Espuma dos dias – Sobre o futuro do Sistema Monetário Internacional: uma verdadeira incógnita — Texto 10. O colapso da Europa. Por Charles Gave

 

Nota de editor:

Com a atual guerra na Ucrânia e, em particular, com as sanções económicas e financeiras sobre a Rússia os comentaristas e analistas têm-se debruçado sobre as eventuais consequências de tais medidas sobre o estatuto do dólar enquanto moeda de reserva mundial e de moeda preferencial nas trocas internacionais. A propósito deste tema organizámos uma série de 13 textos, “Sobre o futuro do Sistema Monetário Internacional: uma verdadeira incógnita”. Publicamos hoje o décimo texto – “O colapso da Europa de Charles Gave..

Como resulta da leitura dos textos desta série, o futuro do sistema monetário e financeiro internacional é um tema sobre o qual ninguém é capaz de dizer de seguro seja o que for. O resultado final da atual guerra na Ucrânia, que não se sabe quando terminará, nem como terminará, certamente influenciará a evolução do sistema monetário internacional e o papel do dólar no sistema, mas tão importante quanto a guerra em curso e a forma como terminará é igualmente saber qualquer será o comportamento dos beligerantes de peso, os EUA e a URSS no pós guerra. Os exemplos históricos assustam.

Neste contexto, perspetivar o futuro face ao enorme nevoeiro que se tem pela nossa frente é difícil. Disto mesmo damos conta pelos textos que publicamos onde se torna visível que o processo é influenciado por múltiplos fatores, nomeadamente decisões impossíveis de prever, o que tornam as previsões naquilo que verdadeiramente são: previsões.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 m de leitura

Texto 10. O colapso da Europa

 Por Charles Gave

Publicado por  em 23 de Maio de 2022 (original aqui)

 

Há três meses atrás, a Rússia invadiu a Ucrânia e tudo foi dito sobre as origens do conflito e as responsabilidades de todos no seu deflagrar.

Mas o que tem sido pouco analisado é a resposta ao conflito pelas próprias autoridades europeias (Bruxelas), mas também por certos países como a França e a Alemanha.

São estas respostas que vou analisar, a fim de tirar a conclusão de que os efeitos desta guerra serão graves, mas muito menos graves do que as consequências das decisões imbecis que foram tomadas pelas nossas autoridades por ocasião deste conflito.

Por exemplo.

  1. O Ministro da Economia francês (sim, temos um), anuncia com uma bela abanadela de queixo que “vamos provocar o rápido colapso económico da Rússia”, o “nós” significando provavelmente os serviços de Bercy que, tendo lixado a economia francesa nas últimas décadas, receberam a ordem de atacar agora a economia russa e de a derrubar o mais rapidamente possível. A menos que este “nós” signifique o exército europeu a entrar em guerra contra a Rússia, unido como um exército sob o comando de …(estou à procura, mas o comando do exército europeu ainda não está especificado, uma vez que não existe um exército europeu, pelo menos que eu saiba). Ou foi um “nós” majestático, Bruno Lemaire tomando-se por Luís XIV e falando de si mesmo na primeira pessoa do plural?
  2. O Presidente francês, para confirmar as declarações do seu Ministro da Economia, informa-nos que a economia russa está “em estado de suspensão de pagamentos” e que entrará em colapso muito rapidamente, uma vez que a Europa iria parar todas as compras de matérias-primas (gás, petróleo, carvão, metais, etc.) à Rússia e que a Rússia deixaria de ter acesso ao sistema de pagamentos internacionais Swift. E o mesmo presidente anunciou que seriam tomadas medidas fortes contra a Rússia e que estas já tinham começado a ser aplicadas, uma vez que as reservas cambiais russas em euros ou dólares foram confiscadas tanto no BCE como no banco central dos EUA. Segundo a Secretária do Tesouro dos EUA, Yellen, antiga Presidente da Reserva Federal, estas confiscações eram perfeitamente ilegais, pois só podiam ter lugar após uma autorização das Nações Unidas. Ainda estamos à espera…
  3. E as medidas para proibir todo o comércio com a Rússia foram tomadas na sequência disto e ratificadas em acordos solenes feitos em Bruxelas, o centro da democracia mundial, onde apenas reina a lei e a busca do bem comum.

Resultados.

O rublo, na altura em que o Presidente francês e o seu ministro diziam que a economia russa ia entrar em colapso, estava a cair acentuadamente contra o euro, tendo subido de 75r/$ para 150r/$, e os jornalistas franceses descreviam um Putin a vaguear num palácio solitário e gelado, como dizia o poeta, sem dúvida referindo-se a outra pessoa…

Infelizmente, a realidade rapidamente deitou por terra todas estas belas expectativas.

Em primeiro lugar, muitos países, mesmo na Europa, não podem simplesmente passar sem comprar gás, petróleo ou carvão à Rússia sem que as suas economias entrem imediatamente em colapso. Sem energia, não há economia, uma vez que a economia é apenas energia transformada. E não estou a falar da Grécia ou de Portugal, mas da Alemanha, Itália, Espanha, Hungria… E estes países não podem comprá-la noutro lugar porque não há nenhuma disponível, já que ninguém investiu na pesquisa de combustíveis fósseis durante os últimos quinze anos, exceto a Rússia. E assim, foram introduzidas derrogações “temporárias” à compra de produtos russos, com estes países a jurarem que, antes de Agosto – tal como fé em dogma – deixariam de comprar gás, petróleo ou carvão da Rússia, prometeram, juraram.

Mas então, golpe de teatro: o Presidente russo exigiu que os compradores pagassem em rublos, uma vez que foi proibido de utilizar dólares e euros. É difícil perceber porque é que ele venderia as suas matérias-primas recebendo moedas que não está autorizado a utilizar.

Furor geral na Europa que recusa “esta rutura unilateral de contrato” completamente atentatória do direito internacional, o que não impede todas as empresas que importam gás ou petróleo de pagarem as suas compras em rublos, como os russos exigiam, caso contrário as economias da Alemanha, Hungria, Áustria, etc. já estariam paralisadas. De facto, todas as grandes empresas na Europa parecem não querer saber das recomendações, das ordens ou das proibições da Sra. Von der Leyen. Mas de acordo com algumas informações que não pude verificar, aqueles que mais compram em rublos, e de longe, são os italianos e ninguém compreende muito bem porquê. Mas o rumor que corre é que estas compras são feitas em nome de clientes alemães de empresas comerciais italianas. De certa forma, os alemães que não querem comprar aos russos para não irritar o Partido dos Verdes que faz parte da coligação governante do outro lado do Reno não vêem qualquer problema em comprar aos italianos ou aos suíços, o que demonstra um forte sentimento da solidariedade que todos os europeus sentem para com os ucranianos.

Resumindo: a ideia de deixar de comprar matérias-primas energéticas à Rússia para a pôr de joelhos em quinze dias falhou de uma forma grotesca e humilhante, tanto para a Europa como para cada uma das nações que dela fazem parte. De facto, a Europa institucional geriu esta crise tão mal como a crise da Covid, mas o pior é que ainda não acabou: não só teremos de comprar os nossos hidrocarbonetos em rublos, mas também teremos de comprar, ainda com rublos, as matérias-primas alimentares e os fertilizantes para que possamos alimentar as nossas populações, e de agora até ao fim do ano.

Desde o final de 2019, o preço do petróleo aumentou 81%, mas o preço do trigo aumentou 2,6 vezes. E as colheitas estão com mau aspeto na Índia, EUA, Canadá e talvez em França (seca, inundações, falta de fertilizantes)…

E é aqui que devemos recordar que a Rússia e a Ucrânia asseguram cerca de 40% das exportações mundiais de cereais (3/4 Rússia, 1/4 Ucrânia) e que só a Rússia poderá assegurar estes contratos de exportação, uma vez que todos os portos ucranianos estão fechados.

E como sei que 100% das importações de trigo egípcio ou tunisino vieram da Ucrânia ou da Rússia, penso que a máquina migratória do Norte de África vai recomeçar e que o Mediterrâneo ficará congestionado este Outono.

Assim, parece-me bastante óbvio que os russos estarão prontos para exportar para países na Europa ou noutros locais, desde que, claro, o pagamento seja feito novamente em rublos.

Os russos não terão problemas em emprestar rublos aos egípcios ou tunisinos, em troca de alguns serviços menores prestados na Líbia, mas certamente não aos europeus.

E o que está a emergir, graças à incompetência inenarrável da Europa institucional, é um mundo em que precisaremos de rublos para comprar as matérias-primas de que precisaremos no futuro, e estamos impedidos por todas as vias de adquirir esses rublos.

Por exemplo, já não podemos vender carros e aviões ou máquinas-ferramentas aos russos, tal como não posso vender-lhes a minha casa em Avignon, e os russos este ano vão passar as suas férias na Turquia e não em Saint Tropez.

A questão essencial é: de onde virão os rublos para comprar a nossa energia, os nossos alimentos, os nossos fertilizantes e os nossos cereais?

A única resposta é que teremos de entregar a totalidade ou parte das nossas reservas de ouro e que o rublo não cessou de continuar a subir enquanto o euro não cessou de continuar a descer e com ele o nosso nível de vida.

O que me leva à minha conclusão.

Medvedev, numa das suas últimas comunicações oficiais, disse que as autoridades europeias tinham dado mostras de um notável “cretinismo institucional” durante todo o período, o que é surpreendente numa comunicação oficial, mas não me surpreende, tanto que estou de acordo.

Eu digo que esta crise era perfeitamente evitável, mas que o pessoal europeu na gestão dos problemas foi de uma nulidade comparável à do pessoal político francês em 1939, e que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

Uma tal catástrofe diplomática, económica e política deveria conduzir a sanções, a Sra. Von der Leyen e os seus dois acólitos deveriam ser despedidos, a comissão deveria ser reconduzida ao que nunca deveria ter deixado de ser, um simples secretariado, enquanto o BCE deveria deixar de existir juntamente com o Euro, o Tribunal de Justiça e o Tribunal dos Direitos Humanos, o que permitiria que uma nova geração de representantes nacionais eleitos chegasse ao poder em toda a Europa.

Isto salvaria o que ainda pode ser salvo da construção europeia, tendo a Torre de Babel sido uma vez mais destruída em devido tempo.

Caso contrário, a Alemanha e outros povos europeus, em particular os italianos (que votarão em breve), os húngaros e os gregos, e quem sabe, os franceses, todos vestidos de amarelo, quererão deixar a construção europeia como o fizeram os britânicos, para poderem voltar a ser nações “soberanas”, cujos representantes eleitos terão a tarefa de defender os povos que os elegeram e não os interesses da NATO.

Quanto ao Presidente recentemente eleito pelos franceses, podemos esperar que deixe de nos falar da Soberania Europeia, que nunca existiu, e que, tendo falhado em todas as áreas, faça o que qualquer homem de honra faria neste caso, demitindo-se e desaparecendo.

Mas no que diz respeito a este último ponto, tenho dúvidas.

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O autor: Charles Gave [1943- ] é economista e financeiro. Deu-se a conhecer ao grande público publicando um ensaio panfletário em 2001 “Des Lions menés par des ânes” (Edições Robert Laffont) onde denunciou o Euro e o seu funcionamento monetário. O seu último livro “Sire, surtout ne faites rien” (Edições Jean-Cyrille Godefroy, 2016) reúne as melhores colunas do IDL escritas nos últimos anos. É fundador e presidente da Gavekal Research (www.gavekal.com).

 

 

 

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