A Guerra na Ucrânia — Merkel revela a duplicidade do Ocidente.  Por Scott Ritter

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Merkel revela a duplicidade do Ocidente

 Por Scott Ritter

Publicado por   em 5 de dezembro de 2022 (original aqui)

 

O Presidente russo Vladimir Putin com a então Chanceler alemã Angela Merkel a 10 de Maio de 2015, no Kremlin. (Governo russo)

 

A guerra, ao que parece, foi a única opção que os adversários da Rússia alguma vez consideraram.

 

Comentários recentes da ex-Chanceler alemã Angela Merkel lançaram luz sobre o jogo dúplice da Alemanha, França, Ucrânia e Estados Unidos no período que antecedeu a invasão russa da Ucrânia em Fevereiro.

Enquanto o chamado “Oeste colectivo” (os EUA, NATO, UE e G7) continua a afirmar que a invasão russa da Ucrânia foi um acto de “agressão não provocada”, a realidade é muito diferente: A Rússia tinha sido levada a acreditar que havia uma solução diplomática para a violência que se tinha desencadeado na região de Donbass, na Ucrânia oriental, na sequência do golpe de Estado de Maidan em Kiev, apoiado pelos EUA em 2014.

Em vez disso, a Ucrânia e os seus parceiros ocidentais estavam simplesmente a ganhar tempo até que a NATO pudesse construir um exército ucraniano capaz de capturar o Donbass na sua totalidade, bem como de expulsar a Rússia da Crimeia.

Numa entrevista na semana passada com o Der Spiegel, Merkel aludiu ao compromisso de Munique de 1938. Comparou as escolhas que o antigo Primeiro-Ministro britânico Neville Chamberlain teve de fazer em relação à Alemanha nazi com a sua decisão de se opor à adesão da Ucrânia à NATO, quando a questão foi levantada na cimeira da NATO de 2008 em Bucareste.

Ao adiar a adesão à NATO, e mais tarde ao insistir nos acordos de Minsk, Merkel acreditava estar a ganhar tempo à Ucrânia para que este país pudesse resistir melhor a um ataque russo, tal como Chamberlain acreditava estar a ganhar tempo ao Reino Unido e à França para reunir as suas forças contra a Alemanha de Hitler.

O resultado desta retrospectiva é espantosa. Esqueça, por um momento, o facto de Merkel estar a comparar a ameaça representada pelo regime nazi de Hitler com a Rússia de Vladimir Putin, e centre-se antes no facto de Merkel saber que convidar a Ucrânia para a NATO iria desencadear uma resposta militar russa.

Em vez de rejeitar completamente esta possibilidade, Merkel prosseguiu uma política destinada a tornar a Ucrânia capaz de resistir a um tal ataque.

A guerra, ao que parece, foi a única opção que os adversários da Rússia alguma vez tinham considerado.

Merkel e Joe Biden beijam-se em 2015, Conferência de Segurança de Munique com o então Secretário de Estado John Kerry. (Mueller/MSC/Flickr)

 

Putin: Minsk Foi um Erro

Os comentários de Merkel são paralelos aos feitos em Junho pelo ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko a vários meios de comunicação social ocidentais. “O nosso objectivo”, declarou Poroshenko, “era, primeiro, deter a ameaça, ou pelo menos atrasar a guerra – assegurar oito anos para restaurar o crescimento económico e criar forças armadas poderosas”. Poroshenko deixou claro que a Ucrânia não tinha vindo de boa-fé à mesa das negociações dos Acordos de Minsk.

Esta é uma constatação a que Putin também chegou. Num encontro recente com esposas e mães de tropas russas que combatiam na Ucrânia, incluindo algumas viúvas de soldados caídos, Putin reconheceu que foi um erro concordar com os Acordos de Minsk, e que o problema de Donbass deveria ter sido resolvido pela força das armas na altura, especialmente dado o mandato que lhe tinha sido conferido pela Duma russa relativamente à autorização para utilizar as forças militares russas na “Ucrânia”, e não apenas na Crimeia.

A constatação tardia de Putin deveria causar arrepios em todos aqueles que, no Ocidente, operam com a ideia errada de que agora pode haver de alguma forma uma solução negociada para o conflito russo-ucraniano.

Nenhum dos interlocutores diplomáticos da Rússia demonstrou um mínimo de integridade quando se trata de demonstrar qualquer empenho genuíno numa resolução pacífica da violência étnica que emanou dos acontecimentos sangrentos de Maidan em Fevereiro de 2014, que derrubou um presidente ucraniano democraticamente eleito e certificado pela OSCE.

 

Resposta à Resistência

Tanque do governo ucraniano dispara contra Donbass. (Ukraine MOD)

 

Quando os falantes de russo do Donbass resistiram ao golpe e defenderam essas eleições democráticas, declararam a independência da Ucrânia. A resposta do regime golpista de Kiev foi lançar contra eles um ataque militar violento de oito anos que matou milhares de civis. Putin esperou oito anos para reconhecer a sua independência e depois lançou uma invasão em larga escala do Donbass em Fevereiro.

Tinha anteriormente esperado na esperança de que os Acordos de Minsk, garantidos pela Alemanha e França e aprovados por unanimidade pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (incluindo pelos EUA), resolvessem a crise, dando autonomia a Donbass enquanto parte da Ucrânia. Mas Kiev nunca implementou os Acordos e não foi suficientemente pressionada pelo Ocidente para o fazer.

O distanciamento demonstrado pelo Ocidente, à medida que todos os pilares da legitimidade percebida se desmoronavam – desde os observadores da OSCE (alguns dos quais, segundo a Rússia, forneciam informações sobre as forças separatistas russas aos militares ucranianos); até ao par Formato Normandia da Alemanha e França, que deveria assegurar que os Acordos de Minsk seriam implementados; aos Estados Unidos, cuja autoproclamada assistência militar “defensiva” à Ucrânia entre 2015 e 2022 pouco mais era do que um lobo em pele de ovelha – tudo isso pôs em evidência a dura realidade de que nunca iria haver uma resolução pacífica das questões subjacentes ao conflito russo-ucraniano.

E nunca haverá.

A guerra, ao que parece, foi a solução procurada pelo “Ocidente colectivo”, e a guerra é a solução procurada pela Rússia hoje em dia.

Semear os ventos, colher as tempestades.

Pensando bem, Merkel não se enganou ao citar Munique 1938 como um antecedente da situação na Ucrânia de hoje. A única diferença é que, neste caso, não se tratava de alemães nobres que procuravam reter os brutais russos, mas sim alemães (e outros ocidentais) traiçoeiros que procuravam enganar os crédulos russos.

Isto não terminará bem nem para a Alemanha, nem para a Ucrânia, nem para qualquer um dos que se envolviam com o manto da diplomacia, escondendo sempre da vista a espada que seguravam nas suas costas.

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O autor: Scott Ritter é um antigo oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA que serviu na antiga União Soviética implementando tratados de controlo de armas, no Golfo Pérsico durante a Operação Tempestade no Deserto e no Iraque supervisionando o desarmamento das ADM. O seu livro mais recente é Disarmament in the Time of Perestroika, publicado pela Clarity Press.

 

 

2 Comments

  1. Concordo plenamente com o artigo em apreço.. De facto,os EUA, utilizando a NATO para garantir apoio para as suas causas, semiam guerras um pouco por todo o mundopara garantia da sua hegemonia universal. Agoira procuram semear conflitos com a China e a Coreia do Norte.
    Claro que o negócio de armamento é muito rendoso e, além dissodá trabalho a milhões de americanbos.

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