A GALIZA COMO TAREFA – brilhantes vinte – Ernesto V. Souza

Há provavelmente um mês, passei por diante de uma livraria que com os anos virou dessas compostas, ou combinadas, não sei bem como lhes explicar. Uma dessas nas que foram ganhando espaço, às novidades, o livro de velho, oportunidades, inglês e francês de edições populares e fac-símile. Depois de serem pioneiros há anos na venda eletrónica e na impressão sob demanda de obras em domínio público, agora também colocaram na porta um carrinho com livros a 1 euro. Esse tipo de venda tradicional, de oportunidade e descartes,  também de crise, era muito habitual em Uruguai, Argentina, na Catalunha, na França, Países Baixos, no Reino Unido, ou nos USA (que havia até nos halls das bibliotecas).

Tem de bom que ao passar, nomeadamente quando andamos com – ou queremos matar – tempo, podemos dar aí uma olhada. Assim que, sem muito pretender, topei uns quantos livros um tanto navegados da Dédalo e da Vida Nueva. São suponho sabem, coleções dos anos 20, 30 de editoras espanholas. E acho estavam lá por despiste, acaso ou por desconhecimento dos paroquianos.

De jeito que com o meu tesourinho, um sorriso na boca e uma nota de 10 na mão, dirigi-me ao balcão. Após breve conversa de cortesia com o empregado, fui embora, com uma sacola de papel, para o encontro que tinha um par de ruas mais adiante, num café.

Quando chegou a minha colega, eu andava despistado nos livros, nas capas escandalosas e coloridas da Vida Nueva, admirado a listagem e qualidade das traduções na contra-capa da Dédalo e o elegante prédio decó, da tapa do Grand Hotel de Vicki Baum.

É curioso como desvalorizamos ou ignoramos de tanto ver alguns livros e autoras, associados a essas coleções dos anos 40, 50, 60 e as bibliotecas das mães e avoas. Por isso me surpreendeu ver este livro e autora, numa coleção dos anos 30, e portanto como primeira tradução castelhana, de uma obra que tivera um êxito imediato na Alemanha.

A Dédalo (na “Colección Literaria” de narrativa contemporânea) e as outras editoras espanholas de fins dos anos vinte e até a guerra, traduziram a castelhano e em preços populares, muitas das novidades do mundo editorial francês, alemão e inglês. É impressionante, na Espanha dessas duas décadas de entusiasmo, o impacto da produção cultural, artística e ideológica da Alemanha da Goldene Zwanziger, quase a tempo real. Uma produção que não apenas era como laboratório de todas as experiências e novidades, quanto que servia de ponte imediata com o que vinha da Rússia Soviética.

A tradução da Dédalo é de 1932, o livro, Menschen im Hotel, fora publicado em 1929, catapultando à fama imediatamente a autora. Que ganharia fama mundial quando em  1932 Hollywood, fizesse um filme com base no seu romance. Grand Hotel, produção internacional de grande sucesso, com a Garbo interpretando magistralmente o ocaso da bailarina Grusinskaia, acompanhada por algum dos melhores atores da época, representando personagens característicos desse turbulento e agitado mundo das cidades na Alemanha após a Grande Guerra e antes do Grande Crack.

O hotel, como espaço passageiro, de contrastes, surpresas e imposturas, de confluência de tipos e de classes, arriba e abaixo, que Baum, que trabalhara num, conhecia bem. Um repertório de personagens, episódios que convergem na lógica do expressionismo tragicómico, para além da máscara que representam: junkers inadaptados na modernidade, antigos heróis, deslocados, mutilados ou traumatizados pela guerra, empresários especuladores, trabalhadores e trabalhadoras precárias tipo “tempos modernos”, russos brancos e agitadores bolcheviques e troskistas, carros velozes e sem controle, estafadores, artistas de cabaret, secretárias, mulheres de fortuna, atrizes e cómicos, toda a tipologia de empregados de hotel.

Vicki Baum foi a partir desse momento uma autora traduzida e aclamada internacionalmente. Todas as suas obras tiveram muito sucesso nas vendas nas décadas a seguir. Porém, esse reconhecimento do público, não foi transferido para a crítica, que viu nelas apenas a superficialidade, o glamour, a decadência da Mitteleuropa,.

Com a ascensão do Nacional-Socialismo na Alemanha, as suas obras foram denegridas como sensacionalistas e amorais e banidas a partir de 1935. Tornou cidadã americana em 1938, e suas obras pós-Segunda Guerra Mundial foram escritas em inglês.

A emigração salvou a sua vida, sem dúvida. Pois Baum ademais de pela sua literatura e origem representava a mulher moderna, independente, com sucesso e popularidade de estrela. Posicionando-se como uma “nova mulher” treinando junto com Marlene Dietrich e Carola Neher, afirmou sua independência praticando boxe.

Vicki Baum treinando no Gimnasio de Sabri Mahir, 1932. autor desconhecido (fonte: pinterest)

Para além das pérolas e amores da Grusinskaia, das luzes de cabaret, secretárias elegantes, mulheres fatais, homosexualidades normalizadas, misturas raciais, sociais e religiosas em contacto, ideologias revolucionárias, amores proibidos, champanhe, tango, morfina, excessos e drogadições, músicas, histórias do Hotel e do brilho dos vinte, destas obras, como do Hollywood pre-code, emerge essa imagem da mulher que se estava a conformar na altura, libertando-se de cabelos, joias, roupas, do matrimónio e ganhando atributos desportivos, carros, bicicletas, reivindicação do amor livre, motos, ligeireza visual que comunicava ação, velocidade, vida, liberdade.

Talvez não seja tão percetível como, ponhamos por exemplo, na auto-biografia de Isadora Duncan (da que falaremos outro dia), ou na própria biografia da Baum, It Was All Quite Different (1964). Por entanto, como nos filmes, esses e outros exemplos femininos iam calhando numa sociedade na que a mulher, pela sua incorporação ao mundo laboral –  a partir de fins do XIX e exponencionalmente por causa da Grande guerra – e à lógica do salário e do capital, pela moda e a roupa, pela pratica desportiva e pela reverberação de imagens e documentos fotográficos, sonoros, numa sociedade mais alfabetizada e com consumo de massa.

Mas parece que não nos damos conta, cegados pela obscuridade dos fascismos, e da regressão conservadora mundial prévia e reforçada após a II Guerra mundial e Guerra fria, de que essas nossas avoas ou trásavoas, quando menos na Espanha urbana e nas classes médias e populares assalariadas chegaram a ser muito mais modernas do que as gerações seguintes.

Há uns anos vi umas fotos nuns catálogos e livro* publicados pelo Concelho no tempo das Marés, sobre os antroidos (Carnaval) e as comparsas na Crunha antes da Guerra civil, neles é deslumbrante a modernidade estética, a roupa, a variedade nomeadamente das mulheres, o ambiente de festa. Que coincide com a incorporação da mulher ao mundo laboral e a um mínimo de independência económica. Depois, com o franquismo, passou tudo a preto, castanho, cinzento, homogéneo, sóbrio: apagado.
Fotos, filmes, imprensa, música, ecos de sociedade, as leituras, esse universo submerso que na Espanha ficou associado dalguma maneira à República, à modernidade. Ao anterior e decadente, na Ditadura. A isso tudo que havia que erradicar: os móveis, as escadas, as lâmpadas, as joias, a roupa, as modas, os costumes, o comportamento em sociedade das mulheres.
Mas a quantas mulheres atingiria esta revolução? tinha de ser ainda uma minoria; senão o franquismo (e os outros conservadorismos) não teria calado tão profundamente na sociedade. Não teriam aceitado a recuada, nem com a maior das repressões.
* Alfeirán Rodríguez, Xosé: Choqueiros e “mascaritas” : crónica viva do Antroido coruñés : 1883-1936 .- A Coruña : Concello da Coruña, Concellaría de Culturas, Deporte e Coñecemento, 2019.

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