A GALIZA COMO TAREFA – ano V – Ernesto V. Souza

Semana após semana foram passando os meses até serem cinco os anos. Já choveu e quanto, mas menos que noutros lustros e vão na tela, uma cheia de posts, um monte de palavras, caracteres e espaços com ilustrações. Não lembro exatamente como foi, mas sim que o assunto era dos importantes,  e que o bom do Carlos Durão me embarcou neste navio, onde outro Carlos, o bemquerido Loures, ofertava um posto na tripulação para galegos.

Em 22 de outubro de 2014, o próprio Loures, anunciava deste jeito afetuoso e hospitaleiro a nova seção:

A partir de amanhã, todas as quintas-feiras, pelas 18 horas, apresentaremos esta nova rubrica de Ernesto V: Souza que, semana a semana, nos falará sobre a Galiza, as suas gentes, a sua história milenar, a sua cultura, a sua língua… A sua língua?- Melhor é dizer, a nossa língua – o galego-português que, naquelas terras de além-Minho, nasceu. Pela mão de um galego, iremos conhecer melhor a nossa irmã Galiza.

A Galiza é tarefa de todos..

Dá cousa ler. Arrepia, sim, obrigado. A Galiza é tarefa de todos… e esta tem sido a sua e a minha casa todo este tempo, recebendo sempre esta curiosidade generosa e fôlegos carinhosos para continuar a escrever.

A minha primeira colaboração na Viagem dos Argonautas foi, efetivamente, o 23 de outubro de 2014. E deste jeito e aos poucos fomos navegando em tão fantástica companha e apurando a escrita. A cita semanal, mudou de horas e não sempre foi cumprida, por desânimos vários, ausência de musa, canseira ou outras ocupações, porém e contra o prognóstico foi-se prolongando numa sucessão de escritas diversas e não sempre de tema estritamente galego ou para construir a Galiza como o título da seção destaca.

Bom, isto, mais que publicidade enganosa, é questão também da dispersão e interesses vários e mudáveis de quem escreve, normalmente às carreiras, por cumprir o compromisso. E também por uma tendência a ir atando cabos e deixando o próprio leitor o prazer de estabelecer as conexões, de jeito pausado e discreto, o que sempre exige alguma reviravolta ou desvio, necessária, para estabelecer contextos.

A tendência, talvez por empacho de leituras de Sarmiento e Feijó, é escrever no modelo e estilo do Teatro crítico, com geometrias complexas e plano imenso, adubiada a prosa com alusões, alegorias continuadas, numa relação com o escrito e com o – se damos e chegamos – por escrever; e também com reiterações para aclarar conceitos escuros ou que o leitor – sempre atento – nos reclama para explicação. Enfim, isso tentamos, que as palavras sejam galegas, claras e que signifiquem, que digam o que queremos dizer e que o dito tenha harmonia e substancia: Ne sit locus surdus.

Tiene el Teatro Crítico en su construcción la principal circunstancia, que en un Teatro material pedía Vitruvio: Ne sit locus surdus {(a) Vitruv. lib. 5, cap. 3, &c.}. Tal simetría debe tener un Teatro, que ni la más mínima voz se pierda, ni deje de oírse la más remisa. A poco que se altere la estructura, se alterará la voz. Si se combinan los sillares para describir otra figura de aquella, que para su progreso, aumento, y conservación pide la voz, sea cónica, o circular su concavidad; tan lejos de entenderse lo que se canta, y se recita en el Teatro, apenas se logrará la primera aprehensión de las voces, o resultará un confuso sonido de todas ellas. Más delicado es el Teatro Crítico en su fábrica. No basta que en él hagan reflexión las voces hacia los oídos; es preciso que la verdadera significación de las palabras reverbere hacia los entendimientos. En suma, en el Teatro material hacen reflexión las voces, hiriendo en los mármoles, o materiales: en el Teatro Crítico, para su inteligencia, ha de reflexionar la misma inteligencia, hiriendo formalmente en las voces: Ne sit locus surdus {(b) Apulej. de Mund.}. A una sola voz, que se le quite, se le añada, se le altere, quedará confuso todo el Teatro, y descompuesta su armonía.

Fr. Martín Sarmiento, Ilustración apologética al primero, y segundo tomo del Teatro Crítico (1729). Texto tomado de la edición de Madrid 1777 (por Pantaleón Aznar, a costa de la Real Compañía de Impresores y Libreros), páginas V-XV.}

Mas a tarefa explicativa não é doada, não são apenas os limites do escritor. A Galiza é complexa, um puzzle antigo com peças de épocas diversas, uma obra em construção onde os arquitetos, muitas vezes de fora e desconhecedores dos planos anteriores foram desenhando partes novas e reformas. Uma torre mais antiga que os Reinos, meio derramada, elevada sobre um castro, rodeada por um paço renascentista, barroco, romântico, com os seus jardins, fragas encantadas e terras de labor. Umas vezes habitada, por donos ausentes, outras abandonada por saudosos emigrantes.

Nenhum facto acontece isolado, nenhuma voz é senão o espaço onde se produz e o entendimento do público que a escuta, e honradamente nenhuma história pode ser estritamente nacional, nenhuma nação mora, nem morou isolada do resto. A contrário, toda história, abre e se compreende mais e melhor quanto mais ampliamos o foco, geografia, clima, economia, migrações, comunicações, caminhos e barreiras, política internacional e interesses de grupos, classes estão aí de sempre, muito antes de arribar as nossas costas o conceito de globalização.

E, desde logo, se nalguma cousa temos teimado estes anos todos é que a Galiza, não pode ser entendida sem Portugal, sem Castela, sem o Atlântico e por tanto sem as Ilhas Britânicas, a França Atlântica, a carreira da África a Índia e a América. Também não pode sem a Catalunha moderna, sempre para fronte e Euskadi. E também não sem a Borgonha, sem a Itália renascentista, nem a França Meridional e o Mediterrâneo, desde a incorporação de Aragão ao jogo das potências peninsulares.

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