A GALIZA COMO TAREFA – toalhas – Ernesto V. Souza

Na casa dos avós e depois na materna as toalhas de mesa de diário eram de borracha. Dessas de linóleo impresso que se compram por metros, e mais que decorativas têm a função de preservar as mesas. Mas nos dias de festa eram luxuriosas, coloridas, a jogo com alguma das baixelas e louças mais antigas e solenes, variando em formas e tamanho em função do número de convidados.

A partir de um número de familiares a coisa exigia organização, o uso da sala de jantar, aparato de móveis movimentados a outros quartos, tabuleiros, cadeiras variadas, algumas dobráveis, e uma agitação dramática no reconto e intendência delas, dos copos, das peças de louça, travessas, malgas, garfos, colheres, colherinhas e facas, em combinações e permutações possíveis para lograr um efeito de simetria. Pois nunca era possível, nas grandes ocasiões, por falta de uma ou outra peça reunir todas de uma mesma origem. O que se agravava com os anos e o aumento de comensais.

As toalhas de mesa na família materna eram variadas. Não poucas herdadas, feitas e decoradas a mão na mocidade das mulheres ou botim de enxovais passados, outras foram compradas em lojas já desaparecidas e parte saudosa da história local. Havia as que só apareciam em momentos especiais. Mas todas tinham a sua história, que nalgum momento era referida. Alguma podia se ler em nódoas permanentes, que nos falavam de momentos, vinhos ou molhos derramados em descuidos felizes ou convocavam com os anos os ausentes: os avós, os padrinhos, as velhas tias, os tios, os cunhados.

Havia também outras toalhas de mesa, digamos suplentes. Toalhas lindas e panos de mesa, com cores e desenhos típicos de Portugal, sem faltarem galos de Barcelos. Essas, como em muitas casas galegas, vieram do Sul, em diferentes momentos. Nas viagens dos avós ou os tios, em tempos de Franco e Salazar; nos anos 80 e nos 90. Afinal sempre houvera um fluxo de toalhas, panos, café, músicas, anedotas e histórias.

Acho que com elas entrou a Lusofonia na minha vida. De facto, lembro que os primeiros livros escritos em português que ganhei, vieram entre toalhas coloridas e café, na mala de uma das minhas tias que ia com frequência de excursão a Portugal. “-E Ernesto, já que tu muito lês, comprei estes, recomendou-mos um livreiro em Chaves”.

Ainda tenho: “Andam faunos pelos bosques” de Aquilino Ribeiro e “Levantado do Chão” de Saramago.

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