Venezuela, o mundo de cabeça para baixo e a guerra dos EUA. Por Jorge Fonseca

america latina 1

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Venezuela, o mundo de cabeça para baixo e a guerra dos EUA

Jorge Fonseca Por Jorge Fonseca, Professor de Economia Política Mundial, UCM, e membro do Conselho Científico de ATTAC

Publicado por publico es es em 4 de fevereiro de 2019

 

Se nos deixarmos convencer de que temos que enviar os “fuzileiros para injetar democracia” (Benedetti) na Venezuela, como nos deixámos convencer por Bush e Aznar de que havia que invadir o Iraque, o custo será pago pelos venezuelanos.  O Iraque está hoje em ruínas por causa de uma guerra baseada em mentiras que custaram centenas de milhares de vidas, a Líbia, onde hoje se vendem escravos, invadida por Obama (“o meu pior erro”, confessaria), assim como a Síria, onde Clinton apoiou o terrorismo islâmico.

Mas, além das consequências para o povo da Venezuela, se aceitarmos que os critérios usados para definir democracia e ditadura são decididos pelo governo de extrema-direita dos Estados Unidos, presidido por Trump, e a UE mantiver a sua submissão impulsionada por Trump (segundo o El País), o mundo teria entrado numa fase de totalitarismo global disfarçado de democracia.

 

As forças estrangeiras

Até mesmo para aqueles que são muito críticos do governo de Maduro, mas que defendem a paz e a não-intervenção, soará sarcástico ouvir Guaidó (o adversário empurrado pelos EUA para se proclamar presidente) falar de democracia enquanto defende a intervenção estrangeira (disfarçada de ajuda humanitária, já em andamento com tropas do Brasil, Colômbia e EUA), ou ouvi-lo apelar a um golpe militar às Forças Armadas venezuelanas e encorajar a guerra civil. É ainda mais sarcástico que os EUA, governados pelo ultra-direitista Trump, xenófobo, machista, racista, vencedor de eleições com armadilhas, que viola os direitos humanos dos imigrantes, incluindo crianças (como quando são separadas dos pais e trancadas em jaulas) e dos seus próprios cidadãos, como quando os condenam à prisão pelo gesto humano de deixar água aos imigrantes, para não falar de privar milhões de pessoas pobres de cuidados médicos. Mas não é só Trump e os últimos governos, os Estados Unidos têm uma longa história de crimes contra a humanidade desde a sua formação: votaram no Congresso a anexação de todo o México e América Central e em 1823 o Presidente Monroe declarou que a América era para os (norte) americanos. Desde então, as invasões e a promoção de golpes militares têm sido uma constante até hoje: invasões do México, de onde arrebatou mais da metade do território que concentrava ricas terras agrícolas, ouro e petróleo, repetidas invasões da Nicarágua, Cuba, Panamá, República Dominicana, Haiti, Guatemala, organização de golpes militares para impor ditaduras criminosas na Guatemala (contra Arbenz), na Argentina (em 1955, 1966, 1976 impondo Videla), no Equador em 1961, 1963 na República Dominicana com posterior ocupação, 1964 no Brasil, 1973 no Chile impondo Pinochet, no mesmo ano no Uruguai, nos anos 80 e 90 novamente na América Central, em 2002 o golpe contra Chávez na Venezuela apoiado pelo partido Vontade Popular criado por Guaidó e Leopoldo López -que promoveu as “guarimbas”, motins violentos incluindo o uso de armas de fogo que, junto com a repressão, causaram dezenas de mortes entre manifestantes da oposição e polícias nos anos seguintes. Na última década os EUA estiveram por trás do golpe militar em Honduras e do golpe “institucional” no Paraguai em 2012 e do golpe “institucional” contra Dilma Rousseff no Brasil em 2015, até à atual ofensiva contra a Venezuela. Para não fazer a lista das guerras em todo o mundo: Coreia, Vietname, todo o Sudeste Asiático, Egipto, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Iémen…

Desde o primeiro momento apoiaram Trump, e ofereceram tropas para a invasão, o ultra-direitista brasileiro Bolsonaro, defensor do estupro, da violência de género, do racismo e das privatizações massivas, Duke, presidente da Colômbia, delfim de Uribe o criador dos paramilitares e o assassinato de opositores e ativistas sociais (quase 400 nos últimos três anos), e Macri, presidente da Argentina e defensor do tiroteio pelas forças repressivas, da libertação de genocidas e que destruiu a democracia e a economia em três anos.

A UE aderiu, que reivindica a democracia para a Venezuela mas que quase nada faz para deter as violações dos direitos humanos por parte dos regimes da Polónia ou da Hungria e de outros países (em 18 dos seus governos a ultra-direita está presente, governando 170 milhões de europeus) e que apoia regimes que violam sistematicamente os direitos humanos, como a Arábia Saudita, que pratica o genocídio no Iémen com armas europeias e que levou a uma crise humanitária que afecta milhões de pessoas de que ninguém quer saber. A UE também protege os crimes de Israel, que está a praticar genocídio contra o povo palestiniano e que tenciona incorporar na UE sem ser um país europeu, porque é exigido pelos EUA. A UE cede a soberania do Estado às empresas transnacionais a que concede direitos nos Tratados de Comércio e Investimento que nós, cidadãos, não temos (tribunais privados pelos seus conflitos com os Estados, acesso privilegiado a qualquer legislação, direito a indemnizações milionárias, etc.). O passado colonialista da Europa que causou milhões de mortes, escravizou milhões de pessoas e que pela distribuição dos despojos coloniais causou duas guerras mundiais, deixamo-lo para outra ocasião. Também pusemos de lado a cumplicidade com regimes de terrorismo de Estado na América Latina, como a Espanha da transição que, em 1978, apoiou Videla, com a qual o Rei Juan Carlos trocou honras na Argentina enquanto milhares de cidadãos eram assassinados, incluindo 700 espanhóis, o que era já então conhecido em todo o mundo.

A legitimidade

Se o que está em jogo é a legitimidade, lembremos que o opositor Juan Guaidó e Trump querem deslegitimar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, que queiramos ou não, foi eleito há oito meses em eleições constitucionais supervisionadas por centenas de observadores internacionais aos quais concorreram 15 partidos da oposição e às quais, à última hora, três partidos de extrema-direita anunciaram que não concorriam por insistência dos EUA (com a cumplicidade da UE, como denunciou o ex-presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, que supervisionou essas eleições).  Esta é a oposição que hoje exige um golpe de Estado aos militares, encorajando uma guerra civil e a intervenção estrangeira. Pedro Sánchez, a quem PP e C’s, apoiados pela VOX, negam diariamente a legitimidade do seu governo que surgiu de uma moção de censura, tornou-se porta-voz da direita intervencionista e golpista da UE, pressionada pelos EUA, em vez de ficar ao lado do México, Uruguai e outros países que defendem uma solução negociada.

Quanto à repressão, aqueles de nós que reivindicam o direito inalienável de se manifestar, mas reconhecemos que numa democracia, por mais disputada que seja, as manifestações devem ser pacíficas, constatamos que desde a tentativa de golpe de Estado de 2002 tem havido violência por parte de grupos minoritários que têm usado armas de fogo contra a polícia e funcionários, violência que tem sido reprimida e o saldo são numerosas vítimas civis e das forças de segurança. Exigimos que sejam publicados os resultados das investigações judiciais sobre as responsabilidades de ambas as partes, mas os EUA e a UE não têm estado preocupados com as vítimas do oficialismo ou dos assassinatos de activistas colombianos, argentinos ou brasileiros. Por outro lado, a nenhum cidadão progressista destes países se lhe ocorreria propor como solução um golpe militar, uma guerra civil ou uma invasão estrangeira. Na Espanha, o Supremo Tribunal retificou uma sentença porque prejudica a banca, o justiça deixa em liberdade violadores e pedófilos, tolera a exaltação do genocídio do terrorismo de Estado de Franco, permite que VOX, além de um discurso que protege a violência de género, tenha impunidade por ter sido financiado por uma organização iraniana denunciada por terrorismo. Esta justiça, por outro lado, processa grevistas, marionetistas, twiteiros ou rappers ao mesmo tempo que condena duramente pessoas acusadas de atirar pedras em manifestações.

O mundo de cabeça para baixo

O tremendo que nos coloca à beira do triunfo do totalitarismo global é que a pós-verdade prevalece sistematicamente, ou seja, a mentira apresentada como verdade, ou o mundo de cabeça para baixo, como diria Eduardo Galeano. É um mundo de cabeça para baixo que fez que, em poucas semanas, dois presidentes considerados abertamente antidemocráticos, de extrema-direita, xenófobos, racistas, machistas, promotores das violações dos direitos humanos e da destruição da natureza, negando a mudança climática para favorecer as empresas petroleiras e madeireiras e de soja, que jogam à Terceira Guerra Mundial para evitar serem ultrapassados pela China, sejam subitamente tratados como os campeões da democracia e da liberdade. Isto não pode ser apenas obra dos interesses financeiros que estão por trás de todos os meios de comunicação que hegemonizam as comunicações, nisto há também a responsabilidade dos jornalistas e colunistas que atuam como servidores do poder escondendo ou deformando a verdade. Porque muitos dos que antes criticaram esses Césares de extrema-direita estão agora a repetir os seus slogans sobre a Venezuela.

A crise económica

Ninguém nega a grave crise econômica que atravessa a Venezuela, nem tão pouco exime o governo da parte de sua responsabilidade. O alto preço do petróleo permitiu ao governo financiar políticas sociais que reduziram o desemprego e a pobreza (que caíram de 54% no início para 32% em 2013), eliminaram o analfabetismo, melhoraram a saúde, construíram quase dois milhões de unidades de habitação social e reduziram a desigualdade. No entanto, a falta de uma reforma fiscal profunda e uma gestão ineficiente impediu a melhoria dos salários, impediu a obtenção de resultados da distribuição da riqueza e a diversificação da matriz produtiva, o que é um objetivo nada fácil no capitalismo periférico. Mas as evidências mostram o papel determinante do colapso do preço do petróleo em 2014, causado pela combinação da produção recorde dos EUA por meio do fracking, insustentável no médio prazo devido à sua falta de rentabilidade (o que sugere que foi usado como ariete contra a Venezuela, a Rússia e o Irão), da decisão do seu aliado Arábia Saudita de baixar os preços e o aumento da produção líbia, subjugada pelos EUA, e da redução da procura. A queda de US$108 para US$35 em apenas dois anos causou um colapso no valor das exportações venezuelanas de petróleo (que representam 85% do total das exportações), desvalorizou a moeda, fez disparar a inflação de 57% para 303%, causou fuga de capitais e afundou o financiamento de políticas económicas e sociais. Em 2014, os EUA intensificaram as suas medidas contra o governo de Maduro (aplicaram a sua Lei de Defesa dos Direitos Humanos na Venezuela e uma Lei da Sociedade Civil) e o partido de Guaidó e Leopoldo López promoveu os guarimbas “até que o governo fosse derrubado”, como afirmou López e pode ser visto em vídeo na Internet. Em 2017, os EUA adicionaram sanções financeiras que envolvem a expropriação de ativos venezuelanos nos EUA, incluindo a sua refinaria Citgo, e impedem a compra de alimentos e medicamentos no exterior, enquanto os guarimbas se intensificaram e a hiperinflação atingiu cifras milionárias, afetando brutalmente o poder de compra e gerando desemprego, pobreza generalizada e forte emigração, semelhante ao que ocorreu na Espanha desde a crise de 2008. A pobreza atinge a maioria da população, pelo que não é difícil compreender o aumento do número de pessoas que desaprovam o governo.

Venezuela, parte da estratégia global de controle do petróleo e da guerra com a China

Os Estados Unidos estão a assistir a um declínio económico relativo que permitiu à China alcançá-lo em 2013 em produto bruto medido em paridades de poder de compra e que o FMI prevê que em 2022 o ultrapasse em 40%, representando 20% e 14% do total mundial, respectivamente. Embora a supremacia tecnológica em patentes de alta tecnologia, royalties, produtividade e exportação de bens de alta tecnologia dos EUA ainda seja indiscutível, o peso do setor de tecnologia da informação e comunicação na economia chinesa já é semelhante ao desse setor na economia dos EUA e a redução da brecha tecnológica da China é acelerada, incluindo inteligência artificial e supremacia em tecnologia média-alta, muito mais geradora de empregos do que em alta tecnologia.

Os estrategas do Pentágono propõem um confronto crescente dos EUA com a China nos domínios económico, comercial e tecnológico e não excluem a guerra. Nessa luta, a guerra comercial é um episódio, mas a guerra pelos recursos é central, seja numa perspectiva de “guerra fria” ou numa de guerra aberta. O controle do petróleo é, por sua vez, a mãe de todas as batalhas: as reservas comprovadas de petróleo são suficientes para 50 anos com a tecnologia existente e assumindo que não haverá um forte desenvolvimento dos países “subdesenvolvidos”. Os Estados Unidos consomem 25% do total mundial, mas têm apenas 2% das reservas, o que equivale a cinco anos de consumo. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, equivalentes a 20% de todo o mundo, mas a sua propriedade é estatal. Embora a Venezuela destine um quarto das suas exportações para os Estados Unidos, se isso for feito sob o controlo directo dos EUA, para além do negócio para as grandes companhias petrolíferas privadas, poderá garantir o abastecimento durante 45 anos num local próximo do seu território, o que é crucial para um caso de conflito armado, em que o seu principal aliado, a Arábia Saudita, está mais próximo da China do que do seu território. Além disso, conseguiria retirar à China e à Rússia o acesso que actualmente têm a esses recursos, o que significa que apoiam fortemente o Governo. As importantes reservas de coltan, um mineral essencial para produtos tecnológicos, ouro e outros minerais, transformaram a Venezuela num saque de guerra a ser distribuído, como confessou Bolton, mostrando que a prevista invasão disfarçada de “ajuda humanitária” não tem nada a ver com democracia ou liberdade, que serão espezinhadas, mas antes com o petróleo. Enganam-se aqueles que acreditam que uma rendição total do governo venezuelano o evitaria, já que a pilhagem da Venezuela e a sua conversão em colónia norte-americana foi decidida quando os EUA levaram a ultra-direita representada por Guaidó a não concorrer às eleições presidenciais para deslegitimar o governo, afundar a economia e propiciar uma invasão disfarçada de ajuda humanitária que provoque um golpe militar e, se necessário, uma guerra civil. A recuperação do controle de toda a América Latina é feita ao estilo dos séculos XIX e XX e inclui todos os métodos (Lagarde, do FMI, declarou que as eleições previstas para este ano na Argentina são um problema, sugerindo que seria desejável suspendê-las). A cumplicidade de governos estrangeiros e dos meios de comunicação serve para apresentar o novo totalitarismo global como a democracia do século XXI.

A passividade dos cidadãos é também cumplicidade. Parafraseando Niemöller, talvez pensar que, uma vez que não somos venezuelanos, podemos ser passivos significa que, quando eles vierem atrás de nós, será tarde demais.

Texto disponível em https://blogs.publico.es/dominiopublico/27773/venezuela-el-mundo-al-reves-y-la-guerra-de-eeuu/

 

O autor: (1985-) Doutor em Economia pela Universidade Complutense de Madrid. Catedrático EU de Economia Aplicada na Faculdade de Ciências Económicas da UCM. Diretor da Cátedra Extraordinária “Celso Furtado”. Diretor do Grupo de Investigação sobre Globalização e Desenvolvimento na Economia Mundial (GIGYDEM). Realiza a sua atividade docente no Departamento de Economia Aplicada I, Universidade Complutense de Madrid. Docência atual: Professor de Economia do Desenvolvimento (quinto curso de licenciatura), e Estrutura e Dinâmica das Economias Latinoamericanas no Mestrado de posgraduação de Economia Internacional e Desenvolvimento. Também lecionou Estrutura Económica Mundial. Membro do Grupo de Investigação Internacional “Polarizing Trends in the World-System” coordenado pelo professor Immanuel Wallerstein da Universidade de Yale, em que participam investigadores de doze universidades dos EUA, Reino Unido, Bélgica, Espanha, África do Sul, Índia, México, Argentina, Chipre e Ucrânia.

 

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