Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 3ª parte – Biden e o programa de Recuperação e Resiliência americano: virar de página sobre o legado de ruína de Milton Friedman? – 3.1. “O Fim da Friedmanomics” (2/2). Por Zachary D. Carter

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Nota de editor: dada a extensão do texto, apresentá-lo-emos em duas partes. Esta é a 2ª parte.

FT


 

 Por Zachary D. Carter

Publicado por , em 17 de Junho de 2021 (ver aqui)

 

(continuação)

 

Acto III: Criticar Keynes

Esta associação aberta com a direita radical teria destruído a reputação profissional de Friedman se ele não tivesse continuado a publicar investigação económica de alto nível. Em 1963, finalmente cumpriu as promessas empíricas que fez no domínio da economia em 1953, publicando a obra que fez dele o mais famoso pensador económico da sua época, A Monetary History of the United States, 1867-1960. Co-escrito com Anna Jacobson Schwartz, o livro oferecia um relato meticuloso e abrangente das mudanças na quantidade de dinheiro na economia americana ao longo de quase um século, com explicações detalhadas sobre as várias formas de criação e destruição de moeda que ocorreram ao longo do caminho. Friedman nunca tinha publicado nada que fosse tão ambicioso, e nunca mais voltaria a fazê-lo.

A construção de uma história de 93 anos de flutuações na oferta de dinheiro é um esforço curioso a assumir a seu próprio favor. Mas é claro que Friedman tinha uma motivação intelectual, que detalhou num famoso discurso de 1967 perante a Associação Económica Americana: Ele esperava destronar o fantasma de John Maynard Keynes.

Desde a publicação de The General Theory of Employment, Interest and Money em 1936, Keynes e a sua teoria da procura efetiva tinham dominado a elaboração de políticas em todo o mundo. Na teoria Keynesiana, o preço do crédito e a quantidade de moeda eram efeitos colaterais dos verdadeiros motores da atividade económica: o poder de compra do consumidor e as decisões de investimento do Estado. No quadro keynesiano, se a economia estava em recessão, era porque alguém, algures, não estava a gastar o suficiente. Se as pessoas estavam a ser despedidas, isso significava que alguém, algures, não se podia dar ao luxo de comprar o que quer que fosse que essas pessoas pudessem ter produzido. O corolário político era simples: Se as pessoas estivessem desempregadas, o governo deveria gastar dinheiro – preferivelmente através do défice público – para criar emprego. Se se quisesse resolver o desemprego, pagava-se às pessoas para trabalhar.

A aura keynesiana de autoridade, reconheceu Friedman, resultou da opinião consensual de que Keynes tinha curado a Depressão com o seu apelo à utilização dos défices e às despesas com obras públicas.

A aura keynesiana de autoridade, reconheceu Friedman, resultou da opinião consensual de que Keynes tinha curado a Depressão com o seu apelo à utilização dos défices e às despesas com obras públicas. E assim o livro de Friedman teve como objetivo direto criticar o relato keynesiano da Grande Depressão, na esperança de mostrar que todo o projeto keynesiano do quarto de século subsequente se baseava num erro. Ele apelidou de “monetarismo” o seu quadro macroeconómico alternativo. O problema nas décadas de 1920 e 1930, argumentou Friedman, não era um colapso da procura dos consumidores – era um colapso na quantidade de dinheiro. A Reserva Federal tinha falhado o trabalho – onde deveria ter mantido uma quantidade saudável de dinheiro na economia, em vez disso tinha permitido que a oferta de dinheiro caísse ao não conseguir salvar o sistema bancário quando este se desmoronou nos primeiros anos da Depressão. Havia alguma verdade nisto. O Fed estupidamente contribuiu em muito para o rebentar da Grande Depressão. Deixar os bancos falirem em múltiplas ondas entre 1929 e 1932 foi uma escolha política desastrosa que os banqueiros centrais subsequentes evitaram energicamente.

Friedman elevou este relato ao nível de uma teoria abrangente da moeda e da economia. Tudo o que era importante na economia – inflação, deflação, desemprego – era um produto de mudanças na oferta monetária, ou expectativas sobre mudanças na oferta monetária. E se se permitisse que um pouco de inflação se instalasse deixando entrar demasiado dinheiro na economia, uma espiral catastrófica poderia instalar-se, uma vez que consumidores e empresas licitavam os preços inexoravelmente sem ter em conta a quantidade de dinheiro realmente em circulação.

O livro de Friedman fez com que muitos estudiosos revisitassem os anos da Depressão. Mas não fez uma mossa imediata no consenso keynesiano. A história da inflação no período pós-guerra simplesmente não se enquadrava na sua narrativa. Tinham ocorrido surtos de inflação, mas foram breves e rapidamente contidos – não uma espiral irreversível de caos.

 

Acto IV: A era Friedman chega…

Tudo isso iria mudar na década de 1970. O nome dado ao dilema económico dessa época reflete os pressupostos dos economistas keynesianos que o interpretaram. A “estagflação” – inflação elevada e desemprego elevado ao mesmo tempo, produzindo uma estagnação da procura – tornou-se um conceito porque, segundo a doutrina existente, isto deveria ter sido impossível.

O próprio Keynes nunca disse nada sobre a estagflação. Mas no início dos anos 60, o seu intérprete americano mais influente, Paul Samuelson, tinha identificado uma tendência estatística notável nos dados sobre inflação e desemprego nos EUA. Parecia haver uma clara relação entre os dois fenómenos económicos. Mais inflação significava menos desemprego. O desemprego mais elevado indicava uma inflação mais baixa. Os decisores políticos, ao que parecia, podiam escolher a quantidade de qualquer um dos males que queriam. Funcionou durante a maior parte da década de 1960. Mas durante a década de 1970, a correlação desmoronou-se. O desemprego e a inflação subiram juntos, e a era da “estagflação” estava em curso. Não foi apenas uma vergonha para Samuelson e os seus aliados académicos keynesianos. Apresentou-se como uma verdadeira crise política.

A razão pela qual o desemprego e a inflação dispararam em conjunto nos anos 70 continua em disputa até hoje. As múltiplas crises petrolíferas foram obviamente parte do problema. Quando a OPEP cortou o fornecimento de combustível, o preço do combustível aumentou, juntamente com o preço de tudo o que precisava de combustível para ser produzido – por outras palavras, tudo. Mas as administrações Johnson e Nixon também gastaram uma enorme quantidade de dinheiro em quase tudo – do bem-estar à guerra, passando por investimentos a longo prazo em investigação, desenvolvimento e infraestruturas. Alguns destes investimentos foram simplesmente perdidos – a produção mais elevada de napalm não aumentou a produtividade de nenhuma sociedade. Mas houve quase de certeza alguns desfasamentos de tempo envolvidos na melhoria das infraestruturas mais grandiosas. Comboios mais rápidos, redes elétricas mais eficientes, e a investigação precoce na Internet elevaram o poder produtivo a longo prazo da economia. Mas, no curto prazo, produziram apenas muitos cheques de pagamento enquanto a economia esperava pelo seu grande impulso.

Qualquer que seja o cocktail, a estagflação chegou. E deu a Friedman a oportunidade de que ele estava à espera. Ele estava pronto. Em 1966, tinha aceite uma posição na Newsweek que lhe permitiria manter o perfil público que desejava sem as estranhas associações de direita que mancharam a sua reputação académica. As suas colunas exprimiram essencialmente a mesma visão do mundo que tinha defendido na National Review nos anos 50, mas agora atingiu um público de classe média muito mais vasto e politicamente diversificado. Nos anos Carter, as ideias de Friedman levavam uma década que tinham chegado aos lares americanos. A evangelização pelo mercado livre já não era o domínio dos malucos – estava nas mesas de café dos lares dos democratas puros e duros. Quando Friedman recebeu o Prémio Nobel da Economia em 1976, conferiu uma nova aura de prestígio à história simples que Friedman ofereceu para explicar as frustrações económicas da época: Todas as intervenções de tipo keynesiano tinham levado a economia para além das suas limitações naturais, criando um mal-estar na economia que era desnecessário. As próprias intervenções que se destinavam a ajudar os mais vulneráveis tinham, a longo prazo, prejudicado os mais vulneráveis. Tectos, palfonds, vales monetários e votos.

Friedman estava a inspirar enormes mudanças não só na política quanto à inflação, mas também noutra frente-chave onde os pressupostos há muito defendidos estavam subitamente sob ataque: a ideia da responsabilidade empresarial. Em 1970, ele tinha publicado o que poderá ser o seu texto mais influente, desta vez para o The New York Times Magazine, e formou o núcleo do que a revista chamava a “doutrina de Friedman”. Intitulado “A responsabilidade social das empresas é aumentar os seus lucros“, o ensaio era uma destilação simples e poderosa das suas crenças sobre o poder do mercado livre – e os horrores que se sofreriam se vivêssemos fora do mercado livre.

“Os empresários acreditam que estão a defender a livre iniciativa quando declaram que o negócio não está preocupado ‘apenas’ com o lucro, mas também com a promoção de fins “sociais” desejáveis; que a atividade empresarial tem uma ‘consciência social’ e leva a sério as suas responsabilidades de proporcionar emprego, eliminar a discriminação, evitar a poluição e quaisquer que sejam as palavras-chave da cultura contemporânea dos reformadores”, escreveu Friedman. “De facto, eles estão – ou estariam se eles ou qualquer outra pessoa os levasse a sério -a pregar um socialismo puro e não adulterado”.

Os mercados, afirmou Friedman, estabeleceram arenas para a escolha individual, permitindo aos consumidores expressarem-se com as suas carteiras. Procurar alcançar o lucro é procurar uma recompensa legítima dos clientes satisfeitos. Qualquer atividade que interfira com os lucros – por mais nobre que aparente ser – mina a capacidade de uma empresa de fazer o que o público consumidor queria que fizesse. Pior, afirmou Friedman, ao “gastar o dinheiro de outra pessoa para um interesse social geral”, os empresários socialmente conscientes estavam de facto a cobrar impostos aos seus acionistas e depois a decidir como gastar essa receita fiscal.

A apologia da ganância feita por Friedman retomava temas que ele vinha a apresentar desde há anos. Quando Friedman avisou que os empresários socialmente conscientes eram os “fantoches involuntários das forças intelectuais que têm vindo a minar as bases de uma sociedade livre nas últimas décadas”, estava a traficar na familiar paranoia da Guerra Fria. Havia, como sempre na escrita de Friedman, apenas duas escolhas para a sociedade: a liberdade ou o socialismo. Os defensores do New Deal e os seus cúmplices keynesianos tinham apostado no socialismo, e era essencial que os executivos das empresas não caíssem na armadilha.

A doutrina Friedman é uma vergonha nascida do excesso de confiança. Se a maximização do lucro é realmente a única responsabilidade de cada atividade empresarial então porque é que existem tantos tipos diferentes de atividades empresariais? Porquê contentar-se com os parcos lucros, digamos, da fabricação de automóveis, quando é possível obter grandes lucros com a especulação financeira altamente alavancada? E se o lucro é a prova de um verdadeiro valor social, então com que fundamentos poderia uma sociedade alguma vez proibir o que quer que uma empresa rentável faça? E no entanto, no final dos anos 70, as alternativas intelectuais ao Friedmanismo não pareciam muito prometedoras. As histórias simples de Friedman sobre como a economia funcionava – inflação e lucro, liberdade e concorrência – preenchiam um vazio intelectual num mundo onde os economistas keynesianos lutavam para explicar a estagflação.

Além disso, Friedman nos anos 70 teve o cuidado de destacar as áreas em que concordava com a esquerda cultural. A sua oposição reiterada ao recrutamento não era uma pequena coisa na era da Guerra do Vietname, e o seu apoio à legalização das drogas recreativas criou uma ponte entre hippies e neoliberais que ainda hoje permanece intacta. Tanto os novos hippies como os libertários convencionais adoram o mesmo tipo de bandas musicais. É espantoso ver tantas pessoas ideologicamente diferentes a gostarem da mesma música, o que é, digamo-lo sem rodeiso, terrível.

Fundamentalmente, porém, Friedman ganhou ao perder. A América no final da década de 1970 era um país frustrado e desagradável, e por mais estranhas que fossem algumas das ideias de Friedman, ninguém no seu perfeito juízo o teria responsabilizado pela condição do país. Ele não tinha estado no poder. Goldwater perdeu. A Lei dos Direitos Civis foi aprovada. Até Richard Nixon tinha-se declarado “keynesiano”, o que levou Friedman a denunciar como “socialista” o homem que ele antes tinha politicamente aconselhado

Tudo isso finalmente mudou em Agosto de 1979, quando um novo presidente da Reserva Federal chamado Paul Volcker começou a pôr em prática as ideias monetárias de Friedman.

 

Acto V: … e Conquista

O monetarismo deu a Friedman uma flexibilidade política única que faltava a muitos dos seus aliados neoliberais. Friedrich Hayek, por exemplo, tinha mantido na década de 1930 que as recessões eram um preço inevitável a ser pago por períodos anteriores de excesso económico. Mas Friedman reconheceu que não era politicamente viável dizer ao público “é preciso deixar o mundo afundar-se “, e a sua ênfase na oferta de moeda deu-lhe uma alavanca política a acionar quando a situação se tornava difícil.

Manipular a oferta de moeda nunca tinha, contudo, sido tentado. Em vez de o fazer, o Fed regula o preço do crédito, comprando e vendendo títulos para mover as taxas de juro para cima ou para baixo. Mas as taxas de juro, insistiu Friedman, acabaram por ser controladas pelos mercados financeiros, não pelo governo. A incapacidade de curar a inflação durante a década anterior foi o resultado deste erro tático persistente. Quando Volcker tomou posse [em 1979], a inflação tinha ultrapassado os dois dígitos pela segunda vez em cinco anos.

“As minhas condolências pela sua ‘promoção'”, escreveu Friedman em tom irónico a Volcker. “Como sabe, não acredito que o Sistema possa estar à altura desse desafio sem grandes mudanças no seu método de funcionamento”. O sucesso ou o fracasso de Volcker, argumentou Friedman na Newsweek, assentaria sobre se “renunciaria” ou não à “relação de amor do Fed com o controlo das taxas de juro” e mudaria para o objetivo da oferta de moeda.

Volcker fê-lo quase imediatamente. Naquele Outono, deu uma conferência de imprensa afirmando que iria conter o crescimento da oferta de moeda, independentemente das implicações que pudesse ter para as taxas de juro. Os resultados foram terríveis. Quando Volcker ascendeu à presidência da Reserva Federal, a taxa de desemprego tinha diminuído lenta mas firmemente durante mais de quatro anos, de um pico de 9,0 por cento em Maio de 1975 para uns mais respeitáveis 6,0 por cento. Sob a nova gestão monetária de Volcker, as taxas de juro subiram em flecha, fazendo a economia entrar em recessão e levando o desemprego a 10,8% em 1982, um nível que não voltaria a igualar durante mais de 37 anos.

Com o próprio Friedman a fugir de Volcker, a recessão punitiva do início dos anos 80 deveria ter proporcionado aos economistas keynesianos e ao Partido Democrata oportunidades para reafirmar o valor e a utilidade da democracia política. O programa que Friedman tinha defendido durante décadas estava a revelar-se um desastre.

Mas em 1981, os 35 anos de evangelização do laissez-faire de Friedman tinham estabelecido uma nova realidade retórica. A ascensão de Ronald Reagan tinha relançado as ideias de Barry Goldwater em que se defendia um governo pequeno para o centro do poder nos USA.  Em 1980, a PBS transmitiu um espetáculo escrito e narrado por Friedman chamado Free to Choose, sobre as virtudes dos mercados livres e os inevitáveis fracassos da intervenção governamental. Este foi um nível extraordinário de visibilidade para um economista, algo que só tinha sido conseguido anteriormente por John Kenneth Galbraith, membro da realeza Kennedy-Camelot. As ideias de Friedman não só dominaram os púlpitos como tinham tomado conta do reduto liberal da televisão pública.

E os seus opositores políticos tinham-se desmoronado. Foi um democrata, Jimmy Carter, que nomeou Volcker para o Fed para aplicar o monetarismo de Friedman. O desafio falhado de Ted Kennedy nas primárias contra Carter foi o último suspiro do Partido Democrata enquanto partido orientado para o New Deal, para a Grande Sociedade  (e até Kennedy apoiou a desregulamentação das companhias aéreas e da indústria de camionagem). Quando Jesse Jackson tentou reavivar a velha visão em 1984, as bases e as cúpulas já não estavam interessados, e Jackson conseguiu assegurar apenas 18 por cento dos votos populares. Sem patronos políticos em Washington, os outrora dominantes economistas keynesianos foram reduzidos a um estatuto estranho no meio académico, escrevendo para obscuros jornais de esquerda ou reformulando o seu quadro intelectual para aceitar e defender princípios fundamentais do Friedmanismo, enquanto tentavam arranjar espaço para o ocasional e embaraçoso défice orçamental.

Friedman não conseguiu esta conquista intelectual sozinho. Ele tinha atrás de si todo um movimento académico e político, repleto de financiadores com muito dinheiro. Mas ele era a voz mais proeminente desse movimento em todo o mundo, tendo aconselhado não só os presidentes americanos mas também um ditador militar no Chile, o governo comunista na China, e líderes de três partidos políticos na África do Sul do apartheid. Friedman nunca se aproximou do Partido Democrata, mas quando Bill Clinton declarou “a era do grande governo acabou”, prosseguindo uma política de orçamentos equilibrados, comércio livre, e desregulamentação financeira, estava, com algumas exceções, a tentar ultrapassar-Friedman e os republicanos. Houve uma luta no seio da administração Clinton por esta viragem, e muitos dos mais antigos aliados políticos de Clinton sentiram-se traídos – mas a ala Friedman, representada por Robert Rubin e pelo seu protegido Larry Summers, saiu vitoriosa.

Apesar desta vitória intelectual abrangente, Friedman podia reivindicar poucos feitos políticos quando morreu em 2006. Volcker acabou por abandonar os seus esforços para visar diretamente o controle da oferta de moeda e nenhum presidente do Fed o tentou fazer desde então. Mesmo sob Ronald Reagan, a tamanho do governo não diminuiu – na verdade, as despesas do governo como percentagem do PIB foram semelhantes ao que tinham sido nas décadas de 1960 e 1970; os seus objetivos tinham simplesmente mudado da assistência social para os contratos com indústrias de material militar.

Mas as hipóteses intelectuais de toda a classe política tinham-se tornado Friedmanescas. Foi o que Larry Summers quis dizer com a sua afirmação, na véspera da crise financeira, de que “agora somos todos Friedmanianos ” – todos tomavam como garantidos os benefícios sociais do laissez-faire; o conflito político era em grande parte travado sobre as arestas de resistência que era necessário eliminar.

A crise financeira de 2008 deveria ter demolido este pensamento. Os mercados, como o colapso financeiro deixou claro, muitas vezes simplesmente não servem o interesse público. Mas os líderes Democratas que ascenderam ao poder na administração Obama tinham sido educados no auge da hegemonia intelectual de Friedman. Simplesmente já não havia muitos pensadores do estilo New Deal nos escalões superiores do Partido Democrata. Obama era tão intelectualmente sério como os presidentes americanos, mas o seu círculo de intelectuais trabalhava há tanto tempo sob os pressupostos Friedmanianos que não conseguiam adaptar-se à realidade de que os acontecimentos tinham desacreditado esses pressupostos. Obama acabou por dedicar mais energia política à redução do défice orçamental federal a longo prazo do que ao combate à desigualdade económica. Um momento histórico único para recuperar a democracia política tornou-se, em vez disso, a era do controle dos custos.

Se a presidência de Obama revelou a durabilidade do legado de Friedman no seio do Partido Democrata, a presidência de Donald Trump revelou a sua fragilidade entre os republicanos. Numa base quase semanal, Trump sujeitou os princípios sagrados da visão do mundo de Friedman – do comércio livre à política monetária e ao estímulo fiscal – a abusos retóricos explícitos. E os fiéis do partido adoraram-no. Mas algumas das políticas mais consequentes de Trump – uma fortíssima redução  de impostos para os ricos e uma grande fatura de desregulamentação bancária – estavam perfeitamente alinhadas com o Friedmanismo da era de 1980. Para o Partido Republicano de hoje, as ideias de Friedman parecem ser valiosas apenas na medida em que podem ser usadas para perseguir elementos indesejáveis num meio político construído quase inteiramente de queixas identitárias – Keynes para mim, Friedman para ti.

 

Epílogo: O que se segue?

Prever o curso futuro das ideias republicanas é como estimar o raio de explosão de um saco cheio de foguetes-de-artifício ainda sem o rastilho por ativar. Mas o que quer que o Partido Republicano opte por fazer com o fantasma de Friedman, o futuro do seu legado -ou falta do mesmo – recai no Partido Democrata.

Friedman pode ter dedicado a sua vida à direita americana, mas a magia política da sua pessoa esteve sempre à esquerda. A sua insistência de que os mecanismos de mercado poderiam ser utilizados para promover valores sociais essencialmente progressistas foi a chave para popularizar uma visão do mundo que, no fim de contas, acabou por ser pouco mais do que a celebração da dominação política por parte dos ricos. Em 2021, é extremamente difícil imaginar um líder republicano a persuadir os Democratas de que a brigada QAnon está realmente em linha com os valores defendidos por Black Lives Matter, se isso pudesse ver visto apenas da perspetiva da escolha do consumidor.

O que quer que o Partido Republicano opte por fazer com o fantasma de Friedman, o futuro do seu legado – ou a sua falta – recai no Partido Democrata.

 

A grande contribuição teórica de Friedman para a economia – a crença de que os preços subiram ou desceram em função da oferta de moeda – caiu por completo durante o crash de 2008. “Quer as pessoas o admitam abertamente ou não, as suas opiniões monetárias já não estão incluídas nas análises e previsões sérias”, disse Skanda Amarnath, diretora de investigação da Employ America, um grupo de reflexão centrado na política económica. “O balanço do Fed aumentou enormemente durante e após a crise financeira, e isso sem que tenha qualquer impacto sobre a inflação”. Havia um papel enorme para a política orçamental que Friedman simplesmente ignorou”.

E poucos economistas sérios aceitam hoje a dura divisão de Friedman entre facto económico e realidade política. “Friedman desenvolveu uma teoria fantasista que ignorou a forma como o poder económico pode ser utilizado para capturar elementos do sistema político para gerar ganhos económicos adicionais para aqueles que estão no topo”, disse Darrick Hamilton da New School.

Este ciclo vicioso tem vindo a degradar a democracia americana desde há décadas. Joe Biden é o primeiro presidente a profanar não só os princípios das ideias económicas de Friedman, mas também as implicações antidemocráticas de toda a sua filosofia. É também o primeiro presidente democrata desde os anos 60 que formulou e assumiu publicamente uma defesa coerente do governo americano como expressão da energia democrática. É uma visão poderosa que goza do apoio de uma grande maioria de cidadãos americanos. Eles não têm nada a temer, mas Friedman e o friedmanismo têm.

 


O autor: Zachary D. Carter é escritor residente em Omidyar Network e na Hewlett Foundation. É autor do livro The Price of Peace: Money, Democracy, and the Life of John Maynard Keynes, best seller do New York Times e considerado um dos melhores livros de 2020 pela crítica de New York Times, The Economist, Publishers Weekly, Bloomberg, Mother Jones, TechCrunch e outros. É um convidado frequente na televisão e rádio cujo trabalho tem aparecido no The Wall Street Journal, The Washington Post, The New Republic, The Nation, e The American Prospect, entre outros. Zachary iniciou a sua carreira na SNL Financial (agora uma divisão da S&P Global), onde foi repórter bancário durante a crise financeira de 2008. Escreveu artigos sobre política macroeconómica, instabilidade económica regional, e os resgates de bancos, mas a sua paixão era o mundo complexo e arcano da política reguladora financeira. Cobriu as normas contabilísticas que tanto alimentaram a crise como protegeram os executivos bancários do seu blowback, detalhou os abusos de protecção do consumidor que consumiram o negócio hipotecário e expôs falhas de supervisão na Reserva Federal e outras agências governamentais que permitiram a acumulação de dívidas imprudentes em todo o mundo. Esteve 10 anos no HuffPost (2010-20), onde cobriu a implementação da lei de reforma financeira Dodd-Frank 2010, os impasses políticos sobre a política comercial e o orçamento federal, e a luta sobre o futuro do Partido Democrata. A sua história de reportagem, “Swiped: Banks, Merchants and Why Washington Doesn’t Work for You” foi incluído na compilação da Columbia Journalism Review Best Business Writing. É licenciado em Filosofia e Política pela Universidade de Virginia.

 

 

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