A Venezuela e os golpes brandos. Por Francisco Tavares

america latina 1

FTavares Por Francisco Tavares

em 4 de fevereiro de 2019

Temos vindo a assistir nestes últimos dias, a mais uma tentativa de um golpe de Estado que derrube o governo de Maduro na Venezuela, ativamente promovido pelos EUA, a UE e outros aliados, apoiado em forças internas que, desde sempre, nunca aceitaram o regime bolivariano.

Alguém disse “Fica a sensação de que talvez tenha sido a mudança política ocorrida no Brasil que acabou por dar uma espécie de “luz verde” à onda anti-Maduro que se gerou nas últimas semanas” (vd. Francisco Seixas da Costa, JN, 31/01/2019), o que não augura nada de bom quanto ao sentido político destas movimentações. Os opositores do regime bolivariano há muito que são conhecidos pelas suas simpatias e ligações à direita mais extrema, nomeadamente nos EUA.

É também muito claro, face ao historial dos EUA, que esta não é uma indignação ocasional dos Estados Unidos face à Venezuela. Quanto à União Europeia não deixa de ser hipócrita que possa ter a pretensão de não deixar aos Estados Unidos a liderança democrática do mundo. São por demais conhecidos os muitos países por esse mundo fora cujos regimes não são questionados pelos EUA e pela UE e que de democráticos nada têm…… a lista poderá ser longa.

E porque reconhece a UE o autoproclamado Guaidó? Para se destacar na “liderança democrática” em relação aos Estados Unidos? Nesta situação, como noutras, a UE mais parece um “tigre de papel” ao lado de um país como os EUA que tem uma intervenção perfeitamente estruturada e consistente na Venezuela. Uma UE dominada pelas mesmas forças políticas, económicas e financeiras que têm conduzido a União ao desastre, com decisões que fogem a um verdadeiro escrutínio democrático.

Que o golpista que se autoproclamou presidente da Venezuela possa ter uma maior legitimidade política, só pode ser entendido enquanto legitimidade dos mais poderosos. Legitimidade – conforme às normas legais – mas política, e política daqueles que se encontram conjunturalmente à frente dos governos. É essa portanto a “legitimdade”. Porque internamente à Venezuela, efetivamente não a tem. Ele é um deputado eleito, de um dos muitos partidos que integram a oposição, e que atua em perfeita sincronia com a administração Trump.

Como salienta Ana Sá Lopes do Público (ver aqui) “… é verdade que Guaidó combinou com Trump a sua autoproclamação como Presidente interino da Venezuela, como deixava perceber o imediato apoio dos Estados Unidos o que está meridianamente claro no relato que sobre isso faz o El País (ver aqui). Sobre Trump e os países e outros acompanhantes desta “viagem” faz uma citação de Shakespeare: a miséria habitua o homem a estranhos companheiros de cama“, referindo-se à miséria económica e política da Venezuela. E diz como quem não tem outro remédio: “Se desta vez Trump for um estranho companheiro de cama, assim seja “. Mas, sabendo-se tudo o que se sabe sobre a ingerência dos Estados Unidos, e o peso decisivo que normalmente tem sobre os países objeto da sua ingerência, poderá haver posição mais miserável do que esta de se vergar aos “argumentos” dos EUA e seus comparsas, com a desculpa de um suposto lado certo da História?

Cabe recordar aqui a posição assumida pela Itália, quanto à necessidade de “evitar cometer o mesmo erro que na Líbia”, país que está mergulhado numa grave crise política e de segurança desde a queda de Kadafi. “Cometeu-se o mesmo erro na Líbia….”, ou seja, “que um grupo ou um grupo de países terceiros possa determinar as políticas internas de outro país”, e “… hoje em dia isso é reconhecido por todos. Devemos evitar que suceda o mesmo en Venezuela”, afirmou o vice ministro italiano Manlio Di Stefano (vd. https://www.elconfidencial.com/mundo/2019-02-01/austria-italia-no-reconocen-guaido_1797622/)

Não obstante a posição crítica que possa ter em relação a Maduro (será que o chavismo poderá encontrar uma alternativa credível a Maduro?), como também alguém disse não me conformo com o golpista que Trump e a sua CIA lançaram para a frente de combate! De facto se culpas podem ser assacadas a Maduro quanto ao estado de extrema vulnerabilidade do país e da sua população, de modo nenhum se pode passar por cima das responsabilidades da ingerência externa no país, em particular dos EUA, das sanções externas e da sabotagem interna. Em numerosas ocasiões ao longo do tempo ficou comprovado a importância fundamental e decisiva das ações de desestabilização ativa e diretamente fomentadas pelos Estados Unidos. E vêm estes “filantropos” hipocritamente falar de ações urgentes de ajuda humanitária. 

Relembre-se o fracassado golpe de 2002 (na época, os EUA e a Espanha reconheceram o golpista Carmona como presidente), e as mobilizações lançadas pelos sectores extremistas do bloco da oposição, com apelos a uma saída forçada e radical do Governo de Maduro (em 2014 e 2017), e donde resultaram confrontos violentos e ataques a infraestruturas.

Com o país autenticamente cercado, tudo isto tem contribuído para estrangular a vida quotidiana de milhões de pessoas e afectou seriamente a convivência social pacífica.

O artigo “Como se fabrica um golpe de Estado”, de Lidia Falcón, ainda que constitua um resumo, é largamente elucidativo sobre a intervenção abusiva dos EUA na Venezuela. Intervenção abusiva que é extensível a muitos outros países e situações por esse mundo fora. Os EUA são um ator altamente experimentado neste tipo de atuação.

Juntamos também duas notícias sobre uma mesma conferência de imprensa, de 28 de janeiro, na qual os EUA anunciam o congelamento dos ativos da petrolífera da Veneuela nos Estados Unidos. Uma do El País, e outra do blog AbrilAbril. Muito interessante enquanto duas leituras de uma mesma realidade, uma de direita e alinhada com a posição dos EUA, e uma leitura de esquerda da mesma conferência de imprensa.

Ainda que não estando isento de fortes críticas o regime venezuelano, será interessante debruçarmo-nos um pouco sobre esta questão da corrupção na Venezuela.

Expusemos a corrupção de Maduro e seus comparsas e a ação de hoje garante que não possam continuar a saquear os bens do povo venezuelano”, disse John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA nessa conferência de imprensa. Mas a realidade é bastante diferente quando se procuram notícias sobre o assunto.

É curioso que quando se faz uma busca pela web de notícias sobre esse saque, as notícias dos media ocidentais estão centradas sobretudo em setembro de 2018, com a divulgação de que Andorra processa a exfuncionários do governo da Venezuela por “expoliarem” US$2.000 milhões da petrolífera PDVSA (vd. a título de exemplo https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-45517316 e https://elpais.com/internacional/2018/09/13/actualidad/1536840214_393863.html)

Em 10 de setembro de 2018 era noticiado que os EUA denunciaram no Conselho de Segurança da ONU a corrupção na Venezuela e no Irão. Disse a embaixadora americana para a ONU, Nikki Haley.que “Governos que pareciam estáveis durante décadas caíram em semanas. No Iêmen, na Síria e na Líbia os protestos rapidamente se transformaram em conflitos quando os líderes corruptos e seus aliados tentaram manter o poder“, quando comprovada está a ingerência, decisiva, dos Estados Unidos e outros países ocidentais nos conflitos desses países.

Mas estas notícias sobre estes casos de corrupção não trazem nada de novo ao que já fora noticiado no início de dezembro de 2017, de que o fiscal geral da Venezuela estava a investigar o caso e com a detenção de acusados.

O fiscal general de Venezuela, Tarek Saab, estimou hoje em 4.200.000.000 de euros a lavagem de dinheiro através da Banca Privada de Andorra (BPA), e acusou o ex-vicepresidente de Energía Nervis Villalobos, preso em Espanha, de estar implicado neste caso.

Em conferência de imprensa, Saab qualificou de “organização criminosa” as 40 pessoas que estariam implicadas no caso de lavagem de dinheiro através da BPA, entre os quais estão ex-funcionários da empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e suas filiais, …(…)

“Quero destacar que esta organização delitiva entre os anos 2011 e 2012 somente (…) branqueou dinheiro por um montante de quase 1.348 milhões de euros”, disse.

Destacou que, segundo os relatórios de inteligência com que lida a Fiscalía, o grupo viria a operar desde 2006 e “estima-se que o montante de dinheiro branqueado poderia alcançar a cifra de 4.200 milhões de euros“.

Por este caso, foram já detidas duas pessoas, Diego Salazar Carreño e José Enrique Luongo, informou Saab.

A investigação pelo caso de Andorra foi aberta a semana passada com a detenção de Salazar Carreño, primo do ex-chefe de PDVSA Rafael Ramírez, atualmente embaixador da Venezuela na ONU.

Saab explicou que as 40 pessoas implicadas neste caso utilizaram 40 empresas “fantasma” para a lavagem do dinheiro.

O fiscal reiterou que solicitará a Espanha a extradição de Nervis Villalobos, a quem, segundo a investigação da Fiscalía, “se associa a três empresas (das que se utilizaram para a lavagem do dinheiro) que receberam entre outubro de 2011 e outubro de 2012 a quantidade de quase 197 milhões de euros”.

Além disso, acusou a ex fiscal general Luisa Ortega Díaz, que esteve no comando da Fiscalía durante uma década e que agora é dissidente do chavismo, de ter protegido esta “trama de corrupção” e aos seus implicados”. (vd https://www.lavanguardia.com/vida/20171205/433442463377/fiscal-venezolano-estima-en-4200-millones-de-euros-blanqueo-por-caso-andorra.html)

E apesar do pedido de extradição de Nervis Villalobos feito pela Fiscalía venezuelana, este senhor foi liberto em Espanha em setembro de 2018 (vd. https://www.notimerica.com/politica/noticia-excarcelado-espana-ex-alto-cargo-chavez-nervis-villalobos-no-verse-acreditado-blanqueo-20180914192356.html), voltou a ser preso em outubro (https://www.notimerica.com/politica/noticia-nervis-villalobos-viceministro-gobierno-chavez-detenido-blanqueo-espana-20181018145527.html) e em janeiro de 2019 foi noticiado que será extraditado temporalmente para…… os Estados Unidos! (http://www.el-nacional.com/noticias/europa/pais-nervis-villalobos-sera-extraditado-por-seis-meses-estados-unidos_266780)

Em 19 de setembro de 2018 o procurador-geral da Venezuela, Tarek Saab, anuncia a prisão de nove diretores e ex-diretores de subsidiárias da estatal petroleira PDVSA por suposta corrupção, um prejuízo superior a 18 milhões de dólares. “As denúncias incluem Rafael Ramírez, presidente da PDVSA durante o governo de Hugo Chávez (1999-2013). Em agosto, a Suprema Corte de Justiça (TSJ) da Venezuela autorizou o envio para a Espanha de um pedido de extradição de Ramírez, que rompeu com o presidente Nicolás Maduro no final do ano passado” (vd. https://veja.abril.com.br/mundo/mp-da-venezuela-manda-prender-nove-diretores-da-pdvsa-por-corrupcao/).

Estas ações das autoridades da Venezuela de combate à corrupção são amplamente ignoradas pela generalidade dos meios de comunicação ocidentais.

Também espantam as acusações de violação dos direitos humanos vindas de um país, os EUA, que considera, desde há muito, ilegítimo o Tribunal Penal Internacional (da Haia), e ainda recentemente (setembro de 2018) ameaçou diretamente os juízes desse tribunal de que seriam processados nos Estados Unidos se prosseguissem com as investigações sobre as atrocidades cometidas no Afeganistão (https://www.elperiodico.com/es/internacional/20180921/eeuu-justicia-internacional-tribunal-penal-7035317).

Mas a corrupção, sendo uma questão da maior relevância, serve também de encobrimento aos interesses que se movem, desde há muito tempo, em torno da Venezuela.

Nesse sentido, o texto de Pedro Tadeu (DN, em 30/01/2019) é pertinente pelas perguntas que coloca e, desde logo, a primeira: A queda de Maduro é boa para quem?

Porquê dar um prazo hipócrita de uma semana para Maduro convocar eleições?

Porque é que o Conselho de Segurança da ONU recusou apoiar Gaidó?

Porque é que a Organização dos Estados Americanos não apoiou o presidente interino?

Porque razão os EUA, a UE e outros países estão tão preocupados com a democracia na Venezuela, e mantêm um completo silêncio sobre a Arábia Saudita e outras “democracias” por esse mundo?

E a nomeação de Elliot Abrams para “assessorar” Juan Guaidó, suspeito de ter usado esquadrões da morte quando “assessorou” opositores aos regimes da Nicarágua e El Salvador e um dos mentores, em 2002, da tentativa de derrubar o então presidente da Venezuela, Hugo Chavez ?

Porque é que o Brasil de Bolsonaro coordena a oposição da Venezuela no exílio?

Quanto falta para a Venezuela ser invadida?

Porque é que o governo português quer a queda de Nicolas Maduro?

A Venezuela e a sua população atravessam um período da maior gravidade, mas compete apenas ao povo venezuelano decidir o seu futuro.

One comment

  1. Pingback: A Venezuela e os golpes brandos | A Estátua de Sal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: