A GALIZA COMO TAREFA – leis de ferro – Ernesto V. Souza

Arredor a gente caminha, ou está parada, vai nos carros particulares ou nos transportes públicos, aguarda pelos comboios, pelas aulas, petisca nos parques e perto das portas dos espaços comerciais, nas esperas de médicos, no super-mercado. Em qualquer parte e situação a sua atenção está fixa no telefone. Trabalham, conversam, compram, encaminham ou solicitam documentos e produtos, interatuam, comunicam-se, gostam, apaixonam-se, brigam, reportam, gerem qualquer necessidade.

Primeiro nos postos de abastecimento nas auto-estradas e estradas, depois nos grandes super-mercados, hoje nas lojas, nas bibliotecas, na administração, amanhã na banca e na empresa, por toda a parte vão aparecendo os ecrãs de auto-serviço e pedido automatizado, também as caixas de auto-pagamento, com cartão ou telefone. As informações podem-se obter sobre a marcha ou in situ por códigos QR, ou interatuando com auto-colantes, cartões, leitores, dispositivos RFID.

Isto tudo antes eram postos de trabalho. Locais, balcões, pontos de serviço e informação, escritórios, mesas, registos de entrada e saída, translado, gestão, arquivo, consulta, informação, bilhetes. Eram trabalhadores.

A revolução tecnológica está a implicar mudanças de processos de gestão, administração, arquivo, traçabilidade, logística, armazém, serviços. Não se precisam mais espaços físicos, geográficos nem hierarquias especializadas, a comunicação vai do usuário/cliente ao serviço automatizado no possível, via apps e sucessões, em ecrã tátil, de grandes ícones gráficos, que o usuário opera e que se motiva e incentiva a operar.

O pessoal apenas é necessário em mínima expressão, especializado em ler os dados na procura do segundo ganho, do aforro de material, de passos no processo; atento em movimentar as filas, em fazer andar os sistemas, em mantê-los em andamento perpétuo;  para solucionar imprevistos e atender utentes torpes, idosos ou sem iniciação, ou para efetuar correções e reparações de urgência. Externaliza-se no possível, os assalariados são deslocados por falsos autónomos.

Josan Gonzalez

Future is Now (Josan Gonzalez)

Desaparece o papel moeda e o metal, o tintinar agitado que se ouve já não é o das máquinas nem dos chafarizes de moedas que se contam, é o eco da canção absurda das leis de ferro dos ordenados e da oligarquia. Deslocação, exploração, feches, capitalismo como ideologia. Desaparecem os direitos laborais, sindicais, os benefícios sociais, sanidade, cultura e as pensões.

O tempo é dinheiro e o dinheiro percorre o mundo como um lóstrego de dados e operações. Os alimentos individualizam-se em plástico, para pronto consumo entre trajetos. A austeridade é uma ideologia que invade os sentidos como qualquer discurso religioso de mil púlpitos luminosos. Numa urgência perpétua, sem alegria, como destaca Marilynne Robinson, caminhamos cara a velhice. Ter família é um luxo, filhos e avós, apenas são possíveis externalizando e deslocando o trabalho que levam.

Não resulta difícil imaginar, por um momento, que está a começar uma outra revolução industrial, que será igual de brutal que aquela das fábricas dos meninos e meninas ingleses, mas desta volta tecnológica, e no canto da indústria e os operários industriais vai afetar aos setores da administração e serviços.

Provavelmente, como as árvores com as fragas de antano, os telemóveis não deixam ver a mudança económico-tecnológica que está a chover por nós, em silêncio, calada e imparável, animada por discursos e propagandas de modernidade, liberdade, darwinismo social e benefícios imediatos e populares a um click, que porém só serão os de alguns poucos. 

 

One comment

  1. Abanhos

    O futuro é um novo neofeudalismo, acredita

    Gostar

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