O Muro Estados Unidos–México: mostre-me um muro de cinquenta pés e eu mostrar-lhe-ei uma escada de cinquenta e um pés – 2. São os Russos os culpados pela eleição do monstro político Donald Trump? Comentário a propósito da introdução ao texto Tijolos no Muro (2/2). Por Júlio Marques Mota

imagem série escada

2. São os Russos os culpados pela eleição do monstro político Donald Trump? Comentário a propósito da introdução ao texto Tijolos no Muro (2/2)

julio-marques-motaPor Júlio Marques Mota

Coimbra, 27 de janeiro de 2019

(continuação)

Este foi o caminho que abriu as portas à ascensão de Donald Trump, um caminho em que os interesses do povo americano não estiveram presentes, um caminho de “erros” que Hilary Cliinton não quis reconhecer. O seu combate e de grande parte do Partido Democrata contra Bernie Sanders é exemplo disso mesmo. Não reconhecer este caminho é, na minha opinião e como já disse aquando da apresentação do texto sobre o Muro, manter a porta aberta à renovação do mandato de Trump ou à ascensão de um outro populista qualquer. Nesta trajetória, o drama do povo mexicano é a consequência da lógica imperial americana, vista internamente como a obtenção do fornecimento de bens e serviços não negociados internacionalmente a preços de uma deslocalização no local, ou seja, fornecimentos a nível local americano mas ao preço do que seriam fornecidos no estrangeiro, no México, e vista externamente como a deslocalização industrial para a fronteira com o México, a famosa maquilhadora mexicana, uma extensa zona de fronteira com fábricas de montagem exclusivamente a trabalhar para os Estados Unidos. O México transformado em oficina dos Estados Unidos sob pressão de baixos salários e de uma concorrência internacional cada vez mais aguerrida, baseada no mesmo argumento: os baixos salários. O povo mexicano serviu assim de bode expiatório para a direita racista americana, com esta no poder, para o que não ia bem nos Estados Unidos, e como instrumento de politica económica interna para os democratas tanto quanto esta servia para sustentar uma classe média a pauperizar-se, com o fornecimento de bens e serviços fornecidos ou produzidos pelos mexicanos a preços mais baixos e adicionalmente também como escapatória para o que não ia bem com as suas políticas.

Ao chegar ao fim do texto recebo a informação do sítio Seeking Alfa, um sitio ligado, creio eu, ao Financial Times, de um artigo claramente ideológico a favor da globalização sem limites. Vale a pena colocá-lo aqui, uma vez que este pode ser lido de forma completamente diferente da do seu autor, Mark J. Perry.

Uma visão demagógica da globalização:

Durante o período dos últimos 21 anos, de Janeiro de 1998 a Dezembro de 2018, o IPC para todas as rubricas de despesa aumentou exatamente 56.0% e o gráfico abaixo apresenta os aumentos dos preços relativos ao longo desse período para 14 bens de consumo e serviços selecionados e para a média dos ganhos horários (salários).

Várias observações têm sido feitas acerca da enorme divergência nos padrões de preços ao longo das últimas décadas incluem:

Quanto maior (menor) for o grau de envolvimento do governo no fornecimento de um bem ou serviço, maior (menor) será o aumento (diminuição) dos preços ao longo do tempo.[ O sublinhado é nosso]

Os preços dos bens manufaturados registaram grandes descidas de preços ao longo do tempo em relação à inflação global, salários e preços dos serviços.

Quanto maior for o grau de concorrência internacional por bens transacionáveis, maior será a diminuição dos preços ao longo do tempo.

texto 2 são os russos os culpados pela eleição do monstro político donald trump 3

Sete desses bens e serviços aqui incluídos aumentaram mais do que a média da inflação, liderados pelos serviços hospitalares (+211%), ensino superior (+183.8%) e livros escolares (+183.6%). Os salários médios também aumentaram mais do que a inflação média desde janeiro de 1998, em 80,2%, indicando um aumento nos salários reais nas últimas décadas.

As outras sete séries de preços diminuíram desde janeiro de 1998, tendo a maior descida sido constatada nas TVs (-97%), nos brinquedos (-74%), em software (-68%) e no serviço de telemóvel (-53%). As séries do IPC para automóveis novos, mobiliário doméstico (mobiliário, eletrodomésticos, persianas para janelas, lâmpadas, pratos, etc.) e vestuário permaneceram relativamente estáveis nos últimos 21 anos, enquanto os preços médios aumentaram 56% e os salários aumentaram 80,2%. Várias observações que foram feitas sobre a enorme divergência nos padrões de preços ao longo das últimas décadas incluem:

a. Quanto maior (menor) for o grau de envolvimento do governo no fornecimento de um bem ou serviço, maior (menor) será o aumento (redução) dos preços ao longo do tempo, por exemplo, custos hospitalares e médicos, mensalidades escolares, cuidados infantis com grandes graus de financiamento/regulamentação governamental e grandes aumentos de preços em comparação com software, eletrónica, brinquedos, automóveis e vestuário com relativamente menos financiamento/regulamentação governamental e preços em queda. Alguém no Tweeter comentou:

Linhas azuis = preços sujeitos às forças do mercado livre. Linhas vermelhas = preços sujeitos a captura regulatória pelo governo. Alimentos e bebidas são discutíveis em ambos os sentidos. Conclusão: lembrem-me porque é que o socialismo é novamente tão grande .

b. Os preços dos bens manufaturados (carros, roupas, eletrodomésticos, móveis, bens eletrónicos, brinquedos) sofreram grandes quedas de preços ao longo do tempo em relação à inflação geral, salários e preços de serviços (educação, assistência médica e cuidados infantis).

c. Quanto maior for o grau de concorrência internacional pelos bens transacionáveis, maior será a diminuição dos preços ao longo do tempo, por exemplo, brinquedos, vestuário, televisões, eletrodomésticos, mobiliário, calçado, etc.”

A este texto, segue-se um comentário que julgo bem oportuno publicar:

“custos hospitalares e médicos, propinas universitárias, cuidados infantis com grandes graus de financiamento/regulamentação governamental e grandes aumentos de preços versus software, eletrónica, brinquedos, automóveis e vestuário com relativamente menos”

O senhor está a comparar serviços, que não podem ser deslocalizados globalmente, com bens que foram deslocalizados globalmente para lugares onde há uma estrutura salarial mais baixa. A partir daqui o senhor erroneamente responsabiliza o financiamento/regulamentação governamental pelos preços mais altos desses serviços, em vez de responsabilizar por tal o facto óbvio de que esses serviços (ao contrário da fabricação de bens) NÃO PODEM SER DESLOCALIZADOS PARA AS REGIÕES DE BAIXOS SALÁRIOS .

Se fosse possível para todos nós sermos hospitalizados e educados em países de baixos salários, então o custo destes serviços teria o mesmo perfil de inflação que os bens que o senhor cita. Mas nós não podemos, o senhor não pode.

Se o senhor incluir canalizadores e eletricistas no gráfico, verá que os seus serviços também estão inflacionados nos seus custos (porque eles também não podem ser deslocalizados. Mas então o senhor não poderia culpar o governo…ou será que poderia?

Este é um excelente gráfico, mas com uma análise terrível (especialmente vinda de um professor de economia). A sua errada conclusão parece ser ideologicamente orientada e tendenciosa, em vez de baseada nos factos óbvios

https://seekingalpha.com/article/4232964-chart-day-century

Quanto ao texto aqui reproduzido, o comentário é suficiente e dispensa mais comentários, relembrando aqui apenas o peso dos mexicanos na guarda das crianças, nos serviços de jardinagem, nos serviços de casa, tudo a baixos salários

Ora a globalização, e nesta o México foi uma peça central até meados da década dos anos 2000, teve portanto esta função, a de baixar os preços dos bens e serviços negociados internacionalmente, como se ilustra no gráfico. Portanto à medida que o sistema se financeirizava, apertava-se a pressão do sistema financeiro sobre o sistema produtivo, acelerava-se então a deslocalização da produção e aqui sim, baixando o nível de emprego baixavam os níveis salariais. Entretanto ia baixando o nível de preços como o gráfico bem ilustra. Mas contra o autor do artigo, vale a pena relembrar Paul Samuelson no seu último artigo sobre Ricardo: mais vale um emprego condigno que uma baixa dos preços em WalMart e estar sem emprego. Vale também a pena reler a reportagem sobre a cidade Warren. Entretanto, no lado de lá, no México, a pressão à baixa salarial processava-se de forma mais forte ainda, os direitos do trabalho eram ainda menores, a concorrência internacional depois da entrada da China na OMC, complicava ainda mais a situação dos trabalhadores mexicanos e, necessariamente, aumentava a pressão dos fluxos migratórios. A globalização não foi aqui a maré que levantou todos os barcos, até porque afundou muitos deles. Esta é a consequência da política dos Republicanos e dos Democratas, gerando, pois, sentimentos que foram emocionalmente muito bem explorados por Donald Trump na campanha eleitoral. Os democratas estiveram mais interessados em vencer Bernie Sanders!

Devemos aqui precisar que a ideia da globalização feliz não era, mal seria se assim fosse, partilhada por todos os lideres democráticos. Como exemplo, cito aqui o que nos escreveu Sandra Polaski, em 2009, quando era Subsecretária de Estado de Obama, uma das exceções que enquanto tal, confirma a regra:

We hope that in the Obama Administration will be able to steer global economic policy in a better direction that takes into account the needs and livelihoods of the billions of people who are currently not benefitting from global economic integration.

I work very hard at that goal every day!”

Bem, destes milhares de milhões que não apanharam os barcos levantados pela maré da globalização feliz, alguns milhões estão do lado do México, a quem o Muro é imposto, outros milhões estão do lado dos Estados Unidos, entre os quais uma parte a desejar a construção do muro, e o Muro é expressão dramática deste mesmo fenómeno, o de muitos barcos que se afundaram enquanto outros subiram.

Dada a importância que o acordo NAFTA assume no presente texto, deixemos aqui alguns excertos de textos publicados por especialistas nesta matéria, Gabriela Bensusan, Sandra Polaski, hoje alto quadro da OIT, James M. Cypher, Raúl Delgado Wise, Henrique Dussel Peters e Kevin P. Gallagher, onde, em síntese, se faz um balanço dos feitos da política comercial neoliberal de Clinton relativamente ao México.

“O modelo de exportação da força de trabalho e suas consequências3

1. Gabriela Bensusan

O México e os Estados Unidos tornaram-se parceiros comerciais quinze anos antes da entrada em vigor do NAFTA, um instrumento que institucionalizou um processo de integração regional de mais longa duração e que levou à convergência das suas políticas económicas no âmbito da expansão das políticas neoliberais de Consenso de Washington. Em vez de se incluir nas negociações a livre circulação de mão-de-obra, o México concordou com as restrições à imigração e optou por incentivar o fluxo de investimentos e de outros bens, se bem que a liberalização do comércio tivesse começado já em 1986 com a entrada no GATT — com a expectativa de criação de postos de trabalho necessários para reduzir a migração para o Norte. No entanto, segundo Delgado Wise e Márquez (2007, p. 130), o NAFTA estabeleceu o quadro do modelo de exportação de mão-de-obra barata apoiado em três mecanismos complementares: a indústria maquiladora, mal integrada na economia mexicana (entre 80 e 90% do valor das exportações é importado), que é um caso de “exportação indirecta de mão-de-obra”; a maquila encoberta (fábricas que incluem processos de fabricação mais complexos, mas que operam sob o regime de maquiladoras) e a migração de trabalho ou de exportação directa do trabalho, que teve origem no mercado de trabalho restrito e precário mexicano, como resultado da reestruturação económica, que fornece mão-de-obra barata para os Estados Unidos. Tendo em conta os três segmentos, estima-se que haja 16 milhões de mexicanos envolvidos no modelo de exportação. Cabe assinalar que, por seu lado, o mercado de trabalho dos Estados Unidos teve várias mudanças significativas desde a década de oitenta, o que levou à segmentação dos postos de trabalho, consoante se trate de actividades prévias a este processo de pré-reestruturação, como a agricultura, os serviços domésticos e de limpeza, ou resultem de sectores importantes da economia, nas indústrias de produção de bens salariais e indústrias maduras que estão em processo de resgate. Em ambos os segmentos predominam os empregos precários, de baixo nível de qualificação, os mais baixos salários e com benefícios sociais limitados ou inexistentes e é onde encontram emprego os imigrantes mexicanos.

2. O modelo de exportação de mão-de-obra barata no México

James M. Cypher e Raúl Delgado Wise

A nossa análise da economia mexicana sob a estrutura neoliberal do NAFTA abrange um conjunto enorme e complexo de elementos. Entre estes, incluem-se algumas considerações teóricas e empíricas que contrastam fortemente com a imagem positiva do desempenho do modelo exportador mexicano.

Em primeiro lugar, este modelo não representa um caso bem sucedido de industrialização orientada para o exterior, antes pelo contrário, caracteriza-se por configurar uma forma regressiva de “sub-primarização” das exportações. Se muitas nações da América Latina deram um passo para trás, ao especializarem-se na exportação de bens de baixo valor acrescentado, bens industriais ou indiferenciados baseados em recursos naturais (principalmente a Argentina), o México, esse, deu dois passos para trás. Na verdade, o modelo de exportação de mão-de-obra barata implica um retrocesso ainda maior ao oferecer como vantagem absoluta o trabalho barato, geralmente não qualificado, num contexto institucional em que o trabalho pode ser usado com poucas restrições em termos de benefícios e direitos sociais, direitos do trabalho, sindicais, condições de trabalho insalubres ou ainda de protecção contra os despedimentos.

Em segundo lugar, o México está a sofrer um processo de desacumulação: a força de trabalho empregada recebe salários de subsistência em condições de trabalho que frequentemente envolvem danos relacionados com o trabalho e com a forte insegurança económica, que se adicionam ao fracasso de um modelo incapaz de criar um excedente económico que poderia ser usado no país. Em vez disso, esse excedente é transferido para os Estados Unidos e serve para expandir a sua base produtiva e contribuir para a reestruturação da sua economia.

Em terceiro lugar, ficou demonstrado que o processo do NAFTA não foi, na sua essência, uma política baseada no comércio, de que resulte um processo mutuamente benéfico de especialização económica através da concorrência entre o México e os Estados Unidos, como o apregoam os modelos mais considerados de “livre comércio “. Em vez de estimular o comércio, já para não falar de “livre comércio” ou de comércio baseado na concorrência, o programa neoliberal foi criado para servir os fins do poder de oligopólio, ou seja, o controlo dos mercados, integrando de várias maneiras o trabalho mexicano barato, não qualificado, no processo de produção e de reestruturação da indústria americana. Por outras palavras, o NAFTA foi e continua a ser um acordo de investimento e de reestruturação da produção – versus um acordo estritamente comercial – o que permite que as empresas americanas deslocalizem a sua produção para o México, sem uma legislação local que as limite quanto a quotas de exportação, restrições sobre o repatriamento de lucros, acordos para partilhar tecnologias ou outro tipo de restrições.

Para a América, os impactos dinâmicos do modelo de exportação de mão-de-obra barata tem ajudado a reduzir os custos de produção no México e nos Estados Unidos através da incorporação de mão-de- obra barata no processo de produção.

Se a diminuição dos custos de produção no México e nos Estados Unidos se transmite parcialmente aos consumidores norte-americanos através de preços mais baixos, como aliás tem acontecido, então o modelo de exportação de mão-de-obra barata permite menores custos de reprodução dos trabalhadores americanos. Isso, juntamente com a baixa salarial por efeito directo da substituição dos trabalhadores na indústria transformadora e noutros sectores contribui para o estabelecimento de salários mais baixos nos Estados Unidos do que os que se estabeleceriam fora destas condições, melhorando assim a competitividade do sistema produtivo e aumentando as margens de lucro.

Obviamente, esta nova forma de integração assimétrica e subordinada, restringe as oportunidades de desenvolvimento económico no México. Isso limita a criação de empregos formais no país, amplia e aprofunda a pobreza e a exclusão social e aumenta o potencial de migração em massa de milhões de mexicanos. intermediários na matriz das relações produtivas, etc, – trata-se de um modelo insustentável, de uma situação que exige mudanças amplas e profundas na estratégia de desenvolvimento vigente, de modo a mudar radicalmente a forma como foi concebida e orquestrada a integração.

3. Um gráfico apresentado por Sandra Polaski

O México transformou-se numa maquilhadora enorme, pouco mais que isso, em nome exatamente do NAFTA, em nome dos americanos, ou melhor, das multinacionais americanas, corrija-se. Deixem-me colocar aqui, em jeito de memória, um gráfico sobre a evolução dos salários no México publicado por Sandra Polaski, que assumiu o cargo de subsecretária de Estado na Administração Obama num texto editado em 2005, intitulado NAFTA’s Promise and Reality: lessons from Mexico for the hemisphere:

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4. Um gráfico apresentado por Dussel e Gallagher e a importância do hóspede não convidado, a China

Mas se NAFTA se constituiu como um problema para o México, este problema foi ainda agravado pela entrada da China na OMC que, pela via da globalização, se tornou o hóspede não convidado do acordo NAFTA, expressão feliz que se deve a Henrique Dussel Peters e a Kevin P. Gallagher, no seu trabalho para a CEPAL, NAFTA’s uninvited guest: China and the disintegration of North American trade. Deste estudo veja-se então as consequências da estada do hóspede não convidado nas relações económicas no interior da área do acordo NAFTA:

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Conclusão final

De uma maneira ou de outra o que sabemos é que democratas e republicanos nestas últimas décadas têm tomado como referência o mesmo modelo, o modelo neoliberal, mesmo que aplicado de forma relativamente diferente, com tonalidades diferentes, mas com objetivos iguais. O Muro comum é disso um bom exemplo. O resultado político desta convergência é pois este, os eleitores deambulam de um partido ao outro à espera de encontrarem a solução para os problemas com que se debatem quotidianamente. Por esta razão de fundo, os resultados eleitorais passam a constituir uma verdadeira incógnita e uma porta a aberta para aquele que mais prometer. Neste caso, não estamos seguramente a falar de Democracia, mas antes de Demacracia, como diria o meu amigo Joaquim Feio.

Mas as coisas podem mudar de figura e caminharem no sentido inverso, dado que se sente que o Partido Democrata está a ser abalado por fortes sinais de profundo sentimento democrático. É o que anuncia o Financial Times no seu editorial de hoje. [ Ver aqui]

Mas as coisas podem também não ser bem assim. Aquando da vitória de Trump li um texto de um politólogo francês que afirmava ser a vitória de Trump uma rutura do sistema político americano e mais, que dentro de oito anos teríamos uma nova geração de políticos capazes de contestar o sistema atual e possivelmente não serem controláveis pelas máquinas oficiais dos dois grandes partidos e, por isso mesmo, antissistema! Alguns deles, previa o dito politólogo, seriam de terceira geração de hispânicos. O Público de hoje traz já uma crónica nesse sentido, sobre a democrata Ocásio-Cortez que vai nesse sentido.

Com uma ilustração que tem o seu quê de curioso, de muito curioso, diz-nos o editorial acima referido do Financial Times num texto assinado por Edward Luce com o título: “A era Clinton-Obama termina, uma vez que os democratas americanos procuram uma nova voz radical” – e em subtítulo: O partido tem uma dívida de gratidão para com Donald Trump, pois afasta para longe uma mentalidade cautelosa e calculista:”

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Ouçam com atenção e podem ouvir a recuo do establishment democrata. O incrementalismo serviu os seus objetivos: tornou os democratas novamente elegíveis e seguros para Wall Street. Mas isto já teve a sua época. A geração de democratas que minimizou as preocupações com a desigualdade e defendeu os mercados globais está sendo substituída por uma voz política muito mais ousada. Não importa quem assume a nomeação democrata em 2020, eles falarão por um partido radicalizado em busca do novo New Deal.

Eles têm uma dívida de gratidão para com Donald Trump. Por mais que muitos renascidos liberais detestem o 45º presidente dos Estados Unidos, eles podem agradecer-lhe pelo facto de os ter levado a eliminar a mentalidade de cautela e de calculismo sistemático que tem hipnotizado os líderes democratas de toda uma geração.

Este tipo de comportamento agora sacudido começou com os Novos Democratas de Bill Clinton no final da década de 1980. Terminou em 2016, quando Hillary Clinton perdeu para Donald Trump. Entre eles, Al Gore, o candidato perdedor de 2000, John Kerry, que perdeu em 2004, e Barack Obama, cujo legado de oito anos está agora a ser destruído por Trump.

Donald Trump serviu tanto como um apelo às armas como um exemplo de como os establishments podem ser derrotados. No primeiro caso, Trump demoliu tudo o que restava da ideia de que os Democratas têm de se preparar para sempre para uma terra prometida de amizade bipartidária” (…)

Por muito que os democratas se tenham virado para o centro, as recompensas por esta virtude nunca chegaram. Os republicanos simplesmente deslocaram-se sempre mais para a direita. Os presidentes democratas, como Clinton, criaram excedentes orçamentais. Os republicanos, como George W. Bush, gastaram-nos completamente em reduções de impostos. A desigualdade é hoje muito pior do que em 1992, apesar de os democratas terem detido a Casa Branca durante mais de metade desse tempo. (…)

Donald Trump agravou a desigualdade. Mas não é ele o seu autor. Os números eram quase tão sombrios como no final dos dois mandatos de Obama. Por isso, o remendo já não é muito apelativo.

Muita da atenção está em quem deve ser o candidato democrata para desafiar Donald Trump. Isso é obviamente importante. Mas o importante é que o centro de gravidade do partido mudou. Seja quem for o adversário, seja Joe Biden, o antigo vice-presidente, Elizabeth Warren, a populista em econonomia, Beto O’Rourke, o optimista solarengo, ou Sanders, a sua plataforma terá de refletir essa mudança. Posições como “Medicare for all”, ou um “Green New Deal”, e o financiamento de eleições públicas terão de fazer parte do pacote. Assim também irão aumentar os impostos.

(…)

A esquerda americana está a transformar-se numa fábrica de novas ideias. Algumas delas, como um rendimento básico universal, podem ser questionáveis. Outras, como o desmantelamento dos monopólios, são mais promissoras. De qualquer forma, pela primeira vez em décadas, a energia intelectual da América está agora à esquerda. Alguns comparam o fermento à “ousada experimentação persistente” de Franklin Roosevelt, autor do New Deal dos anos de 1930. Os céticos comparam a atual situação com o falso amanhecer de George McGovern, que perdeu num deslizamento de terreno em 1972 a favor de Richard Nixon. Qualquer que seja o ponto de vista que se revele correto, a era Clinton-Obama está a chegar ao fim. Uma nova era está apenas a começar.

Tudo isto não tem nada a ver com a afirmação de Obama e de Clinton, de que os culpados pela eleição do monstro político Donald Trump foram os Russos.

Estes são, pois, os meus comentários ao texto do meu antigo professor.

Nota

3 Trata-se aqui de excertos de textos pulicados por Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes no âmbito da Iniciativa Ciclo Integrado de Cinema, Colóquios e Debates na FEUC, em 2009.

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