Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo – 1ª parte – Enquadramento da crise sistémica na Europa: 1.4. A Democracia americana ainda está em zona de perigo. Por Edward Luce

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Por Edward Luce

Publicado por editorial do em 27 de Maio de 2021 (ver aqui)

Republicado por  em 17 de Junho de 2021 (ver aqui)

 

Se uma prova de força semelhante à de 2020 se verificar em 2024, o sistema terá sido despojado de muitas das suas proteções. © AP

 

A ameaça cresceu para além de Trump à medida que os estados republicanos procuram controlar o que se pode passar aquando das futuras eleições

 

No início da presidência de Donald Trump, a Economist Intelligence Unit desclassificou os EUA, considerando-o como um país de “democracia imperfeita”.

Infelizmente, esta classificação ainda se mantém.

Longe de colocar as desordens trumpianas no espelho retrovisor, a vitória de Joe Biden aprofundou-as.

O estilo de política de Trump assumiu uma vida que se tornou independente dele próprio.

Mesmo que ele se retirasse para um mosteiro, o partido republicano escolheu a via por ele praticada como orientação política.

O perigo que isto representa para a democracia dos EUA é duplo.

O primeiro perigo diz respeito às da América para escolher o seu presidente.

Não se deve subestimar a força do que é precisamente chamado a “grande mentira” sobre as “eleições roubadas” do ano passado.

Se tivesse havido qualquer prova de fraude em Novembro passado, William Barr, o ultraliberal advogado-geral de Trump, teria saltado para cima dela.

O seu Departamento de Justiça não encontrou provas de má prática.

Como todos os mitos, a eleição roubada é imune a provas.

Nem pode ser descartada, como por vezes é, como puro resultado da síndrome do perdedor. Estados governados pelos republicanos, como o Arizona e a Geórgia, estão a aprovar leis para tomarem o controlo sobre os resultados nos seus colégios eleitorais.

São motivados tanto pelo que querem que aconteça em 2024 como por um esforço para acalmar Trump.

Trata-se de tomadas de poder prospetivas por parte de autoridades eleitorais independentes.

Algumas destas disposições envergonhariam a Hungria de Viktor Orban – a “democracia iliberal” original.

O padrão é privar as cidades Democratas, como Houston, de pontos de votação, ao mesmo tempo que se facilita o voto nas zonas rurais conservadoras.

O segundo perigo é a natureza de outras leis que os estados republicanos estão a aprovar, algumas das quais fazem Trump parecer um político moderado.

O Texas está prestes a eliminar a necessidade de quase todos os compradores de armas precisarem de ter licença de porte de arma.

O Estado também acabou de votar para limitar o aborto a seis semanas, sem exceções para a violação ou incesto.

Os republicanos texanos têm a reputação de serem extremistas.

A sua plataforma apela à retirada dos EUA da ONU e à abolição da Reserva Federal.

Mas o estado é também um indicador de em que direção os republicanos a nível nacional vão frequentemente.

Seria enganador considerar que esta evolução política do partido tem apenas como base Trump.

Muitas destas medidas estão a ser tomadas sem a pressão a vir das bases do partido.

Alguns líderes republicanos, como o governador da Florida Ron DeSantis, estão a tentar suceder a Trump em 2024.

Outros, como o texano Greg Abbott, estão a promulgar leis que estão há muito na lista de desejos dos seus doadores.

Não houve nenhum clamor popular no Texas para tornar a compra de armas de fogo mais simples ou a votação mais difícil.

A estratégia é alimentar o pavor de uma América sob a ameaça existencial de influências alienígenas – os liberais europeizados que desejam ultrapassar os americanos trabalhadores com eleitores importados.

Trump desde há muito que encoraja esta paranóia.

Mas adquiriu uma nova velocidade desde a sua derrota.

Numa recente sondagem para o conservador American Enterprise Institute, 56% dos Republicanos apoiaram o uso da força para “proteger o estilo de vida tradicional americano”.

Evidentemente, é fácil dramatizar em demasia o que as pessoas dizem aos inquiridores sobre o que podem fazer na vida real.

A maioria dos americanos, incluindo quase metade dos republicanos, rejeitam a violência política. A taxa de aprovação de Biden não desceu abaixo dos 50% – um teto que Trump nunca ultrapassou.

E o sistema passou um severo teste de resistência entre a eleição de Novembro passado e a tomada de posse de Biden. O qual, todo ele, foi real.

Mas este relato falha em não falar sobre as graves alterações às regras que regem as futuras eleições.

Os republicanos não estão longe dos democratas nas sondagens, num momento em que Biden está a apresentar um enorme lançamento de vacinas que está a conduzir a uma recuperação económica.

As probabilidades de os democratas perderem uma ou outra câmara do Congresso no próximo ano são elevadas.

Antes disso, os limites distritais terão sido redesenhados na sequência do recente censo americano.

A maioria dos Estados são controlados pelos Republicanos, pelo que o novo mapa os favorecerá em grande medida.

Se uma prova de força semelhante à de 2020 se verificar em 2024 o sistema terá sido despojado de muitas das suas proteções.

A mudança – boa ou má – por vezes depende da mais ínfima margem.

A presidência de Biden seria hoje muito diferente se o seu partido não tivesse ganho por estreita margem as duas eleições na segunda volta para o Senado no estado de Geórgia em Janeiro.

Isto deu aos Democratas o Senado dos 50:50 de que ele precisava.

Desde então, a Geórgia reescreveu as suas regras para tornar esse resultado muito menos provável – um movimento que Biden descreveu como “Jim Crow no século XXI” [1].

Biden estava apenas a exagerar um pouco.

É demasiado cedo para tirar a América da lista de democracias em perigo.

 


NOTA

[1] N.T. Leis de Jim Crow foram leis estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos EUA, promulgadas no final do século XIX e início do século XX por legislaturas dominadas pelos Democratas, leis que foram aplicadas entre 1877 e 1964. Estas leis foram revogadas na presidência do democrata Lyndon B. Johnson (vd. wikipedia, aqui).

 


O autor: Edward Luce (1968-), é um jornalista inglês e comentador chefe para os EUA do Financial Times, sediado em Washington D.C. Licenciado em Filosofia, Política e Economia pelo New College, Oxford. É autor dos seguintes livros: In Spite of the Gods: The Strange Rise of Modern India (Little, Brown, 2006,); Time To Start Thinking: America and the Spectre of Decline (Little, Brown, 2012, publicado com título diferente na América do Norte: Time to Start Thinking: America in the Age of Descent);The Retreat of Western Liberalism, (Little, Brown, 2017.

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply