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Ao lado de Paulo Guedes, Bolsonaro fez do “não há alternativa” seu modo de governar. Os dados são quotidianos e consistentes – Agência Brasil

 

Sexta-feira, 13 de Maio de 2022

 

Olá, mais uma semana que parece a anterior. Tem ameaça de golpe, treta com o Judiciário e aumento dos combustíveis.

.Rumo ao Rubicão. Depois de um período de confusão e falta de foco, o lançamento da pré-candidatura de Lula mobilizou a militância e afinou a mensagem política. Trata-se de fazer da eleição um plebiscito sobre o governo Bolsonaro. Para isso, o novo marqueteiro da campanha petista mostra um Brasil dividido em dois lados, o da paz, da prosperidade e da democracia e o da fome, da destruição e do autoritarismo. Lula também fez sua parte, lendo um discurso suficientemente moderado no lançamento de sua pré-candidatura onde podem encaixar-se democratas de todas as matizes. A recente pesquisa de intenções de votos também deu um novo alento, despertando novamente em alguns a esperança de uma vitória no primeiro turno. A boa notícia é que, depois de herdar os votos de Moro, Bolsonaro parou de crescer, o que pode indicar uma insatisfação do eleitorado com a ofensiva contra o Judiciário e as eleições, avalia Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisas. Em contraste, Lula tem a seu favor a insatisfação com a situação econômica, recebendo o voto de 56% da população mais pobre, inclusive os que recebem o Auxílio Brasil, assim como o voto das mulheres segue crescendo e das camadas mais moderadas da sociedade. Mas a corrida para atravessar o rubicão e chegar a Roma apenas começou e não será fácil para a candidatura petista. Por exemplo, a rejeição a Bolsonaro caiu e Lula está perdendo votos dos evangélicos. Justamente por isso, alerta Felipe Nunes, Bolsonaro deve vir com uma campanha pesada em torno das “pautas morais” que podem arrancar votos do petista.

.É golpe ou é blefe? A campanha bolsonarista também parece ter decidido qual caminho trilhar. Bolsonaro deve continuar jogando só para sua base mais nuclear. Junto aos temas morais e aos valores cristãos associados à família, os discursos vão continuar incendiando no questionamento do processo eleitoral, enquanto lava as mãos e finge que não tem nada a ver com o preço dos combustíveis. No caso da suspeição das eleições, o problema é que a consequência concreta – e não é por falta de aviso – é necessariamente antidemocrática, ou seja, não reconhecer os resultados das urnas. E para quem tem dúvida se o golpe é blefe ou política de governo, basta ver como os generais Luiz Eduardo Ramos, Augusto Heleno e Braga Netto estão profundamente envolvidos com a artimanha. De qualquer forma, o TSE decidiu não esperar até outubro para pagar para ver. Numa tacada, o Tribunal desmentiu que as forças armadas propuseram uma apuração paralela, como afirmava Bolsonaro, e mandaram avisar o Ministério da Defesa que o tempo para sugestões já passou. E de alguma maneira encontraram eco no ministro, quando o general Paulo Sérgio mandou dizer educadamente que o general Heber Portella, o infiltrado bolsonarista no TSE, não responde mais pelo tema. Obviamente é pouco para garantir isenção das forças armadas, quando a corporação não para de ganhar dinheiro neste governo. Em outra frente, Alexandre de Moraes unificou os inquéritos sobre milícias digitais e de fake news contra o sistema eleitoral partindo do óbvio: o gabinete do ódio atuou nas duas situações. Mas, ainda que as ações freiem os instintos golpistas da caserna, a insuspeita Eliane Cantanhêde lembra que ainda existem as milícias civis bolsonaristas. Por isso, Helena Chagas conclui: o melhor antídoto ao golpe é a mobilização popular.

.Make America great again. No intrincado xadrez das eleições brasileiras, há uma peça fora do tabuleiro, mas de fundamental importância: Joe Biden. Pragmaticamente falando, Biden não nutre simpatias ou afinidades nem por Lula, nem por Bolsonaro. E o sentimento é recíproco dos dois candidatos brasileiros. Mas, na vida real, o mundo pós-pandemia e o conflito na Ucrânia, somado ao “capitalismo verde” da COP26, abriram a temporada de caça aos minérios e commodities agrícolas, um tema relevante o suficiente para que Washington se visse obrigado a buscar uma reaproximação com a Venezuela, por exemplo. Porém, a posição da Casa Branca não deve ser decidida apenas por Brasília: se a esquerda vencer as eleições pela primeira vez na Colômbia, um tradicional preposto americano, apenas o pequeno Uruguai continuaria verticalmente alinhado aos EUA na América do Sul. Neste contexto, Biden poderia flertar com Bolsonaro, preferindo um cabo eleitoral trumpista e não confiável ao petista que coordenou uma série de alianças que esvaziaram o papel de Washington no continente, como a Unasur e a Celac. Daí, os flertes da Casa Branca para encontrar Bolsonaro na Cúpula das Américas, tentando tirar o Brasil do eixo de influência de Putin neste momento. Por outro, Lula já demonstrou com Bush filho que quando o assunto são commodities, o pragmatismo também vigora na diplomacia petista. Neste caso, evidentemente a torcida lulista tem interpretado os sete – sete! – avisos estadunidenses de que não vão tolerar um golpe no Brasil, como uma sinalização favorável. Obviamente, Biden não fará nenhuma declaração pública, mas as movimentações influenciam os investidores estrangeiros no país e, por tabela, a parte do PIB que depende destes recursos. Dois destes investidores, ouvidos por Vinicius Torres Freire, foram objetivos: uma ditadura, mesmo pró-capital, seria um suicídio econômico para o Brasil.

.Pôncio Pilatos. Ao lado de Paulo Guedes, Bolsonaro fez do “não há alternativa” seu modo de governar. Os dados são quotidianos e consistentes. No quadro da América Latina, o Brasil ocupa a posição de lanterna na expectativa de crescimento para 2022, segundo a CEPAL, com uma projeção de 0,4% de crescimento do PIB. Será o primeiro governo desde o lançamento do Plano Real a entregar um salário mínimo no final do mandato menor do que no início, o que deverá representar uma perda de 1,7% até dezembro de 2022. A inflação para o mês de abril deste ano foi a maior desde 1996, acumulando 12% nos últimos doze meses. Bolsonaro olha para isso tudo e pergunta: o que fazer? Sua primeira resposta é intensificar a guerra contra o STF e o TSE, colocando em xeque as eleições. Para os servidores públicos que entram em greve, ele responde com promessas vazias de reajuste salarial. Contra a inflação descontrolada, o governo estuda reduzir tarifas sobre produtos importados, o que deve prejudicar ainda mais a indústria local, e diz estudar medidas para conter a alta da energia elétrica e da cesta básica. Nada disso é suficiente para fazer o público esquecer o aperto e o pepino do governo segue sendo o mesmo: a escalada nos preços dos combustíveis. Depois de mais um aumento do diesel, Bolsonaro voltou a fingir que é oposição a seu próprio governo, jogando o ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque para as cobras. Mas, além de uma forma de lavar as mãos, a mudança no ministério é uma operação de desinformação e psicologia reversa. Assim, assume Adolfo Sachsida, um olavista próximo a Paulo Guedes que chega ao ministério defendendo a privatização da Petrobras, ideia estapafúrdia que recebeu apoio imediato do presidente do BNDES. Tudo isso é tanto uma cortina de fumaça quanto um ato de desespero de um governo que precisa subverter a pauta econômica desfavorável. O problema é que as medidas são cada dia mais espalhafatosas e seu efeito é cada vez mais curto.

 

.Ponto Final: nossas recomendações.

 

.Dark kitchens, delivery e plataformas digitais . Tele-entrega, cozinhas sem salão, trabalho precário e concentração do comércio alimentício. O Manual do Usuário liga todos os pontos do fenômeno acentuado pela pandemia.

.Dois universos paralelos. No A Terra é Redonda, Tarso Genro escreve sobre a relação dos níveis de disputa nas redes e no espaço político tradicional.

.Guilhotina #164. O podcast do Le Monde Diplomatique entrevista o cientista político Luis Felipe Miguel sobre a crise da democracia brasileira e suas saídas.

.Como as privatizações estão aumentando a inflação. Na Jacobin, o economista Ladislau Dowbor demonstra como as privatizações são responsáveis pela disparada da inflação.

.Por que a globalização está ameaçada. Michael Roberts escreve porque a globalização neoliberal dos anos 90 não sobreviverá ao mundo pós-pandemia e ao conflito na Ucrânia.

.A Lei de Cotas dez anos após sua promulgação. Na 451, cinco pesquisadores comprovam porque a lei de cotas completa uma década como uma política eficiente contra a desigualdade.

 

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Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Edição: Rebeca Cavalcante

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