Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 1. QUESTÕES AOS MERCADOS: 1.7 “A avalanche de Archegos mostra que há fendas escondidas sob a superfície”. Por Gillian Tett

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

1.7 A avalanche de Archegos mostra que há fendas escondidas sob a superfície

Há focos preocupantes de comportamentos bizarros dos preços no mundo dos bancos-sombra.

 

 Por Gillian Tett

Publicado por em 1 de abril de 2021 (ver aqui)

 

© Efi Chalikopoulou

Os mercados financeiros sofreram o equivalente a uma avalanche na semana passada. O disparo inicialmente pareceu inócuo: o preço das ações do grupo norte-americano ViacomCBS deslizou após o grupo ter decidido (muito sensatamente) vender 3 mil milhões de dólares de ações, em resposta a um quase triplicar peculiar do preço das suas ações no ano passado.

Essa queda infligiu grandes perdas na carteira do escritório familiar de gestão patrimonial Archegos, que estava fortemente exposta à Viacom. Isto, por sua vez, despoletou a chamada da margem em bola de neve e a venda de ações, uma vez que os seus principais corretores tentaram liquidar a carteira da Archegos para se protegerem. Os escombros podem criar de $5 mil milhões a $10 mil milhões de perdas para os corretores de primeiro nível, diz JPMorgan Chase.

A boa notícia é que esta avalanche não parece ter criado sérios riscos sistémicos, uma vez que os bancos parecem ser capazes de absorver o golpe. Esta é uma pequena vitória para os reguladores que aumentaram as exigências de capital após a crise financeira global de 2008.

Mas a má notícia é que o episódio expõe vulnerabilidades mais amplas no sistema financeiro. Afinal, como qualquer esquiador de fundo sabe, as avalanches não ocorrem normalmente apenas devido a um choque idiossincrático, mas porque a massa de neve subjacente é instável.

O desastre da semana passada indica que o sistema está hoje cheio de múltiplas fendas meio escondidas. Por um lado, há uma alarmante falta de transparência sobre os escritórios familiares, apesar de estes terem aumentado muito em número, dimensão e influência. Há ainda menos clareza sobre os derivados que a Archegos utilizava para fazer apostas.

Os bancos de investimento continuam a lutar para avaliar os seus principais riscos de corretagem, em parte devido a silos internos. Anos de política monetária branda deixaram os financeiros tão indiferentes à subida dos preços dos ativos que poucos questionaram se faziam sentido os fundamentos da subida vertiginosa e contra-intuitiva da cotação das ações da Viacom, tendo em conta a situação de relativa fragilidade financeira da empresa.

Mais marcante de tudo, a Archegos estava aparentemente a operar com mais de cinco vezes a alavancagem. Isto é comparável aos padrões observados antes da queda de 2008 e parece ter sido “a própria definição de insanidade”, dada a natureza concentrada da sua carteira, como diz o financeiro Mike Novogratz.

Então, foi Archegos uma anomalia? Ou uma tendência? Ninguém sabe ao certo, dada a falta de transparência no mundo dos bancos-sombra. Mas eu acredito nesta última hipótese. Afinal, os escritórios familiares não são a única parte do sector financeiro a ter escapado a uma supervisão eficaz; basta olhar para o que o recente escândalo Greensill mostra sobre o financiamento da cadeia de abastecimento. A Viacom não foi certamente o único título a exibir oscilações de preços peculiares; as oscilações na evolução do preço de GameStop têm sido muito mais selvagens.

De facto, se analisarmos o panorama financeiro, podemos ver múltiplos bolsos de comportamento bizarros de preços – ou espuma. Tomemos o bitcoin: o preço de uma moeda teve um aumento de nove vezes no último ano. Os evangelistas da criptografia argumentam que isto faz sentido, dadas as ameaças de inflação à moeda fiduciária e a crescente aceitação generalizada de ativos criptográficos. Possivelmente assim. Mas a escala da subida sugere que alguns grandes jogos especulativos invisíveis estão também em ação.

Ou, para um exemplo ainda mais colorido, vejam os preços elevadíssimos praticados pelos “objetos não fungíveis” (NFTs) [1], ou objetos cibercoleccionáveis únicos. Os recém-cunhados gazilionários da cryptoesfera [2] atualmente mergulhados nesta esfera atribuem estes preços elevados à escassez: Os NFTs são supostamente únicos. Mas o mercado não está testado e se alguém quebrar o código para replicar os NFTs, toda a tese de investimento irá implodir.

Ou, para um exemplo mais geral, considere as ações verdes, como as da Tesla. O preço das ações do fabricante de veículos elétricos subiu cerca de 600 por cento no último ano, entre  elevadas e bizarras projeções de cotações por grupos de investimento, como a Ark. Parte dessa subida  poderá ser justificada pelo novo apoio da Casa Branca aos veículos elétricos. No entanto, a popularidade da Tesla reflete também uma escassez de ativos verdes no ano passado, relativamente à crescente procura dos investidores – e isso poderia facilmente mudar se, digamos, os fabricantes de automóveis produzissem mais veículos elétricos.

Ou refletir também sobre as tecnologias dita de software enquanto prestação de serviço. As empresas SaaS [Software as a Service [3]] com as projeções para o próximo ano a serem muito otimistas estão agora a ser avaliadas na bolsa de valores em cerca de 40 vezes os lucros, em média, de acordo com os cálculos que me foram mostrados por alguns capitalistas de risco. Antes de 2019, a média era mais próxima de 11 vezes.

Isso pode fazer sentido se pensarmos que o boom do ano passado nos serviços digitais será sustentado indefinidamente. Não é assim se os confinamentos do coronavírus do ano passado simplesmente antecipassem a futura procura de digitalização, o que parece inteiramente provável.

Não me interpretem mal: não estou a prever avalanches iminentes em todos estes sectores; nem a sugerir que estes são os piores exemplos de espuma especulativa. O que está a acontecer em alguns segmentos da esfera dos veículos de fins especiais de aquisição (SPACs) e do mundo das ações podres (junk bonds), pode ser bem pior.

Mas o ponto-chave é este: os escombros da Archegos mostram que anos de política monetária excessivamente branda não só deixaram os preços dos ativos elevados como também criaram bolsas de alavancagem meio encobertas. Quando os dois colidem, o desastre pode irromper. E a grande dor de cabeça de hoje é que embora a espuma dos preços seja visível, é frustrantemente difícil dizer onde estão as bolsas de alavancagem excessiva, ou como é que as exposições estão interligadas, uma vez que o sector bancário sombra é tão pouco transparente.

Pode-se assim dizer que é também uma tragédia que a administração Trump tenha minado tanto o Gabinete de Investigação Financeira, o organismo criado após a crise de 2008 para monitorizar os riscos interligados. Duplamente, pois se a Reserva Federal (e outros bancos centrais) mantiverem taxas de juro negativas, esta espuma financeira poderá em breve ultrapassar qualquer coisa vista em 2000 ou 2007. Tal como acontece com a neve, uma superfície de mercado cintilante pode esconder fissuras ocultas, grandes e a aumentarem.

 

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Notas

[1] N.T. Sobre os NFTs, ver “Confused about NFTs? We explain all you need to know”.

[2] N.T. Gazilionário: pessoa imensamente rica. Palavra não encontrada nos dicionários de português.

[3] N.T. Sobre as SaaS ver What is a SaaS Company?.

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A autora: Gillian Tett [1967-] é autora e jornalista britânica do Financial Times, onde é editora chefe nos EUA sobre mercados e finança. Tornou-se famosa pelo seu aviso precoce de que uma crise financeira [de 2008] estava a aproximar-se. É doutorada em Antropologia Social pelo Clare College de Cambridge. A sua mais recente obra é The Silo Effect: The Peril of Expertise and the Promise of Breaking Down Barriers, 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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