A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 5. A leitura de Rawi Abdelal – O consenso de Paris: a França e as regras da finança mundializada (4/4)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Nota do editor: este texto é a edição revista do texto que foi publicado em A Viagem dos Argonautas entre os dias 30 de junho e 6 de julho de 2017, integrado na série “Crónica sobre os anos 80, sobre Viva a Crise”. A presente edição revista é apresentada em 4 partes.

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5. A leitura de Rawi Abdelal – O consenso de Paris: a França e as regras da finança mundializada (4/4)

Rawi Abdelal Por Rawi Abdelal

Editado por Cairninfo, publicado em Critique Internationale, 2005/3 (nº 28)

 

(continuação)

O Castelo e Henri Chavranski

Somente os países privilegiados pertencem à OCDE [70]. Ser membro da OCDE, é ser-se rico, é gozar do estatuto simbólico de país “desenvolvido”. A organização tem como sede o elegante castelo de La Muette no décimo sexto bairro de Paris, um bairro calmo e chique onde tudo respira a bem sólida fortuna. A atmosfera é aí serena e cheia de dignidade, como convém a uma sociedade escolhida que é igualmente uma das organizações internacionais mais influentes do planeta.

A obrigação mais importante entre as que se ligam ao facto de pertencer à OCDE está inscrita no seu Código de liberalização dos movimentos de capitais. É um ponto não negociável e que não deve ser encarado de forma ligeira. Até à diretiva europeia de 1988, este texto era o único instrumento multilateral que promovia a liberdade de movimento dos capitais.

Quando foi estabelecido em 1961, o Código excluía por princípio os movimentos de capitais de curto prazo. Durante mais de quarenta anos, o CMIT (Comité dos Movimentos de Capital e das Transações Invisíveis) velou que os Estados-Membros se conformassem ao Código de liberalização e supervisionava as alterações que lhe eram introduzidas. O domínio destas obrigações foi alargado várias vezes (em 1964, 1973 e 1984) para englobar cada vez novos tipos de operações financeiras ou encurtar os prazos mínimos, mas os Estados-Membros não chegavam a pôr-se de acordo quanto aos capitais de curto prazo. Tal como no quadro europeu, eram os Franceses que aí apresentavam a oposição mais firme e argumentada contra estes “capitais febris”. O CMIT passou o fim dos anos 1980 a reunir um consenso em prol da liberalização dos movimentos de capitais entre Estados-Membros. Os Franceses acabaram por aderir sem reservas e em 1989 o Código foi alterado uma última vez para incluir todos os movimentos de capitais. A personalidade mais marcante deste episódio foi Henri Chavranski. É uma componente essencial – mas subestimada – da mundialização que esta transformação do Código sob o impulso CMIT tenha sido alcançada graças à evolução convergente dos ministros europeus das Finanças para uma visão onde se inscreve doravante a liberdade de movimento dos capitais.

As origens do Código assemelham-se muito às do tratado de Roma. Os dois documentos foram elaborados num ambiente de profunda desconfiança em relação aos movimentos de capitais de curto prazo. De acordo com Raymond Bertrand, que trabalhou o essencial da sua carreira num alto posto do Secretariado da OCDE, as obrigações do Código incidiam apenas sobre os fluxos de capitais a longo prazo, em especial, o investimento direto estrangeiro, no intuito de favorecer os investimentos cruzados entre membros da organização. A omissão das transações financeiras de curto prazo no Código “explicava-se pelo sentimento que estas operações, em especial por iniciativa de bancos, podiam pôr problemas para a gestão monetária e para a gestão das reservas de divisas, sobretudo num regime de taxas de câmbios fixos ou administrados” [71].

Sempre que uma extensão das obrigações do Código a novas transações era discutida no CMIT, os Europeus preocupavam-se sobretudo com os capitais especulativos. Aquando da primeira alteração, em 1964, conta Pierre Poret, membro do Secretariado da OCDE, a organização “tomou expressamente a decisão de não alargar o campo de aplicação do Código às operações de curto prazo, pela razão de que a sua liberalização tornaria as balanças dos pagamentos vulneráveis às mudanças de humor dos atores do mercado e comprometeria a independência das políticas económicas nacionais” [72]. Os Estados Unidos, que ao longo de toda a década dos anos de 1960 pressionara os seus parceiros da OCDE para aceitarem a liberalização dos capitais, depararam-se apenas com a reserva dos Europeus e a oposição pura e simples da França [73]. A alteração de 1973 foi de novo muito modesta e apenas se referia aos serviços de investimento coletivo. No início dos anos 1980, os membros do CMIT discutiram sobre os meios para tornarem o Código mais vinculativo em matéria de investimento direto estrangeiro. O consenso foi rapidamente alcançado e, a partir de 1984, a competência do Código neste domínio foi alargada para incluir o direito de estabelecimento aos investidores não residentes.

O fim dos anos de 1980 foi um período de mudança profunda para a OCDE, tanto em La Muette como nas capitais dos Estados-Membros. Vários de entre eles tinham começado a desmontar unilateralmente os seus regimes de controlo dos capitais. Gradualmente, os Estados que ainda não tinham tornado os seus bancos centrais independentes adotavam, por sua vez, as leis necessárias. Uma evolução decisiva para a renúncia à autonomia discricionária das políticas nacionais estava agora em curso. Como o recorda Henri Chavranski, “durante o meu mandato, o CMIT conheceu um movimento pendular no que diz respeito aos sentimentos dos Estados-Membros em relação aos mercados. Os Europeus não tinham resposta à tese de Reagan e de Thatcher, então nós seguimo-los. É em França que o processo foi mais espetacular. A posição francesa na OCDE sempre tinha sido a de travar o alargamento do campo de aplicação do Código de liberalização. O momento da sua viragem radical deu-se por volta de meados dos anos de 1980 e permitiu ao CMIT trabalhar na elaboração de um Código verdadeiramente liberal” [74].

Após quarenta anos de controvérsias na La Muette sobre a circulação dos capitais de curto prazo, a discussão no CMIT sobre uma nova alteração começou então num ambiente calmo e consensual. “Não havia mais nenhuma forte oposição ao alargamento do campo do Código, conta Chavranski. Alguns países estavam ainda reticentes, mas não houve grande batalha. A ideia estava aceite” [75]. No final dos anos de 1980, os Estados Unidos já não tinham necessidade de se baterem na primeira linha de modo a que fossem alargadas as obrigações da OCDE em matéria de liberalização dos movimentos de capitais. Jeffrey Shafer recorda-se: “Sempre pensei que se podia ter uma certa simpatia para com os objetivos da esquerda considerando ao mesmo tempo que, tendo em conta o contexto da economia internacional, o melhor meio para esta os atingir era liberalizar os movimentos de capitais. Importantes figuras da esquerda europeia aderiram a esta opinião que acabou por influenciar a prática da OCDE em numerosos domínios, incluindo a liberalização da conta de capital. Muitas vezes aconselhei ao Tesouro [americano] que não fizesse pressão, de não se exprimir demasiado a este respeito aquando dos debates na OCDE. Bastaria estar calado e deixar a iniciativa vir do secretariado e dos Europeus que a defendiam” [76].

Como Jacques Delors com a diretiva de 1988, não foi indo mais rapidamente e muito à frente dos seus colegas da OCDE que Henri Chavranski, como presidente do CMIT, teve êxito a alterar o Código. Antes pelo contrário, apoiou-se sobre aqueles membros do seu Comité que eram favoráveis desde há já algum tempo à ideia de fazer entrar as operações de curto prazo no seu domínio de competências. De acordo com o sueco Jan Nipstad, que ia presidir o grupo de trabalho destinado a defender a causa deste alargamento, a ação de Chavranski foi “magistral”. Nipstad ele mesmo era um convertido relativamente recente à causa da liberalização dos movimentos de capitais, e é em estreita colaboração com Chavranski que ele se esforçou em reforçar o consenso no CMIT. Como a reputação de Chavranski no CMIT não era a de um liberal dogmático e como a França acabava de aderir ao projeto de alargamento, a argumentação muito racional que ele desenvolveu neste sentido reforçou amplamente a legitimidade do projeto no espírito dos que tinham permanecido céticos [77].

Assim, uma nova norma válida para todos os membros da OCDE vê a luz do dia em 1989 sobre uma base consensual. A abertura da conta de capital tornava-se o comportamento normal de um Estado-Membro da organização ou, por outros termos, uma das práticas que definem um país “desenvolvido”: “Se os diferentes Estados-Membros não estão todos, evidentemente, na mesma fase a esse respeito, partilham doravante o ponto de vista segundo o qual a liberalização completa dos movimentos de capitais é um bom objetivo” [78]. De acordo com Louis Pauly, a alteração de 1989 tinha por objetivo “substituir o direito formal [dos Estados] em controlar os movimentos de capitais por um novo direito. Os esforços para inscrever nos códigos a norma da mobilidade dos capitais continuam” [79].

O FMI e a liberdade de circulação sob o mandato de Michel Camdessus

Assim, em 1990, estavam estabelecidas as bases institucionais da internacionalização da finança para a Europa e para o grupo dos países desenvolvidos. As regras tinham sido escritas sobretudo por franceses. Mantinha-se a esse respeito um vazio institucional na arquitetura da mundialização: a codificação da mobilidade dos capitais numa organização realmente mundial. Se a EU está para os europeus, a OCDE para os ricos, o FMI está para todos. De facto, o FMI conta entre os seus membros praticamente todos os Estados do planeta, as suas regras constituem o fundamento jurídico de todo o sistema monetário internacional.

Foi apenas em meados dos anos de 1990 que uma iniciativa se desenvolveu para colocar a norma da mobilidade dos capitais nos códigos do FMI. A alteração que então foi proposta representava um momento decisivo e espetacular de viragem. Com efeito, embora as regras do Fundo obriguem desde 1944 os Estados-Membros a evoluir para a convertibilidade da conta corrente, deixam-lhes também o direito de controlar os movimentos de capitais: eles “podem tomar as medidas de controlo necessárias para regulamentar os movimentos internacionais de capitais” [80]. De acordo com os Estatutos, a liberalização do comércio faz parte dos objetivos da organização, mas não a dos movimentos de capitais. Sob o mandato do Diretor Geral Jacques de Larosière, o FMI entendia por bem permanecer à distância do processo de internacionalização financeira. “Tínhamos o nosso catecismo: “Liberalizarás os pagamentos correntes, mas não necessariamente os movimentos de capitais”. Este princípio não me punha nenhum problema. No momento em que deixei o Fundo, em 1987, não havia que eu saiba, nenhum debate corrente sobre uma mudança dos Estatutos destinada a fazer entrar no nosso campo de competências a conta de capital” [81].

A alteração proposta, por conseguinte, só fez a sua aparição no FMI depois da partida de Larosière e da chegada do seu sucessor Camdessus ao posto de Diretor Geral, que ocupará de 1987 até 2000. No fim de 1993, este último apresentou a Philippe Maystadt, o presidente do Comité interino do FMI, a ideia de estender a competência da organização à conta de capital [82]. Camdessus e a equipa de direção trabalharam depois discretamente neste projeto, que foi apresentado oficialmente ao Conselho de administração em 1995.

Era uma alteração em duas partes: a primeira consistia em inscrever a liberalização da conta de capital nos objetivos do Fundo, para permitir-lhe incluir esta última nas condicionalidades ligadas aos seus programas; a segunda daria ao FMI competência sobre os movimentos de capitais, ou seja, conferia ao FMI autoridade para julgar se tais restrições impostas à conta de capital por um governo nacional seriam ou não compatíveis com as suas obrigações de Estado-Membro.

Para numerosos adversários do FMI, esta proposta era o toque final que faltava à inscrição do liberalismo nos códigos do sistema financeiro mundial. Eles assumiam que a direção do Fundo obedecia nesta matéria aos desejos do Tesouro americano, que procurava ele mesmo satisfazer os grandes bancos de Wall Street. Não era nada disso. Charles Dallara, o Diretor Geral do Instituto da finança internacional (IFI), disse-o e repetiu-o: “A proposta não era de modo algum uma iniciativa do Tesouro ou de Wall Street” [83].

Os altos funcionários do Tesouro americano, com efeito, estavam muito divididos sobre a alteração proposta: “A ideia segundo a qual o FMI pressionava a abertura a mando do Tesouro americano é totalmente falsa, explica um deles. [A proposta] veio de outros, não de nós”. Ninguém no Tesouro tinha nas suas pastas um projeto que consistisse em fazer adotar uma tal alteração pelo FMI ou para além dele. Como se diz na gíria do Tesouro, era uma ideia que se tinha elaborado “sem a presença das pessoas importantes” [84]. O antigo ministro do Tesouro, Lawrence Summers, afirma-o: “ eu nunca me interessei pela questão e Rubin ainda menos” [85].

Wall Street, cujos interesses são representados em Washington pelo IFI, também era completamente hostil [86]. De acordo com Lex Rieffel, antigo alto funcionário do Tesouro e da OCDE que presidia o grupo de trabalho do IFI sobre a liberalização da conta de capital, importa fazer a distinção entre a liberdade de circulação dos capitais e a proposta de alteração do FMI: “Certamente que Wall Street era a favor da liberdade. Mas a comunidade financeira tinha reservas sérias sobre a ideia de dar ao FMI a competência sobre a conta de capital”  [87]. Entre estas reservas figurava o temor que a alteração não legitime as alterações existente sobre os controlos de capital que teriam recebido a aprovação do Fundo. Do mesmo modo, Charles Dallara conta que ele mesmo e os seus colegas “compreendiam a inquietação dos banqueiros dos mercados emergentes, que temiam uma liberalização prematura e as vulnerabilidades que se seguiriam. Certamente, a abertura da conta de capital era do interesse geral das instituições financeiras, mas realmente os banqueiros interessam-se mais sobre países específicos do que sobre o sistema como um todo. Ora os países mais importantes, aos seus olhos, no essencial estavam já abertos “. Por último, Dallara interrogava-se sobre a confiança do sector privado “na capacidade do Fundo em englobar no seu campo de visão simultaneamente o interesse público e os interesses privados. A cultura do FMI, é quase sempre, numa situação dada, a de olhar pelo interesse público. A alteração proposta era de resto um exemplo: embora o projeto se situasse exatamente na interseção do público e do privado, o Fundo, formulando a sua abordagem, praticamente não tinha consultado este último” [88].

A ideia de alterar os Estatutos “veio do interior”, confirma Camdessus  [89] que formulou ele mesmo a proposta e a defendeu. De acordo com Jack Boorman, então diretor do poderoso Departamento da elaboração e de análise das políticas, Camdessus foi “a força motriz” [90].  E para Thomas Bernes, antigo membro do Conselho de administração, a proposta “fazia parte do projeto global de Camdessus” [91].

Este, segundo as suas próprias palavras, aplicava as lições aprendidas na equipa Mitterrand: “O controlo dos câmbios pode permitir às autoridades de um país de isolarem-se, mas apenas por muito pouco tempo. O sistema melhor concebido de controlo e o melhor aplicado será contornado no espaço de seis meses. Os especuladores e os vigaristas são muito espertos. Ao fim de um ano, o controlo dos câmbios não tem mais nenhum outro efeito que não seja o de lesar os mais pobres. Para mim, a experiência francesa do início dos anos 1980 tinha sido muito convincente. Passei depois a defender onde tinha a oportunidade de o poder fazer, que não se pode confiar durante muito tempo no controlo dos câmbios” [92].

Para Camdessus e a sua equipa, o princípio da alteração proposta era adaptar a autoridade do Fundo a uma economia doravante mundializada, a um mundo no qual os fluxos de capitais são bem mais consideráveis que os fluxos comerciais: “O papel do FMI, explica, devia ser o de ajudar os países a adaptarem-se a um mundo novo” [93]. Ele próprio e a direção do FMI ficaram surpreendidos com o levantamento de escudos de proteção que o seu projeto vai suscitar.

Aos olhos de Wall Street e do Tesouro americano, a direção do FMI tentava desesperadamente fazer deste último um ator mais importante na mundialização. Summers qualificou a proposta “de imperativo burocrático” [94]. Há uma tentativa para “dar ao Fundo um bem mais importante papel no sistema financeiro internacional, de o colocar no centro do universo financeiro, de onde estava ausente desde já algum tempo. O Fundo tinha-se visto cada vez mais marginalizado e a sua direção parecia ávida de desempenhar um mais importante papel” [95].

A proposta de alteração teria podido ser bem-sucedida. Mas numerosos membros do Conselho de administração que representam os países em desenvolvimento, incentivados pela crise financeira na Ásia, empregaram-se ativamente a fazer-lhe barragem. E qualquer perspetiva de sucesso finalmente foi reduzida a nada quando importantes deputados democratas da Câmara dos Representantes ameaçaram deixar de apoiar o aumento da contribuição americana para o FMI se o Tesouro não retirasse todo e qualquer apoio americano à alteração proposta  [96]. O Tesouro apressou-se a obedecer; de resto o seu apoio nunca tinha sido muito sólido. Sem a aprovação dos poderes públicos americanos – para já não falar de um consenso no G7 – uma mudança tão importante da arquitetura financeira internacional não tinha nenhuma possibilidade de passar. Tanto mais que os Estados Unidos dispõem de 17% dos votos no FMI (onde todos os países não “pesam” da mesma maneira) e qualquer modificação dos Estatutos deve ser aprovada com uma maioria de 85%. Não tendo mais ao seu lado senão alguns membros europeus do Conselho de administração que permaneciam favoráveis à alteração proposta, Camdessus e a sua direção encontraram-se sem mesmo ter os aliados de que se poderia dizer que eram os seus aliados naturais para uma codificação da mobilidade dos capitais. Em 1999, a proposta estava morta e enterrada. Se a grande maioria dos fluxos mundiais de capitais dependem das regras da UE e da OCDE, os esforços de Camdessus e dos seus colegas europeus para inscrever a mundialização nos códigos de uma organização realmente mundial falharam. Os capitais que vão dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento permanecem governados pela visão americana de uma mundialização ad hoc. Quanto aos outros movimentos, são os Franceses que os organizaram.

A afirmação de que “os franceses” influenciaram a mundialização da finança pode ser compreendida sob dois pontos de vista. Primeiramente, a política oficial francesa relativa à modificação das regras das três organizações aqui estudadas influenciou-a de maneira desproporcionada, e em dois dos três casos foi mesmo decisiva no debate entre Estados-Membros sobre a inscrição nos códigos da liberdade dos movimentos dos capitais. Em segundo lugar, os três franceses citados desempenharam papéis extraordinariamente importantes na formulação das agendas das organizações no que diz respeito à liberalização da conta de capital.

Sob um e outro destes dois aspetos, os franceses desempenharam três papéis sucessivos na internacionalização da finança. Entre 1961 e 1983, fizeram obstrução. Entre 1983 e 1988, deixaram que se fizesse a internacionalização e reservaram-lhe mesmo um bom acolhimento. Por último, em 1988, lançaram-se numa nova missão internacional. Personalidades francesas desempenharam então um papel de primeiro plano no movimento para tornar a mundialização possível.

O paradoxo francês pode explicar-se em parte pela combinação de duas observações simples: uma minoria modernizadora de ministros e de altos funcionários do Tesouro e do Banco de França obteve uma vitória em Paris quando o país se encontrou mergulhado na crise no início dos anos 1980; e quando deixaram o governo para exercer a sua influência nas organizações internacionais que governam a mundialização, estes vencedores generalizaram e para proveito do vasto mundo as políticas que tinham escolhido para a França. Mas, diz-nos Delors, “não havia nenhum plano destinado a liberalizar os movimentos de capitais em todas as organizações internacionais. Não era uma conspiração. Nós, esta minoria modernizadora, partilhávamos uma doutrina comum, que continuámos a defender quando nos encontrámos em funções nas organizações internacionais [97].

Há também, mais fundamentalmente, uma abordagem francesa da mundialização, e embora numerosos investigadores e instâncias de decisão pública não pareçam ter-se apercebido, os Franceses eles mesmos exprimem uma estratégia desde há já muito tempo. Em 20 de Setembro de 1999, o Primeiro-ministro Lionel Jospin declarava na Assembleia Geral das Nações Unidas: “Mais o mundo se globaliza, mais tem necessidade de regras”.

E, como diz Hubert Védrine, um dos pensadores franceses mais influentes sobre as questões internacionais: “A França partilhará a aventura da mundialização, que também será marcada pela França. Toda a nossa política externa gira em redor desta ideia” [98]. No que diz respeito ao sistema financeiro internacional, a França marcou certamente a mundialização estando na linha da frente no que se refere à formulação e à redação das suas regras. A formulação pelos franceses de regras para a liberalização dos movimentos de capitais foi, e é essencial, precisamente centrada na própria existência de regras e na organização que é suposto seguir-se-lhe. De modo que, de acordo com Lamy, “na Europa, nessa época, é a visão francesa que ganhou: a liberalização associada à organização. Os episódios do FMI e da OCDE são análogos; foram tentativas de liberalização e de organização simultâneas” [99].

O tipo de mundialização que temem os Franceses – descontrolada, caso a caso, sem regras – é exatamente o tipo de mundialização que tem a preferência dos Estados Unidos. “Se não há sistema com regras que se impõem aos Estados, então tem-se um problema”, sublinha Lamy [100]. Devido à dominação esmagadora dos Estados Unidos sobre os mercados financeiros, nem Wall Street nem o Tesouro americano vêem razão de pôr preto no branco regras que poderiam um dia ser-lhes opostas. No essencial os resultados que as grandes instituições financeiras ou o Tesouro americano desejariam atingir exigem apenas os recursos americanos. Não tinham certamente necessidade de um Delors, ou de um Chavranski ou um Camdessus para defender a mundialização em seu nome. A abordagem americana de uma mundialização ad hoc, que convém a uma superpotência de ambições económicas estreitas, contrasta fortemente com a abordagem francesa “da mundialização controlada”, estratégia que convém a uma potência média dotada de ambições mundiais. La Fontaine já o tinha referido “É senhor dos lugares quem os organiza”.

Traduzido do inglês por Rachel Bouyssou

 

Rawi Abdelal, editado por Champ Libre e Cairn, Le consensus de Paris : la France et les règles de la finance mondiale. Texto disponível em https://www.cairn.info/revue-critique-internationale-2005-3-page-87.htm

Editado igualmente por Sciences Po  e disponível em: http://www.sciencespo.fr/ceri/fr/content/le-consensus-de-paris-la-france-et-les-regles-de-la-finance-mondiale

 

Notas

[70] Sobre o que significa o facto de pertencer à OCDE, veja-se principalmente Henri Chavranski, L’OCDE au cœur des grands débats économiques, Paris, La Documentation française, 1997, p. 7.

[71] Raymond Bertrand, « The Liberalization of Capital Movements: An Insight », Three Banks Review, 132,1981, p. 3.

[72] Pierre Poret, « The Experience of the OECD with the Code of Liberalization of Capital Movements », trabalho apresentado num seminário do FMI sobre os problemas jurídicos relativamente aos bancos centrais, Maio 1998, p. 5.

[73] Cf. Jeffrey R. Shafer, « Experience with Controls on International Capital Movements in OECD Countries: Solution or Problem for Monetary Policy ? », em Sebastian Edwards (ed.), Capital Controls, Exchange Rates, and Monetary Policy in the World Economy, Cambridge, Cambridge University Press, 1995, p. 123 e segs.

[74] Entrevista com H. Chavranski, citado.

[75] Ibid.

[76] Entrevista com J. R. Shafer, conselheiro para as políticas económicas internacionais, chefe adjunto da secção Economia Geral e chefe adjunto da secção Estudos país por país no Departamento dos Assuntos Económicos da OCDE (1984-1993); adjunto do Secretário americano do Tesouro para os Assuntos Internacionais (1993-1995), depois subsecretário do Tesouro para os Assuntos Internacionais (1995-1997), New York, 12 Agosto de 2004.

[77] Entrevista com Jan Nipstad, presidente do grupo de trabalho conjunto da OCDE sobre a banca e os serviços financeiros ( 1985-1989), Stockholm, 22 abril 2004.

[78] Committee on Capital Movements and Invisible Transactions and Committee on Financial Markets, « Banking and Financial Services: Review and Proposed Amendment of the Code of Liberalization of Capital Movements and Invisible Operations », 14 Fevereiro de 1989, p. 8, DAFFE/INV/89.4 e DAFFE/MC/SF/89.1, Arquivos da OCDE.

[79] L. W. Pauly, Who Elected the Bankers? Surveillance and Control in the World Economy, Ithaca, Cornell University Press, 1997, p. 37.

[80] Estatutos do FMI, artigo VI, secção 3, « Controlo das transferências de capitais  ».

[81] Entrevista com J. de Larosière, citado.

[82] Entrevista com Willy Kiekens, membro do Conselho de Administração do FMI, Washington, 17 Fevereiro 2004.

[83] Entrevista com Charles H. Dallara, diretor geral do IFI, Washington, 26 Maio 2004.

[84] Entrevista com um antigo alto-funcionário do Tesouro, Washington, 6 Outubro 2003.

[85] Entrevista com Lawrence Summers, secretário adjunto ( 1995-1999) e depois Secretário ( 1999-2001) do Tesouro, Cambridge (Mass.), 30 Abril  2004.

[86] Esta posição foi expressa pela primeira vez em « Capital Account Convertibility as an IMF obligation : A Briefing Note for the IIF Board of Directors », nota não publicada, IFI, Washington, 9 Setembro 1997. Um grupo de trabalho do Instituto constituido para analisar a questão chega à mesma conclusão. Depois de ter estudado de muito perto a proposta nos anos de 1997 e 1998. Cf. « IIF Working Group on the Liberalization of Capital Movements : Final Report », nota não publicada, IFI, Washington, 20 Janeiro 2000.

[87] Entrevista com Lex Rieffel, Brookings Institution, Washington, 25 Maio 2004.

[88] Entrevista com C. H. Dallara, citado.

[89] Entrevista com Michel Camdessus, Diretor Geral do FMI (1987-2000), Paris, 19 Abril 2004.

[90] Entrevista com Jack Boorman, diretor do Departemento de elaboração e análise das políticas, FMI (1990-2001), Washington, 23 Setembro de 2003.

[91] Entrevista com Thomas A. Bernes, membro do Conselho de Administração do FMI (1996-2001), Washington, 16 Outubro de 2003.

[92] Entrevista com M. Camdessus, citado.

[93] Ibid.

[94] Entrevista com L. Summers, citado.

[95] Entrevista com C. H. Dallara, citado.

[96] Carta a Robert E. Rubin, secretário de Estado do Tesouro, assinado pelos representantes Richard Gephardt, David Bonior, Nancy Pelosi, Barney Frank, Maxine Waters, Esteban Edward Torres, 1 de Maio 1998 (wwww. house. gov/ frank/ imfletter. html).

[97] Entrevista com J. Delors, citado.

[98] Hubert Védrine, Dominique Moïsi, Les cartes de France à l’ère de la mondialisation, Paris, Fayard, 2000. Citação traduzida da versão inglesa, France in an Age of Globalization, Washington (DC), Brookings, 2001, p. 45.

[99] Entrevista com P. Lamy, citado.

[100] Ibid.

O autor: Rawi E. Abdelal, doutorado pela Universidade Cornell, é professor de Gestão Internacional na Escola de Gestão da Universidade de Harvard e diretor do Centro de Estudos Russos e Euroasiáticos. Especializado em economia política internacional, a sua investigação centra-se na política de globalização e a economia política da eurásia. O seu primeiro livro, National Purpose in the World Economy, sobre as relações internacionais entre a europa de leste e a antiga União Soviética, obteve o prémio Shulman de 2002.

O seu segundo livro, Capital Rules, explica a evolução das normas sociais e das regras legais do sistema financeiro internacional. Também editou ou co-editou três livros: The Rules of Globalization, uma coleção de estudos da Harvard Business School sobre negócios internacionais; Measuring Identity; e Constructing the International Economy. Atualmente está a trabalhar em The Profits of Power, um livro que analisa a geopolítica da energia na Europa e Eurásia.

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