ADÃO CRUZ – REFLEXÃO EXTEMPORÂNEA entre dois copos

Todos aqueles que já me leram sabem que eu considero o vinho como a melhor droga estimuladora da criatividade, moderado, claro está. Um copo de tintol ou mesmo de branco fresco, nestes dias de verão, é uma bênção do céu, admitindo que existe Céu. Apesar de o Papa Francisco ter negado o inferno, não é provável que venha a negar o Céu, pois o Céu ainda rende milhões de espiritualíssimos euros ao Vaticano.

Gostaria que nesta extemporânea reflexão coubesse tudo o que há de bom no mundo, mas infelizmente há muito mais de mau do que de bom, o suficiente para defender a extinção do ser humano, a espécie que, apesar de tão infinitesimal no Universo, mais tem envergonhado a natureza e mais tem dado cabo de tudo o que, naturalmente, poderia criar o equilíbrio e a harmonia.

O vinho, como disse, é uma espécie de fio-de-prumo que equilibra o nosso pensamento. O pensamento é o resultado de triliões de neuro-transmissões, e não é grosseira metáfora dizer que o vinho é uma espécie de óleo que lubrifica todos os nossos canais neuronais. Quem quiser que acredite, quem não quiser que beba água. Sem pretender colidir com a ética e a estética da existência, o vinho permite chegar mais depressa à interface que eu considero como fronteira entre a condição antropológica e a condição universal do ser humano. Só aí, calmamente sentados em qualquer tosca pedra que tenha sobrevivido à mão humana, poderemos ver ao longe o infinito e poderemos sentir-nos capazes de reconhecer a merda que somos.

O ser humano é um cadinho de sentimentos e pouco mais. O sentimento, sobretudo o sentimento de si, é a única expressão de vida, dentro da cadeia neurobiológica. E, dentro das incontáveis formas de sentimento, eu tenho algumas verdades minhas que até podem ser Verdade. Sempre fui contra a académica e artificial dicotomia do sentimento, dado que este é um fenómeno permanente e indispensável ao mais pequeno gesto vital. Tenho muita dificuldade em dissecar os sentimentos, isto é, em definir as incomensuráveis formas e manifestações dos sentimentos, até porque antes dos sentimentos há as emoções que lhes dão origem, e antes das emoções há as imagens resultantes dos estímulos que as provocam e aos quais cada pessoa reage de forma muito diferente, conforme o seu padrão neural. Assim sendo, os sentimentos constituem um mundo tão vasto de diferenças que me parece podermos incorrer em algum grau de estultícia, ao pretendermos dissecá-los e atribuir-lhes uma cronologia e uma metodologia intrínsecas fora do campo neurocientífico. E muito menos separá-los dentro do cesto da nossa mente, como se de fruta se tratasse.
Atrevo-me, contudo, a considerar como os maiores e mais nobres sentimentos humanos, o do Amor e o da Solidariedade. Sentimentos que podem nascer da alma do mais humilde, do mais inculto, do mais ignorante, e podem não existir na alma do mais rico, do mais intelectual e do mais sábio. Por outro lado, julgo que há um único contexto em que me parece legítimo atrevermo-nos a abordar parcialmente e de forma particular os sentimentos, e com eles lidar como matéria. Esse contexto situa-se apenas no campo científico, daí decorrendo, para quem não aceita qualquer dualismo corpo-espírito, a sua abordagem no seio do mundo poético, literário e musical, por exemplo. Mesmo assim, com a prudência de nos contentarmos apenas com a plumagem, as cores, a luz e o som que muitas vezes nem existem.

Vem isto a propósito de uma conversa acompanhada de um branco fresco, versando aquilo para que se sente atraído quem não fala de futebol e já está enjoado de política, a Arte e a Poesia. Sentimentos nobilíssimos, todavia, muito maltratados, muito mal sentidos, tentando expressar-se, tantas vezes, através de palavras e gestos de uma alma seca, sem o humilde, filantrópico e filosófico calor de um copo de vinho. Eu diria que a Arte e a Poesia, que eu considero os mais nobres sentimentos a seguir aos sentimentos do Amor e da Solidariedade, existem entre nós. Contudo, os seus pretensos agentes são, por vezes, os próprios predadores, aqueles que as destroem e matam, ao tentarem traduzi-las por palavras e gestos que não entendem, ao julgarem que as prendem em gaiolas. As palavras e os gestos são cintilações do infinito, “filhos do silêncio, que rompem como um novo ser rompe a sua mãe, não sem dor, não sem perda. Cada palavra, cada gesto é um desafio novo, um início, um indício de fim, uma ilusão de liberdade e identidade, um cão de casota que corre… até esticar a corda”.

À nossa saúde!

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