A Guerra na Ucrânia — A Dinâmica da Escalada: ‘Estar ao lado da Ucrânia’.  Por Alastair Crooke

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

15 m de leitura

A Dinâmica da Escalada: ‘Estar ao lado da Ucrânia’.

 Por Alastair Crooke

Publicado por  em 25 de Abril de 2022 (original aqui)

 

O eixo Rússia-China possui alimentos, energia, tecnologia e a maioria dos principais recursos do mundo. A história ensina que estes elementos fazem os vencedores nas guerras.

À medida que o Ocidente se apercebe de que embora as sanções sejam consideradas capazes de pôr os países de joelhos, a realidade é que tal capitulação nunca ocorreu (v.g., Cuba; Coreia do Norte; Irão). E, no caso da Rússia, é possível dizer que simplesmente não vai acontecer.

A equipa Biden ainda não compreendeu completamente as razões disso. Um ponto é que escolheram precisamente a economia errada para tentarem que entre em colapso através de sanções (a Rússia tem um mínimo de linhas de abastecimento estrangeiras e grande quantidade de matérias-primas de valor). A equipa de Biden também nunca compreendeu todas as ramificações da flexibilidade e capacidade monetária de Putin ligando o rublo ao ouro, e o rublo à energia.

Eles consideram com condescendência essa flexibilidade e capacidade monetária de Putin como mais um golpe desesperado contra o estatuto “inexpugnável” de moeda de reserva do dólar. Assim, optam por ignorá-lo, e assumem que se os europeus tomassem menos duches quentes, usassem mais roupa de lã, renunciassem à energia russa, e “ficassem ao lado Ucrânia”, o colapso económico materializar-se-ia finalmente. Aleluia!

A outra razão pela qual o Ocidente interpreta mal o potencial estratégico das sanções é que a guerra Rússia-China sobre a hegemonia ocidental é assimilada pelos seus povos como sendo uma guerra existencial. Para eles, não se trata apenas de tomar menos duches quentes (como para os europeus), trata-se da sua própria sobrevivência – e consequentemente o seu limiar de dor é muito, muito mais alto do que o do Ocidente. O Ocidente não vai afogar os seus adversários assim com tanta tão facilidade.

No fundo, o eixo Rússia-China possui alimentos, energia, tecnologia e a maioria dos principais recursos do mundo. A história ensina que estes elementos fazem os vencedores nas guerras.

O problema estratégico, porém, é duplo: Em primeiro lugar, passou a janela para um plano B de desescalada através de um acordo político na Ucrânia. Agora é tudo ou nada (a menos que Washington desista). E, em segundo lugar, embora num contexto ligeiramente diferente, tanto a Europa como a Equipa Biden optaram por subir a parada:

A convicção de que a visão liberal europeia enfrenta a humilhação e o desdém, se Putin “vencesse”, impôs-se. E no nexo Obama-Clinton-Estado Profundo, é inimaginável que Putin e a Rússia, ainda considerada como o autor do Russiagate para muitos americanos, possa prevalecer.

A lógica para este dilema é inexorável – Escalada.

Para Biden, cujos índices de aprovação continuam a cair a pique, as eleições de meio mandato em Novembro anunciam-se catastróficas. O consenso entre os conhecedores internos dos EUA é que os democratas vão perder 60-80 lugares no Congresso, e um pequeno punhado (4 ou 5 lugares) também no Senado. Se isto acontecesse, não seria apenas uma humilhação pessoal, mas seria um sinal de paralisia administrativa para os democratas até ao final nocional do mandato de Biden.

O único caminho possível para sair deste cataclismo que se aproxima seria Biden sacar um coelho da “cartola” da Ucrânia (um que, no mínimo, distrairia da inflação em alta). Os neocons e o Estado Profundo (mas não o Pentágono) são todos a favor disso. A indústria do armamento está naturalmente a adorar o branqueamento de armas de Biden na Ucrânia (com um enorme “derramamento” que desaparece em alguma forma de “negro”). Muitos em Washington lucram com este bem financiado “desperdício”.

Porque é que estamos a ver tanta euforia com este esquema de escalada aparentemente tão imprudente? Bem, os estrategas sugerem que se a liderança republicana se envolve na escalada de forma bipartidária – tornar-se cúmplice de “mais guerra”, por assim dizer – argumentam que poderia ser possível conter as perdas democratas a meio do mandato e atenuar o assalto da campanha da Oposição centrado numa economia mal gerida.

Até onde poderá Biden ir com esta escalada? Bem, o esbanjamento de armas é óbvio (outro desperdício), e as Forças Especiais já estão no terreno, prontas a acender um rastilho para qualquer escalada; além disso, a sugerida zona de exclusão aérea parece ter a vantagem adicional de usufruir do apoio europeu, particularmente no Reino Unido, entre os Bálticos (claro) e dos “Verdes” alemães, também. (Alerta Spoiler! Primeiro, claro, para implementar qualquer zona de exclusão aérea, seria necessário controlar o espaço aéreo – que a Rússia já domina, e sobre o qual aplica uma exclusão electromagnética total).

Será que isto seria suficiente? As vozes negras aconselham a não o fazer. Querem “botas no terreno”. Falam mesmo de bombas nucleares tácticas. Argumentam que Biden não tem nada a perder por ‘ir em grande’, especialmente se os Republicanos forem persuadidos a tornar-se cúmplices. Na verdade, isso poderia salvá-lo da ignomínia, insistem eles. Os militares de dentro dos EUA já assinalam que o fornecimento de armas não vai “mudar” a guerra. Uma “guerra perdida” deve ser evitada a todo o custo até Novembro.

Será realista esse consenso para uma escalada? Bem, sim, é possível. Recorde-se que Hillary (Clinton) foi a alquimista que fundiu a ala neoconservadora dos anos 80 com os Neoliberais dos anos 90 para criar uma ampla tenda intervencionista que pudesse servir todos os gostos: Os europeus podiam imaginar-se a exercer o poder económico de uma forma globalmente significativa pela primeira vez, enquanto os neoconservadores ressuscitaram a sua insistência numa intervenção militar vigorosa como requisito para manter a ordem baseada em regras. Estes últimos estão encantados com o fracasso da guerra financeira.

Do ponto de vista dos Neocons, coloca a acção militar firmemente de novo em cima da mesa e com a abertura de uma nova “frente”: Os neocons questionam hoje, precisamente, a premissa de que uma troca nuclear com a Rússia deve ser evitada a todo o custo. E a partir deste afastamento da proibição de acções que poderiam desencadear uma troca nuclear, dizem que circunscrever o conflito com a Ucrânia nessa base é desnecessário e um erro estratégico – afirmando que, na sua opinião, seria improvável que Putin recorresse a armas nucleares.

Como pode esta superestrutura de elite intervencionista neocon-liberal exercer tal influência quando a classe política americana mais em geral tem sido historicamente “antiguerra”? Bem, os neocons são os camaleões arquetípicos. Adorados pela indústria bélica, uma presença regular e ruidosa nas redes, eles entram e saem do poder, com os “falcões da China” aninhados nos corredores Trump, enquanto os “falcões da Rússia” são migrados para povoar o Departamento de Estado de Biden.

A escalada já está ‘cozinhada’? Pode ainda haver uma iconoclástica ‘mosca na sopa’: O Sr. Trump! – através do seu acto simbólico de respaldar J.D. Vance para as primárias do partido Republicano para o Senado em Ohio, contra a vontade dos poderes estabelecidos do partido.

Vance é um (entre muitos) representantes da tradição populista americana que procura um cargo na próxima “rotação” do Congresso. Mas o que aqui se destaca é que Vance tem questionado a pressa da escalada na Ucrânia. Muitos outros candidatos populistas entre a nova colheita de senadores e senadores em espera do Partido Republicano já sucumbiram à pressão dos velhos poderes estabelecidos do Partido Republicano para apoiar a guerra. (inutilidades novamente).

No seu nível representativo superior o partido Republicano está dividido sobre a Ucrânia, mas a base popular é tradicionalmente céptica em relação às guerras estrangeiras. Com este apoio político, Trump está a empurrar o Partido Republicano para se opôr à escalada na Ucrânia. Ross Douthat no NY Times confirma que o apoio a Vance se liga mais estreitamente às fontes da popularidade de Trump em 2016, ao minar o sentimento anti-guerra entre os deploráveis, cujo foco está mais no cuidado com o bem-estar do seu próprio país.

Pouco depois do apoio, Trump emitiu uma declaração:

“Não faz sentido que a Rússia e a Ucrânia não estejam sentadas e a elaborar algum tipo de acordo. Se não o fizerem em breve, nada mais restará senão morte, destruição e carnificina. Esta é uma guerra que nunca deveria ter acontecido, mas aconteceu. A solução nunca poderá ser tão boa como teria sido antes do início das hostilidades, mas existe uma solução, e deve ser resolvida agora – e não mais tarde – quando todos estarão MORTOS!”, disse Trump.

Trump está efectivamente a separar com uma cunha a possível linha de fratura chave para as próximas eleições (mesmo que alguns apaniguados do Partido Republicano – muitos dos quais são financiados pelo Complexo Industrial Militar (MIC) – favoreçam um envolvimento militar mais robusto).

Trump também, tem sempre um instinto para a jugular de um adversário: Biden pode sentir-se muito atraído pelo argumento da escalada, mas é conhecido por ser sensível à ideia de que os sacos de cadáveres que regressem aos EUA antes de Novembro se convertam no seu legado. Daí o exagero de Trump que, mais cedo ou mais tarde, todos na Ucrânia “estarão MORTOS!”

Mais uma vez, o receio entre os Democratas com conhecimentos militares é que o transporte aéreo de armas ocidentais para as fronteiras da Ucrânia não mude o curso da guerra, e que a Rússia prevaleça, mesmo que a NATO se empenhe. Ou, por outras palavras, o “impensável” irá ocorrer: O Ocidente perderá para a Rússia. Argumentam que a Equipa Biden tem pouca escolha: é melhor apostar na escalada do que arriscar perder tudo com um desastre na Ucrânia (particularmente depois do Afeganistão).

Evitar a escalada representa um tal desafio à psique missionária americana de liderança global que o impulso a favor da escalada pode não ser ultrapassado apenas através da cautela inata de Biden. O Washington Post já está a relatar que “a Administração Biden está a encolher os ombros ante os novos avisos russos contra o fornecimento às forças ucranianas de armas mais avançadas e novo treino – no que parece ser um risco calculado de que Moscovo não escale a guerra”.

As elites da UE, pelo contrário, não estão apenas persuadidas (não contando com a Hungria e uma facção na Alemanha) pela lógica da escalada, estão francamente intoxicadas por ela. Na Conferência de Munique, em Fevereiro, foi como se os líderes da UE tivessem a intenção de se sobreporem uns aos outros no seu entusiasmo pela guerra: Josep Borrell reconfirmou o seu compromisso com uma solução militar na Ucrânia: “Sim, normalmente as guerras foram ganhas ou perdidas no campo de batalha”, disse ele ao chegar para uma reunião dos ministros dos negócios estrangeiros da UE no Luxemburgo, quando lhe foi pedido para comentar a sua declaração anterior de que “esta guerra será ganha no campo de batalha”.

A sua euforia está centrada na crença de que a UE – pela primeira vez – está a exercer o seu poder económico de uma forma globalmente significativa, e, ao mesmo tempo, permitindo e armando uma guerra por procuração contra a Rússia (imaginando a UE como um verdadeiro império carolíngio, ganhando de facto no campo de batalha!).

A euforia das elites da UE – tão completamente desligada das identidades nacionais e dos interesses locais, e fiéis a uma visão cosmopolita em que homens e mulheres de importância se relacionam sem cessar em rede entre si e se gabam de terem a aprovação dos seus pares – está a abrir uma profunda polarização dentro das suas próprias sociedades.

O mal-estar surge entre aqueles que não consideram o patriotismo, ou um cepticismo em relação à actual russofobia, como necessariamente de esquerda. Preocupa-os que a perceção limitada das elites da UE, que defendem sanções contra a Rússia e o envolvimento da NATO com uma potência nuclear, tragam uma catástrofe para a Europa.

As Euro-élites estão numa cruzada – demasiado investidos na carga emocional e euforia na causa da Ucrânia para terem até mesmo considerado um Plano B.

E mesmo que um Plano ‘B’ fosse considerado, a UE tem menos marcha-atrás que os EUA. A mentalidade de Bruxelas está estabelecida em betão. Estruturalmente, a UE é incapaz de se auto-reformar, ou de mudar radicalmente de rumo e a Europa em geral carece agora dos “utensílios” através dos quais uma mudança política decisiva pode ser efectuada.

Preparem-se e agarrem-se aos vossos chapéus!

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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