UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (85) – Reposição

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ESTRADA DA CIRCUNVALAÇÃO

 

A estrada da Circunvalação é a fronteira entre o Porto e os concelhos de Matosinhos, Gondomar e Maia. Pertence às Estradas de Portugal (EP) e tem a designação oficial de Estrada Nacional nº 12.
Dado o seu traçado e o elevado movimento rodoviário, é a via mais perigosa do distrito do Porto.

Mapa do Porto Internet
Mapa do Porto
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Esta estrada tem uma origem militar. A placa central era originalmente um fosso, com 2 a 3 metros de profundidade, e com postos de sentinela separados cerca de 150 metros uns dos outros.
Esta fronteira foi construída entre 1889 e 1896 e servia como barreira alfandegária. Nas suas variadas portas, treze, existiam edifícios onde funcionários da Coroa, do Bispado e do Município estavam instalados, e onde se taxavam os bens de consumo que entravam na cidade. Desses edifícios já poucos existem, e hoje, os que ainda podemos ver, são pertença de particulares.

Antigo Posto Alfandegário Junto à Rua da Vilarinha Hoje é o Teatro da Vilarinha
Antigo Posto Alfandegário Junto à Rua da Vilarinha
Hoje é o Teatro da Vilarinha
Antigo Posto Alfandegário Junto à Rua da Preciosa. Hoje é uma Farmácia
Antigo Posto Alfandegário Junto à Rua da Preciosa.
Hoje é uma Farmácia

 

Antigo Posto Alfandegário Junto ao Viso
Antigo Posto Alfandegário Junto ao Viso
Antigo Posto Alfandegário em Vila Cova. Hoje é um restaurante
Antigo Posto Alfandegário em Vila Cova.
Hoje é um restaurante

A partir de 1922, com a extinção do “Real de Água” (imposto Real que começou por ser destinado a financiar as obras de abastecimento de água às cidades e acabou como imposto de consumo sobre a carne, as bebidas alcoólicas, sobre o arroz, o vinagre e o azeite de oliveira), uns edifícios foram vendidos e outros demolidos. O imposto tributário, que durara cerca de oitocentos anos, findou por fim em 1943, depois de ter sido gradualmente substituído por outros, imposto de transacções e mais tarde IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado).
Esse imposto, constava de um Real por cada canada, arrátel, ou outra unidade de medida. Para se ter ideia de quanto valeriam, nos dias de hoje, estas medidas, convém saber que uma canada correspondia a cerca de 1,5 litros e se dividia em quatro quartilhos (hoje, na região Norte, ainda se usa o quartilho, que para facilitar as contas, corresponde a cerca de meio litro), e que um arrátel era a unidade de peso do antigo Sistema Português de Medidas, que vigorou até meados do século XIX (apesar de ter entrado em vigor em 13 de Dezembro de 1852, o novo sistema conviveu, durante muito tempo, com o antigo sistema de medidas), e que correspondia a cerca de meio quilograma. Um arrátel tinha dezasseis onças, e trinta e dois arráteis faziam uma arroba.
Como curiosidade, podemos dizer que estas medidas não eram iguais para todo o País. Havia diversos sistemas de medidas, sendo que os de Santarém, Lisboa e Porto eram os mais importantes e usados. No entanto, e por exemplo, uma arroba, e estou a falar de há bem poucos anos atrás, que pesa 15kg, pesava, pelo menos na região de Paços de Ferreira, 18kg se dissesse respeito à arroba de batatas.
A estrada de Circunvalação foi então aberta com o fim único de servir de barreira à entrada na cidade e para mais facilmente se proceder à fiscalização e cobrança dos impostos municipais, anteriormente chamados de tributos, portagens, sisas e imposições, e que existiam desde 1836.
Assim, a cobrança do imposto municipal, em 1897, passou a fazer-se nas várias barreiras de fiscalização do Estado, sendo elas, Esteiro, Freixo, Campanhã, São Roque, Rebordões (Vila Cova), Areosa, Azenha, Amial, Monte dos Burgos, Senhora da Hora, Pereiró, Vilarinha e Castelo do Queijo. No que respeita à linha marginal, havia também postos, Cantareira, Ouro, Massarelos, Banhos, Ribeira, tabuleiro inferior da ponte Luís I, tabuleiro superior da ponte Luís I, Guindais e Pinheiro.

Circunvalação, no início Ocidental
Circunvalação, no início Ocidental
Circunvalação junto à entrada "das traseiras" do Parque da Cidade
Circunvalação junto à entrada “das traseiras” do Parque da Cidade
Placa central da Circunvalação junto ao Teatro da Vilarinha
Placa central da Circunvalação junto ao Teatro da Vilarinha
Circunvalação junto ao Quartel
Circunvalação junto ao Quartel
Circunvalação junto ao Quartel
Circunvalação junto ao Quartel

Com a excepção de um ou outro ponto, a Estrada da Circunvalação (que é a primeira rua do Porto que quem nos visita, e não entra na cidade pela Auto-estrada, vê), é uma estrada feia, esteticamente mal-arranjada e que nada tem a ver com o resto da cidade do Porto. Tem potencialidades enormes, e foi já palco de imensas glórias desde os anos cinquenta, com corridas de automóveis e de bicicletas, e mais recentemente, de novo com automóveis e até com aviões. As centenas de Plátanos que tem na sua placa central, em mais de metade do seu percurso, dão-lhe um ar calmo, que contrasta com o enorme movimento automobilístico. Na sua parte mais ocidental, está mais bem preservada que na restante, sendo que é no seu todo, decadente, e que a partir de São Roque, para quem vai em direcção ao rio, quase desaparece. Na ponta oriental, já não delimita a cidade, uma vez que Azevedo fica na parte exterior da estrada e pertence ao Porto. Não é mais que uma estrada essencialmente industrial, onde pontificam vários hospitais, um quartel, bombas de gasolina, fábricas e muito pouca habitação. As casas que existem, estão, de um modo geral, muito deterioradas.

Circunvalação São Roque
Circunvalação
São Roque
São Roque Entrada na cidade do Porto, por quem vem de Gondomar e Rio Tinto A Circunvalação passa por cima, e lá em cima havia um outro posto alfandegário que hoje está em obras de restauro Onde agora está o Túnel, havia uma porta na muralha então existente.
São Roque
Entrada na cidade do Porto, por quem vem de Gondomar e Rio Tinto
A Circunvalação passa por cima, e lá em cima havia um outro posto alfandegário que hoje está em obras de restauro
Onde agora está o Túnel, havia uma porta na muralha então existente.

Ciente disso, o anterior executivo da Câmara, tratou de em 2007 promover planos para vir a transformá-la numa alameda urbana.
O plano pretendia a transformação da Circunvalação numa alameda de 16 quilómetros com duas vias de circulação em cada sentido, passeios alargados, arborizados e com ciclovia anexa, e baías de estacionamento. Não estava fechada a possibilidade de, no futuro, introduzir o eléctrico no corredor verde central. A reconversão da estrada nacional em “boulevard” municipal seria feita com as sugestões dos arquitectos Bernardo Távora, Pedro Guimarães e José António Barbosa. Na zona do Hospital de S. João a via haveria de ser enterrada.
Como está bom de se ver, nada foi feito.
Mais tarde, em Junho de 2014, já com nova gente no executivo, fruto das eleições de 2013, os presidentes das câmaras do Porto, Matosinhos, Maia e Gondomar estiveram reunidos para debater a requalificação da Circunvalação. A requalificação, a fazer-se, deveria passar pela criação de interfaces, pelo desvio de algum trânsito, criação de ciclovias, linhas dedicadas para autocarros, para além de todas as questões ambientais, como a criação de espaços verdes. O modelo de financiamento para esta obra não estava ainda definido, podendo passar pelos quatro municípios, pela Junta Metropolitana, por fundos comunitários ou por outra qualquer possibilidade.
Parecia haver novo impasse nas negociações, e, que mais uma vez nada iria acontecer, mas em Dezembro de 2014 foi anunciado que já havia um acordo dos municípios do Porto, Matosinhos, Maia e Gondomar para a requalificação urbana da estrada da Circunvalação. Assim, dizem agora, a intervenção basear-se-á em pequenas obras para que a Circunvalação seja mais atractiva para os peões. O perfil da via irá manter-se, não estando previstas grandes obras. Vão ser arranjados os passeios e a placa central, podendo esta acolher uma ciclovia. Gondomar salvaguardou a possibilidade de um dia ser construída uma segunda linha de metro entre o município e o Porto, um projecto entretanto suspenso pelo actual governo. Não está definida uma data para o início das obras e espera-se que o investimento possa ser pago com dinheiro europeu.
Ou seja, impasse não há, mas a montanha que todos deveríamos querer ver crescer, passou a ser um montinho, de dentro dele não vimos sair mais que um ratico, e das acções que se esperavam dos mandantes que elegemos, nada vemos, … até à próxima reunião da comissão de que fazem parte, claro!
Como é, para mim, evidente, nada se fará sobre este assunto (e outros) enquanto, neste nosso País de comissões e comissõezinhas, continuarmos amarrados a estas circunstâncias e não passarmos (passar a Câmara Municipal do Porto, através do seu Presidente e da sua equipa), como o temos feito em algumas alturas, a ser sempre a Cidade das Acções.

Um exemplo da Cidade das Acções:

 

 

13 Comments

    1. Meu caro João Menéres, é verdade o que diz, na VCI os acidentes sucedem-se, mas a acrescer aos que, entre automóveis, acontecem na Circunvalação, temos de contabilizar os que envolvem peões.
      Um grande abraço

  1. É muito interessante este historial da Circunvalação, que muitos de nós desconheciam ou conheciam mal.
    A nota sobre a sinistralidade parece-me exagerada e, sobretudo, inadequada a esta informação historica. Mesmo assim retive o que as imagens e texto de melhor me deram.

  2. Mais uma vez e principalmente para os menos esclarecidos é de louvar o historial da Circunvalação. Quanto à sinistralidade nesta via nem se justifica, repara que a velocidade permitida é de 50 Kms, É evidente que ninguém respeita e por isso, sempre que há necessidade de receita a P.S.P. lá está .
    Um forte abraço

  3. Mais uma vez nem uma foto do lado oriental da cidade a não ser de uma casa degredada, nem do parque oriental nem da zona do Freixo é pena já estou habituado a estas coisas. Viva Campanhã

    1. Meu caro Emílio Cabral, esta crónica é sobre a Estrada da Circunvalação, não é sobre o Freixo, o Parque Oriental ou sobre Campanhã.
      Na verdade escrevi ainda muito pouco sobre a parte Oriental da cidade. Duas ou três crónicas (pelo menos as crónicas números 9 e 10) sobre o Bonfim e uma onde contemplo Campanhã (crónica número 78). Noutras, escrevi apenas apontamentos sobre a sua freguesia.
      Pode encontrar todas elas e outras coisas, aqui : – http://aviagemdosargonautas.net/tag/jose-magalhaes/
      Viva o Porto, meu caro, e todas as suas freguesias.
      Obrigado pelo sua visita e pelo seu comentário.
      Cumprimentos

  4. Amigo eu ao referir-me a parte oriental era da circunvalação,que sera a parte que ainda tem hoje digamos as (muralhas) na zona do fundo de Azevedo ate a ponte de Rio Tinto e que não é referida na cronica.Tenho visto a suas cronicas que muito admiro porque tudo que diga respeito ao Porto para é maravilha OBG: Tudo de bom para o meu Amigo.

  5. José Magalhães obrigado pela sua crónica sobre a circunvalação pois através dela tomei conhecimento duma parte da sua História que desconhecia e gostei da ideia que há partida deixou patente para o seu futuro , Ciclovia , Percursos pedonais seria excelente , a ver vamos , Bem Haja pelo seu trabalho ,Parabéns .

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