Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos.14. Para aqui está a chegar algo de muito mau – PARTE I

Desde há alguns anos, a narrativa económica tem mostrado os Estados Unidos como um país relativamente forte quando comparado com a Europa e com alguma parte da Ásia (NÃO face à China). Dizem-nos que os EUA permanecerão no topo. Concordo com isso, mas no que diz respeito a isto… não penso que o “topo” seja assim tão alto.

Para aqui está a chegar algo de muito mau – PARTE I

(John Mauldin, 15 de Janeiro de 2019)

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Desde há alguns anos, a narrativa económica tem mostrado os Estados Unidos como um país relativamente forte quando comparado com a Europa e com alguma parte da Ásia (NÃO face à China). Dizem-nos que os EUA permanecerão no topo. Concordo com isso, mas no que diz respeito a isto… não penso que o “topo” seja assim tão alto.

Os americanos gostam de pensar que estamos isolados do mundo. Temos grandes oceanos de ambos os lados. Geopoliticamente, eles servem como amortecedores. Mas, economicamente, eles ligam-nos a outros mercados importantes que são fundamentais para muitas empresas americanas. Os problemas nesses mercados são também, em última análise, problemas para os EUA.

Na semana passada, dei-vos a minha previsão de um Ano a Viver Perigosamente nos EUA, o ano de 2019, mas não discuti eventos importantes no estrangeiro. Resumindo rapidamente a semana passada, acho que o mais importante é que a economia dos Estados Unidos irá desacelerar, mas que evita a recessão em 2019. Dito isto, há riscos significativos para essa previsão, sobretudo à baixa.

Hoje, vamos utilizar outra metáfora literária para enquadrar a nossa discussão. “Something Wicked This Way Comes” é um romance de Ray Bradbury de 1962 sobre dois rapazes e o seu horrível encontro com um circo ambulante. Mais tarde foi argumento de um filme, intitulado na versão em português No templo das tentações

No nosso caso, algo perverso certamente está a vir nesta direção. Várias coisas, na verdade, estão-se a aproximar vindas de todas as direções. A verdadeira questão é qual será o prejuízo que este circo vai causar antes de deixar a cidade.

A China está instável

Muitos dos nossos riscos emanam da China, e como escrevi antes,  percebi que este tema merece um tratamento mais longo, o que farei na próxima semana. Por enquanto, vamo-nos referir ao quadro geral.

Na maioria das medidas utilizáveis para comparar os países, os EUA e a China são a maior e a segunda maior das economias do mundo. Estas duas também estão interligadas uma com a outra e de tantas maneiras que pode ser difícil saber onde acaba  uma e começa a outra. Alguns chamam-na a “Chimérica”, o que pode ser uma descrição apropriada. Isso é basicamente significativo, na minha opinião. O comércio internacional promove a paz e a prosperidade para todos, embora nem sempre de forma suave, nem sempre equitativamente distribuídas ou sem problemas. Essa é a natureza das grandes interligações. Mas vistas estas questões  ao longo de décadas? O crescimento da China tornou o mundo melhor. Literalmente, milhares de milhões de pessoas em todo o mundo foram retiradas da pobreza e da miséria.

Tudo isso dito, os EUA e a China são também nações separadas, com interesses distintos. Nós somos concorrentes e cooperamos para que surjam naturalmente diferenças. Embora precisemos de as resolver, os métodos da administração Trump não estão a ajudar nada. Estes parecem não compreender que, de forma intencional, estão a enfraquecer uma economia tão ligada aos nossos próprios riscos, que nos enfraquecem também a nós, americanos.

Os EUA exigem (com razão, na minha opinião) que a China respeite os direitos de propriedade intelectual e permita que as empresas estrangeiras concorram de forma justa, tal como nós permitimos que as empresas chinesas operem aqui. Mas conseguir isso não é a mesma coisa que mexer num interruptor. Há regiões e indústrias inteiras que estão agora otimizadas para um modelo que queremos mudar. A mudança, por mais necessária que seja, causará problemas se não for bem administrada.

Pior ainda, a economia da China já está em terreno instável. A sua combinatória que é única, de “comunismo” (o que quer que isso signifique agora na China) e de capitalismo, juntamente com a sua enorme dimensão tem gerado taxas de crescimento invejáveis e acredito que continuará a fazê-lo, mas uma desaceleração é inevitável. A China ainda está sujeita à lei dos grandes números. Eles não podem manter indefinidamente 6% ou mais de crescimento do PIB.

A diferença entre o crescimento do PIB dos EUA e da China tem vindo a diminuir ao longo da última década.

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Source: Financial Times

Parece agora que a eventual aterragem da China pode ser mais difícil do que o esperado. Já vimos dicas nos dados desde há algum tempo e estes começam-se a somar. As vendas dos automóveis estão sobretudo de substituição, por exemplo. Isso deve-se em parte ao facto de que os serviços de partilha de veículos como Didi Chuxing (similar ao Uber ou Lyft) estão a ganhar popularidade, mas também sugere que a classe média chinesa não está mais a aumentar a sua prosperidade ao ritmo em que tem estado a acontecer. É também um resultado das vendas antecipadas de automóveis nos últimos anos. Quando se força a procura para à frente, o futuro eventualmente exige reembolso.

Isso não é apenas um problema chinês. Os fabricantes americanos e europeus exportam veículos para a China e possuem fábricas na China. Esta é uma das razões pelas quais a General Motors fechou várias fábricas nos EUA e no Canadá e despediu milhares de trabalhadores no ano passado. Então, o leitor já terá muito provavelmente ouvido o sinal de alarme quanto às receitas da Apple, sobre as quais a Apple considera que a queda se deve a uma surpresa desagradável, que é o enfraquecimento das condições na China.

O facto incómodo é que uma grande parte do crescimento mundial está diretamente ligada ao crescimento chinês. E não apenas o crescimento atual absoluto, mas também o crescimento futuro esperado. As empresas construíram os seus modelos num crescimento chinês de 6%, de forma contínua. Esta visão está incorporada nas previsões e nas expectativas que mantêm os acionistas satisfeitos. E quando esse crescimento não responde às expectativas, temos surpresas. A Apple é apenas a primeira de muitas.

Sim, os EUA têm um défice comercial com a China. Isso não significa que a China não nos compre nada. Certamente que sim e certos segmentos da nossa economia dependem fortemente dos clientes chineses. Aqui está um gráfico da importância da China para as principais empresas de semicondutores dos EUA.

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Note que esta é a percentagem de vendas, não dos benefícios. Vemos aqui cinco grandes empresas americanas  que obtiveram um terço ou mais das suas vendas de 2017 para a China. Não seria preciso grande mudança para acabar com todos ou com a maior parte dos seus lucros.

Da mesma forma, muitas empresas menores dos EUA dependem da China para componentes que não têm alternativas nos EUA. O aumento dos custos, seja devido a tarifas ou qualquer outra coisa, também afeta os seus resultados financeiros.

Uma parte significativa do crescimento dos EUA no ano passado veio de um aumento nos stocks americanos. Numa metodologia contabilística algo arcaica, o que conta para o PIB é a construção de inventários e não as vendas atuais. Muitas empresas que dependem de materiais chineses construíram estoques antes do que se temia ser uma tarifa significativa no final de 2018. Esses inventários serão vendidos em 2019 e muitas vezes não serão substituídos. Uma grande parte da economia em desaceleração em 2019 será simplesmente devida a uma redução dos stocks. O crescimento aparentemente robusto da última metade de 2018 teve essencialmente o efeito de impulsionar a produção a partir de 2019.

A China também tem os seus próprios problemas, nomeadamente a enorme dívida e os consumidores cada vez mais condicionados. São problemas de que irei escrever na próxima semana. O ponto importante a ser aqui lembrado é que a fraqueza económica e a queda dos mercados na China também vão prejudicar os EUA. E vão pesar igualmente sobre a Europa e, especialmente, sobre a Alemanha. O que nos leva à próxima coisa perversa que pode estar por vir.

Quebra do Brexit

No mês passado, em Ameaças Europeias, citei Victor Hill, dizendo que “um Brexit desordenado será a faísca que incendiará a caixa de pólvora da zona euro”. O fogo ainda está pronto a acender-se  e, se não houver acordo antes do prazo de Março, pode certamente explodir em chamas, metaforicamente falando.

Muitos analistas duvidam disso, confiando que algum acordo de última hora irá surgir,  e isto  porque um Brexit “duro” não é do interesse de ninguém. Não faz sentido, diz a lógica, portanto não vai acontecer. O problema é que estamos a lidar com políticos que podem ter interesses totalmente distintos, e em todo caso, sabe-se que estão mal calculados. Se os governos sempre fizessem o que é sensato, nunca teríamos guerras e outras calamidades internacionais. No entanto, temo-las. Os políticos de todo o mundo são perfeitamente capazes de cometer erros terríveis

O meu amigo Lorde Matt Ridley, um dos principais filósofos do mercado livre do mundo (de The Rationalist Optimist e o mais importante The Evolution of Everything) recentemente fez o ponto de que mesmo um Brexit sem negociação seria melhor (para a Grã-Bretanha) do que a proposta atual. Ele tem muita fé em mercados livres para se ajustarem rapidamente, assim como muitos outros no Reino Unido, o que pode ser importante para a decisão final. Veremos.

(Aliás, como americano, não tomo posição sobre a questão Ficar ou Sair ( Leave vs. Remain). Há muito que penso que a UE acabará por se desmoronar. Se assim for, é melhor que aconteça da forma menos dolorosa possível. Um Brexit sem negociação pode não ser o melhor começo. Mas então, romper é sempre difícil de fazer.)

O Parlamento do Reino Unido vai votar na próxima semana, a 15 de Janeiro, o plano Brexit da Theresa May. Essa votação já foi adiada uma vez e a passagem não está garantida. Ao escrever isto, parece que não vai passar, mas as coisas mudam na política. Mesmo que assim seja, os pormenores e as implicações são extremamente complexos, com muito pouco tempo para os resolver antes da data de partida de 29 de março. A confusão daí resultante irá, no mínimo, paralisar temporariamente algumas empresas e perturbar o comércio entre a UE e o Reino Unido, que é muito importante. Aqui está um mapa útil que o meu amigo George Friedman partilhou na sua previsão de 2019 Geopolitical Futures

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Source: Geopolitical Futures

Cerca de 48% das exportações do Reino Unido vão para a UE, muito mais do que as vendas para os EUA. Isso significa que o aumento do comércio com os EUA terá benefícios limitados, mesmo que os EUA e o Reino Unido assinem um novo acordo de comércio livre. A UE é menos dependente do Reino Unido, embora algumas regiões e empresas venham certamente a ficar prejudicadas.

George Friedman está entre aqueles que pensam que um acordo será concluído nas próximas semanas. Mas isso não significa que seja especialmente optimista. Segundo as suas previsões:

Permanecerão duas questões fundamentais: Qual será a futura relação do Reino Unido com a UE e qual será o futuro do próprio Reino Unido?

 O Reino Unido mantém uma estreita relação de segurança com vários Estados europeus. É também um parceiro comercial importante para as principais economias da UE, como a Alemanha e os Países Baixos. Acordo ou não Acordo, essas relações vão continuar, e o Reino Unido será um aliado importante para os estados da UE na periferia que procuram estabelecer um equilíbrio entre a Alemanha e a França.

O seu futuro é uma história diferente. Muito dependerá do acordo, mas as mesmas forças que obrigaram o Reino Unido a sair do bloco também ameaçam a sua unidade. Se um acordo Brexit acabar por prejudicar desproporcionadamente a Escócia, por exemplo, poderá criar novos apelos à independência da Escócia. A Irlanda do Norte também se encontra numa posição instável. As questões sectárias que conduziram a grandes perturbações continuam ainda a ferver, a paz mantida em conjunto pelo Acordo de Sexta-Feira Santa de 1998 é frágil e a economia está sob uma pressão significativa.

As empresas não estão à espera para ver como isso termina. Um novo estudo da EY diz que as empresas financeiras estão em processo de transferência de ativos no valor de quase US$ 1 milhão de milhões da Grã-Bretanha para vários domicílios da UE. Muitos estão também a transferir pessoal. Olhe-se para essa tendência que se poderá acelerar rapidamente se a votação da próxima semana no Parlamento falhar.

Como dissemos, a exposição comercial EUA/Reino Unido é relativamente pequena para ambos os países, mas parte dela é importante e insubstituível. O maior problema é intangível. Chamamos-lhe, com razão, uma “relação especial” porque os nossos dois países já estiveram unidos. Essa divisão também foi dolorosa, e levou muito tempo para se curar (veja a Guerra de 1812). O que quer que magoe o Reino Unido também irá magoar os EUA. Uma recessão provocada pelo Brexit irá dificultar o comércio, forçar algumas empresas americanas a encontrar outros parceiros e a agravar os nossos próprios problemas.

Mas o maior problema é que os EUA serão atingidos por ambos os lados. Um Brexit duro afetará as economias da UE e do Reino Unido, incluindo a China, e os danos de ambos se propagarão por todo o mundo, incluindo os EUA.


Fim da Primeira Parte


Artigo original aqui

 A segunda parte deste texto será publicada, amanhã, 11/02/2019, 22h)


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