Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Herman Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
10 min de leitura
Nota de editor
Devido à sua extensão publicamos este texto em duas partes, hoje a segunda.
Texto 7. Neste País, Costumávamos Ler (2/2)
A história da literacia é a história das classes sociais
Publicado por
em Novembro de 2025 (original aqui)
(conclusã0)
A Decadência da Civilização Ocidental
O que é curioso é que muitos dos maiores críticos do aparecimento dos meios electrónicos e da desvalorização da literacia também vêem este tempo como um período de declínio. Postman acreditava que a queda da literatura começou com o telégrafo e a sua cria, o jornal de massas. “A sua linguagem era a linguagem das “caixas” dos jornais — era uma linguagem sensacionalista, fragmentada, impessoal”, escreve ele em Amusing Ourselves to Death. “As notícias assumiram a forma de slogans… para serem esquecidos com rapidez. A sua linguagem era também inteiramente descontínua. Uma mensagem não tem nenhuma conexão com a que a precedeu ou a seguiu”. E estava repleto de anúncios! Isto parece diferente quarenta anos depois, do outro lado do colapso dos jornais e da publicidade impressa. Hoje abundam as piadas de que os classificados eram um pilar estrutural da democracia, e o declínio do jornal diário acelerou, de facto, a uma velocidade assustadora, a descida para um ambiente informativo descontínuo e mortífero. Em parte, isso deve-se ao eterno deslizamento neste discurso entre a literacia de massa e a literacia cultural de elite — entre a questão de saber se as pessoas eram simplesmente capazes de usar um almanaque para a agricultura ou se podiam e iriam consumir prosa complexa (algo de que este artigo também pode ser culpado). Mas deve-se em grande parte ao facto de que a maioria das pessoas que escrevem sobre isso são elas próprias elitistas: Postman enquadra o seu livro em torno das perspetivas de Huxley, que acreditava que a educação de massa conduzia à estupidez cultural.
É mais fácil meter a mão no bolso do próximo se ele for analfabeto.
Um terço de todos os jornais dos Estados Unidos fechou entre 2004 e 2025. Quando os jornais fecham, as empresas locais cometem mais infracções legais, os custos de endividamento dos governos municipais aumentam por causa da menor fiscalização pública das decisões de despesa, as pessoas votam menos, e o que é chamado imprecisamente de “polarização política” cresce à medida que o isolamento social aumenta e o sentido de comunidade se enfraquece. No primeiro episódio de Os Sopranos, o famoso monólogo de Tony sobre a sensação de que tudo está em declínio é sobreposto a imagens dele a pegar no seu jornal diário, o Star-Ledger de Newark. O Star-Ledger encerrou todo o trabalho impresso em Fevereiro. Em The Wire, o estivador e secretário-tesoureiro do sindicato Frank Sobotka lamenta a perda da prosperidade de meados do século ao pronunciar a famosa dica: “A gente costumava fazer coisas nesse país, construir coisas. Agora só metemos a mão no bolso do próximo”. Sobotka é assinante do Baltimore Sun, que mal sobrevive hoje, com uma fracção dos jornalistas e secções que já teve. Nem Tony nem os filhos fracassados de Frank são leitores, e os seus futuros revelam-se mais pobres e mais medíocres — quando não francamente sombrios. Não faz sentido — nem nesses universos fictícios, nem no nosso real — entender o surgimento do jornal impresso como um retrocesso na cultura letrada. Ele era uma forma de literacia que atraía leitores não pertencentes à elite e lhes fornecia tanto informação quanto entretenimento. Em muitos aspectos, a era actual de Trump resulta do facto de que é mais fácil meter a mão no bolso do próximo se ele for iletrado.
Se o período de 1880 até ao início do século XX foi uma era de ouro da leitura, foi por falta de opção: não havia nenhuma outra forma de entretenimento de massa. Com o aparecimento do rádio — que, por ser falado a partir de roteiros escritos, gerou inicialmente a esperança frustrada de se tornar um meio capaz de melhorar os níveis de literacia — e depois da televisão, tudo mudou. Esta última substituiu o material impresso como, nas palavras de Postman, o “paradigma para a nossa concepção de informação pública”. Um paradigma muito pobre. A leitura e o uso de bibliotecas caíram imediatamente à medida que a televisão se difundiu amplamente nos anos 1950. No entanto, havia uma força cultural contrária: a Guerra Fria e a competição com os soviéticos. O governo investiu na educação básica e numa vasta expansão do ensino superior porque, após o Sputnik, como explica o historiador Lawrence Samuel em Literacy in America, “a notícia de que estudantes universitários liam poucos livros — e ainda menos após a formatura (confirmada por sondagens Gallup) — era perturbadora, levando à conclusão discutível de que os jovens não eram tão inteligentes quanto antes (e nem tão inteligentes quanto os seus equivalentes russos).” Nos cinquenta anos seguintes, o governo interveio continuamente na educação, com maior ou menor sucesso, para combater as deficiências educativas americanas sentidas (e reais) em comparação com os russos, depois com os europeus e os japoneses e, por fim, com os chineses. A leitura resistiu, apesar das seduções da televisão (e depois da internet 1.0), ainda que tenha sido eclipsada como meio principal. O número de jornais diários nos Estados Unidos caiu fortemente, do pico de 2.500 em 1910 para 1.750 em 1945, mas depois estabilizou-se numa pequena queda até 1985, quando havia 1.676. Em 2000, eram 1.480. Na última contagem, em 2024, o número mal ultrapassou quatro dígitos: 1.033. Muitos jornais enfrentam dificuldades tanto financeiras como de leitores, e todos dependem de um público mais velho.
Os críticos da televisão estavam certos, e estiveram presentes quase desde o início. O presidente da FCC [Federal Communications Commission] nomeado pelo presidente Kennedy, Newton Minow, declarou famosamente em 1961 que a televisão
era um vasto deserto. Poder-se-á ver um desfile de programas com concursos, comédias formatadas sobre famílias totalmente inverosímeis, sangue e trovão, caos, violência, sadismo, assassinato, bandidos do Velho Oeste, mocinhos do Velho Oeste, detectives particulares, gangsters, mais violência e desenhos animados. E, interminavelmente, anúncios comerciais — muitos deles gritantes, insistentes e ofensivos.
Em Amusing Ourselves to Death (Divertir-se até morrer), a obra máxima da crítica televisiva publicada vinte e quatro anos depois, Postman argumenta que a televisão séria é uma impossibilidade e que, na medida em que lugares como a PBS tentam fazê-la, ninguém vê esses programas. Ao contrário da escrita impressa, que “estimula a racionalidade”, a televisão só é capaz de produzir entretenimento sem qualquer intertextualidade, seja nas sitcoms ou nos programas de “notícias”. Os comerciais eram a forma modal do meio, e a política foi remodelada à imagem dos anúncios de novelas. Para Postman, isso levou à eleição de Ronald Reagan e ao facto de que “os americanos são o povo mais entretido e, muito provavelmente, o menos bem informado do mundo ocidental”. As pessoas que liam as notícias eram substancialmente mais bem informadas do que aquelas que passavam o mesmo tempo a ouvi-las. Se a leitura continuamente reensina a pensar, a televisão é um anestésico perpétuo. Filosofia, história e pensamento complexo são todos impossíveis no pequeno ecrã: “A sua forma trabalha contra o conteúdo…”
Algumas das perspetivas de Postman situam claramente a obra em 1985. Jacob Javits, o republicano liberal de Nova Iorque que apoiou os direitos civis, defendeu o Medicare para todos em 1970 e patrocinou a Resolução dos Poderes de Guerra, é hoje lamentado como um dos poucos representantes de uma espécie desaparecida de políticos inteligentes e íntegros. Para Postman, Javits era a apoteose do político sério por contraponto aos políticos vazios que a televisão já produzia, sem terem nada para dizer. As coisas podem sempre piorar.
Com a televisão firmemente instalada, e a internet a emergir nos anos 1990, alguns começaram a perceber que a era Gutenberg da imprensa era historicamente determinada e que as condições que a originaram estavam a chegar ao fim. The Gutenberg Elegies: The Fate of Reading in an Electronic Age, de Sven Birkerts, obra publicada em 1994, di-lo assim:
De repente, parece que tudo está prestes a mudar; o mundo mais lento em que muitos de nós crescemos diminui no espelho retrovisor. As hierarquias estáveis da página impressa — uma das normas definidoras daquele mundo — estão a ser suplantadas pelo fluxo de impulsos através de circuitos recém-criados.
Mais tarde, continua:
A tecnologia visual e não-visual, em todos os sentidos, estimula no utilizador uma consciência elevada e em constante mudança do presente. Age contra a perceção histórica, que necessariamente depende das noções antagónicas de lógica e sucessão sequencial. Se o meio impresso exalta a palavra, fixando-a na permanência, o seu equivalente eletrónico redu-lo a um sinal, a um meio para um fim.
Algumas das previsões de Birkerts, como a de que os factos suplantariam a ficção, revelaram-se completamente erradas. Mas ele viu o núcleo do que estava por vir:
Podemos esperar que os currículos sejam ainda mais simplificados, e que os textos difíceis nas humanidades sejam podados e glosados. Basta comparar um livro didáctico universitário de vinte anos atrás com a sua versão contemporânea. Um poema de Milton, uma peça de Shakespeare — hoje mal se consegue encontrar o texto entre tantas notas explicativas. […] À medida que o circuito substitui a página impressa, e que cada vez mais as nossas comunicações nos envolvem em processos de rede — que, por sua natureza, nos situam num presente perpétuo — a nossa perceção da história inevitavelmente transformar-se-á.
Avançando além do presente dele para o nosso futuro, Birkerts previu que
o leitor isolado pode continuar a existir, mas o público leitor desapareceu e dificilmente voltará a aparecer. E essa perda pesa muito, muito pesadamente sobre a qualidade de nossa vida cultural. Garante que haverá uma divisão acentuada entre os extremos — entre uma elite académica e uma população de massa — sem nenhum centro mediador.
Duas décadas depois de Birkerts publicar The Gutenberg Elegies, encontrei a esquecida ficção de Jim Paul de 1996, Medieval in LA, na seção de usados da Powell’s. Intercalando selecções textuais da Idade Média e sobre ela com relatos de um profissional criativo visitando Los Angeles, o livro sustentava que já estávamos a reentrar num mundo medieval de mistérios imagéticos. Mais ou menos na mesma época, notei um caixa registradora num restaurante de fast-food que usava pictogramas em vez de texto. Ao entrarmos nos primeiros anos Trump, com a ascensão e a crescente popularidade dos vídeos de formato curto, passei a ouvir de praticamente todos os académicos que conhecia que a capacidade dos seus alunos para ler qualquer coisa mais longa do que algumas páginas estava a desaparecer.
“O leitor isolado pode continuar a existir, mas o público desapareceu e é improvável que reapareça.”
As estatísticas só pioraram. No ano passado, o americano médio gastou 0,28 horas por dia em leitura, segundo o Bureau de Estatísticas do Trabalho dos EUA. Esse número caiu ligeiramente desde 2016, assim como o tempo dedicado a socializar e a ver televisão. Uma pesquisa de 2023 indica que 54% dos americanos leram um ou mais livros por ano. A maioria são livros de género, sendo o romance de fantasia a única fonte de crescimento na leitura. “O vídeo agora representa 58,8% do tempo médio diário gasto com redes sociais, antes era de 48,0% em 2021”, escreve Audrey Schomer na Variety. Os utilizadores do TikTok são os que mais tempo passam no aplicativo, com uma média de 2,48 horas por dia em 2024; os do Instagram chegam a 2,46. Em The Atlantic, Rose Horowitch observa: “Em 1976, cerca de 40% dos alunos do último ano do ensino secundário afirmaram ter lido ao menos seis livros por prazer no ano anterior, em comparação com 11,5% que não haviam lido nenhum. Em 2022, essas percentagens inverteram-se”. Ong estava errado ao afirmar que a oralidade secundária permaneceria atrelada à literacia. Embora a literacia continue a ser um fenómeno de massa, o número de leitores e a qualidade do que leem estão em declínio. Ao mesmo tempo, embora a memória seja tradicionalmente o princípio organizador da oralidade, aqueles imersos no seu segundo advento viram as suas faculdades de recordação substituídas por data centers, deixando-os desprovidos de uma cultura significativa — seja ela impressa ou oral.
中国第一
Em 2007, eu estava em Xangai num jantar organizado por um familiar. Muitos dos convidados eram os directores americanos das filiais chinesas das suas empresas norte-americanas. Era um momento de otimismo quase eufórico. Um enorme novo mercado tinha-se aberto, o dinheiro fluía em torrente, e não havia necessidade de se preocupar com a concorrência chinesa. Os executivos eram unânimes: o sistema de educação mecânica da China produzia trabalhadores extremamente competentes do ponto de vista técnico, mas a criatividade intelectual e científica cultivada pelo nosso sistema educativo de livre investigação significava que sempre dominaríamos os investigadores locais. Hoje, a China abriga oito das dez principais instituições no ranking de universidades de pesquisa da revista Nature (os Estados Unidos acabam de cortar o financiamento da primeira da lista, Harvard) e ultrapassou a América em todos os setores, dos carros elétricos às máquinas agrícolas. Em dez sectores industriais estratégicos, a China lidera em sete e a América em três. O que é que aconteceu?
Muitos factores estão além do objetivo deste ensaio, desde mudanças populacionais até à bem-sucedida aposta chinesa no “produtivismo” em contraposição à nossa economia financeirizada, mas um deles é que a China acredita na educação e na literacia mais do que nós. Isso fica claro já na literacia de base, onde o país atingiu uma taxa de 97%; recentemente, o equivalente nos EUA foi estimado em apenas 79%. Enquanto o ensino superior americano foi sendo lentamente sufocado pela redução dos subsídios estatais e pela crescente dependência de empréstimos estudantis, a China investiu pesadamente em educação. A hipótese racista de que os chineses não poderiam ser criativos revelou-se muito, muito errada.
A hipótese racista de que os chineses não poderiam ser criativos revelou-se muito, muito errada.
E porque a China é governada por uma cúpula ostensivamente marxista, o país tem uma capacidade de restringir os opiáceos eletrónicos muito além do que qualquer americano poderia imaginar. Em 2019, a China limitou os menores de dezoito anos a noventa minutos de videojogos por dia. Em 2021, esse limite foi reduzido a uma hora às sextas-feiras, fins de semana e feriados, entre as 20h e as 21h. Restrições semelhantes limitam os jovens a passar mais de 2h48 por dia a visionar vídeos. Embora a evasão seja generalizada, os efeitos positivos da restrição em comparação com o sistema americano descontrolado são incalculáveis. A natureza viciante dos smartphones é um problema muito sério que contribui para o declínio da literacia, mas os telefones existem num contexto social, e não o contrário. Numa sondagem global, os Estados Unidos estão entre os países mais pessimistas quanto aos efeitos da IA. O Relatório de Índice de IA de 2025 afirma que apenas 34% dos americanos estão entusiasmados com o futuro da IA. A China é a mais entusiasmada, com 80%. A experiência vivida pelo povo chinês é que o governo conterá os efeitos nocivos da tecnologia e o padrão de vida aumentará, por isso eles não têm medo. Os americanos, que assistiram ao Vale do Silício a agir de forma desenfreada e os bons empregos a desaparecer, têm razão para ter medo. Enquanto as escolas chinesas ensinam os alunos sobre o impacto da IA na sociedade — riscos e enviesamentos, além da aprendizagem de base —, as escolas americanas afadigam-se a servir conteúdo gerado por IA como a única versão de educação que as crianças recebem. Surpreendentemente, em 2022, o Conselho Nacional de Professores de Inglês declarou: “Chegou a hora de descentralizar a leitura de livros e a redacção de ensaios como os elementos fundamentais do ensino de língua inglesa”. O charlatão-manipulador-revolucionário da IA e porta-voz do ChatGPT, Sam Altman, diz: “Uma criança nascida hoje nunca será mais inteligente do que a IA, jamais.” A sua intenção é atrair mais investimentos para a sua empresa com a promessa ilusória de uma IA de “nível de doutoramento”, mas ele pode estar certo apesar do que diz: não é que a IA esteja a alcançar a “inteligência geral”, como diz, mas sim que as crianças não estão a atingi-la.
Pois é, foi a IA que deu à classe dominante americana o impulso final para abolir, em maior ou menor grau, a educação. Enquanto as escolas de ensino primário e secundário se preparam para impor a IA aos alunos, o financiamento do ensino superior está a ser basicamente eliminado. Pela primeira vez em séculos, a elite americana deixou de sentir que precisa de trabalhadores e soldados instruídos para sustentar e reproduzir o sistema. As estratégias de segurança nacional, de Biden a Trump, baseiam-se cada vez mais na ideia de que podemos alcançar o objetivo (inatingível) de uma “inteligência artificial geral” em poucos anos e, assim, dominar a China daqui para a frente. Para as crédulas elites militares quanto à tecnologia (e para as empresas do Vale do Silício que lucram com elas), não importará se a classe de oficiais subalternos não conseguir entender Clausewitz; a IA no campo de batalha dir-lhes-á que ordens dar a um pelotão. Quanto à economia, nas palavras do magnata Elijah Clark: “Como CEO, posso dizer que estou extremamente animado com isso. Eu mesmo despedi funcionários por causa da IA. A IA não entra em greve. Não pede aumento de salário.” Como dizem os painéis publicitários recentemente avistados em São Francisco e Nova York: DEIXEM DE CONTRATAR HUMANOS.
A sociedade americana está dominada por charlatães ricos e políticos literalmente dementes, que estão felizes em assumir todos os riscos da IA porque ela promete criar trabalhadores que nem sequer podem conceber a ideia de sair da empresa, muito menos de fazer greve. As elites estão extasiadas a imaginar uma vasta população sem instrução e improdutiva, forçada a pagar a empresas como a OpenAI para ter acesso à palavra escrita e a uma aproximação do pensamento; e é pouco provável que os desempregados iletrados e viciados em ecrãs se politizem e se juntem a uma campanha socialista. Theodor Adorno observava nos anos 1940 que, quando o liberalismo burguês é substituído pelo fascismo, a cultura letrada também o é. Parte da elite americana está ela própria a defender a idiotice. Estudantes de Columbia dizem não conhecer ninguém que não use IA para trapacear. Um universitário de Utah disse à Intelligencer: “Passo muito tempo no TikTok, horas e horas, até os meus olhos começarem a doer, o que me dificulta planear e fazer as minhas tarefas académicas. Com o ChatGPT, consigo escrever em duas horas um trabalho que normalmente levaria doze.” Para quê então ir à faculdade se não se aproveita nenhum dos seus cursos? Para encontrar os dois auxiliares de que um homem moderno precisa: “É o melhor lugar para conhecer alguém para se associar na vida profissional ou a pessoa com quem viver em coabitação”. Nós costumávamos fazer coisas neste país.
Da elite americana que ainda vê valor contínuo no pensamento letrado, a maioria contenta-se em criar uma sociedade onde uma pequena “elite cognitiva” domina o restante. Crianças pobres passam duas horas extras por dia diante de ecrãs, enquanto os ricos mandam os seus filhos para escolas privadas onde nenhum dispositivo electrónico é permitido, como Mary Harrington explicou recentemente no New York Times. Controlar o efeito dos média é possível, mesmo nos Estados Unidos; nós simplesmente temos reduzido essa possibilidade a um privilégio de classe. Gosto muito da Primeira Emenda e abomino a censura, e ainda assim cheguei, com relutância, à conclusão de que a Grande Muralha da China será, a longo prazo, um benefício para aquele país. O que a China nos mostra é que, ao contrário de toda a linha de estudos tecnocentristas que seguem McLuhan, o que importa é o sistema social no qual a tecnologia está inserida. A China não é uma utopia, mas os seus cidadãos têm um futuro mais promissor do que os cidadãos do nosso país, e poderão ler a respeito dele — graças a um sistema sociopolítico que ainda considera a literacia necessária e mantém a sua primazia sobre o capital privado.
Os americanos estão de volta à “floresta simbólica habitada por presenças misteriosas” de Umberto Eco, onde temos muita dificuldade em distinguir realidade de ficção nas imagens colocadas diante de nós (e isto, conforme o subtítulo de um artigo do New York Times deste ano sobre o ChatGPT em que se diz que a IA tem levado pessoas à loucura: “os robôs de conversação da IA generativa estão a descer por tocas de coelhos conspiratórias e a assumir sistemas de crenças selvagens e místicas”). A cultura oral é, novamente, agregativa em vez de analítica, de posições tradicionalistas e homeostáticas, sem distância objectiva. Repetição, cliché e fórmulas são essenciais. “Let’s Go Brandon” [n.t. é uma expressão curiosa surgida em 2021 como eufemismo para “Fuck Biden”, onde se diz uma coisa mas se quer dizer outra completamente diferente — o autor utiliza aqui a expressão para assinalar assim a dificuldade de agora nos entendermos com a distorção da linguagem que aprendemos], é uma forma moderna, mais estúpida e menos verbalmente inteligente do Cockney rhyming slang [n.t. esta é outra expressão em que se quer dizer uma palavra e se utilizam duas a três outras diferentes, onde uma delas rima com aquela que se quer dizer, e isto significa que entendermo-nos [1] com alguém é um processo de adivinhação]. O registo áudio de um pai negro a chorar e que grita “My Shayla” [n.t. termo coloquial de carinho] durante uma discussão sobre o direito de cuidar da filha torna-se o pano de fundo musical das montagens vídeo editadas pelos fans de Barron Trump como um tragável herdeiro do seu pai, Donald Trump. O título de um artigo de NPR dizia “Por favor não cozinhe frango em NyQuil, é o que pede a FDA aos utilizadores de TikTok [2] ”. Tudo isto são expressões que nos falam de forma muito eloquente das novas e misteriosas presenças de Umberto Eco na nossa vida social. Estamos não apenas muito longe da racionalidade da imprensa escrita, mas também bastante distantes do epíteto homérico. Este é o mundo em que Sam Altman e Mark Zuckerberg querem que cada um de nós viva de modo que o seu poder não possa ser contestado.
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[1] O Cockney rhyming slang é um sistema de gíria originário do East End de Londres, em que uma palavra é substituída por uma expressão de duas ou três palavras que rima com ela — mas o truque está em que, na fala quotidiana, a parte que rima é normalmente omitida, tornando o código quase impenetrável para quem não o conhece.
[2] Em 2022, a FDA (Food and Drug Administration) emitiu um aviso oficial sobre uma tendência viral no TikTok chamada “NyQuil Chicken” (ou Sleepy Chicken), em que as pessoas cozinhavam frango literalmente dentro do xarope NyQuil, ou seja, o nosso conhecido Vick vaporub. (um medicamento para a constipação/gripe)
O autor: Noah McCormack é o editor do The Baffler e coeditor, com Scott Sowerby, das memórias de Sir Daniel Fleming de Rydal Hall de 1633 a 1688. É licenciado e mestre em História pela Universidade de Harvard.



