Trump e o Covid-19 – 2 textos, dois olhares: “A força de Trump” por Francisco Seixas da Costa e “O legado do nosso pecado original” por Paul Krugman

Espuma dos dias 2 Trump Coronavirus Racismo Bunker Guerra A

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Seleção de Júlio Marques Mota

“A força de Trump”

Francisco Seixas da Costa Por Francisco Seixas da Costa

Publicado por duas ou três coisas, notas pouco diárias de Francisco Seixas da Costa, em 03/06/2020 (ver aqui)

JN

O fenómeno Trump, qualquer que venha a ser o seu saldo final, tem já garantido um lugar na história política americana. Não o vai ser, com toda a certeza, pelas melhores razões, mas os Estados Unidos que sairão da sua passagem pela Casa Branca serão bastante diferentes daqueles que herdou de Obama. Não sabemos ainda é quanto.

Depois de Trump, todos iremos perceber se o corpo institucional americano permanece preservado no seu papel de gestor essencial dos “checks and balances”, ou se o desgaste induzido por um presidente que fez das roturas uma doutrina de ação acabou por se consagrar como um fator descaraterizador, com efeitos duradouros.

Trump chegou ao poder com uma intenção evidente: mudar a América de Obama. Fazer o contrário do seu antecessor foi a estratégia definida desde a primeira hora, numa linha que, tendo bastante de primário e de impressionista, traduzia o que ele pressentiu ser a vontade maioritária da sociedade.

Percebeu que havia uma parte do país violentada por uma leitura urbana, reverente a causas filosóficas da modernidade, que, na ordem externa, dava ares de fragilizar a imagem do país, colocado a jeito da satisfação de interesses que essa parte da América não via como americanos. A nostalgia de um país com um poder respeitado, que os oito anos de Obama teriam deixado banalizar, com compromissos económicos dependentes de um sistema multilateral globalizante, tido como responsável por desemprego e falências, conduziu ao “Make America great again”. Simples como slogan, eficaz como leit-motiv.

Como aquelas equipas de futebol que abrem o jogo “ao ataque”, que fazem do “pressing” a tática permanente e vivem as semanas, nas redes de televisão, a insultar os adversários e a proclamar que são “os maiores”, a onda Trump é uma espécie de “bullying” político permanente.

Curiosamente, se olharmos em perspetiva, estamos, desde o primeiro momento, perante um puro “one man show”, onde os atores secundários são mesmo secundários e descartáveis, à menor tentação de dissenso.

O debate eleitoral que se aproxima, depois de uma pandemia com mais de 100 mil mortos e um rasto económico trágico, não vai ser entre Trump e Biden. Vai ser entre os que acreditam que, depois do vírus, é Trump quem tem mais força para afirmar a América no combate mundial de interesses, nomeadamente contra a diabolizada China, e os que entendem que a solução é recolocar no poder um “genérico de Obama”, da tal América fraca e dialogante. Espero estar enganado, mas os dados parecem lançados.

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O autor: Francisco Seixas da Costa [1948 – ] é um diplomata português aposentado, tendo atingido o nível mais elevado de embaixador de pleno direito. É hoje docente universitário, gestor de empresas e consultor. Na carreira diplomática entre 1975 e 2013, foi embaixador nas Nações Unidas, na OSCE, no Brasil, em França e na UNESCO. Entre 1995 e 2001, desempenhou funções políticas como Secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Licenciado em Ciências Políticas e Sociais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Participou no 25 de Abril de 1974, como oficial miliciano e foi assessor da Junta de Salvação Nacional. Na qualidade de Secretário de Estados dos Assuntos Europeus, foi o principal negociador português do Tratado de Amesterdão (1995-97) e do Tratado de Nice (2000), tendo  presidido ao Comité de Ministros do Acordo de Schengen (1997) e ao Conselho de Ministros do Mercado Interno da União Europeia (2000). Entre outros cargos que exerceu, foi presidente do Conselho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (2009-2012), membro do Conselho Geral de Fundação Cidade de Guimarães (2011-2013) e membro do Conselho Consultivo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2013-2018). É membro do Conselho Consultivo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (desde 2010). Foi docente da Universidade Europeia e professor convidado na Universidade Autónoma de Lisboa. Entre 2013 e 2015, foi colunista do jornal Diário Económico. Desde 2015, é colunista do “Jornal de Notícias” e do “Jornal de Negócios” Desde 2018, é colunista do “Jornal Económico”. É autor do blogue generalista “Duas ou Três Coisas” e membro da direção da Academia Portuguesa de Gastronomia. Desde janeiro de 2018, é membro do Conselho Geral Independente da Rádio e Televisão de Portugal SA

Obras publicadas: Apontamentos (Lisboa, Instituto Diplomático, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, 2009); Tanto Mar? – Portugal, o Brasil e a Europa (Brasília, Thesaurus, 2008); As Vésperas e a Alvorada de Abril (Brasília, Thesaurus, 2007); Uma Segunda Opinião – Notas de Política Externa e Diplomacia (Lisboa, Dom Quixote, 2006); Diplomacia Europeia – Instituições, Alargamento e o Futuro da União (Lisboa, Dom Quixote, 2002); O Caso República, com António Pinto Rodrigues (Lisboa, ed. dos aut., 1975).

 

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

“O legado do nosso pecado original”“A força de Trump”

Paul Krugman Por Paul Krugman

Publicado por the new york times, em 02/06/2020 (The legacy of our original sin, ver aqui)

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Manifestantes protestam contra a morte de George Floyd no domingo, 31 de Maio, perto da Casa Branca em Washington.Alex Brandon/Associated Press

Estes são tempos de dor para aqueles de nós que amam a América e a sua promessa; conheço pessoas que têm rompido espontaneamente em lágrimas e muitos de nós ficámos numa espécie de estupefação.

Cada dia , ao que parece, é-nos dado a ver outro indicador do nosso declínio: a nação do nós podemos fazer tornou-se uma terra que não consegue lidar com uma pandemia, o líder do mundo livre tornou-se um destruidor das instituições internacionais, o berço da democracia moderna é governado por quem se propõe ser autoritário. Como é pode tudo estar a correr tão mal e tão depressa?

Bem, nós sabemos a resposta. Como Joe Biden disse, “o pecado original da escravatura mancha hoje o nosso país”.

Alguns dos meus amigos não americanos perguntam-me, por vezes, qual a razão para que a mais importante e mais rica nação do mundo não tenha  cuidados de saúde universais. A resposta é uma questão racial: quase conseguimos uma cobertura universal em 1947, mas os segregacionistas bloquearam-na por medo de que isso os levasse a hospitais integrados (o que o Medicare fez nos anos 60.) A maioria dos estados que se recusaram a expandir a cobertura Medicaid ao abrigo da lei Affordable Care, apesar de o governo federal suportar a maior parte dos custos, são antigos estados escravos.

O economista ítalo-americano Alberto Alesina morreu subitamente no dia 23 de Março; entre os seus melhores trabalhos estava um documento conjunto que analisava as razões pelas quais a América não tem um Estado social ao estilo europeu. A resposta, longamente documentada, foi a divisão racial: na América, demasiados de nós pensam nos beneficiários do apoio como Essas Pessoas, não como Nós.

Agora, a América é, na verdade, uma sociedade muito menos racista do que costumava ser. Em 1969, apenas 17% dos americanos brancos aprovavam o casamento entre negros e brancos. Mesmo durante o primeiro mandato de Ronald Reagan, esse número só chegou a atingir os 38%. A partir de 2013, era de 84%. (Por acaso, a minha mulher é afro-americana).

Mas, como George Floyd poderia dizer, se ainda estivesse vivo, o racismo está longe de ter desaparecido. E embora os americanos sejam cada vez mais tolerantes enquanto indivíduos, as tensões raciais continuam a ser exacerbadas por políticos cínicos, que exploram o racismo branco para vender políticas que, na realidade, prejudicam os trabalhadores, independentemente da cor da sua pele.

E o antagonismo racial foi, naturalmente, o que tornou possível que Donald Trump se tornasse presidente. É difícil imaginar alguém menos adequado para o cargo, intelectual e moralmente. Mas ele é um odiador muito bom, que tem evocado muitos demónios – há muito mais insultos e ameaças anti-semitas na minha caixa de correio do que nunca. E o seu apelo ao preconceito deu-lhe uma base dedicada.

Por isso estamos agora num momento de crise, em que todas as coisas boas que a América representa estão ameaçadas pelo legado venenoso do nosso pecado original. Será que o vamos conseguir ultrapassar ? Sinceramente, não tenho a certeza de que o conseguiremos.

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O autor: Paul Krugman [1953 -] é um economista americano, licenciado pela Universidade de Yale em 1974 e doutorado pelo M.I.T. em 1977. Foi professor em Yale, M.I.T. e Stanford. É professor distinto no Graduate Center Economics Ph.D. e académico distinto no Luxembourg Income Study Center da City University of New York. Além disso, é professor emérito da Escola Woodrow Wilson da Universidade de Princeton.

Em 2008, Krugman foi o único galardoado com o Prémio Nobel da Economia pelo seu trabalho na teoria do comércio internacional.

Juntou-se ao The New York Times em 1999, como colunista da Opinião-Editorial.

Krugman é autor ou editor de 27 livros e mais de 200 artigos em revistas profissionais e volumes editados. A sua reputação profissional assenta em grande parte no trabalho em comércio internacional e finanças; é um dos fundadores da “nova teoria do comércio”, uma grande reformulação da teoria do comércio internacional. Em reconhecimento desse trabalho, em 1991 a Associação Económica Americana atribuiu-lhe a medalha John Bates Clark. A actual investigação académica do professor Krugman está centrada nas crises económicas e monetárias. Ao mesmo tempo, tem escrito extensivamente para um público mais vasto. Alguns dos seus artigos sobre questões económicas, originalmente publicados em Foreign Affairs, Harvard Business Review, Scientific American e outras revistas, são reimpressos em Pop Internationalism e The Accidental Theorist.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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