Assim vai a Itália… – Draghi começa a ronda com Conte. Por Andrea Fabozzi

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Draghi começa a ronda com Conte

A teia de Draghi. Longo encontro fora da praxe habitual com o presidente demissionário. Hoje as consultas

 Por Andrea Fabozzi

Publicado por  em 04/02/2021 (Draghi comincia da Conte, original aqui)

 

 

Três longas reuniões, a terceira é apresentada como um gesto de cortesia e é certamente fora do habitual. Mas mais do que cortesia, é o primeiro sinal de como Mario Draghi sabe envolver a sua biografia de “técnico” de um modo significativamente político. Após as conversações rituais para cada presidente que aceita a tarefa de formar o governo – neste caso com reservas – com os presidentes da Câmara e do Senado, o antigo presidente do BCE acaba de sair do Quirinal [palácio do presidente da república] e dirigir-se para o Palazzo Chigi [residência oficial do primeiro-ministro].

No gabinete ainda está Giuseppe Conte e aí ficará até que Draghi acabe por retirar a sua reserva, jure nas mãos do chefe de estado e depois vá receber o sino do seu predecessor. É o momento em que deveria ter entrado pela primeira vez no Palazzo Chigi, mas ontem Draghi cruzou a porta com antecedência, parando para falar com Conde durante mais de uma hora. Uma conversa muito confidencial, a quatro olhos, só eles sabem o que realmente foi dito. Mas entre os partidos que estão a suster o fôlego sobre o resultado desta tentativa, circularam rumores de que Draghi ofereceu a Conte formar fazer parte do seu governo “dos melhores”. Uma eventualidade que, por si só, faria saltar o principal obstáculo no caminho de Draghi, dado que a resistência anti-Mário dos 5 Estrelas gira em torno de um impraticável regresso ao esquema a três de Conte. Os colaboradores de Conte negaram estes rumores, assegurando que não houve qualquer conversa sobre nomeações governamentais para o primeiro-ministro cessante. Mas entre os partidos da aliança há um sentimento generalizado de que o advogado do povo ainda não decidiu se deve liderar a ala extremista dos 5Estrelas e bombardear Draghi ou, como seria mais no seu estilo, recorrer a uma tónica de cooperação razoável e moderada.

Entretanto permanece um certo grau de incerteza sobre o “compromisso” que com “esperança” e “consciência” Draghi aceitou com reserva de Mattarella, “confiante de que a unidade emergirá do confronto com os partidos e grupos parlamentares e do diálogo com as forças sociais”. Das tomadas de posição oficiais dos partidos, esta tentativa – que não poderia ser mais autorizada, dado o investimento feito pelo Presidente da República – ainda não tem o caminho aberto. Ou seja, os números no parlamento. Porque reunindo os partidos que certamente a apoiariam (Pd, Forza Italia, Leu ou parte do Leu, os novos pró-europeus e a parte que se pode implicar dos grupos mistos) não alcançaria uma maioria absoluta nem na Câmara nem no Senado. Para que o governo Draghi pudesse começar, uma destas duas condições adicionais teria de ser satisfeita: a abstenção da Liga (e no caso do Fratelli d’Italia também) ou (mas também e) o apoio de pelo menos um terço dos grupos de 5 Estrelas, que estão previsivelmente destinados a dividir-se. No primeiro caso, porém, este governo começaria muito fracamente, seria um governo de abstenções forçado a confiar na benevolência de Salvini e Meloni. É difícil que Draghi possa aceitar liderá-lo, tal como é difícil para ele aceitar a condição de ser um governo com uma data de vigência (Junho ou Setembro), uma vez que seria uma reivindicação fora da Constituição (Salvini e Meloni pedem-no no entanto).

O investimento que o Quirinal fez neste possível governo é muitíssimo elevado, o presidente evitou até uma rápida ronda de consultas antes de comunicar a sua escolha. Apesar das dificuldades, é portanto difícil prever um fracasso porque teria consequências generalizadas. Por esta razão, será certamente um governo “do presidente”. Mas não um governo técnico, que sobretudo os 5 Estrelas não querem (e o veto do Di Maio limita-se a este aspeto). Será, se o for, um governo político não só pela consideração óbvia de que terá uma base política no parlamento, mas porque será composto por vários políticos, como foi o de Ciampi com o qual é muito justamente comparado.

Para o formar Draghi começará esta tarde as suas consultas na Câmara dos Deputados. O calendário não foi divulgado até tarde da noite passada, outro sinal da dificuldade mas também do cuidado com que o antigo presidente do BCE se está a dedicar ao trabalho. Deveria também reunir – e esta é outra novidade, excluindo o precedente de Bersani que em 2013 manteve as consultas inutilmente abertas, tanto quanto possível – também os parceiros sociais. Depois retirará a reserva. Mattarella está à espera disso.

 

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O autor: Andrea Fabozzi [1971- ], é um jornalista italiano, licenciado em Economia e Comércio. Começou a sua carreira como jornalista em 1995, como correspondente do jornal Liberazione. Depois trabalhou para os semanários Rinascita e Avvenimenti. Há vinte anos que está no il Manifesto, onde foi chefe da secção política, editor-chefe e é actualmente correspondente parlamentar. Há dez anos que é professor contratado de jornalismo na Universidade Suor Orsola Benincasa em Nápoles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Comments

  1. Um comentário adicional :
    Como previsto no Acordo UE/RU celebrado em fins de Dezembro a Irlanda do Norte passaria de facto, (mas não de jure), a pertencer ao mercado unico Europeu ao ser criada uma fronteira aduaneira no Mar da Irlanda entre ela e a Grã-Bretanha. A fiscalização do transito de mercadorias seria feito no porto de Belfast por funcionários de Bruxelas.
    Há poucos dias esses funcionários foram ameaçados por forças para-militares unionistas e por precaução suspenderam a sua actividade. A UE reclamou, mas a resposta do Governo Britânico foi dada pelo super-ministro Michael Gove que publicamente instou a UE a desistir da aplicação do Tratado no que se refere à Irlanda do Norte. Á UE só restam duas opções :Ou contemporiza e aceita o novo status quo, ou denuncia o Tratado na sua totalidade, o que daria é um hard brexit afinal. Resta dizer que Boris nunca teve a intenção de cumprir o que assinou, como se tinha provado anteriormente.
    Depois do fiasco das vacinas von der Leiden não tem margem de manobra mas fará o que Frau Angela mandar, mas esta não quer perder o mercado Britânico para as suas exportações.
    No fim quem ganha?

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