CARTA DE BRAGA – “do preço e do valor” por António Oliveira

O naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913) tem sido apontado às vezes, como co-autor da teoria da selecção natural.

Tal confusão terá nascido do facto de Wallace ter enviado a Darwin um ensaio onde sugeria o mecanismo já por ele estudado – a tal selecção natural – mas que Darwin decidiu enviar também à Academia a acompanhar o resumo de ‘A origem das espécies’.

Os dois textos foram impressos como uma contribuição conjunta para o estudo da evolução das espécies, beneficiando de Wallace já ser conhecido como pioneiro nos estudos das cores e da biogeografia, tanto no reino animal como no vegetal.

Não pretendo entrar aqui na análise de valias e autorias, prefiro situar-me numa crítica que Wallace terá ouvido a um indígena de uma das regiões por onde andou, quando viu o cientista capturar uma borboleta magnífica pelos reflexos dourados das asas ‘Que coisa tão triste! Prender a beleza!

E acrescentou (ou terá sido acrescentado pelo autor desta estória) ‘A borboleta é a beleza em movimento e quem ama a vida, também deve devoção à borboleta!

Creio poder afirmar que estórias como esta nos vão ficando cada vez mais longe dos olhos e dos ouvidos, ‘por estarmos a viver uma época de alterações e mudanças profundas, numa sociedade de risco, como se estivéssemos num vulcão em erupção, por tudo se estar a movimentar, devido a esse populismo que se define a si próprio como uma espécie de democracia de base, de Twitter

E mais avisa o filósofo Rudiger Safransky, também biógrafo de Goethe e Schopenhauer, ‘os populistas querem eliminar as instituições tradicionais da democracia e dar o domínio às redes sociais. Elas já mandam, é até tremendamente moderno, mas só estamos a viver a imoralidade da comunicação!

Daí o desaparecimento das estórias que remetam para a singeleza da oralidade e do passado.

Um problema também referido por Italo Calvino em ‘Seis propostas para o próximo milénio’, ‘Por vezes, parece-me que uma epidemia pestilencial atingiu a humanidade na faculdade que mais a caracteriza, no uso da palavra, uma peste da linguagem que se manifesta como perda da força cognitiva

Força cognitiva que, tudo leva a crer, é também a companhia preferida da falta de memória, provocada tanto pelo abandono do estudo das Humanidades e disciplinas como a Filosofia e a História, a juntar à desistência da prática da leitura e até da conversa, bem notória nos tempos que vivemos.

Não me custa evocar aqui também Confúcio, por ter afirmado, há mais de dois mil anos, ‘existem três caminhos para a sabedoria: a imitação, o mais simples, a reflexão, o mais nobre e a experiência, o mais amargo

As ideias do talvez mais influente filósofo chinês, que viveu no séc. V A.C., chegaram através dos diálogos, frases e provérbios guardados e divulgados pelos seus seguidores e que chamam a atenção para os valores da justiça e da ética, tanto no relacionamento entre os homens, como nos deles com a natureza.

E volto a isto tanto pela bonita crítica daquele indígena ‘que coisa tão triste, capturar a beleza!’, como por lembrar Lamberto Maffei, médico e cientista italiano, no ensaio ‘Elogio da palavra’, ‘o sagrado foi criado pelo homem a partir do seu deslumbramento perante a natureza, aquilo que ele podia e pode criar na arte e na ciência, por a ciência também ter a sua aura, que tem vindo a desaparecer progressivamente

Hoje, neste mundo dos ‘cabeças baixas’ dos smartphones, o caminho preferido para a sabedoria parece ser apenas o mais fácil, o da imitação, por se saber o preço de tudo e o valor de nada!

Não cabe nem interessa à ridícula dimensão de um tweet!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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