O modelo neoliberal em crise profunda- o exemplo inglês — Texto 1. Evento Orçamental: A Nova Era do Chanceler Kwarteng. Por Victor Hill

 

Introdução

Caros argonautas

Li o artigo que agora é editado. Fiquei pasmado com a descrição apresentada por Victor Hill quanto ao programa de Liz Truss. Pessoalmente sabia que ela intelectualmente era uma bronca. Nunca percebi sequer porque é que ganhou. Uma pessoa minha amiga com muitos anos passados na City deu-me uma explicação óbvia: porque ela é branca e o concorrente era descendente… de indianos. Os ingleses são assim explicou-me.

Mas o artigo de Victor Hill deixou-me espantado porque era sobretudo uma descrição do que Truss quer fazer. Ao lê-lo vê-se claramente que a Inglaterra se está a enfiar num enorme buraco mas se eu tenho razão então o artigo devia ser mais acutilante, o que não é: as farpas enfiadas, se é que são fartas, são subtis, exceto uma outra expressão mais contundente mas que não é desenvolvida.

Tendo em conta o que sei de Victor Hill fiquei confuso e questionei-me se tinha traduzido mal o texto, enfim, se o tinha mal interpretado.

Pedi a um amigo meu que me lesse o texto e o pedido foi o seguinte:

Victor Hill está a gozar com o programa de Truss ou está de acordo com ela?

Se está a gozar, está a dizer que a Inglaterra entra num buraco ainda maior e irá rebentar um dia destes – não diz nada disto. Se não está a gozar não percebo como é que um dos analistas conservadores mais inteligentes que conheço vê no programa de Truss a solução da crise da Inglaterra economicamente falida mesmo que financeiramente ainda não o esteja.

Num artigo deste verão (The UK’s Attitude to Work) ele mostrava que a Inglaterra era um país socialmente em decomposição”,

Resposta do meu amigo:

Se não está a gozar, pelo menos, mostra ceticismo quanto à coerência e a eficácia das medidas que o governo da Truss prevê tomar.

Nota que o FMI entrou em pânico com a ideia de o governo de Inglaterra baixar os impostos e aumentar a emissão de dívida quando o banco central começou a comprá-la em grandes quantidades. Vê as consequências que isto pode ter sobre a taxa de câmbio da libra, e o efeito de contágio.

Os loucos estão no poder. É o que eu acho.” Fim de citação.

Por sugestão deste meu amigo coloquei no texto alguns leves comentários expondo as minhas dúvidas ou críticas e mesmo assim fiquei na dúvida. Esperei outra reação deste meu amigo de longa e que dele não veio, paciência. Não veio nenhuma reação do meu amigo, veio dos mercados e que reação! Uma reação tão violenta dos mercados contra o programa de Truss que o BoE teve que reagir como reagiu Draghi com o “fazer tudo o que for necessário”.

Posto isto deixei de esperar por uma resposta do meu amigo para publicar o texto de Victor Hill. Aqui o temos. E a este seguir-se-ão outros que nos mostram que estamos sempre à beira da catástrofe económica e social e numa situação de epidemia e de guerra. E então com dirigentes deste calibre, e deste nível – eles abundam por essa Europa fora -, o caminho para a catástrofe torna-se muito maís fácil.

Júlio Mota

4 de Outubro de 2022

 

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

20 m de leitura

 

Texto 1. Evento Orçamental: A Nova Era do Chanceler Kwarteng

 Por Victor Hill

Publicado por  em 23 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

 

“Uma nova abordagem para uma nova era”

Numa curiosa reviravolta do destino em que a Senhora Fortuna se aprimorou, temos visto ou ouvido pouco sobre a Primeira-Ministra e o seu ministro das Finanças desde que entraram em Downing Street (Números 10 e 11 respetivamente) há mais de duas semanas. Isto é, claro, porque uma monarca incontestável que reinou durante mais de 70 anos morreu três dias depois de ter nomeado Liz Truss como Primeira-ministra. A nação tem estado de luto e distraída até ao início desta semana com as exéquias de Sua Majestade falecida. Não surpreende, então, que um especialista da televisão australiana se tenha visto em dificuldades para identificar a mulher que fez a leitura do Evangelho (João 14:1-9) no funeral da Rainha na Abadia de Westminster, na segunda-feira (19 de Setembro).

Uma coisa que aprendemos durante o período de luto nacional foi que o primeiro ato do sr. Kwarteng foi despedir o supremo mandarim do Tesouro, Sir Tom Scholar. Isto foi considerado, como seria de esperar, um comportamento altamente impróprio pelos mandarins reformados Lord Butler (que foi secretário de gabinete de Margaret Thatcher, Sir John Major e Sir Tony Blair) e Lord O’Donnell (secretário de gabinete de Blair, Gordon Brown e David Cameron). O rumor diz-nos que o sucessor de Sir Tom é Antonia Romeo, que serviu como secretária permanente no Departamento de Comércio Internacional quando Liz Truss era secretária de Comércio.

A demissão de Sir Tom reflete a visão global de Truss-Kwarteng de que o Tesouro se tornou demasiado concentrado na redistribuição e gestão de crises e demasiado pouco preocupado em fomentar o crescimento; e que é excessivamente cauteloso na política orçamental. Presidiu a “um círculo vicioso de estagnação”, considerou o chanceler do Tesouro Kwarteng. Muitos conservadores que apoiaram Liz Truss para PM pensam também que Sir Tom e os seus subalternos estavam por detrás do “Project Fear (“Projeto Medo”) que tornou o processo de negociação de Brexit muito mais doloroso.

Comentário

O governo tem estado demasiado concentrado na gestão das crises. Será que Liz Truss entende que a gestão das crises deve ser feita por aqueles que as geram- o mercado?

 

Sob o governo Johnson, foi o Tesouro que bloqueou as iniciativas que visavam tirar proveito da saída da Grã-Bretanha da UE. A acusação é que o Tesouro, como grande parte da função pública, é “declinista” e portanto pró-UE porque acredita que nos devemos agarrar muito aos nossos parceiros europeus (apesar de eles também estarem evidentemente em declínio relativo). E as perdas massivas a favor dos autores de fraudes criminosas ao abrigo dos vários esquemas de apoio da Covid não podem ser inteiramente imputadas ao Sr. Sunak. Se a “Visão do Tesouro” for essencialmente conservadora (com um “c” pequeno), a visão do mundo de Truss-Kwarteng promete ser radical. Envolve uma “democracia empresarial e acionista”, na qual o código fiscal é muito simplificado. O governo tem agora um objetivo de crescimento de 2,5 por cento. A questão é saber como é que isso pode ser alcançado.

Comentário

1.     As enormes fraudes não se devem apenas à gestão das finanças ou sejam devem-se também aos operadores dos mercados que agora se querem desregular ainda mais.

2.    “a visão do mundo de Truss-Kwarteng promete ser radical. Envolve uma “democracia empresarial e acionista”, na qual o código fiscal é muito simplificado”.

3.    Pretende-se pois dar a máxima força aos mercados, sobretudo financeiros, e impor a mínima força ao Estado.

Conclusão: não se aprendeu nada depois de 2008!

 

O facto a salientar, no entanto, é que a inflação está a perturbar as finanças públicas. O Instituto de Estudos Fiscais (IFS) calcula que a Revisão das Despesas do passado mês de Novembro irá requerer um suplemento de 44 mil milhões de libras esterlinas nos próximos três anos para cumprir os seus compromissos de despesa. Cerca de metade disso está relacionado com o orçamento da saúde e da assistência social. 44 mil milhões de libras é mais do que o custo do cancelamento do aumento de Johnson-Sunak nas contribuições para os seguros nacionais (NIC) – que o Sr. Kwarteng confirmou ontem, irá entrar em vigor a 6 de Novembro.

 

Comentário

Com a inflação de agora terá que haver um aumento da despesa pública para encargos já assumidos de 44 mil milhões de libras. Adicionalmente refira-se que Boris Johnson planeava aumentar as contribuições de patrões e empregados para a Segurança Social (NIC). Com Truss isso é suspenso e portanto o buraco financeiro agravado nas contas públicas por estas duas rúbricas, aumento da despesa e redução das receitas, é enorme. Conclusão: o  Estado precisa de mais dinheiro.

 

Na quinta-feira (22 de Setembro), o Banco de Inglaterra aumentou a taxa de base em 50 pontos base para 2,25 por cento numa reunião do Comité de Política Monetária (MPC) que tinha sido adiada por uma semana devido ao período de luto nacional. Isto foi feito na sequência de uma subida de 75 pontos de base pelo Fed na quarta-feira. A libra aumentou ligeiramente – embora esta manhã tenha baixado ainda mais para 1,12 dólares.

O pacote, já anunciado, para limitar as contas de energia das famílias – e agora das empresas e instituições como as escolas – a £2.500 poderá custar até £200 mil milhões em dois anos. O Sr. Kwarteng esta manhã colocou um valor de £60 mil milhões para os primeiros seis meses. O custo final dependerá da rapidez com que os preços do gás comecem a baixar após o Inverno europeu. A Garantia do Preço da Energia é efetivamente um subsídio governamental para todos os lares, independentemente da necessidade. Poucos incentivos têm sido oferecidos para induzir as famílias a baixar o seu consumo energético. E como serão financiados os 100 mil milhões ou mais de libras esterlinas este ano? Ao que parece, através da contração de novos empréstimos.

O desafio será agravado pela perspetiva de que o Banco de Inglaterra poderá não ser capaz de continuar o seu papel até agora reconhecido como “árvore mágica do dinheiro” oficial para o Estado. Na primeira semana de Andrew Bailey como Governador do Banco, em Março de 2020, o Banco de Inglaterra injetou 200 mil milhões de libras esterlinas de dinheiro novo na economia. Foi acusado de ter financiado o Estado britânico em dificuldade durante a epidemia Covid – o que não está dentro do mandato do Banco. Mas agora, em vez de comprar obrigações com dinheiro inventado e de as depositar no balanço do banco central, o Banco está a vendê-las. Uma nova era, de facto: a flexibilização quantitativa deu lugar à política monetária restritiva.

 

Comentário

O Banco de Inglaterra para combater a inflação quer reduzir a massa monetária em circulação. Vende títulos da dívida pública em carteira resultantes da política monetária expansiva anteriormente praticada. As taxas sobem. Independentemente de tudo o resto, os encargos com a dívida, o chamado serviço da dívida, aumenta a necessidade de receitas pelo parte do Estado. Conclusão: o Estado precisa de mais dinheiro.

Procurar aplicar uma política monetária restritiva num momento destes, com a recessão a bater fortemente à porta, não faz lembrar a Troika, não faz lembrar Passos Coelho e a sua tese que empobrecer é o caminho para enriquecermos? Cerca de 12 anos depois ninguém quer ou não é capaz de aprender que em crise as políticas restritivas só alargam a crise.

 

Se Truss-Kwarteng podem pôr um freio à inflação subsidiando os custos de energia das famílias e das pequenas empresas, como fizeram os franceses e outros, então os mercados financeiros podem deixar de considerar a Grã-Bretanha como estando em profundas dificuldades – o que não é o caso atual. (A verdadeira razão pela qual a libra está a cair na minha opinião é que os homens do dinheiro pensam que os Conservadores vão perder as próximas eleições). Mas emitir nova dívida pública num momento em que o banco central também está a vender o seu stock existente de obrigações governamentais e empresariais implica que os rendimentos das obrigações irão aumentar ainda tanto quanto a procura exceder a oferta. O rendimento dos títulos a 10 anos aumentou para mais de 3,5 por cento esta manhã. Isto significa que os custos de empréstimo irão aumentar ainda mais – e isso está destinado a tornar-se um dos principais desafios para o governo de Truss.

 

Comentário

O Estado precisa de lançar mais dívida pública no mercado mesmo que seja só para subsidiar famílias e pequenas e médias empresas no que se refere ao custo da energia. Serão maís títulos no mercado à procura de colocação e fazer isto na mesma altura em que o Banco Central da Inglaterra está a fazer o mesmo reforçará a tendência à alta das taxas de juro, aumentando ainda mais o peso do serviço da dívida já acima referido.

 

Apesar do pessimismo ambiente, 30 anos depois da “Black Wednesday” (16 de Setembro de 1992), quando a libra esterlina foi ejetada do Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC) (Europeu), o Barclays pensa que falar de uma crise cambial e da balança de pagamentos ao estilo dos anos 70 é “alarmismo”. O Barclays está a projetar que a libra acabará o ano em torno do nível de $1,22. Dito isto, o défice da balança corrente (ou seja, a diferença entre exportações e importações) atingiu o nível recorde de 8,3% do PIB no primeiro trimestre deste ano. Isto é uma pequena parte devido a “fricções” comerciais adicionais resultantes do regime pós-Brexit, e uma outra grande parte devido ao custo crescente dos hidrocarbonetos importados.

A inflação pode ter atingido um pico global, mas os preços dos alimentos e bebidas subiram mais de 13% em Agosto em relação ao ano anterior. Alguns produtos lácteos subiram 40% e a carne 20% – não admira que os bancos alimentares estejam muito ocupados. A taxa de inflação global caiu graças a um abrandamento nos preços da gasolina. As vendas a retalho caíram 1,6 por cento em Agosto à medida que os compradores apertaram o cinto. Os únicos sectores que beneficiaram de um aumento das vendas foram os quiosques de jornais e as lojas de bebidas que aumentaram 6,3 por cento – sugerindo que as pessoas, se não andam a afogar as suas mágoas, pelo menos não estão a cortar nas bebidas, mesmo quando estas se tornam mais caras. Boas notícias esta manhã, uma vez que os aumentos planeados das taxas sobre as bebidas alcoólicas serão cancelados.

 

Comentário

Tudo anuncia contenção na despesa o mesmo é dizer redução também ao nível do emprego e somos recolocados com o drama da estagflação dos anos 70 e 80.

 

Aumentar as despesas – Defesa

Durante a sua campanha para a liderança no Partido Conservador, Liz Truss expressou o desejo de elevar as despesas de defesa de 2,2% do PIB para 3% do PIB. O Royal United Services Institute (RUSI) estima que isso exigiria uma despesa adicional de 157 mil milhões de libras esterlinas em defesa durante os próximos oito anos.

 

Comentário

De novo o Estado a precisar de dinheiro e agora para armas. Despesa improdutiva por definição. Onde ir buscar as receitas? No contexto atual apenas ao mercado. Teremos mais títulos de dívida pública lançados no mercado, mais subida das taxas, mais subida do serviço da dívida, mais impactos negativos da subida das taxas de juro sobre o consumo e o investimento, mais desemprego, mais recessão.

 

Isso viria juntar-se ao enorme pacote de apoio energético. Mas isto deve ser visto no contexto da história. Em 1955-56, nos primeiros anos do reinado da recém falecida Sua Majestade, 21% das despesas governamentais foram dedicadas à defesa e apenas 8% aos cuidados de saúde. Nos últimos anos tem sido de 18% nos cuidados de saúde e 5% na defesa.

 

Redução de impostos – imposto sobre as sociedades, imposto de selo [1] e imposto sobre o rendimento

Esta manhã, Kwasi Kwarteng cancelou a proposta de aumento do imposto sobre as sociedades planeada por Rishi Sunak de 19 para 25 por cento. A Grã-Bretanha continuará a ter o nível mais baixo de imposto sobre as sociedades no G-20. A nova modelização da Fundação Fiscal com sede em Washington e do Centro de Estudos Políticos (CPS) mostra que a longo prazo isto poderia aumentar o PIB em 1,2 por cento, evitando o impacto no PIB que de outra forma teria tido lugar.

A modelização mostra que se o governo fosse mais longe, e incentivasse o investimento empresarial, poderia aumentar o crescimento do PIB a longo prazo. Os dois grupos de reflexão modelaram o impacto de vários cenários propostos pelo Tesouro com Sunak, bem como os custos, e consideraram outros cenários políticos que alargam o apoio ao capital para edifícios, bem como para instalações e maquinaria. Como já escrevi nestas páginas, a taxa global do imposto sobre as sociedades é menos importante do que o regime prevalecente das deduções para as amortizações – ou seja, aqueles tipos de despesa de capital que podem ser deduzidas do imposto.

 

Comentário

Redução de impostos para as empresas, redução das receitas do Estado e isto quando as despesas são maiores e as receitas menores. Logo défice e dívida a aumentar!

Vêm-me dizer que o crescimento esperado com a redução de impostos para as empresas compensa. Bem, há quem acredite nisso e neste contexto, creio mesmo que nem Victor Hill acredita, mesmo que não pareça explícito. Mais uma vez temos uma versão adocicada do trickle down dos anos 30.

 

De acordo com a Fundação Fiscal, entre 1995 e 2015, a Grã-Bretanha teve um dos níveis mais baixos de investimento empresarial na OCDE, sugerindo que o sistema fiscal britânico tem sido hostil ao investimento. O Índice de Competitividade Fiscal Internacional 2021 da Fundação Fiscal classificou o Reino Unido em 33 lugar dos 37 países da OCDE quanto a “recuperação de custos de capital” – uma medida da forma como o sistema fiscal aplicado às empresas trata o investimento. O Reino Unido também está a ficar para trás em relação aos seus vizinhos europeus. Em 2021, a formação bruta de capital fixo no Reino Unido era de apenas 17,1% do PIB, em comparação com 22% na Alemanha e 24,4% em França.

As provisões temporárias de Rishi Sunak para “super dedução” expiram no próximo mês de Abril. Os dois grupos de reflexão citados têm, portanto, modelizado uma vasta gama de alternativas para substituir as “super-deduções”. A investigação mostra que quanto mais ambicioso e generoso for o governo em termos de investimento empresarial, maior será o benefício económico.

Os rumores de que Kwasi Kwarteng iria reduzir o imposto de selo foram confirmados esta manhã. Não será aplicado imposto de selo à compra de casas de valor inferior a £250.000 (em Inglaterra e na Irlanda do Norte- antes o limite era 125.000 libras). Muitos dirão que, dado que os preços das casas subiram cerca de 15% ao longo do último ano, o sector da habitação não precisa de nenhum tónico. Mas isto será uma boa notícia para as pessoas que estão a pensar mudar de casa, especialmente às pessoas que estão pela primeira vez a comprar casa que só pagarão imposto de selo em casas de valor superior a £425.000.

O imposto sobre o rendimento foi o coelho antecipado que saiu da cartola do mágico. A taxa mais elevada do imposto sobre o rendimento (atualmente 45 por cento) deverá ser eliminada e a taxa normal será reduzida de 20 pence na libra para 19 no próximo ano – algo que o ex-chanceler do Tesouro Sunak aspirava conseguir até ao final desta legislatura. Isto significa uma redução de impostos para 31 milhões de pessoas.

 

Comentário

Há mesmo um mágico no Tesouro britânico é o que nos diz Victor Hill. O Estado terá que forçar todas as barreiras para arranjar dinheiro no contexto desta crise e, no entanto, vai baixar o imposto sobre os rendimentos. Pura magia, é o que se infere do texto de Victor Hill.

 

Que despesas podem ser cortadas?

Cortar o orçamento do SNS sem uma grande reorganização seria politicamente calamitoso. Os aumentos das despesas destinadas à assistência social serão mantidos. Com enormes atrasos nos tribunais e com os advogados em greves esporádicas, é pouco provável que o governo de Sua Majestade possa reduzir as despesas do Ministério da Justiça. Os governos locais também resistirão a novos cortes, uma vez que já financiam grande parte do orçamento da assistência social que se está a agravar. Os transportes poderão ser espremidos – a construção de mais estradas numa era de transição para o carbono zero líquido parece-me questionável. Mas será necessário fazer alguma coisa.

Será delicado cortar nas ajudas sociais durante num período de crise do custo de vida. São os reformados que vão ter de levar com a fatura. A chamada “fechadura tripla”[2] será provavelmente desmantelada – algo a que o Sr. Sunak se opôs.

 

Comentário

Grande passe de mágica, este agora. Infere Victor Hill, então. que “São os reformados que vão ter de levar com a fatura. A chamada “fechadura tripla” será provavelmente desmantelada” Desmantelar a lei que protege os reformados, é o que se considera necessário na Inglaterra. Curiosamente há dias ouvi Vieira da Silva a dizer o equivalente e com voz seráfica: não se altere a lei que regula o aumento das pensões, não, suspenda-se esta lei, é isso que é necessário.

 

Desregulamentação: Fogueira dos quangos?

Fala-se que Truss-Kwarteng procurarão reduzir o enorme número de supervisores e agências reguladoras financiadas pelo Estado – aquilo a que os britânicos chamam “quangos” e os americanos chamam “paraestatais”.

Uma vez criada uma entidade dita quango, no entanto, ela gera um eco-sistema de clientes que têm um interesse declarado na sua continuação. E os quangos que são abolidos tendem a reaparecer sob novas formas noutros locais – considere como a desesperada Saúde Pública Inglaterra foi substituída pela UK Health Security Agency do Reino Unido e pelo Office for Health Improvement and Disparities. Ambas são, sem dúvida, entidades dignas e administradas por pessoas sérias – mas como é que devemos avaliar o seu sucesso?

Em suma, é muito mais fácil alargar as burocracias do que reduzi-las. É por isso que deve ser colocado um travão ao desejo de criar organismos reguladores “independentes” responsáveis perante o Estado mas não controlados pelo Estado – o que se começou a criar com Thatcher na década de 1980.

Na sua declaração desta manhã, Kwarteng também assinalou a abolição do limite máximo dos bónus dos banqueiros, norma limitadora esta que é inspirada na UE. Como Dan Hannan assinalou, Bruxelas sempre detestou o “capitalismo anglo-saxónico”: no entanto, só dois anos e meio depois de Brexit, é que os ministros estão a tentar descorticar as suas leis. Nós acumulámos muita legislação anti concorrencial sob a UE, incluindo Solvência II e MIFID II, a Diretiva dos Gestores de Fundos de Investimento Alternativos e assim por diante. Uma vez que a UE deixou claro que não irá oferecer “equivalência” às instituições financeiras britânicas, mesmo que o nosso regime regulamentar seja idêntico ao deles, não temos nada a perder.

 

Comentário

Mercados desregulados e banqueiros descondicionados para as suas remunerações: será que se quer repor o sistema tal como ele funcionou antes da crise dita de subprime, até 2008? Tudo parece indicar que sim.

Conclusão: não se aprendeu nada com as crises anteriores!

 

Kwarteng disse esta manhã que o nosso sistema de planeamento é “demasiado lento e fragmentado”. Uma nova lei será apresentada em breve para “desfazer a complexa manta de retalhos das restrições de planeamento”, particularmente no que diz respeito ao investimento em infraestruturas. Novos terrenos serão libertados para desenvolvimento. Novos empreendimentos residenciais e comerciais serão isentos do imposto de selo.

Outra iniciativa poderia ser a de baixar o rácio de pessoal das creches para reduzir o custo das creches.

Comentário

Cegados aqui, pasmei. Fiquei com muitas dúvidas se tinha percebido alguma coisa do texto, tendo em conta o respeito intelectual que tenho pelo conservador Victor Hill. Só pode estar a gozar, pensei eu. Perguntei a um colega meu de profissão e meu amigo se eu tinha razão e a sua resposta foi:

“Se não está a gozar, pelo menos, mostra ceticismo quanto à coerência e a eficácia das medidas que o governo da Truss prevê tomar.”

Pelo que tenho vindo a comentar claramente está a ironizar pois alguém com os pés na terra pode alguma argumentar que poupar no número de cuidadoras infantis por creche, pode ajudar a resolver de forma significativa um problema orçamental com a gravidade do caso inglês?  Alguém pensará que aumentar o rácio de crianças por cuidadora infantil servirá significativamente para melhorar o défice orçamental inglês?

E nos comentários fico-me por aqui, reconhecendo que, afinal, vivemos num mundo de magia onde o impossível é e então possível. Eu é que intelectualmente estou cego!

 

 

A corrida para o gás

Na quinta-feira (22 de Setembro), o governo de Truss anunciou que a moratória sobre o fracking em Inglaterra seria revogada. A National Grid pensa que a contribuição do fracking para o cabaz energético da Grã-Bretanha poderia igualar o petróleo do Mar do Norte até 2037 – mas é pouco provável que venha a entrar em vigor até 2026. O Reino Unido tem atualmente dois poços de gás de xisto prontos para a produção de gás, ambos a serem explorados pela Cuadrilla Resources. O explorador britânico de energia IGas disse em Março que poderia aquecer até 125.000 casas em Nottinghamshire com gás de xisto até ao final do ano, se a moratória fosse levantada.

Os ministros do novo governo estão a cortejar as grandes do petróleo e do gás num esforço para acelerar os projetos de exploração no Mar do Norte. Um grupo de trabalho governamental está em discussões com a Equinor da Noruega sobre um potencial investimento de cerca de 4,5 mil milhões de libras no campo de petróleo e gás da Rosebank, que fica a cerca de 80 milhas a nordeste das Ilhas Shetland. A Equinor tomou posse do Rosebank da Chevron em 2019. O campo de Cambo – cerca de 20 milhas a sudoeste de Rosebank – está também em jogo. A Ithaca Energy tem uma participação de 70% no Cambo, que poderia bombear até 180 milhões de barris de petróleo por ano. A Shell está comprometida com o campo de Jackdaw, que fica a 150 milhas a leste de Aberdeen.

A Sra. Truss precisará da boa vontade dos franceses para alcançar as ambições nucleares do Sr. Johnson. Recentemente, os meios de comunicação franceses noticiaram que a EDF (agora totalmente estatal) irá atrasar a entrega de Sizewell C em Sussex devido a perturbações extremas no sector francês da energia nuclear. Com um timing requintadamente deficiente, cerca de seis reatores nucleares franceses têm estado fora de serviço durante o Verão.

Na semana passada, o Secretário de Negócios Jacob Rees-Mogg disse que a crise energética tinha “exposto a necessidade de reforçar a segurança energética da Grã-Bretanha para bem da nação”. Desde que escrevo sobre este tema nestas páginas há vários anos – pode-me ser permitido um Aleluia?

***

A transição de uma monarca para o seu herdeiro tem sido feita sem problemas. O Rei Carlos deverá fazer a sua primeira visita de estado a França. Isso será significativo em muitos aspetos. Nós amamos os franceses, e – como já nos foi recordado – eles amam-nos. Estamos inextricavelmente entrelaçados.

A monarquia hereditária faz todo o sentido para mim. O rei Carlos é o 34º neto de Kenneth Mac Alpin, primeiro rei de Alba (Escócia); e é o 33º bisneto de Alfredo o Grande, rei dos anglo-saxões e, sem dúvida, o fundador da Inglaterra. Segundo alguns genealogistas, ele é o 41º bisneto do Santo Profeta, Maomé. Voto a favor da linhagem.

O luto não deve ser mantido por muito tempo. A vida prossegue com uma expectativa vibrante.

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Nota do tradutor.

Depois de ler atentamente o texto de Victor Hill quanto ao que está por detrás da sociedade empresarial e de acionistas desejada por Truss e outros, depois de eventualmente dar uma olhadela pelos meus comentários, pense no texto seguinte de Robert Reich e veja se está ou não de acordo com o que ele conclui, e o que conclui é que é tempo de agir contra este tipo de ditadura ou, se preferirem, contra este tipo de oligarquia.

Diz-nos Robert Reich:

“Na realidade, não há justificação para a extraordinária concentração de riqueza que hoje se verifica no topo da distribuição do rendimento Está a distorcer a nossa política, a manipular os nossos mercados, e a conceder poder sem precedentes a um punhado de pessoas.

A última vez que a América enfrentou algo comparável, foi no início do século XX. Em 1910, o antigo Presidente Theodore Roosevelt advertiu que “uma pequena classe de homens enormemente ricos e economicamente poderosos, cujo principal objetivo é manter e aumentar o seu poder” poderia destruir a democracia americana.

A resposta de Roosevelt foi a de tributar a riqueza. O imposto patrimonial foi decretado em 1916, e o imposto sobre ganhos de capital em 1922. Desde essa altura, ambos sofreram erosão. Como os ricos acumularam mais riqueza, acumularam também mais poder político – e usaram esse poder político para reduzir os seus impostos.

Anos mais tarde, Franklin D. Roosevelt viu o colapso de 1929 não só como uma crise financeira mas como uma ocasião para renegociar a relação entre capitalismo e democracia. Aceitando a renomeação em 1936, falou da necessidade de redimir a democracia americana do despotismo do poder económico concentrado.

“Através de novas utilizações de grandes empresas, bancos e de bolsas “, disse ele, agora uma “ditadura industrial” “alcançou o controlo do próprio Governo”. … [A] igualdade política que outrora tínhamos ganho não fazia sentido face à desigualdade económica. Um pequeno grupo tinha concentrado nas suas próprias mãos um controlo quase completo sobre a propriedade de outras pessoas, o dinheiro de outras pessoas, o trabalho de outras pessoas – a vida de outras pessoas… Contra uma tirania económica como esta, o cidadão americano só podia apelar ao poder organizado do Governo. O colapso de 1929 mostrou o despotismo desta ditadura. A eleição de 1932 foi o mandato do povo para lhe pôr fim”.

FDR deu aos trabalhadores o poder de se organizarem em sindicatos, a semana de trabalho de 40 horas (com uma majoração de 50% para o trabalho extra ), Segurança Social, seguro de desemprego, e indemnização dos trabalhadores por acidentes de trabalho. Aumentou os impostos no topo.

Mas desde então, estas reformas também sofreram erosão.

Os dois Roosevelts compreenderam algo sobre a economia americana e sobre a camada da população ultra-rica que agora reapareceu, ainda mais extrema e mais perigosa. Temos também de o compreender – e agir”. Fim de citação

Depois disto releia o texto de Victor Hill e diga-me se tenho ou não razão.

JM

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Notas

[1] NT. O imposto de selo é equivalente ao nosso imposto de sisa.

[2] O “triple lock” é uma salvaguarda que se aplica atualmente às pensões da função pública no Reino Unido, para garantir que esta não perde valor devido à inflação. Recentemente, tem havido chamadas para eliminar ou modificar o o mecanismo de “tripla fechadura” na sequência do surto do coronavírus, dados os receios de que possa tornar-se demasiado caro para ser mantido. Para ver como funciona o  “mecanismo da tripla fechadura” veja-se aqui.

 


O autor: Victor Hill é economista financeiro, consultor, formador e escritor, com vasta experiência em banca comercial e de investimento e gestão de fundos. A sua carreira inclui passagens pelo JP Morgan, Argyll Investment Management e Banco Mundial IFC.

 

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