Uma nota sobre a Internacionalização das Universidades num mundo em que parecer ser vale como ser (2/3). Por Júlio Marques Mota

Nota do editor:

Em virtude da extensão deste texto, e conforme acordado com o seu autor, o mesmo será publicado em três partes.


 Júlio Marques Mota

Coimbra, 6 de Dezembro de 2021

 

Parecer Ser Vale como Ser, o Novo Paradigma

Basta parecer ser para se ser, será pois o novo paradigma. E a internacionalização das Universidades é esse o paradigma que segue, em Portugal mas não só em Portugal como nos mostram as duas citações anteriores.

Isto faz-me lembrar dois textos admiráveis de Matt Levine publicados por Bloomberg em torno dos mecanismos financeiros que poderão permitir a Trump efetuar a mais cara campanha presidencial de sempre para assim poder voltar à Casa Branca e isto fruto do trumpismo, onde parecer ser é ser.

 

Donald Trump quer partir em guerra contra o Facebook, o Tweeter e outros, contra o Império Tecnológico vigente e constituiu uma empresa de comunicação social designada Trump Media & Technology Group (TMTG), que se irá fundir com a Digital World Acquisition Corp. (DWAC), uma empresa cotada em bolsa, e esta fusão fará com a TMTG fique automaticamente cotada em bolsa – um efeito dito SPAC. As ações foram lançadas a cerca de 10 dólares a unidade e estão agora, 3 de dezembro de 2021 a mais de 44 dólares a unidade.

Diz Matt Levine que quando alguém está a comprar títulos Trump, “não está a comprar este título bolsista porque tem fé nas suas previsões de cash-flow otimistas; não se preocupou com as previsões de cash-flow. Está a comprar estas ações porque gosta de Donald Trump e pensa que a censura do Monopólio Tecnológico ameaça a liberdade de expressão. Os fluxos de caixa, avaliação, etc., são todos irrelevantes. São apenas pulsões que o movem à compra e à detenção em carteira dos títulos Trump.”

Parece um pouco como se toda a história financeira recente nos tivesse conduzido até este momento? Tal como, Donald Trump, claro; obviamente parte da história do Donald Trump é mais ou menos como isto: “Eu poderia ficar no meio da Quinta Avenida e disparar contra alguém, e não perderia nenhum eleitor”. Da mesma forma, ele pode lançar uma empresa sem produto, sem plano de negócios ou estrutura de capital e, na mesma, o título financeiro duplicará de valor.”

Num outro texto Levine continua a analisar a coleta de fundos de Trump e diz-nos:

A Trump Media procura agora angariar até mais mil milhões de dólares com uma valorização de cerca de 3 mil milhões de dólares, para refletir a subida das ações da Digital World após os apoiantes da Trump e os especuladores terem adquirido as ações, disseram as mesmas fontes.

Basicamente, os investidores de retalho pensam que a TMTG vale $44 por ação, mas por razões de estrutura da SPAC, a Trump só pode receber deles $10,20 por ação. (…).

Será que isso vai funcionar? Meus caros, não sei, mas eu rio-me muito disto:

As ações da Digital World foram avaliadas em $10 cada no acordo feito entre o SPAC e a Trump Media. A Trump Media procura agora assegurar um chamado investimento privado em ações de empresas cotadas em bolsa (PIPE) que valorizaria as ações da Digital World mais próximo do seu preço recente, dizem as fontes.

Isso soa tão … real? Oficialmente, como resultado científico de um mercado eficiente? “A melhor indicação do valor da TMTG é o preço de negociação do seu stock comum”, é a teoria implícita aqui, “por isso vamos calcular esse preço de negociação durante algum período médio e depois vender-lhe-emos o stock a um desconto saudável de 20% face a esse preço”. É assim que muitos negócios são feitos!

É obviamente uma loucura aqui? Que 44 dólares, ou seja o que for, o preço de DWAC é praticamente um número aleatório construído sobre o sentimento; era de 60,82 dólares há um mês e 9,94 dólares um mês antes disso. Em nenhum momento alguém que compra ou vende ações de DWAC viu qualquer plano de negócios ou projeções financeiras; em nenhum momento alguém fez uma transação baseado num modelo financeiro detalhado fundamentado no negócio real da empresa. Também ninguém fez cálculos sobre o seu valor, o terá considerado bom e foi comprá-lo. É tudo inteiramente imaginário, mas também vale $44,35 por ação. (…)

E Levine continua a desenvolver o mesmo tema em 2 de Dezembro de 2021:

Também o valor do título subiu esta manhã por causa do rumor do acordo PIPE. Parte do interesse em investir no PIPE é que ao isso ser feito o PIPE validará a TMTG como uma empresa real e, portanto, fará subir o preço das ações cotadas em bolsa. Os sofisticados investidores dos fundos de cobertura PIPE validarão os investidores de retalho, o que fará subir as ações, o que tornará os fundos de cobertura mais ricos. Os investidores de retalho estão a apostar nos investidores PIPE, que estão a apostar nos investidores de retalho. Ninguém precisa de um plano de negócios; eles sustentam-se uns aos outros.

Tudo o que escrevo sobre estes dias tem este perfil essencial: As ações e criptogramas Meme e NFT são tudo apostas feitas na base da emoção e da crença e não em fluxos de caixa subjacentes. Mas se quiser estar no negócio de apostar na emoção, apostar no Donald Trump parece relativamente seguro. [Os sublinhados são meus-JMota] “(Ver Matt Levine aqui e aqui). Fim de citação.

Neste mundo em que o parecer ser vale como ser, um mundo à Trump como mostra a análise de Matt Levine, os investidores de grosso calibre, os investidores sofisticados, os famosos fundos especulativos, apostam nos pequenos investidores e os pequenos investidores, os investidores de retalho apostam nos investidores sofisticados e assim se sustentam uns aos outros, até que a fatura seja definitivamente passada para os pequenos investidores. Historicamente, é sempre assim, é assim o mercado. Por analogia e porque vivem do mesmo quadro ideológico, o neoliberalismo, a verdade ditada pelos mercados desregulados, é assim que as Instituições começam a funcionar, onde o parecer ser é suficiente para se considerar ser.

E é assim que temos a mesma lógica na globalização das universidades, onde a facilitação das entradas permite aumentar o número de entradas na Universidade e o aumento deste número ao ser considerado a expressão da qualidade aumenta de novo as entradas e os fluxos monetários daí decorrentes. E assim somos remetidos para um mundo à Trump, em que a qualidade emerge da quantidade e apenas desta, possivelmente por obra e graça de muita gente dita de esquerda que continua a pensar que vivemos um período de internacionalização feliz ! E viva a internacionalização das Universidades, é o que se diz e rediz.

E a dialética da quantidade qualidade traduz-se numa corrida às massas (à massa de estudantes e à massa em euros) pela via da atratividade, pela via da concorrência pelo baixo no ensino superior e, tal como no caso de Levine, alguém irá depois pagar a fatura. Macroeconomicamente, a fatura já está a ser paga, com o declínio do Ocidente face à Asia.

A respeito desta fatura, reproduzo aqui um excerto de um longo texto que escrevi de homenagem ao meu colega João Sousa Andrade, onde analiso criticamente a evolução do ensino superior, texto publicado no blog A Viagem dos Argonautas e não distribuído naquela que foi a minha Faculdade. Escrevi (ver ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (5/5)):

Tudo isto nos indica que o caminho de reconfiguração e de recuperação das verdadeiras funções da Universidade será um longo, penoso e difícil caminho a percorrer. E deste ainda nem sequer se vislumbram os seus trilhos. Deles, o governo nada diz e, se nada diz, e pelo lado do corpo docente também nada de significativo se ouve, a precariedade impõe o silêncio, dir-se-á. E este mundo de silêncio vai-se impondo sub-repticiamente, por muito fortes que sejam as vontades singulares de uns e outros docentes contra a corrente. A via que se está a seguir é, pois, um caminho inexorável imposto pela lógica da globalização e da consequente especialização extrema à Ricardo: especializações banalizadas, saberes fragmentados, pessoas desenraizadas e submissas, pessoas despersonalizadas. Como assinala Patrick Deneen para o caso dos Estados Unidos, situação esta nada diferente do que se passa na Europa:

Caímos no mau e inquestionável hábito de pensar que o nosso sistema educacional está falido, rebentado, mas está a funcionar com todos os seus motores, com todos os seus cilindros, está a atingir o máximo do seu sucesso. O que o nosso sistema educacional pretende produzir é amnésia cultural, uma falta de curiosidade generalizada, agentes livres sem história e metas educacionais compostas de processos sem conteúdo e palavras-chave que não fazem parte do glossário do “pensamento crítico”, “diversidade”, “formas de saber”, “justiça social” e “competência cultural”.

Os nossos alunos são a realização de um empenhamento sistémico em produzir indivíduos sem um passado para quem o futuro é um país estrangeiro, em criar pessoas despidas de qualquer cultura que podem viver em qualquer lugar e realizar qualquer tipo de trabalho sem se questionar sobre os seus objetivos, as suas finalidades, em produzir pessoas que sejam ferramentas aperfeiçoadas para um sistema económico que defende a “flexibilidade” (geográfica, interpessoal, ética).

Quanto a este “sucesso” americano ele tem já um custo muito elevado. O seu elevado custo não estará desligado da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China atualmente em curso, uma vez que por detrás dela o que está verdadeiramente em questão é o domínio das novas tecnologias nas quais os Estados Unidos parecem ter já perdido a corrida. E uma das razões desta nova realidade, impensável há uma década atrás, tem na sua base exatamente a falta de investimento massivo no ensino e formação da juventude americana em confronto com o que fazem os chineses.

De acordo com o reconhecido especialista em questões de segurança nacional dos Estados Unidos, DAVID GOLDMAN, e em oposição aos que defendem para esta guerra “um ressurgimento da I&D americana à escala da nossa resposta ao Sputnik.”(…) e uma “guerra financeira encoberta” para interromper os empréstimos externos da China, diz-nos este especialista:

“Nada disto fará qualquer diferença. O nosso problema é muito mais grave. A China produz quatro diplomados STEM (diplomas em ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas) por cada licenciado americano e esta relação está ainda a aumentar. Os estudantes estrangeiros obtêm quatro quintos de todos os doutoramentos em engenharia elétrica e eletrónica e ciência da computação em universidades americanas. Porque temos tão poucos estudantes de engenharia (apenas 5% dos cursos de licenciatura), as faculdades de engenharia são pequenas, o que significa que a maioria dos estudantes estrangeiros regressam aos seus próprios países de origem para ensinar. Os Estados Unidos formaram uma faculdade de engenharia de classe mundial nas universidades chinesas, de modo que os melhores estudantes chineses ficam em casa. Conheço gestores chineses em tecnologias da informação que não contratam estudantes chineses com licenciatura obtida nos EUA, porque os programas chineses são mais rigorosos.

Nós só podemos ser melhores que a China através da inovação, e estamos a perder esta nossa vantagem a esse respeito.”

(…)

E a saída desta trajetória descendente da qualidade do ensino, aqui em Portugal, nos Estados Unidos ou algures, não podendo nunca ser o fruto de resistentes individualmente considerados contra a degradação imposta desde há décadas pode, também ela, ser de impacto imediato nada agradável. Como assinala Patrick Deneen no mesmo artigo:

“Eu gosto dos meus alunos – como qualquer ser humano, cada um tem um enorme potencial e grandes dons para dar ao mundo. Mas lamento por eles, pelo que é deles por direito mas que não lhes foi dado. Nos nossos melhores dias, percebo o seu anseio e angústia e sei que o seu desejo humano inato de saber quem são, de onde vêm, para onde devem ir e como devem viver sempre se reafirmará. Mas mesmo naqueles melhores dias, não posso deixar de pensar que o mundo que eles herdaram – um mundo sem herança, sem passado, futuro ou preocupações mais profundas – está prestes a cair, e que este colapso seria o verdadeiro começo de uma verdadeira educação.” Fim de citação.

 

Esta atratividade e a consequente adaptabilidade, por parte das Universidades à qualidade dos estudantes que recebem, de que tanto se fala em termos de ensino superior, ser-se atrativo para captar estudantes, abre pois a via da descida ao mundo da ignorância, diplomada e polida, do parecer ser para se ser. Como assinalava neste mesmo texto de homenagem ao meu colega Andrade (ver nota (10) em ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (3/5)):

O fenómeno da degradação do Ensino Superior é hoje um fenómeno bem geral. Numa leitura bem mais dura sobre esta realidade, diz-nos recentemente Victor Hill, um conhecido analista inglês dos mercados financeiros, referindo-se em particular às Universidades americanas e inglesas: “devo dizer que, embora eu já tenha pensado que o nosso sistema universitário era um lugar onde os jovens aprendiam a aprender e a pensar – de modo que pudessem depois aplicar o que aprenderam como formação e como capacidade de reflexão no mundo do trabalho e na vida em geral – agora suspeito que as universidades são lugares onde se aprende a não pensar.”Ver Victor Hill, When Jeremy met Bernie… the nightmare of the ‘utopian’ future. Texto disponível em: https://masterinvestor.co.uk/economics/when-jeremy-met-bernie-the-nightmare-of-the-utopian-future/” Fim de citação.

O efeito perverso desta internacionalização na base da atratividade, é-nos também apresentada novamente por David Goldman numa conferência proferida em 2019, onde afirmou, e completamente em linha com a citação anterior do mesmo autor, o seguinte:

O investimento da China na educação é paralelo ao seu investimento na indústria de alta tecnologia. Hoje em dia, a China forma quatro vezes mais licenciaturas STEM do que os EUA e duas vezes mais doutoramentos, e a China continua a ganhar. Um terço dos estudantes chineses são licenciados em engenharia, contra apenas 7% nos EUA (e muitos deles são estudantes chineses estrangeiros). Oitenta por cento dos doutorandos norte-americanos em informática e engenharia elétrica são estudantes estrangeiros, dos quais os chineses são o maior contingente. A maioria regressa à China. O resultado é que as melhores universidades americanas formaram um excelente corpo docente para as universidades chinesas. Os programas de pós-graduação da American STEM relataram uma queda acentuada nas candidaturas estrangeiras a partir de 2017, em parte porque os estudantes chineses já não precisam de vir para os EUA para uma educação de classe mundial”. Fim de citação.

Sublinho, neste excerto da conferência de David Goldman, os estudantes chineses já não precisam de ir aos Estados Unidos para obter uma formação de classe mundial e isto é um efeito da concorrência mundial à baixa da qualidade do ensino. E o que acontece nos Estados Unidos irá brevemente acontecer na Inglaterra, onde há faculdades praticamente a viverem de estudantes asiáticos, sobretudo chineses, como poderá ser o caso da Universidade de Warwick, penso eu.

(continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

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