O que é que o confinamento nos ensina sobre a economia. Por Romaric Godin

Espuma dos dias Coronavirus

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Romaric Godin Por Romaric Godin

Publicado por Mediapart (Ce que le confinement nous apprend de l’économie) em 11/04/2020 (ver aqui)

 

O debate sobre uma suposta saída do confinamento por razões económicas é a pior maneira de pensar nesta era. É um debate entre duas posições conservadoras que esconde a questão real e democrática.

 

Nos últimos dias, tem sido tocada uma pequena música: é urgente pôr termo ao confinamento por razões económicas. Em Les Échos, o editorialista Éric Le Boucher diz claramente: “Temos de tirar a França do confinamento“. “A ideia é defendida por vários jornalistas no Twitter, na rádio e na televisão. A ideia é simples e baseia-se numa das ferramentas favoritas dos economistas, a tabela custo-benefício.

Por um lado, as mortes do coronavírus, por outro, os custos económicos da perda do PIB e da crise daí resultante, que também conduzirão à morte. Esta relação seria propícia à retomada da atividade económica. Poderíamos, portanto, voltar à famosa estratégia da “imunidade de grupo” e tolerar as mortes por coronavírus para não termos de lamentar mais mortes devido a uma catástrofe económica.

A abordagem é notável pelo que diz sobre a economia capitalista. Baseia-se num dos elementos mais poderosos deste sistema, mas também, quando posto a nu, num dos mais frágeis: a abstração. Porque, nesta contabilidade macabra, duas realidades distintas são colocadas em pé de igualdade. Por um lado, o de um fenómeno que é imposto à humanidade, um vírus contra o qual não temos armas, pelo menos de momento, e que mata diretamente homens e mulheres. E, por outro lado, uma criação de humanidade, a economia de mercadorias, que imporia a sua lei ao seu criador ao ponto de tmabém tirar vidas.

É inegável que as crises económicas são dispendiosas em termos de vidas humanas. Os exemplos do passado mostram-no suficientemente bem. Mas o que estes pensadores doutrinários esquecem é que estas crises não são fenómenos que escapam aos seres humanos. Eles são o produto da sua organização social, da sua atividade e das suas escolhas. E é a eles que compete encontrar outras formas de organização que salvem vidas e evitem que as crises matem as pessoas.

Por outras palavras, o que esconde o discurso destes que veem a economia com desprezo do confinamento é que as vítimas da crise não serão as vítimas colaterais da opção de preservar vidas hoje, não serão as vítimas tardias da nossa decisão de travar a pandemia do coronavírus, antes serão as vítimas da organização económica baseada no fetichismo da mercadoria que se reflete precisamente nos seus cálculos de baixo nível.

Compreendemos a sua raiva: de repente, em algumas semanas, apercebemo-nos de que podemos parar a fuga em frente da economia de mercado, que podemos concentrar-nos no essencial: alimentar, cuidar, ter cuidado. E que, suprema estranheza, a Terra não pára de girar, nem a humanidade deixa de existir. O capitalismo está suspenso no seu funcionamento mais primário: gera um valor excedente mínimo, insuficiente para alimentar a circulação do capital. E o homem ainda existe.

Melhor ainda, livre da abstração mercantil, ele pensa na sua própria vida e na dos outros. É uma parte essencial do pensamento destas pessoas que se afunda: o capitalismo não é a humanidade. Quando a mercadoria deixa de criar “riqueza”, pouco ou nada acontece. É estabelecida uma forma de “socialismo pandémico“, nas palavras do antigo líder do Citigroup Willem Buiter

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© Bryan R. Smith / AFP

Assim, para continuar a manter vivo o mito do carácter capitalista intrínseco à humanidade, recorremos às ameaças: tudo isto se pagará, e cem vezes mais. E por mortes. Não se pode reduzir impunemente o PIB em 30%. Só que, precisamente, a época mostra o contrário e convida-nos a construir uma organização em que, precisamente, seja a vida humana, e não a produção de mercadorias, a estar no centro.

E aqui, mais uma vez, a situação atual está a falar por si mesma. As pessoas que pensam que só o mercado produz valor constatam que conseguem comer numa cidade limpa, apesar de o mercado já não funcionar de forma autónoma. Só o podem fazer através do trabalho diário dos trabalhadores, dos recolhedores de lixo aos caixas, dos motoristas de autocarro aos cuidadores, dos homens das entregas aos camionistas, que, expondo-se ao vírus, expõem a evidência do fosso profundo entre a valorização pelo mercado do seu trabalho abstrato e o valor social do seu trabalho concreto. O valor produzido pelo mercado, que dá a um consultor dez vezes o peso monetário de um caixa ou daqueles que recolhem o lixo, aparece então pelo que é: uma abstração sem sentido. Ou melhor, uma abstração destinada a servir aquilo para que é criada: o lucro.

Para os nossos “economistas”, tudo isto é profundamente insuportável e temos de pôr rapidamente termo a um confinamento que acabaria por tornar tudo demasiado visível. Acabaríamos por imaginar que é possível organizarmo-nos de forma diferente, colocar outras prioridades no funcionamento social, definir as nossas necessidades essenciais para construir uma sociedade de sobriedade. Mas, nesse caso, já não precisaríamos de toda esta miscelânea – PIB, competitividade, lucros, dividendos, mercados financeiros – que asseguram a submissão do mundo do trabalho ao valor da troca mercantil. Poderíamos democratizar a economia…

É por isso que é urgente sair desta famosa crise, que poderá desenvolver-se, para nos transmitir o desejo de recomeçar a colocar vidas concretas acima da abstração mercantil.

Mas não nos iludamos: quaisquer que sejam as manobras que, neste tempo suspenso, nos ocupam sobre o “mundo depois da crise pandémica”, o confinamento não é de modo algum progressista, muito menos “socialista”. E esta é precisamente a dificuldade da situação.

No início da pandemia, os governos mais imprevidentes (nomeadamente Itália, França, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos) optaram por fazer o mesmo cálculo que o proposto por Éric Le Boucher e os seus amigos: a economia não podia ser sacrificada a uma “má gripe“. Estávamos, portanto, a contar com a imunidade de grupo. As pessoas morreriam certamente em grande número, mas rapidamente. O impacto económico seria reduzido.

Foi esta escolha que levou as autoridades italianas a adiar a ação na Lombardia, onde, como o demonstraram as investigações do Il Fatto Quotidiano, os empresários locais temiam perder mercados. E é também esta escolha que explica, em França, a mentira sobre a escassez de máscaras, de tal forma que o reconhecimento público teria forçado a economia a ser destronada a favor da emergência sanitária. Para não falar, também no caso francês, das agendas ideológicas e políticas dos detentores do poder – impondo à força a reforma das pensões e manter, custasse o que custasse, as eleições municipais .

Se todas estas autoridades, incluindo as mais convencidas, como os governos britânico e americano, abandonaram esta estratégia, é porque, politicamente, face aos repetidos avisos dos profissionais de saúde e dos investigadores, já não era possível fazer face a estas mortes em massa em hospitais sobrelotados. E era demasiado tarde para as evitar. Tal imagem teria sido desastrosa e o capitalismo teria sido acusado de devorar vidas em seu próprio nome. Numa altura em que a questão da desigualdade e das alterações climáticas, e da sua relação com o modelo económico, se coloca com tanta acuidade, o efeito teria sido devastador. Por isso, resolvemos “sacrificar” momentaneamente a economia.

Já estamos nisso mais ou menos instalados. Em França, de novo, tentámos manter uma atividade inútil para “reduzir o impacto”, mas também e sobretudo para continuar a manter, tanto quanto possível, o reinado da economia. Recorda-se a pressão exercida pelo Ministro do Trabalho Muriel Pénicaud sobre o sector da construção e obras públicas para retomar as obras. Nunca se deve esquecer que o confinamento francês, como outros, é um confinamento limitado, onde 40% dos trabalhadores devem continuar a justificar a sua presença, apesar dos riscos. E convém recordar que é mais uma vez perante o fracasso desta estratégia de “ao mesmo tempo” e a aceleração da pandemia que os governos, com a mesma estratégia inicial, em Itália ou em Espanha, tiveram de reduzir a atividade económica ao mínimo indispensável.

Mas que não haja dúvidas: isto é apenas um adiamento. Quanto mais grave for esta crise “politicamente fabricada”, mais a população será obrigada a pagar por ela. Para “reconstruir”, para garantir “empregos”, para atrair investidores, em suma, para pôr a máquina a funcionar novamente, vamos pedir, como Bruno Le Maire começou a fazer, “esforços” à população. Por conseguinte, tudo será feito para que o confinamento produza uma crise económica violenta que, na verdade, será cruel e dispendiosa em termos de vidas humanas. Fá-lo-emos simplesmente: simplesmente “congelando” o sistema económico e não tirando partido desta suspensão para o alterar. Uma vez descongelada, a economia de mercado dará o pior de si mesma. Os seus próprios mecanismos serão desencadeados. Mas terá de ser aceite como uma lei divina.

 

O apelo à “Restauração” do capital

Os efeitos desta inevitável “Restauração” do capital serão terríveis. É certo que, tal como Luís XVIII tinha conseguido, em 1815, ceder ao ar do tempo “outorgando” uma Carta, ao mesmo tempo que criava uma reacção social severa, o capitalismo dará algumas garantias através de um paternalismo de um pequeno Estado, com umas pingas de soberania. Mas o “movimento real” será o de destruir, em nome da sua própria salvaguarda, os direitos sociais e os padrões de vida dos mais frágeis, através da prossecução da “austeridade” e das “reformas estruturais”.

O governador do Banco de França, François Villeroy de Galhau, e o chefe do Medef, Geoffroy Roux de Bézieux, não apelam a um fim rápido do confinamento. Mas avisam que será então necessário, para um deles, “reduzir a dívida através de esforços”, e, para o outro, “reflectir sobre a questão do tempo de trabalho”. O bar está aberto. Uma “boa crise” é finalmente a melhor forma de restabelecer a disciplina nas fileiras do trabalho. Esta não será uma exceção.

Sejamos claros: isto não significa que esta crise tenha sido construída para esse fim, por um desenho maquiavélico. Como já foi dito, foi a pressão política que levou ao abandono da estratégia de imunidade em massa em resposta ao vírus. Mas a oportunidade faz o ladrão porque isso está na lógica interna do sistema capitalista: a destruição do valor de mercado deve ser seguida da sua restauração. E a vontade desses mesmos governos de simplesmente manterem a economia como era antes é prova disso mesmo.

O que podemos nós aprender com tudo isto? Que a economia é provavelmente a pior maneira de pensar o confinamento. Prorrogação ou não do confinamento, a crise será severa se nos mantivermos dentro da lógica de uma sociedade dominada por mercadorias. Fará vítimas e será cruel para os mais modestos. E, finalmente, por detrás do falso debate entre apoiantes do confinamento e apoiantes do desconfinamento “económico”, esta conclusão é de facto a mesma.

Mas voltemos a dizê-lo: a economia é apenas aquilo que fazemos com ela coletivamente, e é precisamente isso que o confinamento mostra claramente. Por conseguinte, é evidente que a perspectiva inevitável da “crise” é apenas o resultado da nossa demissão neste domínio, da nossa recusa coletiva de pensar de forma diferente sobre a economia e de a “recolocar no seu lugar”, como diria o filósofo canadiano Alain Deneault.

Significa também que este debate sobre a economia esconde outro debate muito mais sério sobre as consequências humanas concretas do confinamento. Suspender a abstracção económica é uma coisa fácil de fazer. Mas suspender a vida social do homem, o animal social por excelência, é algo mais. É necessariamente para reduzir o alcance desta vida e, portanto, para imobilizar o homem; é para o impedir, para o dominar, para o subjugar.

A redução da esfera social à esfera familiar mais estreita, a redução do espaço de vida a um domicílio mais ou menos adaptado a uma vida permanente dentro dela, a redução do tempo a um tempo pessoal e não coletivo, a atomização das situações, experiências, alegrias e sofrimentos, tudo isto tem consequências, tanto pessoais como coletivas. E estas consequências são mais graves à medida que se desce a escada social e que o confinamento dura.

Estas consequências são constantemente negadas e subestimadas. Afirma-se que estão escondidos atrás de um sucedâneo tecnológico, cujos limites podem ser sentidos no confinamento. Àqueles a quem o confinamento é pesado, respondemos com repressão e desaprovação moral, o que significa negar o assunto. Para aqueles que se inquietam com o estado das liberdades públicas, são acusados de egoísmo e alarmismo. Embora saibamos que é durante estes momentos que os poderes preparam as suas armas contra estas liberdades.

Para manter as pessoas na linha, enviam-lhes mensagens e canções de estrelas que se sentem confortáveis nas suas casas acolhedoras, ou o bastão do polícia e do juiz, que têm o prazer de “dar o exemplo”. Pede-se às pessoas que continuem a ver o espetáculo passivamente, sem se mexerem, sem pensarem. Mas não é exactamente o oposto da vida humana?

Esta resposta hipócrita é altamente problemática. No silêncio do confinamento, agrava as tensões e dissensões sociais no seio da sociedade. Todos culpam os seus vizinhos pelos seus actos, as denúncias multiplicam-se e os julgamentos são aos montes. Um clima de desconfiança, angústia e medo desafia os fundamentos da sociedade democrática. A culpa é o primeiro passo para a exigência de disciplina que será afirmada durante a crise económica. E é sobre isso que temos de falar.

A subestimação das questões psicológicas, políticas e sociais no confinamento a favor de uma sobreavaliação da questão económica é significativa. Por um lado, vemos isto como uma forma de capricho de crianças mimadas que têm de ficar em casa e que poderiam fazê-lo sem qualquer problema se o quisessem fazer. Por outro lado, é uma questão séria que merece ser ponderada quanto aos prós e contras do confinamento. No entanto, a realidade é exactamente o contrário.

E é aqui que o debate se deve situar: entre a impossibilidade social do confinamento e a sua necessidade médica. E deveria ser da responsabilidade dos nossos dirigentes assegurar que a economia não seja e não se torne um problema. Se esta crise nos ensinou uma coisa, foi que, a partir de agora, a proteção da vida deve estar no centro das políticas públicas. Cabe, portanto, à economia submeter-se ao homem, e não o contrário. Por conseguinte, o debate sobre o confinamento estar noutro sítio.

Deve situar-se na forma do confinamento, a fim de minimizar as suas consequências concretas. E, neste debate, o imperativo da saúde deverá ser confrontado com os outros imperativos da vida real para encontrar soluções ou para aceitar limitações temporárias. Este diálogo só é possível se não for assumido apenas por um Estado que utiliza o confinamento para esconder as suas deficiências e erros, como um substituto da a política de saúde, sem se preocupar com mais nada. Porque, nesta lógica de poder sem contra-poder, o confinamento é uma benção: permite suspender o debate em nome da “guerra contra o vírus”, ao mesmo tempo que se garante o reinício da guerra social após a crise sanitária.

É por isso que o confinamento não deve ser uma suspensão da vida comunitária e da exigência democrática. Pelo contrário, deve ser o momento em que a sociedade define as suas prioridades e consegue encontrar soluções para sair da crise e evitar o castigo prometido pelos neoliberais. Mais do que nunca, no cerne da crise sanitária, é da democracia social que este país – e este mundo – precisa.

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O autor: Romaric Godin [1973 -] jornalista desde 2000, está na Mediapart desde maio de 2017, segue a macroeconomia, em particular a francesa. Anteriormente esteve em La Tribune em 2002, depois no departamento de mercado. Correspondente em Frankfurt, na Alemanha, entre 2008 e 2011, tornou-se chefe de redacção adjunto no departamento de macroeconomia responsável pela Europa até 2017.

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