Espuma dos dias — As notícias: Onde estão os jovens? Por Timothy Burke

Nota prévia

Juventude portuguesa, neoliberalismo, a farsa política

Comecei a publicar e com algumas interrupções pelo meio, uma série de textos dedicada aos jovens licenciados ou que estão a caminho disso que votam Iniciativa Liberal. No fundo a procurar perceber porque é que uma dada faixa, possivelmente a mais instruída de jovens vota maioritariamente num Partido que é ferozmente contra os seus próprios interesses e dou a minha explicação: falta de formação na Universidade, formação quer de cidadania quer formação técnica e não separo uma da outra. Foi no sentido de ajudar a colmatar essa falta de formação que selecionei os textos da dita série sobre os filhos politicamente bastardos de Hayek.

Hoje recebo um texto de um professor universitário americano que levanta a questão: onde estão os jovens na luta contra Trump? E procura as suas explicações possíveis. É um muito bom texto e se tem filhos a terminar o secundário ou para além desta faixa etária partilhe o texto com eles. Pode substituir Trump por Luís Montenegro, pode substituir António Costa por Obama ou Clinton e estamos depois a falar de coisas equivalentes.

 

JMota, 22/10/2025

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7 min de leitura

As notícias: Onde estão os jovens?

O jovem de quarta-feira está cheio de tristeza

  Por Timothy Burke

Publicado por  em 22 de Outubro de 2025 (original aqui)

 

Então, o único aspeto bastante difícil de ignorar nos dois protestos No Kings é que havia pouquíssimas pessoas entre 18 e 30 anos na maioria das marchas, exceto em cidades com uma população predominantemente jovem e com alguma tradição local de protesto. Isso certamente significa alguma coisa, mas é difícil de saber o quê.

Deixe-me apresentar algumas teorias para explicar esta situação. Estas não são exclusivas: a maioria delas são explicações compatíveis.

1. Os jovens estão assustados. Eles reconhecem que estão no seu momento mais vulnerável economicamente, numa economia que estaria sobrecarregada de incertezas mesmo se Kamala Harris tivesse vencido. Eles não têm ideia de quanto os protestos poderiam intensificar a sua precariedade profissional ou vocacional preexistente. Se a democracia acabar e entrarmos numa longa noite de Trumpismo, pode ser que os jovens não tenham futuro económico a menos que vivam nas comunidades onde dominam os sentimentos democráticos (as cidades mais azuis) e tenham alguma riqueza geracional para se apoiar. Então, os jovens estão a manter a cabeça baixa para evitarem vir a acabar numa lista de inimigos políticos. Já tivemos um ensaio geral para uma lista negra política nos últimos dois anos, quando as nossas universidades e alguns locais de trabalho conspiraram para atacar manifestantes pró-palestinianos, então os jovens (independentemente dos seus sentimentos sobre essa questão) já viram que é perfeitamente possível encontrar todas as portas para o seu futuro fechadas na sua cara, e os despedimentos de pessoas por criticarem Charlie Kirk após seu assassinato apenas forneceram mais um destaque de quão iminente essa ameaça pode ser. Uma coisa é uma pessoa de 60 anos que tem um sistema de reforma e algum status na profissão participar de uma marcha, e outra coisa é uma pessoa de 25 anos.

2. Os jovens não têm outra referência além do trumpismo. Um jovem de 25 anos nasceu em 2000 ou 2001. Essa pessoa pode começar a ter algum grau de compreensão completa da política nacional por volta de 2015. Pessoas com menos de 30 anos, especificamente, não se conseguem lembrar das reformas pós-Watergate de que muitos americanos mais velhos se lembram como um exemplo de sistema a funcionar “corretamente”, embora essas reformas tenham durado apenas uma década. Reagan ignorou as novas exigências de transparência e cumprimento da lei no caso Irão-Contras [n.t. ver aqui]. (E muitos daqueles que indicou para cargos políticos foram condenados por vários crimes: é bom que tenham sido condenados, é mau que tenham sido nomeados em primeiro lugar.) Clinton corroeu tanto a transparência em geral como a regulamentação financeira em particular. Bush (via Karl Rove) acelerou a manipulação eleitoral, corroeu as restrições ao financiamento de campanhas e minou a transparência após o 11 de setembro. Obama foi mais longe nessa direção e apoiou intensamente o estado de vigilância. E, ao mesmo tempo, o poder executivo readquiriu o poder “imperial” demonstrado por Nixon e, em seguida, foi muito além desse padrão. Sem essa história, o trumpismo não parece tanto ser uma rejeição de normas ou a perda de uma república mais transparente, mais responsável e mais democrática. Não, para alguns jovens, se o trumpismo parece horrível, ele está totalmente inserido no seu próprio contexto, ou em relação a padrões de progresso social que os jovens sentiram sempre como precários e ameaçados durante a maior parte das suas vidas —a sua consciência de justiça racial, por exemplo, contrapõe-se em grande parte ao pano de fundo do movimento Black Lives Matter, à insuficiência e ao fracasso do movimento pelos direitos civis do século XX em garantir igualdade e justiça perante a lei.

3. Por mais que eu resista a muitos pensamentos simplistas sobre media sociais e cultura digital em relação a pessoas com menos de 30 anos, certamente é possível argumentar que muitos jovens vivem numa realidade-bolha, repleta de intensidade discursiva nas media online, que é acompanhada por uma espécie de superficialidade das experiências materiais do mundo real. Aqui, o que de outra forma seria louvável sobre os jovens americanos — que eles bebem menos, usam menos drogas, fazem menos sexo — talvez também seja um indicador importante de que eles têm uma espécie de sensório social reduzido, que os seus sentimentos estão excessivamente expressos e investidos em espaços online evanescentes que se manifestam intensamente sobre minúcias episódicas, mas não conseguem sustentar a determinação e a solidariedade coletivas. Participar em marchas e fazer parte de organizações multigeracionais exige um tipo de paciência e tolerância pelas pessoas como elas são e uma resistência ao tempo lento sem constantes retrações em distrações online.

4. Pode ser que os jovens estejam, com razão, num estado de espírito fatalista. Eles não acreditam que nada possa deter o fascismo que se está a apoderar não apenas dos Estados Unidos, mas de grande parte do mundo. Voltando ao ponto de que o seu referencial é quase inteiramente o século XXI, eles viram um desfile interminável de líderes políticos tradicionais se oporem-se ao trumpismo e fracassarem. A única maneira pela qual eles podem sentir esperança num amanhã melhor é intelectual, histórica, abstrata: não se baseia em nada na sua experiência direta. (Veja o nº 2.)

5. Os jovens não têm um modelo de solidariedade interclasse na vida americana. Quando estão apaixonadas por justiça social, isso ocorre principalmente em mundos vinculados a classes sociais. Muitas delas aceitam a igualdade de direitos, mas o seu referencial é o mundo social das classes profissionais instruídas ou o mundo social da organização em bairros urbanos empobrecidos, não ambos — quando esses mundos estão em coligação política, não são socialmente contíguos. Isso seria resultado do aumento da desigualdade de rendimento desde a década de 1990 e da “classificação grande” de pessoas em microssociologias dentro de faixas mais amplas de distribuição de rendimento. O movimento contra o trumpismo vai precisar desse tipo de solidariedade interclasse, e as gerações mais velhas pelo menos têm alguma capacidade de imaginar como isso costumava ser, mesmo que também tenham sido afetadas pela classificação residencial e social.

Jack Weinberg, organizador da Nova Esquerda no Movimento pela Liberdade de Expressão de Berkeley, é a fonte original da citação “Nunca confie em ninguém com mais de 30 anos”. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=115038673 e Jack Weinberg, por RL Oliver, Los Angeles Times https://digital.library.ucla.edu/catalog/ark:/21198/zz0002vqdq

 

6. Os jovens não confiam em ninguém com mais de 30 anos, e por um motivo melhor do que os Baby Boomers [n.t. nascidos entre 1946 e 1964] quando deram voz a esse sentimento pela primeira vez. Um bom número de jovens olha para as marchas No Kings e para o seu amplo apoio e pensa que nós só queremos o status quo pré-Trump de volta. Eles pensam que nós não entendemos que Trump é um sinal diagnóstico do fracasso abrangente da velha ordem, uma parada brusca no caminho para o “fim da história” do liberalismo. Consequentemente, eles não têm interesse em se juntarem a nós numa situação de protesto. Quando nos ouvem e aos líderes políticos e sociais que a nós estão associados defendermos algo que soa como uma grande mudança que vá para além da substituição de Trump , como se vê na candidatura de Zohran Mamdani para prefeito da cidade de Nova York, eles estarão então connosco. Mas não estarão connosco se isso for apenas para trazer os suspeitos de sempre de volta à maioria legislativa e instalar um democrata típico como presidente. Os jovens compareceram às eleições intercalares em 2018 e 2022 e não serão enganados novamente. Para muitos deles, é evidente que as nossas instituições falharam de forma geral e, especificamente, falharam com as gerações mais jovens, e somos nós que realmente não entendemos isso. Então, talvez eles já estejam a trabalhar em algo melhor e se recusem a submetê-lo à aprovação das gerações mais velhas.

7. Os jovens são avessos a conflitos. Eles cresceram a quererem apoiar-se mutuamente, evitar confrontos e ser gentis interpessoalmente. Confrontos online são diferentes — não são “reais” (veja o nº 3 acima) —, mas estar fisicamente presente num protesto onde muitas pessoas estão ao teu lado, mas também onde há algumas pessoas que te odeiam completamente ao circularem pelas bordas da marcha, é assustador e novo. Esta é uma espécie de teoria do “se o teu parque infantil não tinha equipamentos perigosos que te pudessem matar, então não serás suficientemente forte para a vida adulta” e, como tal, estou inclinado a desconsiderar esta teoria. Mas há uma versão diferente a ser considerada: os jovens estão a construir uma solidariedade real de forma constante nas suas vidas do dia-a-dia e acreditam com convicção que isso é o que criará uma política real de oposição ao Trumpismo, que eles já estão nessa e no lugar onde vivem e que marchas e manifestações públicas não são o caminho certo para construir bases duradouras para um futuro melhor.

8. Talvez estejam apenas à espera de algum líder, de alguma voz carismática e de algum movimento que os chame diretamente para a luta, que lhes fale intimamente, que reconheça a situação deles e o seu estado de espírito de uma forma que não seja condescendente. No momento, não ouço ninguém, exceto Mamdani, que se encaixe nesse perfil.

9. Talvez eles não estejam a aparecer porque, geracionalmente, estão a ouvir ou a ver algo sobre o trumpismo que seja realmente atraente. A forma mais convincente dessa interpretação pode bem ser toda a conversa sobre os jovens adultos e se é nesta conversa visível que há alguma forma de alienação ou falta de propósito para que os jovens sintam que o trumpismo oferece pelo menos algum tipo de resposta. Pessoalmente sou muito cético em relação a essa ideia, mas pode haver algo nela que valha a pena analisar em busca de compreensão.

10. O trumpismo pode simplesmente parecer irreal ou desorientador para eles, ainda mais intensamente do que para os americanos mais velhos. Eles estão a viver uma revolução que ninguém previu. A sua experiência anterior com Trump foi com os para-choques de segurança acionados, onde a antiga corrente republicana tentou inibir os seus piores instintos, e eles podem estar apenas à espera que alguém os reative.

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Importa? Talvez. A razão convencional para nos focarmos nos jovens é política, é eleitoral. Progressistas e liberais frequentemente imaginam, desde a década de 1970, que se conseguissem fazer com que os jovens votassem em maior número, uma maioria liberal estável poderia ser alcançada. Essa fantasia deveria estar na lixeira da história agora, juntamente com todas as ideias sobre os não votantes serem intrinsecamente de esquerda. Tivemos uma era sem precedentes de participação eleitoral e empenhamento político e acontece que, na melhor das hipóteses, democratas e republicanos se igualaram em trazer novos eleitores para as eleições. Além disso, é inteiramente possível que as mobilizações políticas que moldarão a vida americana após 2024 não sejam canalizadas pela via das eleições.

É por isso que que a questão importa, claro: uma oposição ao Trumpismo que tenha apelo limitado para pessoas com menos de 30 anos está morta à nascença como uma visão de futuro. Em termos dessas teorias variadas, eu diria que pessoas com mais de 30 anos precisam ser mais curiosas sobre como a vida parece para os americanos mais jovens e desconfiar de caracterizações depreciativas de jovens como viciados digitais, como viciados em media sociais. Mais urgentemente, precisamos de ver que se os jovens pensam que as principais instituições do século XX falharam e que um status quo mais ou menos neoliberal não tem nada para lhes oferecer, eles estão substancialmente corretos. Rejeitar o Trumpismo é apenas o começo, e pode ser que o No Kings e comícios semelhantes não consigam realmente tocar um maior leque de americanos, especialmente os jovens, até que se comece a germinar uma visão de possibilidades futuras. Não a Reis, não a oligarcas, mas o quê em vez disso?

 

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O autor: Timothy Burke é professor de História no Swarthmore College. O seu principal campo de especialidade é a história africana moderna, especificamente a África Austral, mas também trabalhou na cultura popular dos EUA e em jogos de computador. O Professor Burke ensina uma grande variedade de cursos em Swarthmore, incluindo pesquisas sobre a história africana, a história ambiental da África, a história social do consumo, a história do lazer e da diversão e uma história cultural da ideia do futuro. É autor de Lifebuoy Men, Lux Women: Mercantilization, Consumption and Cleanliness in Modern Zimbabwe (Duke University Press, 1996) e co-autor de Saturday Morning Fever: Growing up With Cartoon Culture (St.Martin’s Griffin, 1999). Atualmente, ele está a concluir um livro sobre experiência individual e agência no Zimbábue do século 20, e desde Novembro 2002 manteve o blog, “Easily Distracted: Culture, Politics, Academia and Other Shiny Objects,”.

 

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