Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
2.1 “O BCE questiona os bancos sobre a sua exposição à Greensill e a GUPTA”
O regulador avalia os riscos para a estabilidade financeira enquanto prosseguem as conversações sobre a venda de partes do grupo financeiro à Apollo
Por Olaf Storbeck e Martin Arnold em Francforte e Sylvia Pfeifer, Kaye Wiggins e Stephen Morris em Londres
Publicado por
em 7 de março de 2021 (ver aqui)

O mais alto regulador bancário da Europa pediu aos credores do continente detalhes sobre a sua exposição ligada ao capital de Greensill e ao seu principal cliente, a GFG Alliance [aço, alumínio e energia] [de Sanjeev Gupta], enquanto os as autoridades tentam compreender se a crise está contida, de acordo com quatro personalidades familiarizadas com o assunto.
Greensill foi levada para a beira da insolvência na semana passada depois de o Credit Suisse ter abandonado 10 mil milhões de euros de fundos de financiamento da cadeia de fornecimento ligados ao grupo e de o supervisor bancário alemão BaFin ter congelado o seu banco sediado em Bremen e ter apresentado uma queixa criminal alegando manipulação de balanço.
Os supervisores do Banco Central Europeu pediram aos bancos que fornecessem pormenores sobre os empréstimos pendentes à Greensill e ao GFG, que opera com siderurgias em todo o mundo e dependia fortemente da Greensill para o financiamento.
Uma pessoa familiarizada com o assunto disse que o pedido era normal e não refletia uma preocupação acrescida no banco central. O BCE, a Greensill e a GFG Alliance recusaram-se a comentar. BaFin afirmou que o Greensill Bank, uma parte do grupo mais vasto com sede em Londres, é demasiado pequeno para causar sérios danos ao sistema financeiro mais vasto.
A Greensill Capital teve nos últimos dias uma onda de demissões do conselho de administração, de acordo com os documentos da empresa na Austrália, nomeadamente o seu presidente Maurice Thompson e o presidente do seu comité de auditoria Pat Allin. Os documentos mostram que vários outros diretores se demitiram há cerca de um mês, incluindo o irmão de Lex Greensill, Peter.
A compreensão da teia de exposições também faz parte da devida diligência realizada pela Apollo Global Management, que está em conversações para adquirir partes da Greensill.
Durante o fim-de-semana, as conversações foram “a toda a velocidade”, embora “muitos detalhes técnicos ainda precisem de ser resolvidos”, disse uma pessoa. Um acordo poderia valer cerca de 100 milhões de dólares, disseram duas pessoas familiarizadas com o assunto.

O grupo de investimento norte-americano de 455 mil milhões de dólares e a sua filial de seguros Athene querem contratar os clientes mais dignos de crédito da Greensill e contactaram alguns para os tranquilizar, que lhes fornecerá financiamento se os negócios forem para a frente, disseram duas pessoas familiarizadas com o assunto.
No entanto, a Apollo não assumirá a exposição à GFG e poderá também deixar para trás muitas empresas apoiadas pelo SoftBank que a Greensill financiou através dos fundos Credit Suisse, disse uma pessoa familiarizada com o processo. A SoftBank detém uma participação na Greensill através do seu Vision Fund e as empresas japonesas de portfólio do grupo também lhe contraíram empréstimos.
Apollo está particularmente interessado em tomar conta da Finacity, que a Greensill tinha adquirido em 2019, é o que se ouve dizer. A Finacity fornece principalmente serviços administrativos que sustentam o processo de securitização de faturas. Apollo recusou-se a comentar.
Há também questões sobre a exposição das seguradoras à Greensill. Na semana passada, os processos judiciais mostraram que o grupo estava a tentar restabelecer cerca de 4,6 mil milhões de dólares de seguro de crédito, avisando que a perda de cobertura poderia desencadear uma onda de insolvências.
A principal exposição tem-na a seguradora Tokio Marine, sediada no Japão, que no ano passado despediu um subscritor depois de ter descoberto que este estava a segurar montantes para a Greensill “superiores à sua autoridade delegada”, com o total a exceder os AUD$10 mil milhões (US$7,7 mil milhões). A Tokio Marine recusou-se a comentar a sua exposição remanescente.
Insurance Australia Group, outra seguradora que teve negócios com a Greensill, não acredita que tenha uma exposição material, disse uma pessoa familiarizada com o assunto.
Qualquer que seja o eventual impacto no sistema financeiro mais vasto, a situação difícil da Greensill está a afetar a GFG [Alliance], que o empresário Sanjeev Gupta transformou num império tentacular, que abarca metais e bancos, com 20 mil milhões de dólares em receitas e 30.000 empregados.
Os representantes sindicais no Reino Unido estão prontos a manter conversações cruciais já na terça-feira com Gupta enquanto que os empregados e os políticos locais têm crescentes preocupações sobre a viabilidade financeira da Liberty Steel, a principal empresa metalúrgica do grupo. Espera-se que um foco de discussões seja a fábrica do grupo especializada em aços especiais, em Rotherham.
A atual fase de produção deverá terminar esta sexta-feira, mas existem preocupações sobre a disponibilidade de capital de exploração depois disso, de acordo com duas pessoas familiarizadas com a situação. Alguns fornecedores de matérias de base à Liberty Steel também começaram a reduzir a sua exposição financeira ao grupo, pedindo adiantamentos à cabeça ou não renovando contratos na base do aconselhamento das seguradoras de crédito comercial.
O GFG recusou-se a comentar estas preocupações. Um porta-voz da União dos Sindicatos do grupo disse que procuraria “garantias em nome dos nossos membros” na reunião com Gupta esta semana.
Gupta tem dependido dos financiamentos de Greensill durante a sua expansão. De acordo com pessoas com conhecimento em primeira mão do assunto, o Greensill Bank forneceu cerca de 2 mil milhões de euros em financiamento ao empresário com outros financiamentos da cadeia de abastecimento provenientes de outras partes da Greensill.
A BaFin afirmou no início deste mês que durante a auditoria especial da KPMG ao Greensill Bank, o credor “não conseguiu apresentar provas da existência de créditos no seu balanço que tinha adquirido ao GFG Alliance Group”.
O Greensill Bank afirmou na semana passada ter procurado aconselhamento jurídico e de auditoria sobre o tratamento dos ativos nos seus livros. O grupo GFG, que não foi acusado de irregularidades, recusou-se a comentar.
A principal incursão de Gupta no mercado tradicional da dívida bancária foi a sua aquisição em 2018 de uma fundição de alumínio em Dunquerque. O negócio foi apoiado por um empréstimo de 350 milhões de dólares, de mutuantes que incluíam bancos europeus como o BNP Paribas e o Natixis.
O Financial Times informou em 2019 que o empréstimo caiu num “incumprimento técnico” no início desse ano, devido a violações dos seus termos.
O Financial Times revelou no ano passado que o próprio emprestador britânico do grupo Gupta, Wyelands Bank, tinha financiado o seu império empresarial mais vasto através de uma rede de empresas de fachada. A Autoridade de Regulamentação Prudencial do Reino Unido ordenou na semana passada que o Wyelands devolvesse o dinheiro dos depositantes.
Informação complementar por Robert Smith e Ian Smith
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Olaf Storbeck, correspondente em Frankfurt desde Outubro de 2017. Entre 2012 e 2017 foi colunista na Reuters Breakingviews em Londres. Desde 2001 esteve como correspondente na Handelsblatt. Licenciado em Economia e Ciência Política pela Universidade de Colónia.
Martin Arnold, dirige o escritório do FT em Frankfurt, e escreve sobre o Banco Central Europeu e a economia da zona euro. Trabalha para o FT desde 1999 em funções que incluem editor bancário, editor adjunto de empresas, correspondente de private equity e correspondente de Paris.
Sylvia Pfeifer, colaboradora do financial Times desde 2008, é atualmente correspondente da indústria. Foi editora de negócios adjunta no The Sunday Telegraph (2003/2008). Licenciada em Letras pela Universidade de Oxford e mestrado em Letras pela Universidade de Georgetown.
Kaye Wiggins, correspondente sobre capital privado no Financial Times desde 2019. Foi repórter da Bloomberg (2017/2019), jornalista independente na City (2016/17), repórter no Times Educational Supplement (2015/16), repórter e editora adjunta no Local Government Chronicle (2012/15). É licenciada em História Moderna pela Universidade de Oxford e mestre em jornalismo financeiro pela City, Universidade de Londres.
Stephen Morris, editor sobre banca, no Financial Times desde 2018. Anteriormente foi repórter financeiro na Bloomberg (2010/18) e repórter independente no The Independent (2010). Licenciado em História pela Universidade de Durham e mestre em História americana pela Universidade de Cambridge.

