Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos.14. Para aqui está a chegar algo de muito mau – PARTE II

Durante anos, sempre que falámos sobre a economia europeia, um país esteve sempre no centro da discussão: a Alemanha. Sim, o Reino Unido e a França são grandes, mas a Alemanha é gigante. Se a Alemanha espirra, o resto do continente apanha frio. E a Alemanha  está a espirrar muito neste momento.

Para aqui está a chegar algo de muito mau – PARTE II

(John Mauldin, 15 de Janeiro de 2019)

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Uma Europa desamparada

Durante anos, sempre que falámos sobre a economia europeia, um país esteve sempre no centro da discussão: a Alemanha. Sim, o Reino Unido e a França são grandes, mas a Alemanha é gigante. Se a Alemanha espirra, o resto do continente apanha frio. E a Alemanha  está a espirrar muito neste momento.

As últimas previsões do PIB fixam o crescimento alemão em 1,5% para todo o ano de 2019. Penso que isso é agressivamente otimista, depois de uma contração de 0,2% no terceiro trimestre de 2018 e de um crescimento de apenas 0,5% no trimestre anterior.

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Source: TradingEconomics.com

Diz-nos Trading Economics:

“ A economia alemã reduziu-se em 0,2 por cento no trimestre, corrigida de sazonalidade, nos três meses até setembro de 2018, sem revisão da estimativa preliminar e após um crescimento de 0,5 por cento no período anterior. Esta foi a primeira contração trimestral desde o primeiro trimestre de 2015, devido a quedas nas exportações e no consumo das famílias. A taxa de crescimento do PIB na Alemanha foi, em média, de 0,51% entre 1970 e 2018, atingindo um máximo histórico de 4% no segundo trimestre de 1970 e um mínimo histórico de -4,50% no primeiro trimestre de 2009.”

(…)

“”Os maiores contributos negativos para o crescimento do PIB vieram do comércio externo (-1 pontos percentuais) e do consumo das famílias (-0,1 pontos percentuais). Enquanto isso, as despesas públicas foram neutras, enquanto a formação bruta de capital fixo adicionou 0,2 pontos percentuais ao PIB e a variação dos stocks contribuiu com 0,7 pontos percentuais.

As exportações de bens e serviços caíram 0,9% no terceiro trimestre, em comparação com um crescimento de 0,8% no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, as importações cresceram 1,3%, após um aumento de 1,5% no período anterior.

O consumo das famílias caiu 0,3% (vs 0,3% no segundo trimestre) numa situação em que se verificou uma certa à relutância em comprar carros novos, enquanto a despesa pública aumentou m 0,2% (vs 0,8% no segundo trimestre). Por outro lado, o investimento fixo cresceu a um ritmo mais acelerado (0,8% vs. 0,5% no segundo trimestre), impulsionado pelo investimento em máquinas e equipamentos (0,8% vs. 0,1%), construção (0,9%, o mesmo que no segundo trimestre) e outros ativos fixos (0,2% vs. 0,3%).

Em termos homólogos, a economia expandiu 1,1% no terceiro trimestre, após um crescimento de 2% no período de três meses anterior. Numa base não ajustada, o PIB cresceu 1,1 por cento, muito mais fraco do que um aumento de 2,3 por cento verificado no trimestre que se fechou em junho.”

A situação económica na Alemanha também está a piorar. As encomendas industriais para exportação caíram 3,2% em novembro e as exportações da Alemanha são o que mantém a sua economia – e a da zona-euro e da UE – viva.

Isto  deve-se  em parte aos mesmos fatores cíclicos que atingem o crescimento dos EUA. Assim, tal como os EUA, a Alemanha teve um bom (embora não espetacular) comportamento económico desde a última crise e isto, em qualquer momento, deve terminar. A ameaça de Trump de impor tarifas aos automóveis da UE não ajuda. Mas alguns dos fatores  são também exclusivamente alemãs.

A moeda euro efetivamente permitiu à Alemanha um certo estrangulamento sobre os atores menores da zona, que compraram exportações alemãs com empréstimos alemães. Vimos como isso funcionava com a Grécia. Agora, uma dinâmica semelhante está-se a desenrolar na Itália e esta é uma economia muito maior – que, por sua vez, também tem alguns problemas que são específicos à Itália.

No entanto, com tudo isto a acontecer, o Banco Central Europeu continua empenhado em terminar as suas compras de activos no próximo ano, mesmo mantendo as taxas de juro negativas. Esta é uma fórmula para uma economia extremamente distorcida, isso no mínimo, e possivelmente pode ser muito pior ainda.

Enquanto isso, ao lado, na França, os protestos dos “Coletes Amarelos” revelam uma agitação substancial e bem organizada da classe trabalhadora. Imagine o que acontecerá se (quando) a economia da UE se virar seriamente para o sul, o desemprego disparará para valores  ainda mais alto do que já são, os governos não podem suportar os custos da segurança Social e a população não pode pagar impostos mais altos. A situação pode tornar-se social e politicamente crítica, e não apenas em França. Lembre-se, muitos países da UE são sistemas parlamentares cujos governos podem cair a qualquer momento.

Admito que esta é uma perspetiva sombria. Talvez seja errado. Nick Andrews, da Gavekal, analisou recentemente estas mesmas questões e perguntou o que é que poderia mudar a trajetória da Europa.

Com uma politica monetária e orçamental constrangida e com o enfraquecimento da procura interna dos consumidores, é provável que um tal motor – para a economia ou para o mercado de ações – seja apenas externo. Existem vários candidatos possíveis:

  1. Um acordo Brexit favorável. Desde o referendo do Reino Unido de 2016, as exportações da zona do euro para o segundo maior mercado de exportação do bloco da moeda única estagnaram. Se as nuvens se dissiparem nos próximos meses, ou seja, com um não  acordo  a ser evitado, então os prémios de risco diminuirão, a libra esterlina subirá e as exportações da zona do euro para o Reino Unido provavelmente subirão. Por enquanto, no entanto, as perspetivas nesta frente permanecem altamente incertas.
  2. Melhoria das relações comerciais EUA-China. Um acordo para evitar aumentos tarifários eliminaria uma grande incerteza que paira sobre a economia global. Mais uma vez, os prémios de risco cairiam.
  3. Uma estabilização ou aceleração do crescimento chinês, seja como resultado de um acordo comercial ou de um programa de estímulo interno. Uma retoma da procura interna chinesa beneficiaria as empresas europeias expostas à Ásia, nomeadamente os stocks de bens de luxo. No entanto, há pouca probabilidade de um esforço de estímulo na escala de 2009, de modo que o efeito da flexibilização da política chinesa na economia e nos mercados da Europa provavelmente será reduzido.

Em suma, há poucas perspetivas de surgir um novo motor interno do crescimento europeu, e a situação externa permanece altamente incerta. Na ausência de qualquer novo motor de crescimento claro, o PMI composto da zona euro divulgado na primeira semana de Janeiro indica que é possível uma desaceleração do crescimento homólogo do PIB para cerca de 1% da estimativa do BCE de 1,9% para 2018.

Nota de Tradutor. Vejamos a análise Markit para a zona euro e a sua ilustração gráfica:

O IHS Markit Eurozone PMI Composite PMI caiu para 51,1 em dezembro de 2018, revisto à baixa de 51,3 e abaixo de 52,7 no mês anterior. A leitura mais recente indicou o ritmo mais fraco de expansão no setor privado desde novembro de 2014, com o crescimento do setor de serviços em desaceleração para um recorde de baixa de mais de quatro anos e a produção industrial a expandir-se menos desde fevereiro de 2016. O volume de novos postos de trabalho cresceu a menor taxa desde o final de 2014 e o nível de confiança dos empresários desceu para o seu valor mais baixo desde outubro de 2014 , enquanto o crescimento do nível de emprego permaneceu robusto. Quanto à evolução dos preços, os preços de insumos registaram o menor aumento desde agosto de 2017 e a inflação vista através do custo de produção diminuiu para uma baixa recorde de 15 meses. Entre as maiores economias da zona do euro, a produção económica da França caiu pela primeira vez em dois anos e meio, enquanto o crescimento alemão foi o mais fraco em cinco anos e meio. A produção da Itália manteve-se estável, enquanto os PMIs da Irlanda e Espanha atingiram o nível mais baixo respetivamente em 9 e 3 meses. O PMI composto na Área do Euro é relatado pela Markit Economics.

Na zona euro , o índice Markit Manufacturing Purchasing Managers’ Index mede o desempenho do setor da manufatura e é derivado de um inquérito a mais de 3.000 empresas da indústria manufatureira . Os dados nacionais incluem a Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Áustria, República da Irlanda e Grécia. Estes países, em conjunto, representam cerca de 90% da atividade industrial da zona euro.

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Nick diz isso muito bem, mas a sua implicação é perturbadora: A Europa está indefesa e continuará a andar à deriva, a menos que os acontecimentos externos (sobre os quais tem pouco controlo) sigam o seu caminho. Essa não é uma posição confortável para se estar.

Se o crescimento da zona euro terminar em 1% em 2018, é uma boa aposta de que 2019 não será melhor e possivelmente trará consigo uma verdadeira recessão. O que acontece aos bancos alemães neste cenário? E se ficarem instáveis, o que acontece aos bancos americanos, canadianos e asiáticos? E se a Europa entrar em recessão, terá um impacto significativo no mundo e nos EUA. Prestar atenção à Europa – e não apenas à Premier League – será importante em 2019.

Algo perverso está a chegar, e podemos ver muito mais coletes amarelos ou os seus equivalentes em todo o mundo antes que isso termine. Vejo um potencial significativo para a recessão global e esta irá sangrar para o mercado dos EUA. Alguns erros não forçados por parte do banco central ou do governo dos EUA poderiam antecipar a recessão ou deferi-la para mais tarde.

 A economia está a ficar muito interessante.


Artigo original aqui

 O décimo quinto texto desta série deste será publicado, amanhã, 13/02/2019, 22h)


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