Um texto de homenagem a Jorge Sampaio (3/3). Por Júlio Marques Mota

Jorge Sampaio

Coimbra, 12 de Setembro de 2021

Nota de editor: em virtude da extensão do texto, o mesmo será publicado em três partes


3ª parte

 

Desenvolvimento das forças produtivas em Portugal e o espírito do 25 de Abril Sempre: a posição de Jorge Sampaio e as políticas da União Europeia e dos Estados Unidos

 

Em forma de conclusão de tudo isto que surge, sublinho, por causa do espírito do 25 de Abril e do desenvolvimento das forças produtivas, deixem-me apresentar o contraponto da política de ensino e de investigação seguida pela União Europeia e seus Estados-membros, tomando como base exatamente a problemática do desenvolvimento das forças produtivas. Nada mais simples para isso do que pegar no caso americano, na política anunciada por Joe Biden-Harris-Bernie Sanders [7]. Curiosamente um contraponto já esquematizado no texto do prefácio escrito por Jorge Sampaio em 2005.

Num artigo recente da Brookings Institute  escrito por Mary Daly, presidente do Banco da Reserva Federal de São Francisco; Laura Choi, vice-presidente da Reserva Federal de São Francisco; Lily Seitelman, estudante de pós-graduação na Universidade de Boston; e Shelby Buckman, estudante de pós-graduação na Universidade de Stanford, estes autores dizem-nos:

A possibilidade de utilizar plenamente os talentos dos seus cidadãos, sem serem prejudicados por preconceitos ou outras barreiras artificiais, está na base de uma economia dinâmica. Os indivíduos investem em si próprios com base nos rendimentos que esperam com isso obter. Os ganhos sistematicamente mais baixos e a presença de barreiras persistentes deprimem estes incentivos, provavelmente levando a um menor investimento em capital humano, e limitando ainda mais a mobilidade pessoal e geracional. Por outras palavras, uma afetação mais equitativa é importante tanto para o nível do PIB como para o processo de crescimento económico sustentado. Isto significa que a mudança de oportunidades afeta tanto a produção económica atual como a futura. (…)

“A oportunidade de participar na economia e de ter sucesso com base na capacidade e no esforço está na base da nossa nação e da nossa economia”, disseram eles. “Infelizmente, barreiras estruturais têm perturbado persistentemente esta narrativa para muitos americanos, deixando os talentos de milhões de pessoas subutilizados ou à margem”. (…)

“Uma afetação mais equitativa do talento pela educação, emprego e postos de trabalho melhora a inovação e o espírito empresarial que sustentam as bases do crescimento económico atual e futuro.” Fim de citação.

Por seu lado o sítio eletrónico da Administração Biden-Harris expressa o programa para colocar a América como líder no crescimento da produtividade e neste crescimento, de novo, o ensino é uma peça vital. No sítio da Presidência pode-se ler:

1. INOVAR NA AMÉRICA. Fazer um Novo Investimento de 300 mil milhões de dólares em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e Tecnologias Inovadoras – desde tecnologia de veículos elétricos a materiais leves até 5G e à inteligência artificial – para desencadear a criação de empregos de alta qualidade no fabrico e tecnologia de alto valor acrescentado.

2. INVESTIR EM TODA A AMÉRICA. Assegurar que os Investimentos Alcancem Toda a América, de modo a aproveitarmos todos os talentos e investirmos no potencial de todas as nossas comunidades e trabalhadores. A América não está em plena força quando os investimentos, o capital de risco, as oportunidades educacionais e os caminhos para bons empregos são limitados por raça, código postal, género, identidade sexual, orientação sexual, deficiência, religião ou origem nacional. Biden assegurará que os grandes investimentos públicos no seu plano – mercados públicos, I&D, infraestruturas, formação e educação – cheguem a todos os americanos em todos os estados e regiões, incluindo comunidades urbanas e rurais, com investimentos históricos em comunidades de cor e uma ênfase em pequenas empresas.

Joe Biden propõe um profundo e massivo investimento imediatamente em Investigação e Desenvolvimento de 300 mil milhões de dólares em 4 anos para criar a partir de agora milhões de bons empregos e assegurar a nossa liderança global nas novas indústrias e tecnologias mais críticas e competitivas. Estimativas credíveis indicam que este nível de investimento poderia ajudar a criar 3 milhões de postos de trabalho ou mais.

A China está no bom caminho para ultrapassar os EUA em I&D. As despesas totais da China em I&D aumentaram quase 30 vezes entre 1991 e 2016. Segundo algumas estimativas, a China irá ultrapassar os EUA em despesas de I&D em 2020. E, como parte do plano “Made in China 2025” da China, o governo chinês lançou fundos para aumentar a produção e a inovação tecnológica em indústrias chave, incluindo a tecnologia de baterias, inteligência artificial, e 5G. O governo da China está a investir ativamente na investigação e na comercialização em todas estas áreas tecnológicas importantes, num esforço para ultrapassar a primazia tecnológica americana e dominar as indústrias do futuro.

As reduções na despesa federal em I&D contribuíram para um esvaziamento da classe média americana. A Casa Branca no tempo de Trump e os Republicanos no Congresso esqueceram que os grandes investimentos em I&D federal não só impulsionaram a liderança industrial e tecnológica dos EUA, mas também criaram milhões de empregos de classe média bem pagos. A luta pelo nosso futuro exige que voltemos a esse compromisso vencedor do nosso passado. Em 1964, o apoio federal público à I&D era de 2% do PIB, em comparação com apenas 0,7% atualmente. Esta diferença ascende a quase 250 mil milhões de dólares a menos anualmente em despesas federais de I&D. Os professores do MIT Simon Johnson e Jonathan Gruber mostraram que o declínio do investimento público levou também a um abrandamento da produtividade e do crescimento dos salários.

Os 300 mil milhões de dólares em financiamento na inovação irão alimentar as indústrias nacionais que podem liderar o mundo e criar empregos em materiais avançados, saúde e medicina, biotecnologia, energia limpa, automóveis, aeroespacial, inteligência artificial, telecomunicações, e muito mais.

Investir em toda a América: assegurar que aproveitamos todos os talentos e investimos no potencial de todas as nossas comunidades e trabalhadores.

Uma estratégia para assegurar que o futuro seja feito na América não funcionará se não tivermos um novo e dramático compromisso para assegurar que estamos a investir em – e a aproveitar os talentos de – toda a América. Hoje em dia, ficamos aquém das expectativas em demasiados aspetos. Não fornecemos investimento significativo em I&D e capital de risco a todas as regiões da nossa nação e não damos a demasiados americanos – especialmente os de cor ou das comunidades urbanas e rurais de rendimentos mais baixos – todas as oportunidades que merecem para ter percursos de bons empregos e carreiras. A América não está em plena força quando os investimentos, capital de risco, oportunidades educacionais, e caminhos para bons empregos são limitados por raça, códigos postais, género, identidade de género, orientação sexual, deficiência, religião, e origem nacional.

O plano Biden irá assegurar que a investigação, o investimento público, e a formação e educação para empregos na indústria transformadora e inovação vão para todas as partes da América, tanto para as comunidades urbanas como rurais, com investimentos históricos em comunidades de cor.

(…)

O desafio de Joe Biden em matéria de emprego e de possibilidades de educação/formação para toda a América

A necessidade de recorrer aos talentos de toda a América é ainda mais acentuada quando se trata de construir a nossa força de trabalho para a inovação e produção. No entanto, hoje em dia, as oportunidades são distribuídas de forma desigual. Muito poucas mulheres e pessoas de cor puderam aceder a percursos para os empregos altamente qualificados, bem remunerados e muito procurados que as carreiras ditas STEM oferecem, inclusive na indústria transformadora e na inovação. E muitos trabalhadores qualificados na indústria transformadora não têm a possibilidade de melhorar as suas competências e de serem os primeiros na fila para novos empregos em indústrias em mudança.

O plano de Biden de investir na carreira e na educação técnica para estudantes do ensino secundário e o seu plano de programas de formação gratuitos de alta qualidade e de faculdades comunitárias e de ensino gratuito para licenciaturas de 4 anos para famílias que ganham menos de $125.000 irá contribuir em muito para a construção da força de trabalho para uma grande expansão na indústria transformadora e com empregos de inovação.

(…)

A fim de assegurar que os Estados Unidos sejam tão competitivos quanto possível, precisamos de explorar todos os talentos do nosso país, incluindo os talentos das mulheres e das comunidades de cor. É por isso que o plano de Biden de investir mais de 70 mil milhões de dólares em Faculdades e Universidades Historicamente Negras, Faculdades e Universidades Tribais, e Instituições de Serviço a Minorias é uma peça chave da sua estratégia em matéria de mão-de-obra no setor da indústria transformadora e na inovação.

 Para além de direcionar mais dólares de investigação federal para estas escolas e de exigir que se reservem para estas escolas, HBCUs, TCUs, e MSIs, subsídios competitivos que só as universidades similares podem disputar, Biden investirá 35 mil milhões de dólares em HBCUs, TCUs, e MSIs para criar centros de investigação de excelência, construir laboratórios de alta tecnologia e outras instalações, e reforçar programas de pós-graduação em áreas que incluem o grupo das ciências apelidado de STEM. Biden irá também combater a discriminação e o assédio no local de trabalho que impede tantas mulheres, especialmente mulheres de cor, de ganharem o mesmo salário ou de realizarem plenamente os seus objetivos profissionais.” Fim de citação.

 

O texto da Presidência Biden-Harris e o texto do Brookings Institute acima citados poderão ser tomados como o complemento ao texto de Ashoka Mody, na sua crítica à política europeia e na sua via de saída da crise, pois claramente representam, mesmo que de forma implícita, uma crítica de fundo ao que se faz em termos de ensino e de política de investigação em Portugal e na Europa.

Os nossos ministros, da Educação e do Ensino dito Superior, os nossos reitores de letra minúscula, os nossos diretores de Faculdade esquecem inclusive que para se terem bons investigadores é necessário que se criem primeiramente bons alunos. E não podemos esquecer que se a sociedade é o ventre de onde os alunos são paridos, a Universidade é o seu berço de ouro em termos de formação, onde são cuidados, preparados, onde, de acordo coma as características pessoais de cada um, ganham asas para se assumirem depois como cidadãos e profissionais no mundo. Falo dos cuidados que não terão tido os 14.200 licenciados que foram rejeitados na bolsa de emprego da Administração Pública. Uma coisa hoje é certa: sem estes cuidados, hoje necessariamente a precisarem de ser redobrados relativamente a outros tempos, a partir de dado momento, nada de sério se pode fazer em termos de ensino e muito menos, em termos de investigação porque os bons alunos passarão a ser uma raridade e tudo isto por falta de berço adequado: a lei da austeridade da União Europeia falou mais alto.

Chegados aqui, sugiro ao leitor que reveja as citações de Jorge Sampaio escritas em 2005!  Sublinho a posição lapidar de Joseph Stiglitz e de Jorge Sampaio, também, uma vez que este a subscreve, quando se afirma:

Manter a economia em pleno emprego constitui a principal responsabilidade do Estado. O problema não é não sabermos fazer melhor, mas não nos termos empenhado totalmente na prossecução do pleno emprego. Uma afirmação como esta, vinda de quem vem, devia levar os responsáveis pela política económica na União Europeia e em Portugal a pensar se não seria possível aumentar o crescimento económico e reduzir o desemprego através de um melhor equilíbrio entre o mercado e o Estado. Mercados mais transparentes e competitivos – com certeza. Estados mais estrategos e reguladores-sem dúvida”. Fim de citação

Aqui, o que se mostra é que para haver crescimento, o problema não será tanto o de haver uma poupança à priori, o dos recursos disponíveis, mas sim uma vontade política de o fazer, uma vontade política para criar estes mesmos recursos. Num espaço integrado à escala europeia isso não constituirá problema como o não constitui atualmente para Joe Biden. Em vez de nos alargarmos num discurso difícil sobre quem é que gera o quê, se é a poupança a gerar investimento ou se é o investimento a gerar a poupança, um falso problema para Joe Biden e a sua equipa de trabalho como se tem visto, recorra-se à história, a um país devastado pela maior crise mundial de sempre, os EUA, em 1933, onde essa questão foi também um falso problema. Falemos de Franklin Delano Roosevelt, falemos de Marriner Eccles, falemos de um punhado de homens que tiveram a vontade política de recriar um grande país, os EUA, e recriaram-no numa base bem simples: utilização dos recursos disponíveis, sobretudo os humanos. Para além dos homens, estes sim, preparam-se, são necessários recursos materiais adequados como suporte do crescimento, os bens de investimento, e esses produzem-se, haja vontade política para os produzir.

Ao nível macro em que nos situamos, em que os homens do New Deal se situavam, em que Biden-Harris-Sanders se situam agora, não se tratava nem se trata pois de uma questão de poupança pré-existente ou não, trata-se de uma questão política, primeiro que tudo, a vontade de o fazer ou não, e depois, trata-se de uma questão técnica, com o existente desenvolvimento das forças produtivas é possível ou não produzir esses meios de produção [8]. Não é um problema de défice, não é nem nunca foi [9], exceto para a União Europeia, com Ângela Merkel e Schauble a gerirem a crise europeia surgida em 2010 e a deixarem a Europa devastada!

Um texto marcante, lido no Senado americano em 1933, assinado por Marriner Eccles responde ao problema dos recursos para o crescimento, responde no plano teórico e, depois, respondeu no plano prático enquanto Presidente do Federal Reserve, enquanto um dos pilares de Roosevelt para levar a cabo o New Deal.

Pessoalmente fiquei pasmado com o que lia desse espantoso discurso, o texto de uma audição no Congresso, e fiquei possivelmente tão pasmado quanto pasmados terão ficados os senadores que o ouviram no Capitólio dizer coisas como as seguintes:

1. “Porque foi que durante a guerra, quando não havia depressão, não insistimos em equilibrar o Orçamento através de uma tributação suficiente dos nossos rendimentos excedentários, em vez de utilizarmos o crédito do Governo no montante de 27 mil milhões de dólares? Porque não ouvimos falar da necessidade de equilibrar o Orçamento Federal para manter o crédito do Governo quando tínhamos um défice de $9 mil milhões em 1918 e de $13 mil milhões em 1919? Por que razão não havia desemprego nessa altura e uma quantidade de dinheiro insuficiente como meio de troca? Como foi que com menos mil milhões de ouro do que temos agora não estávamos preocupados com o nosso sistema de padrão ouro?

2. “Será necessário conservar o crédito do Governo ao ponto de proporcionar uma existência de fome a milhões do nosso povo, numa terra de superabundância? Será a procura universal da poupança pela parte do Governo consistente neste momento? Será a atual falta de confiança devida a um Orçamento desequilibrado?

O que interessa ao público e aos homens de negócios deste país é um renascimento do emprego e do poder de compra. Isto restauraria automaticamente a confiança e aumentaria os lucros até um ponto em que o Orçamento seria automaticamente equilibrado da mesma forma que o orçamento individual, empresarial, estatal e municipal seria equilibrado.

3. “Vemos agora, após quase quatro anos de depressão, que o capital privado não entrará em obras públicas ou projetos de autoliquidação, exceto através do governo, e que se deixarmos o nosso “indivíduo robusto” seguir o seu próprio interesse nestas condições, ele faz precisamente a coisa errada. Cada empresa para a sua própria proteção liberta-se dos homens, reduz a sua folha de pagamentos, reduz as suas encomendas de matérias-primas, adia a construção de novas fábricas e paga os empréstimos bancários, acrescentando ao excedente de fundos inutilizáveis. Cada coisa que faz para reduzir o fluxo de dinheiro torna a situação pior para o negócio como um todo.”

4. “O Governo Federal, bem como os líderes da finança e do mundo empresarial produtivo deste país, deveriam regressar a este programa com o mesmo entusiasmo e zelo patriótico que foi desenvolvido durante a guerra. Toda a psicologia pública deve ser mudada através da propaganda da imprensa. Todas as cidades, condados e Estados da União devem ser instados, como um dever patriótico, a recorrer ao crédito do Governo para construir os projetos que normalmente exigiriam durante os próximos cinco anos, pondo assim os homens a trabalhar em vez de lhes oferecer caridade.”

5. “Medidas como as que propus podem assustar os nossos cidadãos que sejam ricos. Contudo, devem sentir-se tranquilos ao refletirem sobre a seguinte citação de um dos nossos principais economistas:

“É absolutamente impossível, como este país tem demonstrado repetidas vezes, os ricos deixarem de obter a riqueza e os rendimentos que ambicionam nada deixando ficar para os outros que valha a pena. Podem construir e manter fábricas fechadas e carruagens de comboio paradas, edifícios de escritórios vazios e bancos encerrados e podem conceder empréstimos a países estrangeiros; mas enquanto classe nada deixarão restar que valha a pena, para além do montante dos lucros que obtêm resultante da despesa dos consumidores. É do interesse dos ricos – para os proteger dos resultados da sua própria loucura – que reduzam os seus lucros para que os consumidores tenham rendimentos para aumentar a procura contribuindo para o aumento do volume de negócios e de lucros adicionais”. Fim de citação.

Curiosamente, este excerto é parte de um documento histórico, um documento que abriu a porta ao NEW DEAL de Roosevelt, à reconstrução da América face à crise de 29-33. Um texto histórico que nunca é demais relembrar e que no fundo foi a base do espírito dos New Dealers caracterizado assim por Roosevelt quando afirmou (discurso na Universidade de Oglethorpe, Atlanta, em 22/05/1932, ver aqui):

“Creio que estamos no limiar de uma mudança fundamental no nosso popular pensamento económico (…).

Está bem dentro da capacidade inventiva do homem, que construiu esta grande máquina social e económica, ser capaz de satisfazer os desejos de todos, assegurar que todos os que estão dispostos e capazes de trabalhar recebam dela pelo menos as necessidades da vida. Num tal sistema, a recompensa por um dia de trabalho terá de ser, em média, maior do que tem sido, e a recompensa para o capital, especialmente o capital que é especulativo, terá de ser menor. (…)

É em direcção a esse objectivo que devemos avançar se quisermos lucrar com as nossas experiências recentes. Provavelmente poucos discordarão de que o objetivo é desejável. No entanto, muitos, de coração fraco, temerosos de mudança, sentados firmemente sobre os telhados na inundação, resistirão firmemente a lutar contra ela, para que não a consigam atingir. (…)

Não confundamos objetivos com métodos. Muitos dos chamados líderes da Nação não conseguem ver a floresta por causa das árvores. Muitos deles, em demasia, não reconhecem a necessidade vital de planear objetivos precisos. A verdadeira liderança exige a definição dos objetivos e a mobilização da opinião pública em apoio a esses mesmos objetivos.

O país precisa e, a menos que eu confunda o seu temperamento, o país exige uma experimentação ousada e persistente. É senso comum pegar num método e experimentá-lo: Se falhar, admiti-lo francamente e experimentar outro. Mas acima de tudo, experimente algo. Os milhões que estão na carência não ficarão silenciosos para sempre enquanto as coisas para satisfazer as suas necessidades estiverem ao seu alcance.

Precisamos de entusiasmo, imaginação e capacidade de enfrentar os factos, mesmo os desagradáveis, corajosamente. Precisamos de corrigir, por meios drásticos se necessário, as falhas do nosso sistema económico de que agora sofremos. Precisamos da coragem dos jovens. A vossa tarefa não é a de fazer o vosso caminho neste nosso mundo, mas sim a tarefa de refazer o mundo que encontrarão pela vossa frente. Que cada um de nós tenha a coragem, a fé e a visão de dar o melhor de nós a essa reconstrução!”

 

Podem-se ver aqui semelhanças profundas entre as posições de Stiglitz, Marriner Eccles, Franklin Roosevelt, Joe Biden, Bernie Sanders e Jorge Sampaio, o que confere a este último uma dimensão histórica, política e intelectual única no plano político português.

Em contraponto a todas estas figuras, Ângela Merkel e Schauble sintetizam o espírito de desconstrução e de destruição que assolou a Europa com a crise da dívida soberana e que ainda se mantém, contra o que o texto de Jorge Sampaio se manifesta. Por exemplo, no discurso programa de Ângela Merkel apresentado na Conferência da CDU em 2008, esta afirmou:

[A raiz da crise] é bastante simples. Dever-se-ia simplesmente ter pedido a uma dona de casa da Baviera, aqui em Stuttgart, em Baden-Wurttemberg. Ela dir-nos-ia uma frase curta, simples e inteiramente correta tirada da sabedoria de vida: que não podemos viver para além das nossas possibilidades. Este é o cerne da crise… Então porque é que o mundo está neste difícil lugar? Bem, muitas vezes depositámos a nossa confiança em especialistas que não eram realmente especialistas. Talvez não soubéssemos então que eles não eram peritos, mas sabemos hoje. Quando nos reunimos agora para pensar em como se deve responder a estas novas questões globais, devemos depositar menos fé em peritos autoproclamados, e em vez disso seguir um princípio: o princípio do senso comum! [Merkel, 2008]

Com isto quero eu dizer: Os alemães podem contar com um governo responsável e prudente, e que – quando necessário – pode agir a toda a velocidade. Mas também digo: não vamos participar num concurso para ultrapassar propostas cada vez mais novas, um concurso sem sentido, de milhares de milhões. Não participaremos; eu não participarei; em tempos como estes, somos responsáveis perante o contribuinte de hoje e perante o contribuinte do futuro. [Merkel, 2008]” Fim de citação.

Jorge Sampaio ao lado de Roosevelt, de Marriner Eccles, de Joseph Stiglitz, de Joe Biden, de Bernie Sanders. A posição de Jorge Sampaio contra Angela Merkel, contra as teses austeritárias da Europa pode ser sintetizada na sua afirmação já célebre de que há mais vida para além do Orçamento.

As teses defendidas por Jorge Sampaio no prefácio citado levam-nos, enfim, no plano conceptual, a que possamos colocar Jorge Sampaio entre os grandes políticos deste mundo, pela sua humanidade, pela sua conceção de sociedade e pela sua luta constante em a tornar, no campo dos possíveis, uma realidade possível. Até sempre, Jorge Sampaio, é o que posso dizer. A terminar esta homenagem não posso deixar de agradecer a Maria do Céu Guerra o empenho na sua intervenção de homenagem a Jorge Sampaio porque foi ela que me estimulou a escrever este texto.

E com este meu texto dou por encerrada a análise sobre a problemática do espírito do 25 de Abril e do desenvolvimento das forças produtivas. E em jeito de conclusão, desejo, pois, que os nossos doutos doutores, os nossos ministros da Educação e do Ensino dito Superior, os nossos reitores de letra minúscula, os nossos diretores de Faculdade, leiam o livro de Ashoka Mody e os dois recentes textos americanos acima citados.

 


Notas

[7] Para muita gente foi um espanto o programa de Biden, um conservador. Não podemos ignorar que por detrás da sua candidatura esteve um acordo, tipo geringonça portuguesa, assinado entre Biden e Bernie Sanders, daí que não seja nada forçado associar a este programa económico também o nome de Bernie Sanders.

[8] Apesar do risco de tornar pesado o texto de homenagem a Jorge Sampaio, esta questão é de tal modo importante que não resisto a reproduzir um excerto do texto de Lautenbach de 1931:

“1.  Sublinhando assim o contraste com a teoria tradicional, podemos afirmar que a análise da atividade económica nos indica: não é o investimento que é determinado pela poupança, mas, inversamente, é sim a poupança que é determinada pelo investimento. A poupança é um puro conceito de distribuição. A poupança não decide qual é o volume total do investimento, mas apenas determina a proporção em que as diversas entidades económicas contribuem para o crescimento da economia com o investimento realizado

2. Investimento e poupança são sempre entre si iguais, não há nenhuma necessidade da taxa de juro para que se verifiquem compensações ou ajustamentos de modo a que investimento e poupança sejam iguais. A taxa de juro, essa sim, tem a função de permitir controlar o investimento de forma racional, ou seja, para que a economia funcione a nível do pleno emprego e em condições normais de trabalho e que todas as forças produtivas sejam plenamente utilizadas.

3. ” não é a poupança que decide sobre o volume total do investimento, mas apenas na proporção dos ativos das [próprias] empresas [utilizados] no crescimento que a economia está a ter com esse mesmo investimento…. Não há a menor dúvida de que esta afirmação é verdadeira e aplica-se à economia fechada. Mas essa afirmação não inclui nenhum juízo de valor sobre a poupança. No máximo, leva a que se obtenha uma tomada de consciência que faz descer a poupança do reino das nuvens altíssimas, em cujo trono estava sentada e em plena glória, para a terra onde irá perder uma parte da sua imagem divina e da sua pureza angelical.”

Esta é uma nota de fundo importante para a crítica aos democratas falcões do défice, como Larry Summers, que se começam já a manifestar nos EUA e em breve vê‑los‑emos a manifestarem-se, de novo, na Europa, a quererem que se apliquem as regras do Pacto de Estabilidade.

[9] Sobre esta temática a bibliografia é imensa. Por exemplo, veja-se o trabalho pioneiro de Wilhelm Lautenbach -1931 (aqui) Possibilidades de relançar a economia através da expansão do investimento e do crédito e ainda o texto de Michael Pettis (aqui) Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção, publicados no nosso blog

 

 

 

 

Leave a Reply