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O presente texto é dedicado à memória de António M. de Oliveira, que hoje nos deixou. António Oliveira foi nosso companheiro de blog durante anos, por aqui nos conhecemos e tornámos amigos, ainda que sem nos conhecermos pessoalmente, o que francamente lamento.
Júlio Mota, 18/01/2026
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12 min de leitura
Reflexões em torno do Manifesto sobre Ensino Superior
Coimbra, em 18 de Janeiro de 2026
Hoje [dia 18 de janeiro], hoje vota-se. Deixemos a política partidária ao largo, até às 20 horas.
Ontem recebi um texto, um Manifesto., intitulado Por um Ensino Superior humanizado – Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
Gostei, pedi ao meu editor que o publicasse no nosso blog e com uma pequena nota por ele escrita, mas se me pedissem para assinar o Manifesto, eu não o assinaria. Gosto, não gosto, esta é a questão, mas é uma questão de fácil explicação.
Aprendi com Regis Debray que não há texto sem contexto, e aqui o que temos é um contexto, uma descrição pormenorizada mas relativamente desarticulada do que são os pontos centrais na crise do Ensino Superior, mas falta o texto. Pela descrição desses pontos, eu digo: gosto muito do Manifesto; porém, pela falta do texto, pela falta de explicação e articulada desses pontos centrais e também pela falta da explicação sobre que medidas de partida se podem e devem tomar, por tudo isto que falta, direi que não gosto do Manifesto. Falta-lhe o texto explicativo e que o justificaria enquanto Manifesto.
De forma rápida vejamos a minha argumentação: no Manifesto lê-se:
[Os alunos] são as grandes vítimas do mundo digital, indefesos perante um avanço tido como inevitável da IA sobre tudo aquilo que constitui a vida académica. Impelidos a utilizar a IA, veem os seus métodos de trabalho e estudo ser permanentemente soterrados por grandes modelos de linguagem e chatbots que operam enquanto fábricas de produção de lugares-comuns, banalidades, arquiteturas tecnológicas promotoras de fraude e plágio em série. Entretanto, a saúde mental dos estudantes bate no fundo, os níveis de ansiedade sobem aos píncaros e, convertidos em cretinos digitais, demonstram muito pouca curiosidade intelectual ou entusiasmo pela enorme e desafiante aventura do conhecimento.
Não é verdade o que é acima dito, isso é por enquanto apenas uma meia-verdade. Os alunos são as grandes vítimas do mundo digital, são impelidos a usar a IA. Mas já agora os autores poderiam explicar por quem é que são impelidos? Mas eu explico: são impelidos a utilizá-la porque não são ensinados a nada para além de contas e mais contas e não a criar um pensamento articulado e crítico, a não criar uma capacidade de julgamento próprio. Aprendem contas e mais contas, mas contas simples: se lhes põem uma equação ou duas eles atrapalham-se. Isso é que era preciso explicar e para já isto não tem nada a ver com a IA.
Esta realidade existia já antes da IA ser de utilização massiva. Um exemplo preciso: em dezembro de 2023 enviei ao diretor do que foi a minha Faculdade de outrora – nada a ver com a de agora -, dizendo-lhe o que seria na Faculdade a disciplina de Projeto Integrador, a começar no ano seguinte. Tratava-se de uma disciplina semestral, mas que valia por duas ! E esta não teria aulas. Teria acompanhamento de um professor na base de um projeto integrador de conhecimentos de que o aluno não tinha. E avisei que as notas seriam altas. Claro, quanto mais caricato for a estrutura de uma disciplina mais altas serão as notas obtidos. Não é preciso ser bruxo para prever isso, isso está escrito no vento. Neste caso, fazer trabalho integrado como? Se esta reforma destruidora e transformadora da Faculdade de Economia em Faculdade de Gestão de segunda classe fosse aplicada antes da IA aparecer nos moldes em que está hoje, os alunos com dinheiro recorreriam a fábricas de trabalhos onde seriam redigidos os projetos integradores de cada que pagasse para obterem boas notas e os outros, esses arrastar-se-iam com notas de 10, 11. Hoje, com a IA acessível, os alunos são então levados institucionalmente para a utilização da IA e são praticamente todos eles a irem. Neste caso, não culpem a IA, culpem a estrutura do curso.
O Manifesto diz-nos:
… mas o ponto de partida urgente não pode ser outro que não o da proibição do uso da IA.
Discordo e em absoluto desta posição. A IA veio para ficar e ficará. Diremos mesmo que vai ser um processo penoso, a luta contra os seus efeitos nefastos pela enorme força que as empresas que a produzem têm. Mas dessa luta não se pode nem se deve desistir, uma luta conduzida contra a sua expansão a domínios que a tornarão perigosíssima [1], mas nunca no sentido da sua proibição, isso nem pensar. Como em tudo é necessário um forte quadro legislativo sobre as empresas de IA e os seus produtos e no ensino será necessário colocar a IA sob controlo e na sala de aulas. Uma tarefa ciclópica a levar a cabo [2], mas somente depois da reorganização das estruturas de ensino.
Isto coloca-nos perante a posição de Lorena Barba, professora da Universidade George Washington que nos diz:
a) Os nossos alunos estão a viver em 2025, mas nós estamos a ensiná-los como se ainda fosse 2022.
Eu dei uma conferência na semana passada no workshop “Insight” do Centro de Pesquisa em Educação de Engenharia da Northwestern (NCEER). Nela, compartilhei a minha história de fracasso espetacular no segundo semestre de 2024. Após construir uma ferramenta de IA personalizada utilizando Geração Aumentada de Recuperação (RAG) com os materiais do meu curso, o empenhamento dos alunos caiu a pique. O problema não foi uma simples trapaça pela parte dos alunos, foi a Ilusão de Competência — os alunos confundindo a fluência da IA com o seu próprio entendimento.
b) Não podemos resolver isto com deteção, porque isto é um problema de arquitetura
Na palestra, detalhei as soluções específicas de learning design (estrutura de aprendizagem) que estou a desenvolver em aula para mudar o foco da avaliação de ‘artefactos’ para a avaliação do ‘processo’:
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- Substituição do Trabalho de Casa: Afastando-se de tarefas extraclasse sem supervisão em favor de exercícios avaliados em sala de aula (studios), onde o esforço produtivo ocorre sob supervisão.
- Prova Oral: Implementação de avaliações síncronas de alta-fidelidade, nas quais os alunos devem explicar verbalmente o seu código e a sua lógica em tempo real.
c) Reformular os currículos não basta; é preciso reformular as nossas instituições.
Sinto-me orgulhosa por me terem confiado a direção da GW Engineering AI Academy, uma nova iniciativa da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas da Universidade George Washington. Estamos a debatermo-nos com a necessidade urgente de desenvolvimento do corpo docente, sob o princípio de que o domínio em IA — e não apenas o acesso às ferramentas — é a base necessária para uma gestão de mudanças e estratégia bem-sucedidas no ensino superior.”
Do meu ponto de vista só tratando desta questão ao nível institucional, com reformas urgentes e profundas, onde são urgentes novas linhas de ação é que, depois, tem sentido procurar perceber que medidas tomar, não para proibir a IA mas sim para a introduzir no espaço de aulas, espaço presencial. Isto exige outra maneira de estar, quer dos alunos, sobre os quais se deve exercer elevados níveis de exigência e de responsabilização, quer das instituições, quer ainda dos professores. Muita coisa teria que mudar.
Diz-nos o texto do Manifesto:
[Os professores ] confrontados com trabalhos artificiais sistematicamente nivelados pela mediania de um chatbot qual mangas-de-alpaca digitalizado, com apresentações orais que não vão para além do papaguear de frases desconexas e expressões que denunciam ausência de autoria ou um módico de originalidade, sentem na pele o desconforto motivado pela ausência de níveis mínimos de integridade e honestidade intelectual, para além de já não possuírem ferramentas para verdadeiramente comandar os processos pedagógicos, monitorizar os ritmos e os tempos dos processos de ensino-aprendizagem e proceder a avaliações justas. Por isso, assiste-se ao regresso a instrumentos de avaliação, como os testes de escolha múltipla, que vinham sendo abandonados no contexto da progressiva valorização de formas de ensino centradas nos estudantes. Naturalmente, a incapacidade para penalizar ou até mesmo identificar com rigor práticas académicas fraudulentas poderá ou não levar a modos mais ou menos engenhosos de cinismo escapista ou demissão do exercício intelectual da crítica, mas irá sempre redundar na interiorização de uma grande dose de sofrimento psíquico e culpa por parte dos professores.
Comentemos este excerto do Manifesto:
Assinala-nos Lorena Barba que ensinamos como antes de 2022 (antes do aparecimento do ChatGPT) mas com alunos de 2025.
Isto, colocado nos meus termos, seria: em 2025 ensinamos mal como o fazíamos já em 2022, mas com os alunos de 2025, o que significa que ensinamos ainda pior.
Ora fala-se nos testes de avaliação múltipla – ora eles não derivam da utilização da IA, existiam já antes dela, eles derivam do desrespeito que se tem para com os estudantes, e assim em vez de se desenvolverem as suas capacidades de escrita manual e de criação de raciocínio e de capacidades da sua exposição, dispensamo-los de tudo isto. Isso é mais cómodo, os professores não têm de estar a ler caligrafias difíceis, repetições de respostas, etc . Como diria um secretário de Estado do PS e do tempo do João Costa, os professores teriam assim mais tempo para investigar.
Diz-nos o Manifesto que teria havido uma evolução centrada no aluno, o discurso de Bolonha, o discurso de um novo paradigma em que se iria ensinar mais, com menos aulas por disciplina e com menos anos de estudo!
E o Manifesto refere que os professores já não dispõem de ferramentas para verdadeiramente comandar os processos pedagógicos, monitorizar os ritmos e os tempos dos processos de ensino-aprendizagem e proceder a avaliações justas.
Mas não se fazem avaliações justas. exemplo – em muitas Faculdades deixou de haver orais, ou se reprova com nota abaixo de 8 ou passam com 10.
Fala-se de monitorizar os ritmos e os tempos dos processos de ensino-aprendizagem. Impossível – isso exige turmas pequenas e acompanhamento constante dos alunos. Neste tipo de ensino que agora se faz, a criatividade, o desenvolvimento intelectual do estudante é coisa que deixa de preocupar seja quem for. Importa é cumprir o programa. No fundo é estar a fazer pior do que o que se fazia nos tempos do fascismo com os cadernos de exercícios de Palma Fernandes e estes tinham muito mérito desde que não fossem utilizados simplesmente para mecanização. E nada disto tem a ver com a inteligência artificial. Esta apenas reforça, por substituição, as paralelas fábricas de trabalhos escolares, exercícios, revisão de teses ou mesmo elaboração de teses, etc tornando-se com a IA o acesso aos mesmos resultados de forma mais discreta e muito mais barato. Do ponto de vista da fraude, dizia um texto que editámos sobre a IA, a IA veio sobretudo levar à falência estas fábricas de trabalhos paralelos, porque as veio substituir e a custo muito mais baixo.
E podíamos continuar, mas não é esse o objetivo. Sejamos claros. O Manifesto tem o condão de colocar em cima da mesa os graves problemas com que se debate o ensino superior, e dele são tanto vítimas os alunos como os professores. No fundo, a grande vítima é o país. pois esquece-se que estes jovens que hoje estamos a estragar, são os pais dos adultos de amanhã, para usar uma feliz expressão de Paul Musgrave.
E falando agora de investigação, onde o problema parece ser muito mais complexo com a existência da IA, deixem-me citar longamente Seva Gunitsky, como editor associado na Security Studies, uma revista de relações internacionais:
“O cientista político Andy Hall escreveu recentemente:
O “Claude Code” e seus semelhantes estão a chegar em direção ao estudo da política como um comboio de mercadorias. Um único académico será capaz de escrever milhares de artigos empíricos (especialmente experimentos de pesquisa ou experimentos com LLMs) por ano. Precisaremos de encontrar novas formas de organizar e disseminar a investigação em ciência política num futuro muito próximo para lidar com esse dilúvio. (O sublinhado é meu-JMota)
“Milhares” parece otimista, a menos que se adote um estilo de vida totalmente monástico, mas centenas é algo muito plausível. E esses artigos não serão ruins. Eles serão úteis de forma restrita, metodologicamente sólidos e, na maior parte, não muito interessantes.
No dia seguinte, Hall apresentou uma prova de conceito, produzindo um artigo escrito quase inteiramente com o Claude Code:
Hoje eu fiz o Claude Code replicar e desenvolver completamente um antigo artigo meu, estimando o efeito do voto universal por correio no comparecimento às urnas e no resultado eleitoral… essencialmente de uma só vez. …O processo todo levou cerca de uma hora. Esta é uma mudança de paradigma insana na forma como o trabalho empírico é feito. [o sublinhado é da editora da revista]
Poderíamos chamar de Lixo-Mais (Slop-Plus? Slop Premium? Talvez seja rigoroso demais. O termo alemão para a ciência normal de Kuhn é Normalwissenschaft, então talvez Automatenwissenschaft (ciência automatizada) [3]?
Independentemente do nome, o que é que o seu aparecimento significa para a academia?
Suspeito que o valor de uma teoria original ou elegante se tornará ainda mais importante. Trabalhos quantitativos de qualidade estão a tornar-se baratos e abundantes; a boa teoria continua a ser bem difícil. Talvez o trabalho etnográfico se torne mais valioso, assim como a coleta de dados originais que a IA ainda não consegue realizar.
Mas o maior efeito é que a revisão por pares passa a ser mais uma questão de discernimento ou de gosto. Se qualquer pessoa consegue produzir um artigo empírico competente sobre qualquer tópico, o estrangulamento desloca-se para a identificação de que perguntas são, antes de tudo, importantes de se fazer. Isso já fazia parte do meu trabalho como editor: diante de duas revisões, que às vezes são contraditórias e ocasionalmente confusas, como é que posso aplicar o meu próprio julgamento e sentido da área para decidir se o artigo deve avançar?
Nesse mundo, a pergunta para revisores e editores é menos ‘isso está certo?’ e mais ‘porque é que isto interessa ?‘. Isso é inexoravelmente subjetivo, mas não totalmente, pois exige uma base sólida nos debates em curso. Ainda exige o conhecimento das tensões e lacunas produtivas, dos enigmas interessantes e do senso comum aparentemente consolidado.
Este conceito tem, na verdade, um nome: phronesis. Esse era o termo de Aristóteles para a sabedoria prática, ou a capacidade de discernir o curso de ação correto em circunstâncias particulares. Ao contrário da episteme (conhecimento científico) ou da techne (competência técnica), a phronesis não pode ser reduzida a regras ou algoritmos. Ela exige experiência, julgamento e o que Aristóteles chamava de ‘perceção’. Isso significa não apenas inteligência, mas também a competência intelectual de enxergar as características salientes de uma situação específica.”
Michael Polanyi fez uma distinção semelhante com o “conhecimento tácito”. Sabemos mais do que somos capazes de dizer. Um mestre artesão não consegue articular plenamente porque é que uma obra é excelente e outra meramente competente. O conhecimento é incorporado, contextual e resistente à formalização. É exatamente isso que o torna difícil de automatizar, pelo menos por enquanto.
Será que isso continuará a ser uma qualidade humana? Talvez eu esteja a ser sendo antropocêntrico. Afinal, os sistemas de IA são treinados com base em julgamentos humanos. Mas eles ainda aprendem um tipo de gosto médio e derivativo. Como resultado, conseguem reconhecer o que já foi valorizado, mas suspeito que terão dificuldade em antecipar o que deveria ser valorizado. A questão a longo prazo é se o gosto é fundamentalmente sobre algum reconhecimento de padrões de nível profundo (eminentemente automatizável) ou sobre algo mais: contexto, riscos envolvidos e o je ne sais quoi da investigação na academia.
Berlin chamou a essa qualidade no julgamento político de “sentido da realidade”: a capacidade de perceber o que é possível e o que importa em um determinado momento histórico. Não está claro se os LLMs possuem esse sentido.
Se o discernimento se tornar o árbitro supremo da qualidade, avançaremos ainda mais em direção a um sistema de dois níveis na publicação académica. As revistas de elite focar-se-ão em artigos que sejam notavelmente originais ou que tragam avanços teóricos ou empíricos importantes, enquanto todos os demais publicarão os artigos produzidos por IA que avançam de forma apenas incremental a nossa compreensão sobre temas restritos. E talvez a teoria ganhe cada vez mais prestígio em detrimento de métodos sofisticados de análise de dados. É um sonho possível.
Tanto a teoria quanto a empiria [4] são, obviamente, partes fundamentais da ciência, mas o perigo é que a inundação de Automatenwissenschaft (ciência automatizada) se torne uma espécie de matéria escura académica: algo que existe apenas para preencher currículos e satisfazer métricas burocráticas, mas que ninguém de facto lê ou utiliza. Isso já é verdade até certo ponto, mas a IA acelera enormemente esse processo.
Os professores têm estado na linha de frente do consumo de conteúdo de baixa qualidade gerado por IA-slop. Já estávamos mergulhados em redações feitas por IA antes mesmo da maioria das pessoas saber o que era o ChatGPT. Até hoje, os meus colegas não reclamam de outra coisa. Já vimos como essa tecnologia é irritantemente eficaz, então não é de espantar que comecemos a usar as mesmas ferramentas nas nossas pesquisas, sobretudo em programação ou análises quantitativas. A tecnologia que nos soterrou com ensaios de estudantes agora fará o mesmo com nossa própria produção; precisaremos de ter o mesmo discernimento que tanto dizemos que está a faltar aos nossos alunos.” Fim de citação.
Estamos a chegar ao fim do texto. Reafirmo a importância do Manifesto, apesar da crítica acima feita e lamento até que tenha sido feito com inscrições de apoio fechados, como se seja apenas uma posição de amigos. Creio que nas Academias haverá ainda muita gente que o subscreveria. Poderia assumir a função de carta aberta às autoridades ou mesmo de petição a enviar às autoridades do país depois de circular pela academia a recolher apoios. E, por fim, quanto à afirmação de que andamos a estragar a nossa juventude deixem-me dizer-vos a resposta que me deu Gemini 3 pro à seguinte pergunta:
Se fosses o diabo, como é que destruirias a próxima geração, sem que eles sequer o soubessem?
Resposta:
“Esta é uma provocação intelectual interessante. Se olharmos para a história e para a psicologia, a destruição mais eficaz não é aquela que vem de fora com violência, mas aquela que corrói os alicerces internos de uma sociedade — de forma lenta, confortável e quase impercetível.
Para destruir uma geração sem que ela desse por isso, eu não usaria o medo; usaria a distração e a conveniência. Aqui está o plano:
- Dissolver a Noção de Verdade
Em vez de proibir a informação, eu inundaria o mundo com ela. Criaria um ruído tão ensurdecedor de opiniões, “factos” contraditórios e entretenimento incessante que a busca pela verdade se tornaria exaustiva.
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- O Resultado:As pessoas desistiriam de entender o mundo e passariam a acreditar apenas naquilo que as faz sentir bem (o viés de confirmação).
- Substituir a Realidade pela Simulação
Daria a cada jovem um espelho mágico de bolso (o smartphone) que oferece recompensas químicas instantâneas (dopamina).
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- O Alvo: A capacidade de atenção.
- O Golpe: Faria com que a vida digital fosse mais colorida e validante do que a vida real. Eles prefeririam a aprovação de estranhos online à conexão profunda com quem está ao lado.
- Fragilizar a Resiliência através do Conforto
Eliminaria qualquer forma de fricção ou tédio. Tudo seria entregue na hora: comida, entretenimento, compras e até relacionamentos.
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- A Armadilha: Se não há espera, não há paciência. Se não há esforço, não há sentido de conquista. Uma geração que nunca aprendeu a lidar com o desconforto torna-se emocionalmente frágil e fácil de manipular perante a primeira crise real.
- Fragmentar a Identidade e a Comunidade
Incentivaria o hiper-individualismo. Faria com que cada pequena diferença se tornasse um muro, em vez de uma ponte.
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- A Estratégia:Dividir para reinar. Criaria tribos ideológicas que se odeiam, garantindo que nunca se unissem contra um problema comum. O “Eu” passaria a ser mais importante que o “Nós”.
- O Culto da Passividade
Transformaria os cidadãos em puros consumidores.
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- A Mentira: Convencê-los-ia de que a liberdade é ter 50 marcas de detergente por onde escolher, enquanto a sua verdadeira autonomia política e intelectual se atrofia. Eles estariam tão ocupados a consumir que se esqueceriam de criar.
“O mal mais perigoso é aquele que se apresenta como um progresso inevitável ou uma conveniência irresistível.”
Ao fazer com que a destruição pareça um “estilo de vida moderno”, a próxima geração não lutaria contra ela — eles fariam fila para a comprar.
Gostarias que analisássemos como estes conceitos se comparam com alguns dos desafios sociais que enfrentamos hoje, ou preferes explorar este cenário de uma perspetiva mais filosófica?” Fim de citação
SIM QUERO, e a resposta foi:
“É fascinante (e um pouco inquietante) perceber que o “plano” hipotético do Diabo não requer tecnologia futurista, mas sim a amplificação de tendências que já vivemos.”
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Notas
[1] Veja-se já o que se passa com a pornografia, sobretudo sobre as crianças. Veja-se o artigo AI is upending the porn industry publicado pelo The Econiomist, 27 de novembro de 2025 (ver aqui)
[2] Veja-se o artigo The Policy Implications of Grok’s ‘Mass Digital Undressing Spree’ publicado por Tech Policy Press, 4 de Janeiro de 2026. (ver aqui)
[3] Por outras palavras a autora está a querer dizer que muita da produção académica de hoje, é simplesmente lixo académico.
[4] Palavra de origem grega a significar conhecimento adquirido exclusivamente pela experiência.



