A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 7. A leitura de Stuart Holland – De Delors a Guterres – e Macron: políticas alternativas para a Europa (2/2)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

7. De Delors a Guterres – e Macron: políticas alternativas para a Europa (2/2)

Stuart_Holland Por Stuart Holland, em janeiro de 2019

(conclusão)

Brandt, Kreisky, Clinton e Guterres

Dani Rodrik afirma nas suas recentes posições que houve uma abdicação intelectual da esquerda europeia que: “do Syriza, na Grécia, ao Partido dos Trabalhadores, no Brasil, a esquerda falhou em apresentar ideias que sejam economicamente sólidas e politicamente populares, além de políticas melhoradoras, tais como transferências de rendimento”.

Mais uma vez, isto significa que Rodrik está unsuficientemente informado sobre esta questão. Os seus erros em relação ao Syriza são abordados mais adiante neste texto. Mas afirmar que a esquerda latino-americana não tinha uma estratégia face à globalização ignora o papel de todos os partidos de esquerda na região, e nas Caraíbas e na América Central, no apoio às iniciativas políticas da Internacional Socialista desde o início dos anos 80.

Em 1982, Bruno Kreisky, chanceler da Áustria, e Willy Brandt, antigo chanceler alemão e então presidente da Internacional Socialista – IS – convocaram uma reunião em Viena de representantes dos partidos socialistas e social-democratas. Willy Brandt estava preocupado com o facto de o relatório de 1980 da Comissão Norte-Sul a que presidiu não ter tido nenhum impacto político e defendia que a IS deveria aprofundar e alargar esta questão. 

O resultado foi um Comité Económico da Internacional Socialista que se formou rapidamente e cujos membros europeus, nomeados pelos seus partidos, eram na sua maioria membros da rede IPSE. Esta rede obteve a participação activa e o apoio de Michael Harrington, membro fundador dos Socialistas Democratas da América, que na altura tinha defendido perante Bernie Sanders que os EUA, tal como a Europa, precisavam tanto de democracia como de socialismo (Harrington, 1976). 

Mas esta visão da IPSE também chegou ao Sul uma vez que quase metade dos membros da Internacional eram de países  da América Latina ou Central ou do Caribe. Uma figura chave neste processo foi Michael Manley, ex-Primeiro-Ministro da Jamaica, que presidiu aos  primeiros grupos de trabalho seguido por um relatório Global Challenge, publicado em seu nome e em nome de Willy Brandt Brandt (Brandt-Manley, 1985).

O relatório Global Challenge acompanhou a estrutura analítica do projeto IPSE Sair da Crise ao afirmar a necessidade de reverter as políticas de ajustamento  estrutural 3D – deflacionar, desvalorizar e desregular – do FMI e do Banco Mundial com uma agenda 3R: reestruturar o desequilíbrio entre o poder económico privado e público, redistribuir riqueza e rendimento  e recuperar as economias através de investimentos financiados por títulos nas esferas sociais de saúde, educação, renovação urbana e proteção ambiental. Este relatório foi traduzido para espanhol (IS, 1986) e apoiado por mais de 160 partidos políticos da Internacional Socialista – principalmente europeus e latino-americanos – em Lima em 1986.

O mesmo quadro analítico de reestruturação, redistribuição e recuperação, o modelo 3R, esteve na base de um relatório que fiz para Delors em 1994 sobre a hipótese de um Novo Bretton Woods (Holland, 1994). Neste, critiquei o Plano Keynes de 1943 com o argumento de que, tal como Ricardo (1817), ele tinha assumido que o comércio era realizado entre diferentes empresas de diferentes países e tinha apoiado o princípio das vantagens comparadas de Ricardo. Enquanto que, já anteriormente, o comércio era, e seria cada vez mais, entre as mesmas empresas em diferentes países, através do investimento direto estrangeiro. Enquanto Keynes, apesar de ter conhecido Bertil Ohlin, negligenciava a sua argumentação (Ohlin, 1933) de que o investimento direto estrangeiro poderia substituir as exportações de um país de origem. 

Considerei também que isto poderia ter múltiplos resultados negativos, incluindo a desindustrialização nos países de saída do investimento direto estrangeiro, o que era então o caso do Reino Unido e tem sido desde então o caso dos EUA, no que Donald Trump obteria vantagens políticas na sua campanha contra a globalização, mesmo que tenha sido confuso sobre as suas pretensas soluções. Garantindo essa proteção contra as importações provenientes da China, o que então defendeu enquanto candidato presidencial, Trump ignorou que uma elevada proporção das exportações chinesas para os EUA provém de empresas americanas localizadas na China (McKinsey, 2010; Holland, 2015, 2015b).

O relatório de 1994 sobre um Novo Bretton Woods apresentado a Delors propôs, portanto, uma estrutura conceptual pós-Ricardiana e pós-keynesiana para a governança global. Isto então foi levado à consideração de Bill Clinton. Não pelos meus próprios esforços, mas através do jornalista americano Cody Shearer, próximo de Bill e de Hillary, que me visitou em Londres e em que me pediu cópias do relatório sobre coesão publicado em 1993 e do relatório de 1994 sobre Novo Bretton Woods enviado a Delors, com a intenção de os entregar a Bill Clinton.

Eu respondi dizendo que era improvável que ele lesse qualquer um deles e que quando fui conselheiro de Harold Wilson nunca lhe escrevi um memorando que tivesse mais de uma página e meia, mesmo que pudesse haver um anexo. Cody respondeu-me que eu poderia fazer uma breve nota informativa mas que ele também precisava de cópias de ambos os relatórios enviados a Delors para mostrar a Clinton que o repensar da esquerda europeia e internacional, até aí desenvolvido não só na iniciativa Sair da Crise, IPSE, com Delors mas também assumido pela Internacional Socialista, era substancial.

O resultado foi que Bill escolheu na sua primeira visita à Europa dar prioridade como Presidente a visita a Delors em Bruxelas para afirmar o seu apoio para um Novo Bretton Woods, ideia que ele então apresentou na sua primeira reunião do G7 em Nápoles em 1994. O fracasso desta reunião não foi do ponto de vista da análise política. Este fracasso foi devido ao facto de que os então Chefes de Governo da UE não deram seguimento ativo a este processo. Nem foi surpreendente que, com tão escasso apoio à sua iniciativa, Clinton não a tenha relançado. Ele tinha, portanto, pouca ou mesmo nenhuma base internacional para contrariar outras pressões a favor da globalização neoliberal.

No entanto, quando foi o Primeiro-Ministro de Portugal de 1995 a 2002, António Guterres, atual Secretário-Geral da ONU, não só ganhou novos termos de referência social e ambiental para os investimentos do BEI como fez com que o seu financiamento ultrapassasse o do Banco Mundial. Sucedeu também a Willy Brandt como Presidente da Internacional Socialista. António Guterres queria levar a nível internacional e o mais longe possível o processo do triplo R, Retoma, Reestruturação e Redistribuição, estabelecido nos relatórios “Sair da Crise”, de 1983, e “Desafio Global”, de 1985 que incidiam sobre os três R

O outro resultado, primeiro com Brandt e depois com Guterres, foi a publicação de dois relatórios, o Relatório Brandt-Manley de 1985, e um segundo que foi uma atualização do mesmo, em ambos os casos apoiados por mais de 160 partidos da Internacional Socialista em Lima, em 1986, e depois em Nova Iorque, em 1996. No Congresso de Nova Iorque, que contou com a presença de observadores da China, Índia e União Soviética que tinham analisado o relatório Global Challenge, Felipe Gonzalez denunciou a rejeição do neoliberalismo afirmada no relatório, considerando ele que o principal inimigo da classe trabalhadora era a inflação e que a luta contra esta deveria ser a principal prioridade da esquerda.

Leonel Brizola, líder do Partido Trabalhista Democrático Brasileiro, na sua intervenção no pódio apoiou totalmente o programa de 1996 e denunciou Gonzalez afirmando que se ele estava a oferecer uma luta contra a inflação ao custo de até 20% de desemprego como teve quando foi governo, então  não estava a oferecer  nada, e deveria renunciar ao cargo de líder do PSOE, que era suposto ser o Partido Socialista Operário Espanhol.

Além disso, o partido sob a liderança posterior de Lula não tinha falta de uma estratégia nacional ou internacional de longo prazo. Ele apoiou fortemente as Declarações de Lima e de Nova Iorque da IS e, quando no governo, usou as emissões de títulos do BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social para impulsionar a recuperação económica. A Lula e a outros na América Central e Latina não faltaram programas mas, quando os tinham foram desestabilizados pelos EUA, não só no Chile, mas também na Nicarágua, Honduras e outros lugares (Holland & Anderson, 1984).  Assim como o mais recente golpe de Estado que depôs a sucessora de Lula, Dilma Rousseff.

Não é a alegada falta de estratégia da Syriza

Dani Rodrik rejeita o Syriza no seu documento sobre a alegada abdicação da esquerda intelectual, publicado em Julho de 2016. Nessa altura, presumivelmente já tinha ouvido falar de Yanis Varoufakis, uma vez que uma grande parte do resto do mundo já tinha ouvido falar dele, quando se tornou ministro das Finanças da Grécia, seis meses antes. No entanto, se ele tivesse  aprofundado mais a sua análise, também poderia ter lido pelo menos uma das várias versões  do texto The Modest Proposal, de Yanis e de mim  próprio, que vem desmentir totalmente a sua afirmação de que o Syriza “falhou em apresentar ideias que sejam  economicamente sólidas e politicamente populares, além de políticas melhoradoras, tais como transferências de rendimento”.

É compreensível que Dani Rodrik possa muito bem não ter sabido que, aquando de uma conferência em Austin, Texas, em Novembro de 2013, Alexis Tsipras tinha feito, nesse ano, da última versão The Modest Proposal, de Yanis , de mim próprio e de James Galbraith,  a base da posição negocial do que em breve seria um governo Syriza. Mas muito disso foi transmitido a uma grande parte do povo grego. Yanis repetidamente defendeu The Modest Proposal nos meios de comunicação gregos, o que levou a que este texto obtivesse uma ampla ressonância. Assim, quando houve um referendo na Grécia, em julho de 2015, sobre a aceitação ou não do programa de austeridade alternativo em que a Troika insistia, os que votaram rejeitaram-no em mais de 60%. Como pode Dani não ter percebido que as alternativas à austeridade – e ao neoliberalismo – como defendido por Yanis, eram tão credíveis para o povo grego?

Uma das principais ideias de Modest Proposal era de que uma recuperação financiada por euro-obrigações, segundo o modelo do New Deal dos EUA, é viável sem alterações ao Tratado, sem transferências fiscais entre os Estados-Membros e, portanto, também sem uma “união cada vez mais estreita”. Sublinhou que a Grécia, tal como outras economias periféricas da zona euro, não poderia entrar em situação de retoma da sua economia sem que houvesse uma retoma das economias do resto da Europa. Além disso, deveria haver uma moratória no pagamento da dívida contraída pelos governos para salvar os bancos da sua loucura de especular com os títulos subprime e outros produtos derivados. Além disso, também, uma parte da dívida nacional superior a 60% do limite de Maastricht poderia ser mutualizada no sentido de uma conta de depósito na zona euro, que poderia ser sujeita a encargos de dívida mas não podia ser utilizada para crédito, que era como a Alemanha tratou a dívida pendente da RDA aquando da reunificação (Holland, 2016).

A este respeito, as primeiras versões de Modest Proposal de Yanis e de mim  próprio (2010, 2011) atraíram a atenção do Comité Económico e Social da UE – composto por representantes dos empregadores, sindicatos e membros da sociedade civil. Quando elaborei um relatório com base na Modest Proposal  (CESE, 2012), o seu grupo de trabalho, com apenas três abstenções, aprovou-o sem reservas. Neste grupo de trabalho estavam incluídos todos os representantes dos empregadores – incluindo os dos empregadores alemães que o defedneram. O que, na altura, influenciou Jean-Claude Juncker, que veio assistir ao seu lançamento, e defendeu a emissão de  euro-obrigações, com base no Livro Branco de Delors de 1993, o primeiro dos seus dez compromissos perante o Parlamento Europeu em junho de 2014, recomendando inicialmente um programa de recuperação económica  financiado por obrigações do BEI no montante de 300 mil milhões de euros, antes de o reduzir até Novembro, sob pressão de Wolfgang Schäuble, para apenas 5 mil milhões de euros, mais um  multiplicador assumido de dez, o que é uma hipótese perfeitamente ridícula. (Holland, 2016)

Além disso, a uma hora da vitória do Syriza nas eleições gerais de Janeiro de 2015, Wolfgang Schäuble declarou: “A eleição não muda nada… Não há alternativa às reformas estruturais”, sublinhando que a Grécia deve “respeitar as regras”. Jeroen Dijsselbloem, o presidente holandês do Eurogrupo formado pelos ministros das Finanças da zona euro, recusou-se a permitir que a argumentação do Syriza, segundo o qual a retoma da economia grega dependia da retoma das restantes economias europeias, fosse considerado para discussão. Apesar de tal recuperação ser vital não só para a Grécia, mas também para os outros estados membros da zona euro que estavam a sofrer de altos níveis de desemprego, e especialmente de desemprego juvenil, com mais necessidade de o reduzir do que apenas a dívida. Como disse Yanis:

“Na minha primeira semana como ministro das Finanças, fui visitado por Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo (os ministros das Finanças da zona euro), que me colocou pela frente uma escolha difícil: aceitar a “lógica” do resgate e abandonar quaisquer pedidos de reestruturação da dívida ou o seu acordo de empréstimo iria “cair” – a repercussão não dita é que os bancos da Grécia ficariam bloqueados”. (Varoufakis, 2015).

Mas, embora Wolfgang Schäuble tenha declarado que a Grécia deve “respeitar as regras”, com que autoridade e com que regras propõe ou decide o Eurogrupo? Como Yanis sublinhou:

“A zona euro é gerida por um órgão (o Eurogrupo) que não dispõe de um regulamento interno escrito, onde os debates sobre questões cruciais permanecem “confidenciais” e sem atas, e em que não se é obrigado a responder perante qualquer órgão eleito, nem mesmo perante o Parlamento Europeu”. (Varoufakis, ibid).

O que emergiu após a reunificação alemã foi menos a Alemanha europeia, que tinha sido a aspiração de chanceleres como Adenauer, Brandt, Schmidt e Kohl, do que uma hegemonia ideológica e política alemã.  O antigo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, tinha feito eco deste facto após a rejeição por Wolfgang Schäuble do “No vote” no referendo grego de Julho de 2015. Como Fischer escreveu:

 “O caminho que a Alemanha seguirá no século XXI – rumo a uma ‘Alemanha europeia’ ou a uma ‘Europa alemã’ – tem sido a questão histórica fundamental no coração da política externa alemã durante estes dois séculos. E esta questão foi respondida durante a longa noite de negociações sobre a Grécia, de 12 a 13 de julho, com uma Europa alemã a prevalecer sobre uma Alemanha europeia”. (Fischer, 2015).

Mais recentemente, o líder do SPD, o ministro da Economia e Energia e vice-chanceler da Alemanha, Sigmar Gabriel, afirmou que os grandes esforços de países como a França e a Itália para reduzir os seus défices orçamentais comportavam riscos políticos e que uma rutura da UE já não era impensável, declarando o seguinte:

“Uma vez perguntei à chanceler, o que seria mais caro para a Alemanha: permitir que a França tivesse mais meio ponto percentual de défice ou que Marine Le Pen se tornasse presidente? Até hoje, ela ainda me deve uma resposta”. (Reuters, 2017).

Mas se houver uma tal rutura, sobretudo após a votação do Brexit no Reino Unido, não será porque a esquerda europeia não tenha tido estratégias para desafiar o neoliberalismo. 

Terceira Via e Caminhos Perdidos

O que minou inicialmente a esquerda europeia não foi apenas a prioridade dada por Felipe Gonzalez à luta contra a inflação, mas também o apoio de Blair e Schröder à  ideia de Anthony Giddens (1998) de uma  “Terceira Via” que é a quase única argumentação válida de Sheri Berman ao escrever que isto “deixou muitos cidadãos a pensar porque razão é que se devem dar ao trabalho de votar na social-democracia ou nos partidos considerados de  centro-esquerda”. Mas esta não era a política oficial dos grandes partidos da esquerda europeia, pelo menos até Oscar Lafontaine, ministro das Finanças do primeiro governo Schröder, se ter demitido, no intervalo de poucas semanas, em protesto contra a insistência de Schröder nas políticas neoliberais e fundou o novo partido alemão de esquerda, o Die Linke.

Ralf Dahrendorf (1999), um dos antecessores de Giddens como diretor da London School of Economics, lamentou a sua utilização do termo “via intermédia”, sobretudo desde Mussolini durante vinte anos, Franco durante quarenta anos e Salazar em Portugal durante ainda mais tempo, o terem utilizado para legitimar uma alternativa não democrática ao capitalismo não regulamentado ou ao comunismo totalmente regulamentado.

Mas Dahrendorf fê-lo não só por estes motivos. Com razão, afirmou que Giddens simplesmente não tinha demonstrado que os princípios ou práticas do mercado realmente proporcionariam bem-estar, inclusive para aqueles que são socialmente excluídos dos mercados de trabalho por falta de formação, saúde precária, idade, raça ou desemprego estrutural. Schröder, durante a sua permanência como Chanceler, recorreu à ideia da Terceira Via para legitimar uma redução da influência do trabalho, incluindo as alterações Hartz aos direitos sociais e laborais que permitiram à Siemens e a outras empresas quebrar o dique do modelo alemão de parceria social em 2004, exigindo e obtendo 4 a 5 horas adicionais por semana sem aumento de salário (Oliveira & Holland, 2017). O que reduziu a procura interna na Alemanha e, portanto, a sua procura de importações que são as exportações de outros estados membros.

Deslocamento, Negação e Incompetência

A emergente hegemonia ideológica e económica da Alemanha após a reunificação foi então agravada por uma combinação de deslocamento, negação e incompetência. Deslocamento pelo facto de que uma retoma da economia financiada por obrigações não tinha necessidade de garantias nacionais ou de transferências fiscais dos estados membros, negação por parte de ministros das finanças como Wolfgang Schäuble de que a austeridade não estava a funcionar e incompetência em inventar novas instituições que não eram necessárias.

Uma exceção foi o ex-ministro das finanças francês Pierre Moscovici, depois Comissário para a Economia e Finanças, que afirmou em Julho de 2014 que o financiamento por euro obrigações para relançar o investimento era altamente viável, uma vez que não precisava de novas instituições ou revisões de tratados (Holland, 2016). Mas, como não se aperceberam de que os empréstimos do BEI e do FEI não precisam necessariamente de contar para a dívida nacional no sentido de Maastricht, tal não foi claro para todos os ministros das Finanças. Por exemplo, uma proposta de recuperação apresentada pelo Ministro das Finanças polaco, Mateusz Szczurek no Instituto Brueghel, em Setembro de 2014, era excelente, nomeadamente ao reconhecer que a flexibilização da política monetária não estava a funcionar e ao salientar a grande importância dos multiplicadores de investimento. No entanto, o seu argumento de que esta medida teria de ser financiada por um novo veículo específico – um Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos no âmbito do Grupo BEI – não era fundamentado.

É compreensível que Mateusz tenha apresentado que o fundo por si proposto seria diferente do Fundo Europeu de Investimento que eu tinha recomendado a Delors, e que foi criado em 1994, em que:

“O FEI tem apenas 4,5 mil milhões de euros de capital e facilita o acesso das PME ao financiamento através de instituições intermediárias com um horizonte de investimento mais curto”. (Szczurek, 2014). 

Isto é correto em termos de capital do FEI, mas é errado ao negligenciar os seus estatutos em vez de os ter aparentemente lido na Internet o que presumia ser as suas competências. Assim, o Artigo 2.1 dos seus estatutos determina o seguinte: “A missão do Fundo consiste em contribuir para a prossecução dos objetivos comunitários”. O artigo 2.2 especifica que: “As atividades do Fundo podem incluir operações de obtenção de empréstimos”. Isto permite-lhe proceder às suas próprias emissões de obrigações, que poderiam ser as obrigações da UE que Delors incluiu no seu Livro Branco de Dezembro de 1993.

Não eram necessárias novas instituições.

Que a emissão de obrigações  para financiar  o investimento na retoma da economia  não precisava de novas instituições também foi assumido num documento da Fundação Robert Schumann (Schumann, 2014) em que se criticou o que era então uma infinidade de propostas a defenderem  que os títulos para financiar a retoma precisariam de novas instituições. Este documento da Fundação   foi excecional ao salientar, em pormenor, os papéis complementares do Banco Europeu de Investimento e do Fundo Europeu de Investimento, incluindo demonstrações de que os projetos de investimento do BEI poderiam ter multiplicadores de 2,5 a 3, ou seja, duas a três vezes mais elevados do que a maioria dos multiplicadores orçamentais.

Macron

Enquanto um candidato presidencial, François Hollande já conhecia os argumentos das obrigações a favor da mutualização da dívida e do financiamento para a retoma da economia  europeia, através do seu conselheiro económico Emmanuel Macron, que tinha compreendido que as obrigações do FEI podiam atrair excedentes globais dos fundos soberanos e compreendeu muito bem que as obrigações complementares do BEI e do FEI podiam atingir  o equivalente às obrigações do Tesouro dos EUA,  sem contar para a dívida nacional no sentido de Maastricht e sem  exigir a necessidade de garantias nacionais, nem de revisões dos Tratados, nem de transferências fiscais (Euroactiv/fr, 2011; Holland, 2016).

Ao tornar-se Ministro da Indústria e da Economia de François Hollande, Macron defendeu em setembro de 2014 que, para compensar o baixo capital subscrito do FEI, a UE deveria ter acesso e utilizar recursos não utilizados do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), o fundo de 80 mil milhões de euros criado no início da   crise da zona euro para salvar Estados à beira da falência. Citando corretamente a complementaridade entre o Fundo Europeu de Investimento e o Banco Europeu de Investimento e os multiplicadores de investimento, um funcionário francês, falando em nome de Macron aos repórteres, afirmou o seguinte: “Se conseguirmos mobilizar 20 a 40 mil milhões de euros do MEE, por exemplo para recapitalizar o FEI, teremos um efeito multiplicador sobre o BEI que poderá atingir quase 200 mil milhões de euros de fundos públicos” (Les Echos, 2014).

Alguns destes aspetos podem não ser claros para um leitor que não esteja familiarizado com as instituições aqui relevantes. Mas Wolfgang Schäuble não perdeu de vista, pois compreendeu muito bem o que estava em jogo – tanto um desafio de Macron à hegemonia ideológica e política alemã como uma força potencial para se avançar para além da austeridade. Por isso, opôs-se à utilização do Mecanismo Europeu de Estabilidade para recapitalizar o Fundo Europeu de Investimento, alegando que não era esse o objetivo do MEE. Mas esta argumentação é fraca, e tem sido contestado pela consultoria jurídica no Parlamento Europeu segundo a qual o MEE também “pode realizar outras tarefas” (De Witte, 2012),

O que estava e está em causa é que as propostas de Delors da década de 1990 podem efetivamente ser implementadas e podem levar a que haja uma retoma ao nível do emprego europeu e de confiança na democracia, como fez o New Deal. Mas há também uma outra mensagem nestes últimos pontos sobre Macron relativamente às afirmações mal-informadas de Dani Rodrik e Sheri Berman. A de que Macron tem vindo a apoiar ardentemente e a procurar atuar na base de uma agenda que teve origem na esquerda, desde Delors até Guterres, o que dificilmente é prova de uma “abdicação intelectual” da social-democracia europeia, mas sim do grau em que a sua defesa de um New Deal europeu ganhou o apoio também de alguém que é agora o chefe de Estado da França. O quanto isso pode ser ou não ser importante depois dos protestos dos Coletes Amarelos, completamente justificados, pode pois ser agora questionado. Mas o que não pode ser questionado é que o declínio da social-democracia não é nem deveria ser de ordem intelectual.

 

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O autor: Stuart Holland (1940-) estudou e ensinou história e teoria política em Oxford, antes de aí obter um PHD em Economia. É professor convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e durante algum tempo foi professor no Instituto Universitário Europeu de Florença e investigador principal no Instituto de Estudos Avançados, Köszeg, Hungria.

Bem conhecido nas chancelarias, foi conselheiro de Harold Wilson para os assuntos europeus e teve a concordância de De Gaulle para uma 2ª candidatura britânica à Comunidade Europeia com base num processo de decisão confederal, apoio monetário mútuo e defesa de uma Comunidade Tecnológica Europeia ideia que só agora foi recuperada em propostas conjuntas da França e da Alemanha.

Demitiu-se de 10 Downing Street quando Wilson não quis levar até ao fim os pontos de vista aceites por De Gaulle, foi co-autor dos programas económicos do Partido Trabalhista de 1972 a 1982, incluindo a conceção das agências de desenvolvimento da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte. A sua investigação inicial foi sobre a teoria do desenvolvimento regional, onde a sua análise da assimetria nos fluxos globais de capital e trabalho conduziu a um dos três principais modelos de desenvolvimento desigual na globalização, juntamente com Stephen Hymer e Gunnar Myrdal.

Recentemente, ganhou visibilidade internacional como co-autor a partir de 2010, juntamente com Yanis Varoufakis de várias edições da “The Modest Proposal for Resolving the Eurozone Crisis”, recuperando a sua recomendação a Delors em 1993 para que a União Europeia emitisse Eurobonds na linha do New Deal dos EUA, como um meio fundamental para promover a coesão económica e social. É autor de numerosos artigos e livros, os mais recentes dos quais são Beyond Austerity: Democratic Alternatives for Europe, Editado por Spokesman Books, em Nothingham e Contra la Hegemonia de la Austeridad Arpa Editores. Madrid.

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