UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (88) – Reposição

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LÁ NO ALTO DO MONTE DO TADEU

Tanto quanto me lembro, o primeiro contacto que tive com o nome Monte Tadeu, deu-se nas conversas que, amiúde, tinha com o meu avô materno num jogo de conhecimento das ruas do Porto, de que já tive oportunidade de falar numa crónica anterior. Fruto desses jogos, eu fazia brilharetes junto dos meus amigos já que sabia muito mais sobre as ruas e os lugares do Porto do que eles.
Mais tarde, tive um outro contacto, mais próximo, quando com o meu pai, mãe e irmã fomos, pela primeira vez, jantar ao restaurante da torre da Cooperativa dos Pedreiros. Aí, o meu pai teve oportunidade de nos explicar, ao pormenor, alguma história do local onde nos encontrávamos.

Vista aérea Fotog. Internet
Vista aérea
Fotog. Internet

O monte Tadeu, ou do Tadeu, fazia parte da quinta do Tadeu em cujos terrenos se abriu a Rua de Anselmo Braancamp. Este último foi líder do Partido Progressista (assim chamado após a fusão do partido Histórico com o Reformista), ministro do Interior e das Finanças, defensor da Patuleia e, entre 1879 e 1880, chefe do Governo. Faleceu em 13 de Novembro de 1885 e deu nome à Travessa que, tal como a Rua, viria a ter o seu nome a partir de 1 de Maio de 1895.
A rua, que pertencia à Câmara desde 1892, não teve designação oficial até 1895, mas o povo chamava-lhe Rua da Companhia das Águas, uma vez que se encontravam ali perto dois reservatórios da referida companhia.

O Monte do Tadeu também se chamou Dos Congregados e, antes disso, de Santa Catarina.
A mudança dos nomes terá começado em 1680, quando uns frades construíram a sua casa no local onde hoje está a Igreja dos Congregados, em frente à Estação de S. Bento. Obtiveram também um grande espaço (data de 1785 o mais antigo registo paroquial), com casa que também servia de hospital, nas abas do Monte de Santa Catarina. Razão pela qual, o nome mudou ficando como recordação dessa época uma rua com este toponímico, Rua do Monte dos Congregados, datada dos finais dos anos trinta do séc. XIX. Por essa altura, e por causa da Quinta do Tadeu, o nome do monte voltou a mudar.
A Quinta dos frades ficou na posse da Câmara Municipal por altura da extinção das Ordens Religiosas, em 1834. Foi depois vendida a um cidadão brasileiro, de nome Moreira cuja memória se perpetua com uma rua que tem o seu nome. Este passou a explorar, no ano de 1852, a pedreira que ali existia, e ainda existe, cedendo depois parte do leito dela à Câmara Municipal do Porto, o que veio mais tarde a dar origem à Rua de D. João IV (que começou por se chamar Rua Duquesa de Bragança e depois foi Heróis de Chaves).
No alto da pedreira foram construídos depósitos de águas explorados por uma companhia francesa (Compagnie Géneral des Eaux Pour l`Etranger) que deteve a concessão da rede de águas da cidade desde 1887 até 1927. São esses os depósitos que deram, até 1895, nome oficioso à rua do outro lado do monte.

Os depósitos e o espaço circundante estão, para ali, com mau aspecto.

 

Escadas do Monte do Tadeu - Reservatório Torre
Escadas do Monte do Tadeu – Reservatório Torre

Em 2007, foi aberto concurso para a sua requalificação (destes e dos demais depósitos da cidade).
O concurso público internacional foi lançado pela Empresa Municipal de Águas do Porto e pretendia vir a dar nova utilidade aos sete reservatórios de água espalhados pela cidade do Porto. Foram apresentadas 173 soluções, oriundas de 22 países. As propostas foram expostas em Junho de 2008 na Faculdade de Arquitectura do Porto (FAUP) e, então, a cidade pôde ver o que o futuro reservava para aqueles locais – parques desportivos, cinema ao ar livre, hortas biológicas e estufas agrícolas, bares e discotecas, assim como ateliês para jovens artistas. Existia de tudo um pouco.
Especificamente para os depósitos dos Congregados, propuseram-se espaços comunitários, nascidos entre os silos, com biblioteca e informática, instalação da Academia de Golfe do Porto no cimo dos reservatórios, um club-house e uma esplanada com vista panorâmica para a baixa, um ponto de ascensão de balões de ar a partir do topo do reservatório, um parque desportivo urbano para onde se projectaram dois edifícios com balneários de apoio, restauração, ginásio e quartos para pousada da juventude e/ou lar da terceira idade. Um manjar de criatividade!
Entretanto, repito, nada foi feito até aos dias de hoje, já lá vão sete anos, e é uma pena, quando não, mesmo, um crime contra a cidade.

Para se chegar ao cimo do Monte pode-se entrar pela Rua do Monte dos Congregados (a rua mais alta de toda a cidade), pela Rua Particular de Santo Isidro, ou pela escadaria existente no cruzamento da Rua de Anselmo Braancamp com a Rua do Monte Tadeu. E digo cruzamento, porque a Rua de Anselmo Braancamp continua, com acesso existente a meio da escadaria.
Mesmo ao lado do Monte, nas suas faldas, do lado da Rua da Alegria, está um prédio com catorze andares. No 9º andar funciona a Rádio Festival e no 14º andar o restaurante mais alto do Porto, o Portucale, com entrada lateral no prédio (pelo Hotel Miradouro), com uma magnífica paisagem que se alarga na imensidão do horizonte permitindo observar toda a cidade, mar e montanhas.
Ali funciona também a Cooperativa dos Pedreiros. Muitas das construções mais emblemáticas da cidade a ela se devem. Falo, como um exemplo entre muitos, do edifício da Câmara Municipal do Porto, que devido ao bairrismo do fundador e dos empregados da Cooperativa, esteve durante muito tempo a ser construído sem que qualquer pagamento fosse feito, e o monumento à Guerra Peninsular.

Cooperativa dos Pedreiros Rua do Monte dos Congregados
Cooperativa dos Pedreiros
Rua do Monte dos Congregados

Do outro lado, na Rua de Anselmo Braancamp, e no nº 517, funcionou uma fábrica de estruturas metálicas e de candeeiros. Aquando da Revolução de Abril, o dono da empresa, ligado ao Partido Comunista, ofereceu a firma aos empregados da mesma, ficando no entanto, como gerente, com um ordenado de, dizem, setecentos contos por mês. Ao fim de um ano, a firma faliu. Também por lá existiu uma grande fábrica de tintas, agora abandonada.
Já nada resta desses tempos.

O Monte do Tadeu teve também importância nos tempos do Cerco do Porto (1832/34), uma vez que esteve ali instalada uma bateria de defesa (Bateria dos Congregados) que protegia as baterias militares da Praça da Aguardente (hoje Marquês de Pombal), do lugar do Sério, da Ramada Alta e das Medalhas, e dos fortes de São Brás e da Glória. Também ali funcionava uma Estação Telegráfica. Foi ponto estratégico, de observação, dos Generais de D. Pedro IV.

Vista do Monte do Tadeu - Ao longe vê-se Gondomar e V.N.Gaia Rua do Tadeu Jardim Travessa de Santo Isidro Depósito Torre
Vista do Monte do Tadeu – Ao longe vê-se Gondomar e V.N.Gaia
Rua do Tadeu
Jardim
Travessa de Santo Isidro
Depósito Torre

O Monte do Tadeu é o ponto mais alto da cidade do Porto. Lindo, calmo e com uma vista de quase tirar a respiração. De lá, consegue-se ver até Gondomar e Vila Nova de Gaia. De lá também se vêem casas pobres, gente humilde e muita degradação.

Urge recuperar!

 

E digo mais uma vez, o Porto não é só a Foz, a Ribeira, os locais da “movida” e a Avenida dos Aliados.

Há mais Porto, por esse Porto fora.

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6 Comments

  1. Muito interessante!!!! Tenho casa em Santos Pousada, com as traseiras voltadas para a Cooperativa dos Pedreiros e para os Depósitos da Água!!!! Mas não sabia a história do Monte do Tadeu e já agora, da Rua do Moreira!!! Desconhecia por completo a origem desses nomes. Muito obrigada pela partilha!!!

  2. Fantástico! Aprendi montes de coisas! Eu morei na rua da Alegria bem perto daí! Do Barão de Moreira sei imensa coisa, como deve saber, mas não vem a propósito! Mas não sabia imensas coisas que escreveu!

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