CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXIII – A ITÁLIA VAI PRECISAR DE UM RESGATE PREVENTIVO – UMA “PROTEÇÃO FINANCEIRA” – ENQUANTO O CORONAVÍRUS O EMPURRA PARA A BEIRA DO ABISMO. por ASHOKA MODI

 

Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink, por Ashoka Modi

Marketwatch, 10 de Março de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

A crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

Veneza estava quase vazia na segunda-feira  no meio das restrições de viagem na região do Veneto

 

A Itália precisa de um pacote de resgate preventivo de 500 a 700 mil milhões de euros   para ajudar a garantir aos mercados financeiros que o governo e os bancos italianos podem  cumprir as suas obrigações de pagamento da dívida à medida que a crise económica e financeira do país se torna mais temível.

Assim como os custos humanos do coronavírus estão a crescer de forma alarmante, a crise da Itália pode em breve tornar-se incontrolável, provocando uma potencial  desordem nos mercados financeiros mundiais

A solução deste grave problema  não pode ser deixado apenas a cargo das nações da zona euro. Não só o Fundo Monetário Internacional, mas até os EUA precisarão de se envolverem na solução do problema, talvez, com uma linha de crédito, caso as necessidades de resgate aumentem e em escalada.

O tempo é curto. A Alemanha e a França, as duas maiores economias da zona do euro com 19 membros, estão prestes a experimentar uma rápida disseminação do vírus, e seus sistemas económico e financeiro já estão sob uma situação de aguda  dificuldade. Se pressionados a suportar inteiramente os riscos italianos, podem enfrentar desagradáveis descidas   na sua notação de crédito.

A Itália, a terceira maior economia do bloco, tem sido há muito tempo a linha de fratura da zona do euro. E, como escreveu o físico Per Bak, quando uma linha de fratura se rompe, outras rachas  enfraquecem, causando uma cascata de terramotos.

Praticamente todas as forças económicas internacionais e internas  estão contra o país.

A economia italiana praticamente não cresceu desde que entrou para a zona euro em 1999. O rendimento per capita, ajustado pela paridade de poder de compra, permaneceu fixo no valor de 35.000 dólares. A economia tem permanecido em recessão quase perpétua na última década e já se estava a contrair em paralelo  com a evolução do  comércio mundial antes do ataque do coronavírus. O peso da dívida do governo aumentou para uns espantosos 2,3 milhões de milhões  de euros, o que equivale a 134% do PIB do país.

No final do ano passado, a queda do comércio mundial tinha levado  a Europa para uma quase recessão.

O coronavírus irá quase certamente fazer com que a economia italiana se contraia em cerca de 3% no primeiro semestre de 2020, embora os danos possam ser muito maiores do que isso.

Como a economia chinesa desacelera ainda mais – e muito provavelmente ela própria se contrai – nos próximos meses, a falta de fornecimento chinês de peças e ingredientes críticos causará danos contínuos à produção e ao comércio mundial. Esse efeito negativo está  a espalhar-se  para a Alemanha, que, mesmo com as suas dificuldades atuais, continua  a ser  a economia mais forte da Europa e um mercado importante para os fabricantes italianos.

Na Itália, o vírus forçou não apenas o isolamento  das regiões mais dinâmicas do  país – a Lombardia e o seu centro de moda e finanças em Milão, bem como grandes partes das regiões do Veneto e Emilia-Romagna – mas agora o país inteiro a partir de terça-feira, 10 de março. À medida que as pessoas ficam em casa e a procura por serviços diminui, os economicamente vulneráveis – especialmente os jovens italianos com empregos temporários precários – perderão rendimentos  e a procura diminuirá ainda mais. E com uma das populações mais idosas  do mundo (cerca de 23% das pessoas estão acima dos 65 anos), a doença e a mortalidade induzidas pelo coronavírus – e as dificuldades  económicas e financeiras  que lhes estão associadas- podem persistir por mais tempo do que em qualquer outro lugar.

De facto, mesmo que o número de novos casos comece a diminuir, a perturbação da atividade económica continuará. Os mercados bolsistas tomaram nota. Entre as principais economias do mundo, o índice I945 0.468% da bolsa italiana, caiu a um  ritmo mais acentuado.

Comparativamente e até 9 de março

Sinais de alerta  também estão a ser sentidos nos mercados da dívida. Embora os rendimentos dos títulos do governo estejam a diminuir em grande parte do mundo económico avançado, os rendimentos dos títulos do governo italiano TMBMKIT-10Y, 1,648% estão a subir. É verdade que estes rendimentos nominais ainda são baixos. Mas a taxa real, ou ajustada pela inflação, é quase 1%, o que é muito alto para uma economia que não estava a crescer  e agora está prestes a entrar em contração.  A taxa de juro  real elevada e persistente da Itália fez com que o rácio da dívida do governo em relação ao PIB esteja a subir.

E agora, as taxas nominais crescentes estão a ameaçar levar a  Itália para um ciclo de efeitos de repercussão  negativos. A contração económica forçará o rácio da dívida em relação ao PIB a subir, o que poderá causar um novo aumento das taxas de juro nominais. Com a procura tão fraca, a inflação provavelmente cairá, empurrando a taxa de juro real para cima e criando uma quebra no crescimento – e aumentando as  preocupações sobre a capacidade do governo para comprimir as suas obrigações em termos de serviço da  dívida.

Entretanto, um crescimento mais lento causará mais dificuldades  nos bancos frágeis da Itália, que juntos detêm ativos financeiros de cerca de 5 milhões de milhões  de euros. Embora muitos bancos tenham vendido grandes parcelas dos empréstimos que os mutuários não pagavam a tempo, os mercados financeiros têm uma visão sombria do sistema bancário italiano. Os rácios de valor de mercado em relação ao  de registo contabilístico (market to book ratios) mesmo dos bancos mais fortes, Intesa Sanpaolo (ISP, -2.962%), e UniCredit UCG, -6.252%,  estavam bem abaixo de 1 antes do início da desaceleração induzida pelo vírus, e caíram drasticamente desde então. Essencialmente, os mercados estão a dizer  que uma grande parcela dos ativos nos livros dos bancos pode eventualmente não valer nada

A piorar  a situação, o euro EURUSD, -0.178% tem-se  fortalecido com a Reserva Federal Americana a baixar a  política de   taxa de juros política, e o Banco Central Europeu, tendo ficado sem munições há muito tempo, só pode fazer mudanças cosméticas sem valor real. À medida que a Reserva Federal flexibiliza ainda mais, o euro vai-se tornando  mais forte, tornando a recuperação italiana ainda mais difícil. A perene questão permanece se os europeus, que há muito tempo são viciados em austeridade orçamental, podem agora concordar com um estímulo orçamental  grande e coordenado. Mesmo que o façam, esse estímulo pouco fará para colocar dinheiro nos bolsos dos italianos, que, de qualquer forma, permanecerão incapazes de aumentar seus gastos em condições de isolamento.

Assim, a Itália está no limiar de uma crise financeira e não pode esperar qualquer ajuda das políticas monetárias ou orçamentais convencionais. A tarefa política, portanto, é construir uma proteção  financeira que possa acalmar os temores dos mercados financeiros enquanto a Itália atravessa os próximos seis meses.

A experiência do FMI mostra que os resgates financeiros são mais eficazes se forem feitos quando um país está vulnerável, mas ainda não em uma crise total. Um golpe a  tempo, como diz o ditado, poupa nove.

A proteção financeira italiana  deve começar com um pacote de resgate financeiro preventivo de pelo menos 500 mil milhões de euros, que forneceria fundos para injetar capital nos bancos conforme necessário e garantir a continuidade do financiamento do governo se os mercados optarem por deixar de renovar  a dívida.

As nações europeias não podem fazer isto sozinhas. Não estamos em 2010-2011 quando os líderes europeus, liderados pela chanceler alemã Angela Merkel, se reuniram para resgatar a Grécia, Irlanda e Portugal. Mesmo combinados, esses países eram pequenos em relação à Itália.

Além disso, a Alemanha é uma potência económica muito diminuída e a liderança política da Alemanha está em desordem. A economia alemã estava em estado quase-recessivo antes da propagação do vírus e agora enfrenta um grave défice de procura da China, o seu mercado mais importante. E à medida que o vírus se espalhar dentro da Alemanha, a procura interna também diminuirá. O governo alemão precisará de reter o seu poder de fogo caso os dois maiores bancos do país, Deutsche Bank DBK, 0.851%   e Commerzbank CBK, CBK, -0.979%, com índices chocantemente baixos de valor de mercado em relação ao registo contabilístico, de cerca de um quinto, venham a precisar de  apoio financeiro.

A economia francesa também está em apuros, e o seu afetado  presidente Emmanuel Macron é ao mesmo tempo volátil e divisor de águas em assuntos europeus.

Isso deixa a possibilidade da impressora mágica sob a  autoridade do BCE, o chamado programa de Transacções Monetárias Directo (OMT), estar a ser  ativado para a compra de obrigações. Mas a magia também pode ser uma ilusão. Para desencadear as OMT, a Itália necessitará de um primeiro acordo sobre as condições e a dimensão de um resgate do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).). A razão para fazer um resgate de precaução agora, em vez de esperar que o problema ganha uma muito maior dimensão, é simples. Sob o calor de uma crise contínua e com os limites dos seus recursos, o MEE  e as autoridades italianas terão dificuldades em  conseguir um pacote de resgate aceitável para ambos. Os atrasos irão alimentar o pânico do mercado, tornando a negociação mais difícil.

Nessa fase, mesmo que o MEE e os italianos acordem num programa, o Conselho do BCE terá de autorizar as OMT. Os membros alemães e outros membros “do Norte ” da zona euro  preocupar-se-ão com que, se o BCE imprimir dinheiro para comprar maiores quantidades de títulos italianos, o governo italiano poderá eventualmente entrar em incumprimento depois na liquidação destes títulos.  Tal incumprimento exigiria que os líderes alemães e outros líderes do norte da zona euro apelassem aos contribuintes irritados para preencher o buraco assim criado no capital do BCE.

Para colocar isto em perspectiva, os líderes europeus estão a disputar cêntimos ao decidir sobre o próximo orçamento da União Europeia. Isto é assim   e  numa altura em que as nações europeias mais fortes são fracas, seria um erro esperar que elas resgatassem atempadamente uma Itália financeiramente falhada. E se a linha de falha financeira italiana se romper, o incumprimento  da Itália desenvolver-se-á em cascata através do sistema financeiro global, causando danos que serão difíceis de conter.

Podemos correr o risco de não agir agora. Ou, tal como os italianos se esforçam para lidar com o enorme desafio médico e humano que enfrentam, a comunidade global pode-se  também unir para evitar uma espiral de crise financeira global centrada na Itália.

Fonte, Ashoka Mody, no sítio MarketWatch, 10 de Março de 2020, Italy will need a precautionary bailout — a ‘financial firewall’ — as coronavirus pushes it to the brink. Texto disponível em:

https://www.marketwatch.com/story/italy-will-need-a-precautionary-bailout-a-financial-firewall-as-coronavirus-pushes-it-to-the-brink-2020-03-10

 

Publicado em 10 de Março de 2020 at 7:47 a.m. ET

 

Ashoka Mody is the Charles and Marie Robertson Visiting Professor in International Economic Policy at Princeton University and previously was a deputy director of the International Monetary Fund’s European Department. He is the author of “EuroTragedy: A Drama in Nine Acts,” recently updated with a new afterforward.

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