Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo – Introdução, por Júlio Marques Mota

 

Coimbra, 29 de Julho de 2021

 

Com a Comissão Europeia a aprovar o Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal muitos irão ser os debates que se irão desenrolar nas universidades portuguesas. Ainda bem.

Muitas serão as proclamadas virtudes do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal, muitos serão os ministros e secretários de Estado que participarão nestes debates, muitos serão os elogios lançados sobre todos aqueles que se reclamam de responsáveis pela sua aprovação, muitas serão as qualidades garantidas do programa, muito poucos serão os seus defeitos, se é que haverá alguns e, por fim, talvez algum dos participantes se manifeste dizendo que se encontram pelo meio do programa algumas lacunas, mas nada de muito importante. Isto é, de certeza, o que ouviremos nestes debates. No uníssono dos elogios abafar-se-ão as ténues críticas que eventualmente serão levantadas.  

Ouviremos falar de inflação, o velho papão que é a porta de entrada para as políticas de austeridade que virão a seguir quando se retomarem as regras de Maastricht, ouviremos falar da carga da dívida, ouviremos falar dos limites da política monetária expansionista dita de flexibilização quantitativa, limites estes considerados, e de longe, já há muito ultrapassados, ouviremos falar de empregos de qualidade, a pressupor elevados níveis de formação enquanto se vai matando lentamente o ensino superior de qualidade, enquanto se vai permitindo que o ensino politécnico se torne uma réplica ainda mais degradada do ensino superior. E quanto ao ensino profissional, vai-se permitindo que este seja transformado em parque de estacionamento onde permanecem os jovens que seriamente não estudam, não trabalham nem frequentam formação, os jovens conhecidos pela sigla NEET [1], jovens que mais tarde poderão alimentar as hordas de marginais políticos, dispostos a servirem quem lhes pagar! Os partidos tipo Chega ou as Jotas de alguns outros partidos esperam por eles. Ouviremos falar da forte carga das pensões de reforma no sistema, ouviremos falar de competitividade e da falta dela em alguns dos países da União Europeia, e ouviremos muito falar de funções de produção, de flexibilização do mercado de trabalho, de inclusão social, de economia verde, de economia digital, de necessidade de aumentar as reformas estruturais, etc, etc. Continuaremos então a ouvir falar de tudo isto, algo de que repetidamente se tem vindo a falar desde há décadas, mas agora apresentado tudo num pacote supostamente inovador, chamado Plano de Recuperação e Resiliência. Enquanto isso, vão-se precarizando [2] as sociedades europeias.

Mas repare-se, nos debates que a partir de agora irão decorrer ouviremos falar dos mesmos temas de que temos ouvido falar desde 2000. Leiam-se os documentos da União Europeia desde 2000 de cimeira em cimeira e com exclusão da flexibilização quantitativa, de que só se começou a falar muito com Bernanke, Governador do FED após 2008. Os textos poderiam até ser os mesmos, mudariam apenas os dados e uma ou outra expressão literária mais de acordo com o ar dos tempos, porque o pano de fundo e os princípios são exatamente os mesmos. Há aqui uma exceção: há uma expressão que a União Europeia cunhou em 2000 e que depois de 2010 praticamente desapareceu dos seus textos, a expressão “tornar-se no espaço económico mais dinâmico e competitivo do mundo baseado no conhecimento”.

Dizia a União Europeia em 2000:

“A União atribuiu-se hoje um novo objectivo estratégico para a próxima década: tornar-se no espaço económico mais dinâmico e competitivo do mundo baseado no conhecimento e capaz de garantir um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos, e com maior coesão social. A consecução deste objectivo pressupõe uma estratégia global que vise:

  • preparar a transição para uma economia e uma sociedade baseadas no conhecimento, através da aplicação de melhores políticas no domínio da sociedade da informação e da I&D, bem como da aceleração do processo de reforma estrutural para fomentar a competitividade e a inovação e da conclusão do mercado interno;
  • modernizar o modelo social europeu, investindo nas pessoas e combatendo a exclusão social;
  • sustentar as sãs perspetivas económicas e as favoráveis previsões de crescimento, aplicando uma adequada combinação de políticas macroeconómicas.” Fim de citação

 

Este é pois um dos poucos temas que pura e simplesmente não se repete nos discursos de agora. Será demasiado vergonhoso falar disso, dado o estado calamitoso em que está o ensino superior e em todo o lado.

Pois bem, estando eu afastado da docência universitária desde há quase uma década sublinho que já nessa época, só por obrigação profissional é que lia da primeira à última página os diferentes documentos de estratégia da União Europeia, o que acontecia quando lecionava, porque ficava sempre com a sensação do já lido. Nos debates que se irão desencadear, depois da aprovação do PRR de Portugal, teremos também a sensação do já ouvido. A dimensão crítica sobre os documentos em discussão dificilmente a ouviremos nesses debates, dados os limites estreitos em que estes são concebidos e organizados.

Apesar de estar já fora do espaço universitário, entendemos que podemos contribuir para um outro debate possível, tornando disponíveis aos nossos leitores  algumas ferramentas que lhes permitam entender criticamente melhor os discursos que serão proferidos, os artigos que serão lidos, as questão que serão levantadas dentro do pensamento dominante, dito de mainstream, e terem uma noção clara dos apertados limites em que se situarão essas mesmas afirmações ou interrogações, uma vez que todas elas se inserem no discurso dominante e no quadro da atual arquitetura da União Europeia.

Os debates, em Portugal ou algures, serão necessariamente assim, não estivesse todo o nosso ensino superior formatado para isso mesmo: para se aprender a servir o sistema e não a questionar os assuntos. Não será por acaso que para além dos múltiplos centros de reflexão, direta ou indiretamente apoiados pelas instituições de Bruxelas ou pelos governos nacionais, existem também espalhadas pelas Universidades da União Europeia cerca de 500 cátedras Jean Monnet para defender as virtudes da arquitetura da União Europeia e para que, parafraseando Perry Anderson [3], cada uma delas possa ser uma lanterna de uma “luz quente que as deliberações europeias irradiam, policromo para a diversidade das populações estudantis que elas iluminam .”

Esta referência à luz quente de Bruxelas é uma ironia de Perry Anderson referindo-se ao edifício atual da União Europeia em Bruxelas e à sua iluminação. Com efeito, como assinala a Comissão, o edifício Europa é de conceção inovadora. Dois muros vidrados transformam o edifício inicial em forma de L num cubo. No interior do cubo, foi criado um espaço em forma de lanterna, com andares em forma elíptica de dimensões variáveis. Esta lanterna é principalmente visível do exterior quando o edifício Europa está iluminado.

Num modelo como é o da construção europeia não podemos esquecer o que nos diz Perry Andersen sobre a UE e que passo a citar longamente:

Tem sido frequentemente observado que o conjunto institucional da UE é sui generis como uma entidade política, uma criação mais facilmente definida de forma negativa do que positiva. Não é, obviamente, uma democracia parlamentar, sem divisão entre um governo e uma oposição, sem competição entre partidos pelo cargo, nem responsabilidade perante os eleitores. Não existe uma separação entre os poderes executivo e legislativo, segundo as linhas americanas; nem uma ligação entre eles, segundo as linhas britânicas ou continentais, na qual um executivo é investido por uma legislatura eleita, perante a qual permanece responsável. Pelo contrário, é o inverso que se verifica: um executivo não eleito detém o monopólio da iniciativa legislativa, enquanto um poder judicial, autoinvestido com uma independência sujeita a nenhuma auditoria ou controlo constitucional, emite decisões que são efetivamente inalteráveis, quer estejam ou não em conformidade com os tratados em que se baseiam nominalmente. A regra dos procedimentos da União, quer sejam presididos por juízes, banqueiros, burocratas, deputados ou primeiros-ministros, é o sigilo, sempre que possível, e o seu resultado, a unanimidade.

Nas palavras de Majone, o seu crítico liberal mais clarividente, o mundo em que a União habita é um mundo em que “a linguagem da política democrática é em grande parte ininteligível”. Único na história constitucional moderna, observa, “o modelo não é Atenas mas Esparta, onde a assembleia popular votou sim ou não às propostas avançadas pelo Conselho de Anciãos mas não tinha o direito de propor medidas por sua própria conta. A cultura política das elites da União assemelha-se à da Restauração Europeia e das suas sequelas, antes das reformas da franquia no século XIX, “quando a política era considerada um monopólio virtual de gabinetes, diplomatas e burocratas de topo”. O hábito mental e institucional da Europa do Antigo Regime ainda está vivo no “suposto sistema de governação pós-moderno da UE”. Em suma, a ordem da União é a de uma oligarquia.” Fim de citação

Por oposição ao pensamento dominante nas Universidades e na União Europeia, exatamente porque intelectualmente nos pretendemos situar em Atenas e não em Esparta, porque defendemos o espírito crítico contra o pensamento monolítico, com o objetivo de dinamizar a reflexão crítica sobre a propaganda europeísta apresentamos uma série de textos dividida em três partes intitulada Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo.

A primeira parte iniciar-se-á com dois artigos a propósito do livro de Ashoka Mody, Eurotragedy: a drama in nine acts, livro do ano de 2018, um livro fundamental para se compreender a União Europeia. O primeiro artigo é uma entrevista a Ashoka Mody, e que já havíamos publicado em 06/03/2019 (ver aqui). O segundo é uma análise crítica do livro de Mody. Apresentam-se depois alguns outros documentos de enquadramento geral da crise sistémica que abala a Europa e não só; na segunda parte seguir‑se‑ão textos que se publicaram em torno do PRR de Itália e, por fim, como terceira parte, e uma vez que Joe Biden é portador de um programa verdadeiramente inovador na resposta à crise, apresentaremos, previamente um importante texto – O fim da Friedmanomics de Zachary D. Carter – que se debruça sobre o que poderá ser a morte do desastroso legado de Milton Friedman – de que os mecanismos de mercado poderiam ser utilizados para promover valores sociais essencialmente progressistas – sendo Biden o primeiro presidente a romper com os princípios das ideias económicas de Friedman e também com as implicações antidemocráticas de toda a sua filosofia. Segui-se-ão textos ligados quer ao programa de Joe Biden por confronto com o que se quer fazer na Europa, quer às dificuldades que a esquerda oficial, em torno das teses de Clinton e Obama, apresenta contra o programa de Joe Biden, constituindo-se objetivamente em aliados de um trumpismo sem Trump  Este comportamento da esquerda “oficial” americana confirma o que nos disse Edward Bacevich: os democratas gostam do que Trump faz, não gostam é que seja ele a fazê-lo. Penso que se ficará assim com uma melhor capacidade crítica de entender os discursos que se irão fazer ouvir em termos do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal e noutros países igualmente.  

E mais do que isso, ficamos com uma certeza: a presença dos aguerridos falcões europeus e americanos, mesmo que nos apareçam disfarçados de pombas, são um sinal claro de que a democracia está de facto em perigo, para utilizar uma expressão de Edward Luce, diretor do Financial Times para a edição americana.

Na primeira parte, após os artigos respeitantes ao livro de Ashoka Mody, seguir-se-á um artigo debate entre duas importantes referências como economistas, Daron Acemoglu do MIT e Emiliano Brancaccio, onde se fala que o modelo capitalista seguido está a pôr em risco a própria democracia, a que se seguirá o artigo de Edward Luce, A democracia americana em perigo.

Vejamos o que nos diz o moderado Acemoglu:

“o Estado deve controlar, não é inevitável que as empresas se tornem demasiado poderosas; mas também é necessário um equilíbrio de poder, e a sociedade civil também deve ter um papel forte. Esta, aliás, é também a solução – bastante fraca – indicada por Crouch: a mobilização da sociedade civil. Se empresas como a Philip Morris ou a Exxon-Mobil declararem continuamente que vão fazer mudanças que iriam destruir os seus negócios,  estão certamente a mentir, mas fazem-no porque sentem a pressão da opinião pública. Os cidadãos, através do voto, podem controlar os seus governos, que por sua vez podem controlar as empresas: é por isso que a democracia é tão importante.”

(…)

“Mas penso que as democracias sociais estão em crise porque não geraram uma nova agenda. Blair, Clinton, Obama e outros líderes subscreveram todos a ideia de que precisávamos de avançar para uma globalização sem restrições, fazer funcionar os mercados e talvez depois redistribuir, mas tem havido muito pouca redistribuição.”

(…)

Penso que precisamos de muitos elementos de “velho estilo” de social-democracia, melhor organização e melhores salários para os trabalhadores, uma melhor rede de segurança social, redistribuição. Precisamos de capacitar os trabalhadores, mas também os cidadãos, para que eles tenham um papel mais importante na sociedade. Será isso fácil? Certamente que não, mas penso que é possível.”

(…)

Assim, quando é criada pressão social, os mercados podem ser canalizados numa direção diferente e os ganhos podem ser partilhados. É claro que tudo isto funciona se a democracia perdurar, e nós tínhamos dito que a democracia está em perigo“. Fim de citação.

 

Seguir-se-ão dois textos de falcões europeus, o primeiro de Wolfgang Schäuble sobre a necessidade de voltar ao respeito das regras do Tratado de Maastricht, o mesmo é dizer, voltar às políticas de austeridade seguidas na década perdida de 2010-2020. Sublinhe-se que o texto de Schäuble retoma os temas que os falcões monetaristas defenderam de forma mais aberta em Memorandum on the ECB’s Monetary Policy, publicado em 4 de Outubro de 2019 que será pois o sétimo artigo da primeira parte da série. Este texto é assinado por Herve Hannoun (Banco de França), Klaus Liebscher (Banco Central da Austria), Otmar Issing (BCE), Jürgen Stark (BCE), Klaus Liebscher (Banco Central da Áustria), Helmut Schlesinger (Bundesbank), Nout Wellink (Banco Central da Holanda), Jacques de Larosière (Banco Central da França)+Christian Noyer (Banco Central de França).

Estes dois textos serão seguidos, dada a importância dos autores, por uma análise crítica de Bill Mitchell, e de uma resposta assinada por dezenas de professores universitários à escala europeia, ambos direcionados ao texto mais recente do mais aguerrido dos falcões europeus, Wolfgang Schäuble. Esta primeira parte terminará com um artigo de Adam Tooze curiosamente intitulado Os falcões da dívida começam a bater as suas asas.

Seguir-se-ão, na segunda parte, diversos textos que têm como pano de fundo geral o Programa de Recuperação e Resiliência da União Europeia e que, em particular, se debruçam sobre o Programa de Recuperação e Resiliência da Itália. Trata-se de textos que se recomendam como uma boa grelha de leitura sobre os Planos de Recuperação e Resiliência que apressadamente se desenham nesta Europa que se quer manter agarrada às regras do Tratado de Maastricht.

Nada do que se fala nos textos desta segunda parte se ouvirá nos debates oficiais em torno do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal ou de qualquer outro país.

A terceira parte desta série, como se disse acima iniciar-se-á com um texto, longo mas fundamental, sobre o que poderá vir a ser o virar de página sobre o legado de Milton Friedman, um legado de ruína.

Os restantes textos têm como base a realidade americana, quer no contraponto que Biden representa para a Europa quer, sobretudo, nos perigos que podem ser criados com a oposição sistemática da “esquerda oficial” americana ao programa de Recuperação e Resiliência Americana.

Sublinhemos de passagem que a Democracia está em perigo e nisso os dois autores acima citados, Daron Acemoglu do MIT e Emiliano Brancaccio, estão de acordo em que este é o resultado das políticas que até aqui têm sido seguidas. E a Democracia está em perigo tanto aqui na Europa como nos Estados Unidos ou algures. A Ocidente o contraponto às políticas austeritárias vem de Joe Biden e dos economistas que o acompanham, contraponto a que não são estranhas as gentes que se reuniram em torno de Bernie Sanders. Mas forças poderosas de oposição começam já a levantar-se tanto no campo Republicano como no campo dos Democratas. No campo republicano outra coisa não seria de esperar tal o mau estado em que Trump colocou a direita americana (veja-se o artigo de Edward Luce sobre os perigos que abalam a democracia americana) ) mas no campo dos Democratas a coisa  é muito mais séria. São vozes que fizeram parte do estado-maior dos Presidentes Clinton e Obama que se posicionam ao lado da direita americana no seu ataque à política de viragem proposta agora por Biden! De entre estes nomes, salientam-se: Larry Summers (secretário do Tesouro dos Estados Unidos da América na presidência de Bill Clinton, e antes disso, havia sido vice-secretário do Tesouro sob  Robert Rubin); Robert Rubin, (diretor do Conselho Económico Nacional da Casa Branca de 1993 a 1995 e Secretário do Tesouro de 1995 a 1999, durante os dois mandatos de Bill Clinton); Tim Geithner, (Presidente do FED e depois Secretário de Estado do Tesouro de Obama); Jack Lew (Secretário do Tesouro de Obama de 2013 até 2017); Jason Furman, diretor económico na campanha de Barack Obama, e sobretudo, deve-se sublinhar que dirigiu o Projeto Hamilton, na base do qual foram escolhidos os homens da equipa de Barack Obama, é  hoje um intelectual de Brookings. (Veja-se a importância do projeto Hamilton em Adam Tooze- na sua obra  Crashed, pag.17-40!). Furman foi adjunto de Summers no Conselho Económico Nacional e depois presidente do Conselho de Conselheiros Económicos de Obama em 2013. Por estes nomes se percebe a importância desta terceira parte da série.

Estas tomadas de posição contra Biden, vindas de onde vêm e de quem vêm, são tanto mais graves quanto elas representam um regresso às políticas que levaram Trump ao poder. Num momento em que a direita se está a reorganizar ao nível institucional e de tal forma que hoje já se sente a democracia americana em perigo e que poderá vir a manifestar-se rapidamente aquando das próximas eleições intercalares. Daí a importância que no plano interno assume o plano de recuperação e resiliência de Biden como forte contraponto ao trumpismo que não morreu, antes pelo contrário.

Sublinhe-se, entretanto, uma enormíssima diferença entre a União Europeia e a Administração de Joe Biden. Enquanto a União Europeia é ela própria elemento-chave na criação da enorme crise que ela mesma atravessa e, como se isso não chegasse, quer ser pela via da austeridade o agente fundamental no seu aprofundamento (!), no outro lado do Atlântico, ao contrário, Joe Biden procura refazer uma América para os cidadãos retomando o grande sonho de Lindon B. Johnson [4] com a Great Society, e o de Franklin Roosevelt com essa enorme aventura que foi o seu New Deal. Enormes forças internas se lhe opõem, desde Republicanos aos democratas companheiros de Clinton e de Obama, passando até pela resistência das Instituições que foram moldadas por Clinton, Obama e mais perigosamente ainda, por Trump. Forças gigantescas estão em movimento para neutralizar o acordo Sanders-Biden com o qual a atual Administração Biden pretende construir um sistema político para os americanos em geral que seja razoavelmente considerado de DEMOCRACIA. Deste ponto de vista diz-nos o jornal The New Republic pela mão de Osita Nwanevu:

Quaisquer que sejam as esperanças de alguns da esquerda em poderem assumir um dia  a direção do Partido, trata-se de um Partido que teve de lutar no duro para fazer avançar uma atualização da Lei dos Direitos de Voto de 1965 e que não está pronto para reformular de forma fundamental os cuidados de saúde dos americanos, a economia energética americana, ou qualquer outra coisa importante dada a ambivalência ou oposição dos seus atuais líderes e os preconceitos cada vez mais profundos das nossas instituições federais. A única força que poderá eventualmente transformar essas instituições é a transformação do eleitorado americano – um longo projeto de conversão ideológica que poderá progressivamente encorajar os eleitores a exigir não a proteção, mas o estabelecimento de um sistema a que poderíamos razoavelmente chamar democracia americana. Uma aspiração utópica? Sim. Mas a nossa situação é o que é. Se a trajetória básica da nossa política nacional não mudar em breve, os progressistas não terão mais nenhum outro projeto político nacional em que se possam envolver.” Fim de citação.

Estes são pois os temas tratados nesta série de textos.

 


NOTAS

[1] Not in employment, education or training. Já com este texto pronto e a aguardar espaço de publicação, um artigo de António Guerreiro intitulado A universidade sob a condição digital, publicado no Público de 9 de julho de 2021, chama-me a atenção para o seguinte: os pais da reforma de Bolonha e a primeira vaga dos filhos desta reforma querem agora impor no ensino que “a componente teórica do ensino universitário fica por conta dos meios digitais e reduz-se o seu peso curricular. Manuel Heitor, o ministro, explica assim esta transformação: “Hoje, os jovens têm acesso fácil à informação, que está disponível em muitas fontes”. O presidente do Instituto Superior Técnico corrobora e diz que “parte do que era a formação docente, que era transmitir informação” se tornou “grandemente redundante”. E quanto ao reforço da componente prática e da flexibilidade, as razões são explicitadas pelo reitor da Universidade Nova, João Sàágua: “Os empregos do futuro são difíceis de prever, pelo que os estudantes têm de ter a capacidade de criar o seu próprio negócio. Por conseguinte, todos eles, das ciências sociais à engenharia, passarão a ter durante o curso uma formação em empreendedorismo”. Fim de citação.

Com Universidades sem leitura, sem história, sem memória e já com muito poucas pessoas a merecerem a classificação de professores no verdadeiro sentido do termo, serão estas Instituições que irão agora gerar a maioria dos novos NEETS. Os novos NEETS virão a ser maioritariamente os futuros universitários e que farão então estes nossos reitores de letra minúscula com os seus produtos de (des)formação? Procurar-lhes-ão emprego nas milícias de não sei o quê, fardados com camisas de cores a que já não estamos habituados? Mas não esqueçamos: esta posição a que refere António Guerreiro é a visão que as elites universitárias, de pais e filhas de Bolonha e igualmente do Partido Socialista de agora, têm sobre o que deve ser a missão da Universidade. E não me digam então, contrariamente a mim que defendo que com estas mentalidade é a própria democracia que está em perigo, que estamos assim numa democracia em construção que será finalmente concluída quando as Universidades criarem um universo de muitos pequenos empreendedores. Por este caminho, o resultado será bem outro, as Universidades afundar-se-ão e a pique. Um exemplo de hoje: um engenheiro químico formado em Portugal vai ao programa joker e é-lhe posta a seguinte pergunta: o adjetivo tácito qualifica algo que está: 1) demorado.2) determinado.3) agitado. 4) implícito? E a resposta do nosso licenciado em engenharia química foi: demorado!

Que raio de ministro, que raio de reitores estes (sou delicado no termo) que depois de dois anos de desastre total com o ensino à distância, e correspondente avaliação de que oficialmente ninguém fala, teimam em continuar a aprofundar a via da digitalização do ensino universitário? Que raio de ministro, que raio de reitores, estes, que nem sequer entendem que não há informação que se aproveite se não há formação que lhe sirva de recetáculo? Que raio de ministro, que raio de reitores, estes, que nem sequer entendem o que é a dinâmica do capitalismo nem o que são as linhas de força no mercado de trabalho neste mesmo capitalismo, para nos falarem de um mundo de pequenos empreendedores? Pior ainda, que raio de ministro, que raio de reitores, que nem sequer são capazes de pensar como é que de um jovem se faz um cidadão com capacidades culturais e profissionais que o levem a ser capaz de aprender a saber fazer o que a sociedade dele pode exigir! Não será certamente com ele a crescer agarrado a um telemóvel! Um ser humano adulto é também o produto de afetos criados e vividos, será também o produto de relações sociais, relações entre sujeitos humanos e não entre cada humano e as máquinas informáticas. Leia-se ao menos o livro de Yuval Noah Harari-Sapiens – História Breve da Humanidade, ou é isto demais para esses senhores, ministro e reitores?

Não nos confundamos: às Universidades cabe a nobre e difícil missão de ensinar a aprender, às empresas, públicas ou privadas, cabe a missão de ensinar a saber fazer. Confundir estas duas missões que têm uma hierarquia, uma sequência, é não conseguir levar a cabo nenhuma delas e é isso o que está a acontecer. Avançar ainda mais nesta linha é querer estar a produzir autómatos com um diploma universitário e que nesta qualidade  estarão sempre prontos a servir .

[2] Há quem utilize o termo uberizando, termo de origem recente proveniente da empresa Uber e que se refere às plataformas da mal chamada economia colaborativa nas quais, graças à internet e às novas tecnologias, determinadas pessoas põem à disposição de outros particulares, supostamente sem necessidade intermediários, diversos bens e serviços. Mas como diz Mar Abad em Yorokobu (ver aqui), as multinacionais são tão poderosas que conseguem converter-se em verbos. Ao fazer de uma marca comercial um verbo, consagra-se, eterniza-se essa marca. Mas uberizar acabou também por se utilizar como sinónimo de precarizar, sinónimo de empresa que não assume que contrata trabalhadores e não paga a respetiva segurança social. Há quem defenda, como Albert Cañigueral (El País, ver aqui), que não se deve utilizar o termo uberizar uma vez que dificulta observar a diversidade de realidades que se dão em volta dos impactos das plataformas digitais no mercado de trabalho, preferindo este autor o termo pixelização ou fissuração do mercado de trabalho.

[3] Perry Anderson, Ever Closer Union?,London Review of Boooks, Editado em 7 de Janeiro de 2021 e disponível aqui

[4] Johnson ascendeu à presidência após o assassinato de Kennedy em 22 de novembro de 1963, completando o mandato de Kennedy e sendo eleito por conta própria com uma grande margem na eleição de 1964. Johnson recebeu grande apoio dos Democratas e, enquanto presidente, foi responsável por criar a legislação da “Grande Sociedade”, que incluía leis que confirmavam os direitos civis, radiodifusão pública, Medicare, Medicaid, proteção ambiental, auxílio a educação e sua “Guerra a Pobreza”. Ele era conhecido pela sua personalidade autoritária e o “tratamento Johnson”, sua coerção de políticos poderosos para avançar legislações. Durante os primeiros anos de sua presidência, a economia cresceu e milhões de americanos saíram da pobreza, especialmente por causa dos seus projetos de estímulo econômicos e sociais.

 

 

 

 

Leave a Reply