A propósito da divulgação de um texto de Victor Hill sobre a COP26 – “Uma incursão sobre a problemática esquerda, direita”, por Júlio Marques Mota

Uma incursão sobre a problemática esquerda, direita

 

 Por Júlio Marques Mota

          Coimbra, 21 de Novembro de 2021

 

Caros amigos, caros leitores e leitoras do Blog A Viagem dos Argonautas,

Ao ter partilhado um texto de Victor Hill sobre a COP 26 – COP26 Semana 1: danças de esperança com desespero [1] – escrevi o seguinte relativamente a este autor que muito respeito: “um analista que é politicamente um conservador mas que dá sempre um enorme prazer ler”.

Numa resposta curta ao meu texto e ao texto de Victor Hill, um conhecido meu de longa data envia-me um longo comentário e uma nota final em que nesta me diz o seguinte:

“Júlio Mota: Porque chamaste a atenção para o facto de o autor do texto ser um conservador? Isso é uma menos valia intelectual para ti? Um elemento a ter em conta na leitura?

Quanto progresso científico e cultural foi obra de gente com uma visão conservadora da vida? Por vezes pareces-me preso no mundo da dicotomia esquerda direita, ou conservadorismo versus liberalismo! Para mim, essa divisão tornou-se profundamente redutora e bloqueadora! Só fecha e complica o debate intelectual!” Fim de citação

 

Trata-se de uma pequena nota mas de uma nota que me tocou muito por colocar em questão a existência de dois conceitos: esquerda e direita, conceitos estes que, por mim e por muito mais gente, são frequentemente utilizados na caracterização dos espaços de políticos. Uma questão que agora assume uma enorme importância nos Estados Unidos onde um homem, senador Democrata, Joe Manchin, querendo apagar a diferença entre esquerda e direita, no caso entre a agenda dos republicanos e a dos democratas com esta última a ter a chancela Joe Biden-Bernie Sanders, bloqueia toda a agenda política progressista (de esquerda) de Joe Biden e isto porque para tudo o que é muito importante, Joe Manchin exige o acordo dos Republicanos, na esteira de Clinton e de Obama. No fundo, por esta via está a fazer com que Biden perca as eleições intercalares e a preparar a subida de Trump ou de um outro monstro equivalente à Presidência, em 2024.

Discordei do que nesta nota se diz e sem me debruçar pelas eventualmente complexas definições abstratas destes dois conceitos, o que neste contexto penso ser irrelevante, aqui deixo os meus comentários sobre a validade ou não da utilização dos conceitos de direita e de esquerda, declarando-me desde já não interessado em fazer disto uma querela.

Peguemos então na nota que me foi enviada, decomposta em pequenas frases:

1. Porque chamaste a atenção para o facto de o autor do texto ser um conservador? Isso é uma menos valia intelectual para ti? Um elemento a ter em conta na leitura?

2.a. Quanto progresso científico e cultural foi obra de gente com uma visão conservadora da vida?

2.b. Por vezes pareces-me preso no mundo da dicotomia esquerda direita, ou conservadorismo versus liberalismo!

2.c. Para mim essa divisão tornou-se profundamente redutora e bloqueadora! Só fecha e complica o debate intelectual!

 

Estas afirmações sugerem-me os seguintes comentários, embora não esteja interessado em nenhum debate sobre os mesmos, comentários enviados ao autor da nota.

 

1. É-me perguntado: Porque chamaste a atenção para o facto de o autor do texto ser um conservador?

A resposta é simples: porque lhe reconheço muito mérito mesmo naquilo em que dele discordo e há muita coisa em que discordo. Aliás, a frase que deveria estar no meu texto seria:

“um analista que é politicamente um conservador, mas que dá sempre um enorme prazer ler” a que deveria ter acrescentado: mesmo quando não se concorda com ele.

Simplesmente na minha lista de emails há gente de esquerda, de direita, radicais e conservadores de direita e de esquerda e gente que não cabe em nenhuma destas categorias. E quis precisar quem era politicamente o autor. Se reparares, publico muita coisa de gente à direita, de gente ao centro, de gente à esquerda e de gente à extrema-esquerda. Muito raramente publico textos de gente classificáveis à direita pura e dura, como Doug Casey, Doug Nolan, Charles Hugh Smith, mas enquanto analistas da realidade financeira são do melhor que há e publico, publico. Não enfio a carapuça do que dizes. Quanto à minha informação sobre Victor Hill ser ou não ser “uma menos valia intelectual? Um elemento a ter em conta na leitura? Escrevi assim, e porquê? Porque se há muito de crítica ao capitalismo de hoje e aos líderes políticos de meia tijela que temos hoje naquilo que está escrito no artigo de Victor Hill, este seu artigo é uma crítica balizada pelo quadro intelectual em que o autor se insere. Como diz Marx, o homem é o que são as suas circunstâncias. Quis dizer apenas isto. Que ninguém esperasse um texto radical deste autor, foi apenas isso que eu quis dizer com este comentário.

Quanto ao termo conservador, ele tem dois sentidos: o de alguém que não varia com o vento, que conserva os seus valores e portanto, que não os põe em venda, e como segundo sentido o de ser politicamente um homem situado à direita. Neste caso, o termo  conservador é empregue nestes  dois sentidos.

 

2.a. É-me dito : Quanto progresso científico e cultural foi obra de gente com uma visão conservadora da vida?

Indiscutível e nunca disse o contrário, pelo que passo à frente. No plano do progresso científico o conceito de direita e esquerda pode-se colocar sobretudo não tanto ao nível de quem descobre mas ao nível do que se faz, e para quem se faz, com o que se descobre.

 

2.b. É-me dito: Por vezes pareces-me preso no mundo da dicotomia esquerda direita, ou conservadorismo versus liberalismo!

Intelectualmente sou sobretudo filho de cinco vetores: politicamente de Marx; na formação de preços, na dinâmica da escolha de técnicas, na distribuição primária dos rendimentos e na dinâmica das classes sociais, venho da linha de análise estabelecida por Ricardo-Marx-Sraffa; na macroeconomia de Keynes, Lautenbach, Marriner Eccles e Michael Pettis; filosoficamente de Hegel e de Marx, e do ponto de vista histórico, sou filho da tradição judaico-cristã em que fui criado. Perfilho claramente uma visão de esquerda, uma visão sobre o mundo, pelas linhas de referência a que acabo de me referir e não abdico delas. Caso contrário, sentiria o mundo como um amontoado de factos, face aos quais deixaria de ter uma grelha de leitura, de avaliação, deixaria de ter capacidade para os entender e articular (os factos) enquanto factos (mas para definir o que é um facto é preciso uma teoria para os definir enquanto tal, é o que disse Einstein a Heisenberg, não o esqueçamos).

A posição oposta à de Einstein é o que me parece ser a do autor da nota. Uma posição que respeito, mas da qual discordo.

Mas à hora que escrevo estas linhas temos um exemplo emblemático da suposta ausência de esquerda e direita no mais perigoso adversário de Joe Biden, Joe Manchin. Como é sabido, no Senado americano está-se perante uma relação de senadores de 50-50. A falha de um senador democrata na votação das propostas democratas leva a que o Senado fique cativo de….vândalos como são muitos dos republicanos que lá estão. Ora, nas coisas importantes, Joe Manchin está sempre a votar ao lado dos Republicanos colocando a votação em 51-49. Para o evitar os democratas têm de ceder e alinhar antes pelas posições dos Republicanos

Falo aqui do assunto porque curiosamente a posição de Manchin não me parece ser muito diferente da do autor da nota porque também Manchin quer eliminar os conceitos equivalentes de esquerda e direita, digo aqui equivalentes porque se trata aqui de Partido Democrata (teoricamente à esquerda neste momento) e de Partido republicano (teoricamente à direita aqui).

Diz-nos a revista L’Express:

“Estados Unidos: Joe Manchin, este influente democrata que se recusa a votar a favor das reformas de Biden

Hélène Vissière (Washington)

Publicado em  19/06/2021

 Nos corredores do Congresso, os seus colegas chamam-lhe “Vossa Alteza”. Aos 73 anos, Joe Manchin tornou-se um dos políticos mais poderosos de Washington, porque todas as grandes reformas de Joe Biden dependem da sua boa vontade. Os Democratas detêm uma maioria tão magra no Senado que não se podem dar ao luxo de qualquer deserção. O Senador da Virgínia Ocidental, um dos membros mais conservadores do partido de Joe Biden, aproveita para impor a sua opinião à administração.

O senador anunciou recentemente a sua oposição ao projeto de lei de reforma eleitoral. O projeto de lei, que os Democratas dizem ser crucial para proteger a democracia, imporia regras nacionais sobre os procedimentos de votação, limitaria o reordenamento eleitoral e limitaria o financiamento das campanhas eleitorais. Dada a hostilidade unânime dos republicanos, é pouco provável que passe como tal sem o apoio de todo o campo democrata.

De acordo com o senador, o texto é demasiado partidário. O seu sonho, diz ele, é regressar a um Senado onde ambos os lados debatessem de forma civilizada e encontrassem compromissos. “Não podemos continuar a dividir-nos e a distanciar-nos uns dos outros. Temos de trabalhar em conjunto”, disse ele na CNN. Uma doce utopia, dizem os seus colegas”. Fim de citação

 

O que pretende Manchin é afinal parecido com o que pareces defender: desaparecimento das categorias direita e esquerda, de republicanos e democratas, de conflitos de classes (em inglês existe um termo que é muito feliz para este tipo de posições: blurring – esbatimento/diluição).

Nota que não estou a defender o Partido Democrata tal como está por construção de Clinton e Obama, mas estou a defendê-lo como o vê Bernie Sanders e outros bem mais à esquerda que ele mas que sabem entender as circunstâncias em que os debates políticos se podem colocar e os limites do que se pode alcançar, em que  plataformas políticas se podem movimentar, o que significa que não estou ao lado dos radicalismos esquerdistas nem muito menos dos radicalismos de direita. Nunca estive.

 

2.c. É-me dito: “Para mim, essa divisão tornou-se profundamente redutora e bloqueadora! Só fecha e complica o debate intelectual!”

A minha filiação intelectual acima exposta nem que seja apenas pela mensagem de Cristo, muito importante como nos disse Henri Lefebvre, leva-me a estar em completo desacordo com o que acabo de citar. Sinto que com isto se mandam às urtigas a luta de classes, os interesses em jogo de classe dominante contra classes dominadas e assim sucessivamente. O sistema capitalismo pode ser representado por um complexo sistema de interesses e de classes ligadas a cada um deles, o que pela tua lógica parece ser eliminado pela eliminação dos conceitos como esquerda e direita. Aliás, se retomamos a trilogia que nos vem da revolução francesa, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, se a analisamos atentamente, talvez cheguemos à conclusão de que estes conceitos em modo absoluto só podem ser associados dois a dois, analogicamente um pouco como no teorema de Mundell, com o seu triângulo das incompatibilidades entre taxas de câmbio fixas, mobilidade de capitais e políticas monetárias independentes. É aqui que está o jogo complexo de interesses antagónicos que estão na base do capitalismo de hoje e cuja existência se deveria refletir exatamente nos conceitos de esquerda e de direita que agora o autor da nota parece querer apagar.

O problema será outro: embora raramente as pessoas de direita assumem posições autênticas de esquerda, independentemente agora dos catálogos, há muitas pessoas consideradas de esquerda que muito frequentemente e com um discurso à esquerda assumem autênticas posições de direita. Essa enorme mobilidade quase sempre num só sentido, sobretudo devido ao peso dos interesses financeiros, está a confundir politicamente muita gente (e isto historicamente não é uma novidade, mas talvez nunca tenha atingido a dimensão de agora). Esta é uma situação que levanta sérios problemas a muitos eleitores, como: ir ou não ir votar, pois pensam que os políticos são todos a mesma coisa, e indo votar, por princípio, levanta-se a questão de votar em quem ou de votar nulo ou de votar em branco. Assim se explicará a elevada taxa de abstenção. E isto por falta de clareza quanto a ser de esquerda, uma vez que a direita nisso é menos confusa, mais fixa nas posições que tem, nos interesses económicos e financeiros que defende. Não quer isto dizer que não tenha havido exemplos notáveis de gente de direita que no plano dos factos (ou em algumas das suas atitudes) se assumiu como de esquerda. Deste ponto de vista, podemos citar como referência: Adriano Moreira, Freitas do Amaral, Veiga Simão, Inocêncio Galvão Teles.

Quanto à gente dita de esquerda e que teve uma prática de direita, dois exemplos notáveis são François Hollande e Tony Blair. Porém, preferimos falar dos exemplos americanos uma vez que em breve iremos publicar uma grande série de textos sobre Marriner Eccles e a sua importância da construção do programa macroeconómico mais avançado do mundo até hoje, o NEW DEAL, e uma outra série, muito mais pequena, sobre a desconstrução moderna deste mesmo programa levada a cabo por Clinton, a dar origem a Bush filho, e por Obama, a dar origem a essa monstruosidade política que se chama Trump. Um exemplo claro dessa confusão vemo-la em Obama, o Presidente que melhor falou contra a desigualdade na repartição da riqueza, mas nunca a desigualdade tinha crescido tanto como com o seu reinado, supostamente de esquerda, efetivamente de direita.

Como exemplos destas passerelles entre esquerda e direita, aqui vos deixo três textos, um texto sobre Marriner Eccles, um republicano, um multimilionário que se passou a situar à esquerda, com a sua importância na na construção do New Deal, um texto assinado pelo seu sobrinho, Spencer F. Eccles, e dois textos que têm como referência os neoliberais “de esquerda” Clinton e Obama, e relativos à importância assumida por estes dois políticos na desconstrução exatamente da ideia de New Deal. Estes dois textos são assinados, um, pelo historiador Eric Rauchway, um especialista em questões ligadas ao New Deal, e o outro por Ryan Cooper, jornalista, um antigo voluntário da campanha de Obama.

Tudo isto nos mostra, e cada vez mais, que há muito trabalho a fazer e um longo caminho a percorrer para se identificar em termos teóricos, e práticos também, o que é esquerda e direita nos tempos de hoje.

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[1] Nota do editor: Este texto de Victor Hill veio a ser publicado na Viagem dos Argonautas em 30/11/2021 (ver aqui).

 

 

 

 

 

 

 

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