Entre a crise de 2008 e a que há-de vir, está a crise dos políticos atuais – Alemanha: Amadores Políticos e a Inteligência. Por Heiner Flassbeck

beco

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Alemanha: Amadores Políticos e a Inteligência

Heiner-Flassbeck Por Heiner Flassbeck

flassbeck_logo em 30 de novembro de 2019 (aqui)

Traduzido para inglês e editado por BRAVE NEW EUROPE (aqui)

 

3 Alemanha Amadores Políticos e a Inteligência 1

 

Queixarmo-nos sobre jogadores amadores na política é fácil. Fazer algo sobre isso seria o trabalho de todos aqueles que foram treinados e galardoados pelas suas contribuições inteligentes. Mas ou são demasiado valiosos, demasiado distraídos ou demasiado ideologicamente tendenciosos para criticar a política.

O SPD vai decidir na próxima semana quem irá liderar o partido no futuro, depois de os seus antecessores, Andrea Nahles e Martin Schulz, terem falhado em todos os aspetos. Olaf Scholz, que com a sua parceira dupla [Klara Geywitz] conseguiu ganhar a votação nacional entre os membros do partido, é provável que vença. Afinal, ele conseguiu ganhar cerca de 10% para si mesmo (com uma participação de 50%).

Quem quiser saber mais sobre Olaf Scholz deve ler o discurso que proferiu há alguns dias durante o debate orçamental no Bundestag (que se encontra aqui). Foi provavelmente o pior discurso proferido por um ministro das Finanças numa ocasião destas. Ele não mencionou que a Alemanha estava em recessão, nem que a Europa (pela qual ele é diretamente responsável dentro do governo) ainda está na mais difícil crise imaginável. Olaf Scholz simplesmente ignora a questão central para o ministro das Finanças: se o desenvolvimento das taxas de juros dos títulos do governo alemão (novamente em território negativo esta semana) tem algo a ver com a política de dívida do governo federal.

Na CDU, a presidente eleita há um ano na conferência do partido acaba de passar novamente com uma espécie de voto de confiança. No entanto, o discurso com o qual ela tentou convencer a convenção do partido foi tão inimaginavelmente banal (para ser encontrado aqui) que perguntamo-nos se ainda existe uma massa crítica de pessoas pensantes na CDU. Eu não quero aproximar-me muito de ninguém, mas os 80 advogados da facção do Bundestag mencionados pela AKK são obviamente um fardo enorme.

Mas a própria Angela Merkel deu um toque final à confusão. Primeiro, distinguiu-se no debate orçamental com a observação de que não se pode “ver qualquer bem em investimentos quando estes apenas causam dívidas” e depois – num triplo salto mortal mental – chegar à única justificação engenhosa para esta frase. “Se já se está endividado em tempos de taxas de juro baixas”, disse a chanceler, “não se sabe sequer o que se deve fazer em tempos de taxas de juro normais, por exemplo, mais dívida?”. É preciso ouvir esta sequência (de apenas alguns segundos) de uma chanceler federal em pleno voo (aqui) para compreender realmente o que está errado neste Estado e na Europa. Os aplausos do plenário também devem ser conscientemente registados e apreciados.

 

O declínio intelectual da política …

Nos meios de comunicação e da ciência, tal aberração mental já nem sequer é notada, porque não se tem consciência das consequências. A maioria dos nossos debates político-económicos sofrem simplesmente do facto de muitos participantes se sentirem puros intelectuais e nunca terem tentado envolver-se na política e tentarem mudar as coisas para melhor no terreno (em Berlim e Bruxelas).

Temos de imaginar a política muito em concreto, de tal modo que, no próximo Conselho Europeu, a Chanceler lance esta frase – que obviamente considera extremamente boa e importante – para a arena europeia com o mesmo fervor que no Bundestag. Quase todos os outros Chefes de Estado ficarão espantados e impressionados com esta análise económica cristalina e acenarão as suas cabeças em sinal de aprovação. Os funcionários de Ursula von der Leyen terão certamente sido informados com antecedência das conclusões da chanceler pelos funcionários da Chancelaria e terão recomendado a sua aprovação “espontânea”. Valdis Dombrovskis, Vice-Presidente da Comissão, está provavelmente entusiasmado porque ouve algo que concorda com o seu preconceito sobre as dívidas. Paolo Gentiloni, o Comissário responsável, está confuso porque sente intuitivamente que a declaração soa diferente daquilo que os seus funcionários lhe explicaram, mas prefere permanecer em silêncio porque não compreende realmente o argumento.

Christine Lagarde procurará nas suas notas de discurso uma resposta, mas provavelmente só encontrará um exemplo que soa muito diferente do que a Chanceler disse. No entanto, ela não a atirá espontaneamente, mas quando for a sua vez de o fazer depois de uma longa espera, ela irá ler as suas notas de discurso completamente. Macron vai dizer algo que também soa diferente, mas vai enfatizar a importância da cooperação franco-alemã e, assim, encobrir todas as críticas. Os Chefes de Estado e de Governo, depois de todas as suas notas terem sido lidas, rir-se-ão à medida que avançam por caminhos separados, na certeza de terem dado mais um passo em frente na Europa.

… mas também o fracasso dos intelectuais

O que é que isso nos diz? Mostra que não se pode esperar que a política altere os seus rituais, especialmente a nível europeu, e que discuta seriamente os problemas. Com uma imprensa totalmente falhada, só aqueles que conseguem ver as coisas sem preconceitos ideológicos e sabem que o Chanceler está a dizer disparates podem mudar alguma coisa. Se, no início da próxima semana, 50 a 100 economistas de toda a Europa e independentemente uns dos outros viessem a público e acusassem a Chanceler e todo o seu gabinete de grave ignorância das inter-relações económicas mais importantes, a política não poderia certamente ignorar isto.

Mas isso não vai acontecer, e as razões são óbvias. Muitos economistas que detêm cátedras universitárias simplesmente não se importam com os problemas reais dos negócios e da política. Eles mexem nos seus modelos de equilíbrio ou “verificam” esses modelos irrelevantes com sonoros métodos econométricos e abstêm-se completamente de observar e criticar a política. Outros têm que cuidar dos famosos “fundos de terceiros”, a maioria dos quais vêm da esfera política. Lá se critica a política não tão alegremente, abertamente e em voz alta, porque se é diretamente dependente de decisões políticas.

Isto aplica-se diretamente na Alemanha aos institutos de investigação, que estiveram praticamente silenciosos nas suas críticas à política através da academia, por um lado, e da sua dramática dependência do financiamento de terceiros, por outro. E há ainda as profundas clivagens ideológicas que parecem pôr um travão na crítica de muitos economistas a um chanceler da CDU. A confusão da chanceler em matéria de economia, independentemente da direção que se tome, merece ser criticada.

Quem quiser mudar estas terríveis condições deve, por um lado, trabalhar para que a pluralidade de doutrinas nas faculdades da economia e nos institutos se torne norma. Houve algum progresso do lado dos estudantes aqui, porque eles entendem cada vez mais a parcialidade da oferta económica. Só na próxima semana, sou convidado para três faculdades (Rostock, Chemnitz e Nuremberga) para apresentar e discutir novas abordagens. Do lado dos professores, no entanto, a falange dos neoliberais e dos neoclassicistas está longe de estar quebrada.

Por outro lado, a dependência das universidades e dos institutos de investigação do financiamento externo deve ser significativamente reduzida. Mas isso não basta. O financiamento direto do Estado deve também ser concebido de modo a que os institutos não corram o risco de ter de considerar interesses político-partidários ou mesmo de ter de se adaptar desde o início. Mesmo um instituto em Munique deve ser autorizado a apresentar opiniões progressistas.

 

_________________________________

O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com).

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo são resultado da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: