia de um precipício. Condições financeiras de maior constrangimento são uma realidade relativamente recente. Salvo algum imprevisto, pode levar algum tempo até que os mercados num ambiente de incerteza passem a apostar na economia real. No entanto, os EUA têm uma estrutura de ‘Economia de Bolhas’ invulgarmente vulnerável à deflação no mercado de valores mobiliários e no de mercadorias. Também enfrenta situações estruturais perigosas em todos os seus mercados de valores mobiliários e no sistema financeiro em geral. Acredito com certeza que os EUA estão altamente expostos à crescente dificuldade da falta de liquidez que aflige os mercados financeiros globais.

4 de janeiro – Bloomberg (Rizal Tupaz): “Os investidores tiraram a maior parte do dinheiro dos fundos de obrigações de grau de investimento a três anos na semana passada, no meio de uma turbulência contínua nos mercados de crédito. Os fundos perderam US $ 4,5 mil milhões para o período de relatório semanal que termina em 2 de janeiro, e esta a mais importante saída de dinheiro destes fundos desde Dezembro de 2015, de acordo com Lipper. Isso marca a sexta retirada direta dos investidores. Os fundos de alto rendimento viram uma sétima semana consecutiva de saídas de fundos, com os investidores a retirarem $628 milhões contra os $3,9 mil milhões do período anterior”.


Artigo original aqui

 O décimo primeiro texto desta série será publicado, amanhã, 31/01/2019, 22h


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: