A Guerra na Ucrânia – “A incomodidade de se ser incómodo”. Por Júlio Marques Mota

A incomodidade de se ser incómodo

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2022

 

Após a publicação de quatro textos sobre a crise da Ucrânia, dois textos de americanos -Thomas Palley e William Astore – e dois textos dos portugueses António Gomes Marques e Joaquim Ventura Leite, recebi uma resposta de um conhecido de longa data, com quem troco, de vez em quando, alguns «e-mails», de profunda discordância.

Nessa resposta, aquele meu interlocutor, embora reconhecendo erros cometidos pelos EUA, nomeadamente do Vietnam ao Iraque, afirmava como muito positivo o papel desempenhado por aquele país na Europa e no Japão aquando e após a Segunda Guerra Mundial, para além da sua contribuição para se evitar uma guerra nuclear que a União Soviética pudesse provocar.

Levanta também a questão do lado em que estamos quanto a governos de ditadura ou de democracia e até se preferimos guerras como a que a Rússia agora iniciou ou guerras que possam ser originadas pelo governo dos EUA.

Claramente, aquele meu interlocutor está em desacordo com as ideias expostas naqueles quatro textos, é o que julgo poder concluir daquele texto de resposta.

Vejamos a nota que me enviaram, analisando-a passo a passo:

 

a) Erros cometidos pelos EUA

Lamento, mas o texto refere-se à política americana praticada desde a guerra do Vietname e não antes. O caso da Europa e do Japão está fora desta análise e, portanto, é um abuso de linguagem colocá-lo aqui.

 

b) desempenho positivo dos EUA na Europa e no Japão no pós Segunda Guerra Mundial

Deixando de lado a grandeza e a seriedade dos tempos de Roosevelt e do seu plano Marshall, digo face ao autor deste comentário: leia o livro de Georges Friedman Focos de tensão e venha-me depois falar em reconstrução inteligente desta região, a Europa. E pergunte às famílias das gentes torturadas nos tempos dos coronéis da Grécia sobre essa inteligência de reconstrução europeia. Pergunte às gentes de Leste, sujeitas às privatizações selvagens, onde é que está a inteligência e a seriedade disto tudo. Nessa época, circulava pela Alemanha de Leste uma expressão curiosa: olhem, prometeram-nos a democracia mas em vez disso deram-nos o capitalismo selvagem! Aliás, parafraseando Alain Supiot, diríamos que a Leste a atitude, por si considerada inteligente, foi de lhes deixarem o pior do comunismo e instalando-lhes o pior do capitalismo. Os resultados estão à vista. Mas referindo-me a George Friedman, o que ele nos diz, neste livro escrito há dez anos, é que estavam abertos hoje todos os problemas que conduziram à Segunda Guerra Mundial. O que podemos dizer hoje, penso eu, é que o Ocidente se tem esmerado em tornar estes problemas muito maiores, mas a isso chama-lhe agora o autor da resposta que venho referindo uma atitude inteligente. É o seu ponto de vista.

Quanto à reconstrução inteligente da Europa das últimas décadas de que fala o meu interlocutor, sugiro que visione dois filmes passados aos meus estudantes de então e isto numa altura em que a Europa de Leste estava em queda:

Desemprego e precariedade: a Europa vista pelos desfavorecidos (2003) um Filme de Catherine Pozzo di Borgo

Import-Export – uma viagem de inverno pelo coração da Europa (2007) um filme de Ulrich Seidl

Cada filme foi acompanhado por uma brochura, respetivamente:

Desemprego e precariedade na União Europeia– um conjunto de radiografias, (original aqui)

As Economias de Leste, a Crise da Transição e a Crise Global- Os Caminhos da Democracia e os da Autocracia (original aqui)

E estas brochuras considero-as de leitura aconselhável a quem escreve o que escreveu aquele meu interlocutor no comentário que venho referindo, a quem pensa como o autor do comentário pensa, sobretudo a brochura relativa à Europa de Leste. Digo que ao revê-la senti um aperto do coração por confrontar o que nesta brochura se diz com a consideração do comentário acima, segundo o qual tudo o que se descreve nesta brochura mostra o comportamento inteligente de europeus e americanos face ao Leste [1]. Direi ainda que estas brochuras refletem bem o capitalismo de hoje, o capitalismo supostamente inteligente, pelo que nos diz o comentário acima, e este capitalismo inteligente é bem sintetizado por Asea Brown Bovery (Presidente do grupo ABB, 12ª empresa mundial) ao afirmar que a globalização reinante nos dias de hoje é vista como “a liberdade para o meu grupo de investir onde quiser, o tempo que quiser, para produzir o que quiser, comprando e vendendo onde quiser, suportando o mínimo de obrigações possíveis em matéria de direito do trabalho e de convenções sociais.”

 

c) contributo dos EUA para evitar uma guerra nuclear

Nos termos assim postos, não sei do que se está a falar. Quem é que impediu quem e o quê exatamente? Do ponto de vista das questões nucleares, peço-lhe que leia o artigo de William Astore sobre o tema das bombas nucleares.

 

d) se preferimos governos de ditadura ou democráticos e se preferimos escolher guerras como a que acontece agora na Ucrânia ou as que poderão ser iniciadas pelos EUA

Lamento, em nenhum dos textos está posta esta questão e, muito menos, nos termos em que é posta.

Curiosamente, estes termos são equivalentes aos do meu vendedor de jornais ou da minha amiga, de quem muito gosto e com quem tomo frequentemente café, que têm um ódio de estimação a Putin. De um lado, está o bem, do outro lado, está o mal. Um mundo binário assim colocado, como o colocou, releva do espírito mágico da Grécia antiga e recuso-me discutir nestes termos. Lamento que o meu interlocutor se coloque a este nível.

Quanto a esse mundo fazedor do bem, o lado de cá, a que se refere o comentário, pergunte-se às famílias das gentes mortas sob o regime de Pinochet, pergunte-se às mães dos desaparecidos na Argentina , pergunte-se aos familiares dos brasileiros mortos às mãos dos militares no poder, pergunte-se às vítimas de Noriega, do Panamá, etc. onde está a inteligência de tudo isto?

Claramente, sugiro ao autor do comentário que leia Astore (veja aqui) ou Basevich ( aqui e aqui) porque este seu comentário é de um belicismo aterrador. Que me seja desculpada a comparação, este é o raciocínio de um general voluntariamente às ordens de um Trump qualquer. Trata-se de evitar que uma guerra exista, seja ela iniciada por um lado ou por outro, trata-se de ser contra a guerra, seja ela desencadeada por quem for. Não é o caso do meu interlocutor, pelos vistos. Se desencadeada pelo TIO SAM tudo bem, é o que parece deduzir-se das suas palavras lamentáveis. Mas uma coisa é certa, sugiro-lhe que leia o texto de RAJAN MENON, que abaixo indico, porque a ideia que o texto deste autor nos dá é que os Estados Unidos, o seu lado bom, durante estes últimos sessenta anos pouco mais tem feito que a guerra, e, no caso em questão, tem caminhado de provocação em provocação à espera que uma centelha desencadeie o incêndio à escala da Europa e do Mundo. Aliás, desde os acontecimentos da praça Maiden seria curioso ver o comportamento do amigo americano, de Victória Nuland (responsável no governo dos Estados Unidos da política externa para os assuntos europeus e euroasiáticos, em 2013-2017), do embaixador americano em Kiev, Geoffrey Pyatt, dos dinheiros gastos em campanhas na Ucrânia e no apoio a organizações nazis, apoio este tanto de Bruxelas, como dos Estados Unidos, como do próprio FMI, que ao abrigo da Troika nos forçava à austeridade, apoios estes que iam mantendo a chama da Rússia como o grande inimigo.

Tudo isto nos leva a crer que a guerra parece ser o que os loucos generais da NATO e, em especial os americanos, pretendem, talvez para justificar as suas altas patentes e o desenvolvimento ainda profundo do complexo industrial e militar que se alimenta deste mesmo belicismo. Assim, sugiro-lhe sinceramente a leitura do discurso de despedida de Eisenhower do cargo de Presidente da República dos Estados Unidos (original aqui) e do texto de RAJAN MENON, How Did We Get Here? The Strategic Blunder of the 1990s That Set the Stage for Today’s Ukrainian Crisis (original aqui).

 

E já agora, se alguém quer falar de política inteligente pelo lado do amigo americano, explique então qual é a razão por que o Ocidente, o sempre lado bom deste nosso mundo, segundo o comentador, desde o G20 de Londres com Major, não deu o devido apoio a Gorbatchov, o moderado, para uma transição pacífica para o capitalismo! Em vez disso, o seu lado bom, preferiu colocar no poder um bêbado confesso e cercar agressivamente os países de Leste que não se renderam aos encantos do capitalismo selvagem com bases militares por todo o lado. Para quê? Por um lado, para mais rapidamente saquear as riquezas imensas daquele território. Porque é que em vez de se aprofundar a coexistência pacífica vinda dos tempos de homens europeus de nível no poder, anos 60 e 70, se preferiu um belicismo cerrado que conduziu à presente situação? Chamar a isso política inteligente? Por outro lado, quanto à alimentação da máquina de guerra que sustenta o poder americano e de que nos falam os artigos de que o comentador não gosta, sugiro a leitura do texto de Eisenhower, e este é bem elucidativo.

 

O comentário acima é-me enviado por alguém que conheço desde há décadas, alguém de quem ideologicamente terei estado muito perto durante décadas e que durante décadas admirei pela sua frontalidade, pela sua visão da política de então e pela sua visão de então do que é a dinâmica da economia real e das classes sociais, mas a quem hoje nada me liga, a não ser esse mesmo passado que conservo em memória. Em forma de conclusão, deixem-me dizer que escrevi este texto com muito respeito e carinho -será que esta palavra ainda pode ser hoje usada?- a pensar não no homem que me enviou a nota que temos estado a analisar, mas no homem com quem me encontrei há muitos em Coimbra num debate sobre questões económicas. Aí, fiquei-lhe com uma profunda admiração. Mas os tempos mudaram, eu terei mudado muito mais para a esquerda, talvez, mas este meu comentador terá mudado muito mais para a direita, criando-se assim com este duplo movimento um espaço de não comunicação. Já não é o homem dessa noite em Coimbra e isto é bem manifesto na sua reação aos textos que lhe enviei.

Pela parte que me toca, encerro a discussão por aqui e deste debate afasto-me definitivamente.

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Nota

[1] Um detalhe curioso. Estas brochuras foram organizadas e publicadas por um grupo de três docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra , no âmbito de uma Iniciativa chamada Ciclos Integrados de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Foram largas dezenas os filmes difundidos, de debates organizados, de brochuras publicadas, tudo sempre disponibilizado aos estudantes e ao público de Coimbra em geral e a quem cada brochura era distribuída gratuitamente. Hoje, uma Iniciativa deste tipo seria impossível pelas seguintes razões:

-O espírito de missão desapareceu no corpo docente porque é contrário ao que se exige na carreira.

-O corpo docente não dispõe de tempo —isto exige muito tempo—, face às exigências burocráticas da sua carreira profissional, sobretudo virada para a maquilhagem e reprodução de artigos sobre artigos para se encherem linhas de curriculum.

-Exige uma cultura geral muito vasta, incompatível hoje com   a necessidade de se saber quase tudo mas de quase nada que impera nas Faculdades de agora sob o domínio do modelo de ensino europeu, uma estrutura do dito modelo inteligente a que se refere.

Com isto não estou a dizer, muito longe disso, que sou melhor que os docentes atuais,  serei  talvez mesmo pior que eles. Estou a dizer , isso sim,  que vivi um tempo diferente do deles e sem as amarras que hoje condicionam o corpo docente, a viver sob a égide publique, publique-se. E onde já não há tempo disponível para a cultura.

 

 

 

 

 

 

 

 

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