A INCAPACIDADE DE RESPOSTA DOS NEOLIBERAIS FACE ÀS SITUAÇÕES DE CATÁSTROFE: AUSTRÁLIA, REINO UNIDO E PORTUGAL COMO EXEMPLOS EMBLEMÁTICOS – IV – AS CONSEQUÊNCIAS GEOPOLÍTICAS DOS FOGOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA. A TRAGÉDIA ESTÁ BEM DOCUMENTADA, MAS OS EFEITOS GLOBAIS POTENCIAIS NÃO – por ALLISON FEDIRKA

 

 

 

The Geopolitical Consequences of Australia’s Wildfires. The tragedy has been well documented, but its potential global effects have not, por Allison Fedirka

GPF – Geopolitical Futures, 20 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Os incêndios florestais têm estado em fúria por toda a Austrália durante a maior parte dos últimos quatro meses. As altas temperaturas e os céus cheios de fumo envolveram uma faixa de terra maior que alguns países, ameaçando inúmeras espécies de plantas e animais. (Admito que procurei saber  diariamente as perspetivas de recuperação de Lewis, o Koala. RIP rapazinho).

A tragédia tem sido bem documentada, mas as suas potenciais ramificações não. Com isso em mente, vamos analisar como é que os incêndios podem afectar o cenário militar, económico e político da Austrália e o seu comportamento no cenário global.

Fogos na Austrália desde Novembro de 2019

Australia Fires Since November 2019

Os desastres naturais são um facto da vida, claro, e tendem a ser únicos para certas regiões. As Caraíbas têm a época dos furacões. A Índia tem monções. A Austrália tem a época dos incêndios florestais. As condições este ano foram, infelizmente, bem adequadas para o surto. Os estados do leste da Austrália têm estado em seca desde o início de 2017.   Os primeiros meses de 2019 foram os mais secos de que há registo. E grande parte da flora nativa, incluindo eucaliptos, é naturalmente altamente inflamável para começar. Por  outras palavras, a área era um barril de pólvora  rodeada por uma quantidade quase  infinita de combustível.   Os ventos fortes, alguns a 70 quilómetros por hora, espalharam os fogos mais rapidamente. Como resultado, a atual temporada de incêndios florestais começou mais cedo do que o normal, enquanto a temperatura e o alívio da precipitação só chegarão em meados de março.

É difícil (e talvez um pouco desajeitado) quantificar o quanto os incêndios atuais são piores do que os anteriores, mas comparar as áreas afectadas, as mortes e os danos materiais é instrutivo. Nesta temporada, cerca de 10 milhões de hectares foram afectados, ultrapassando a área afectada de qualquer temporada anterior, como já foi registado. Até agora, os incêndios são menos mortais que nos anos anteriores, com pouco menos de 30 pessoas mortas. (Isto exclui a perda de vida selvagem, que alguns dizem estar nos milhares de milhões. Os dados históricos de morte de animais são difíceis de obter). Em termos de danos materiais – que podem ser medidos através de reclamações de seguros, edifícios queimados e perda de gado – os incêndios atuais são desastrosos. Os danos estimados são de 2 mil milhões de dólares australianos (1,4 mil milhões de dólares) e crescentes; o recorde anterior era de cerca de AU$ 4,4 mil milhões em 2009.

Prejuízos e mortes causados pelos fogos na Austrália

Damages and Deaths from Australian Fires

Estratégia e Segurança

As instalações militares mais estrategicamente sensíveis da Austrália incluem bases navais ao longo da costa norte, que estão muito afastadas dos incêndios florestais. As instalações mais próximas dos incêndios estão consideradas intactas. Os incêndios não interromperam as operações militares no exterior ou a nível interno. Na verdade, as forças armadas têm desempenhado um papel crítico nas missões de evacuação e no apoio aos esforços de combate aos incêndios.  

É claro que a segurança nacional envolve mais do que apenas equipamento militar – também envolve recursos estratégicos necessários para a sua sustentação. A Austrália ostenta uma abundância de depósitos e de produção de minerais de terras raras. Estes minerais são relativamente escassos e desempenham um papel crítico na cadeia de fornecimento de tecnologia, aeroespacial e telecomunicações. A China detém um quase monopólio sobre o fornecimento mundial de terras raras, o que é um problema para os EUA e aliados como a Austrália. As jazidas são, portanto, um passo necessário nos  seus esforços conjuntos para mitigar o risco da cadeia de abastecimento, construindo uma rede alternativa de fornecimento de minerais de terras raras. Mas também aqui os incêndios parecem ser insignificantes, uma vez que as minas produtoras estão localizadas longe dos depósitos e das infraestruturas associadas. A Austrália também é líder mundial na exportação de carvão e gás natural liquefeito, que também são relativamente não afetados pelos incêndios. Os verdadeiros desafios enfrentados pela indústria de mineração são manter o abastecimento de água muito importante para as operações, apesar da seca e da tempestade política que está a ser  agitada.

As terras raras da Austrália

Australia's Rare Earths

 

Prejuízo económico

Os danos e perdas materiais devidos aos incêndios florestais não têm uma incidência uniforme sobre a economia da Austrália. Algumas áreas são diretamente afetadas, alguns danos são o resultado de efeitos secundários ou retardados, e ainda assim algumas partes podem saír realmente  beneficiadas uma vez que os incêndios sejam apagados.

As primeiras vítimas, potenciais ou reais, são os sectores de seguros, agricultura e turismo, dos quais a agricultura é a mais relevante do ponto de vista geopolítico. (Os seguros são internos  e 75 por cento dos turistas são nacionais ). A Austrália é um grande fornecedor mundial de carne bovina e laticínios. Este sector representa  AU$3,3 mil milhões e  em exportações está em  quarto lugar no mundo, sendo  um dos principais fornecedores para os mercados asiáticos. As queimadas ameaçam 12% do rebanho ovino nacional e 9% do rebanho nacional. O Ministério Federal da Agricultura prevê perdas de gado de mais de 100.000 cabeças. Já foram relatadas interrupções no abastecimento. Outro sector chave da agricultura, o trigo, não foi directamente afectado porque a colheita foi concluída antes de os incêndios entrarem em pleno vigor. Mesmo assim, os incêndios ameaçam os stocks de trigo em grão, a alimentação do gado e os rendimentos futuros da colheita. A exposição ao fogo intenso geralmente diminui a reserva de nutrientes no solo e a capacidade de retenção de água, tornando mais difícil o crescimento das culturas no futuro.

Os incêndios têm agravado uma indústria agrícola já agitada. A produção leiteira e de trigo já estava em declínio, graças à seca contínua. A produção de leite na Austrália atingiu o seu nível mais baixo dos últimos 22 anos. A produção de trigo foi tão baixa que teve de começar a importar em meados de 2019. As primeiras estimativas sugerem que a produção poderia diminuir mais 8% em 2019-2020. Os consumidores começarão a ver o impacto dos incêndios no fornecimento e nos preços dos bens básicos relacionados. A nível interno, isto irá manifestar-se no plano político (mais abaixo). Os importadores também passarão a sentir aumentos de preços. Os compradores já andam á procura de  fornecedores alternativos para compensar o declínio da produção da Austrália. Alguns países serão mais capazes de absorver os aumentos de preços do que outros. Considere a China, que é muito sensível até mesmo às pequenas flutuações de preços dos alimentos. A guerra comercial e a gripe suína já inflacionaram  os preços dos alimentos, e embora Pequim tenha encontrado fornecedores alternativos no Brasil e na Argentina, outros factores que aumentam os preços dos alimentos tornarão os alimentos menos acessíveis para os consumidores e aumentarão a pressão sobre o governo para mantê-los baixos.

A SGS Economics and Planning estima que as perdas relacionadas com incêndios neste ano fiscal serão de AU$1,1 mil milhões – AU$1,9 mil milhões.  Isto inclui áreas indirectamente afectadas como Sydney, que está a perder   até AU$50 milhões por dia por causa das mudanças nos hábitos dos trabalhadores e consumidores. Economistas da AMP Capital sugerem que a Austrália pode perder o equivalente a 1% de sua produção económica nacional. No entanto, o governo já autorizou AU$2 mil milhões nos próximos dois anos para reconstrução – um desembolso modesto para um país com um produto interno bruto de cerca de US$1,38 milhões de milhões. A um nível puramente macroeconómico, a Austrália deve ser capaz de resistir à tempestade de fogo.

Implicações Políticas

Qualquer emergência ou desastre natural coloca a gestão política sob o microscópio – e a Austrália certamente não é excepção. Mas o momento é particularmente mau  para o governo de Camberra, que tem tido um conjunto de grandes mudanças  na última década. Os incêndios renovaram o debate público sobre a indústria mineira e levantaram questões sobre a capacidade do governo de responder às necessidades da Austrália.

Embora a indústria extractiva seja uma das atividades globalmente significativas da Austrália, o futuro deste sector  é uma questão bastante divisiva. A  indústria extractiva  é responsável por cerca de 10% do PIB da Austrália e emprega dezenas de milhares de pessoas. O país também é um dos principais exportadores de carvão e de gás natural liquefeito . O primeiro-ministro e o seu partido apoiaram fortemente a indústria extractiva do país, mas os incêndios encorajaram os críticos da indústria, dando-lhes algum ímpeto nos debates sobre a redução da pegada de carbono da Austrália. Para ser claro, a Austrália não está prestes a suspender as suas atividades extractivas. Mas as batalhas políticas são importantes e, por enquanto, o partido no poder está na defensiva.  

Ao mesmo tempo, o custo dos incêndios pôs em questão a gestão económica geral do governo. Embora o PIB nacional do país tenha crescido durante quase três décadas, os consumidores têm vivido em várias ocasiões cenários de recessão, levando a quedas no PIB per capita. O crescimento dos salários quase estagnou. Os consumidores estão compreensivelmente zangados com o aumento dos preços dos bens básicos. E não há muito que o governo possa  fazer para impulsionar a economia através das taxas de juro. O Banco Central tinha  previsto  cortar as taxas de juros no início deste ano; os incêndios terão como um dos seus efeitos  mitigar quaisquer consequências  que  possam ter vindo dessa política.

Taxa de crescimento do PIB australiano per capita

Australia Real GDP Per Capita Growth Rate

Tudo isto para dizer que os incêndios não começaram os problemas políticos da Austrália, mas certamente não os estão a ajudar.   O país  tornou-se  bastante hábil em produzir  novos líderes dai que, mesmo que a pressão aumente a ponto de o público querer um novo primeiro-ministro ou partido, o impacto global será mínimo. As duas relações mais importantes da Austrália – a sua aliança com os Estados Unidos e a sua abordagem cautelosa com a China – serão em grande parte sem fases. As atuais necessidades económicas e de segurança da Austrália mantêm esta dinâmica mesmo sob os mais terríveis desastres naturais.  

 

Fonte: Allison Fedirka, sitio Geopolitical Futures,  The Geopolitical Consequences of Australia’s Wildfires – The tragedy has been well documented, but its potential global effects have not.  

 

Texto disponível em: https://geopoliticalfutures.com/the-geopolitical-consequences-of-australias-wildfires/

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