Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (4/8): “Uma Consciência Africana Artificial?” . Por Alain Mabanckou

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse


Nota de editor:

Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o quarto texto da autoria de Alain Mabanckou.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (4/8): Uma Consciência Africana Artificial? 

Alain Mabanckou,

Traduzido do francês para inglês por Helen Stevensong

Publicado por  Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

 

Fotografias de Kaya LeGrand e Max Brandstadt

 

Eu poderia começar por adotar uma postura nostálgica: afirmando que o escritor ainda é alguém que preserva a sua cozinha criativa, servindo-se de utensílios antiquados para preparar pratos cujos ingredientes misteriosos derivam diretamente das leituras do autor, das suas viagens, dos seus momentos de deslumbramento e das suas horas mais sombrias. Outrora, reverenciávamos o ato de escrever como “divinamente inspirado”, fruto de uma vida interior rica, da sensação de que os escritores gozavam de um estatuto privilegiado que lhes permitia sussurrar às musas. Nesse sentido, escrever significava assinar um pacto com personagens que deviam a sua própria existência ao autor, com o objetivo de conferir ressonância a uma história, de transmitir a sensação de que o destino da humanidade dependia do destino desses protagonistas, nascidos das convulsões da experiência do escritor no mundo. Estará esse autor agora morto?

A nossa época está presa num torpor de preguiça, num frenesim de atalhos, esquecendo que uma máquina não respira, não sua, não alimenta dúvidas. Uma máquina pode escrever poesia, fabricar romances, ensaios ou peças de teatro sem esforço em nome do escritor, a quem não resta senão colocar o seu nome na capa. A inteligência artificial parece permitir aos mais crédulos de nós acreditar que qualquer pessoa pode tornar-se escritor, que pode reescrever Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, Ratos e Homens, de John Steinbeck, ou Uma Carta Tão Longa, de Mariama Bâ com um simples toque num botão.

Quem é o verdadeiro autor de tal obra? O escritor que forneceu à máquina o material bruto do seu universo, ou a máquina, com os seus algoritmos, clichês e frases prontas compiladas por uma inteligência fabricada? Foram-me entregues manuscritos para ler por jovens que sonhavam tornar-se escritores e que se esqueceram de me dizer que o seu trabalho era produto de IA. Desde as primeiras linhas, conseguia perceber as palavras redundantes, a proliferação óbvia de advérbios, a ausência de situações reais e originais. Superficialmente, os seus textos pareciam bem escritos, mas era triste constatar que tinham sido formatados no espírito do nosso tempo, repetindo fórmulas mais adequadas a romances de aeroporto ou à ficção sentimental. O que faltava nesses textos? Uma alma. Sim, seria difícil reproduzir a alma de um texto, porque escrever não é apenas uma questão de contar uma história: nós, escritores, não conseguimos escapar a colocarmo-nos em risco no nosso estilo, na nossa sintaxe, e com a nossa consciência de que avançamos sobre os ombros dos autores que lemos, que nos abriram as portas da criação ao terem-nos atraído para o seu mundo.

Nasci no Congo-Brazzaville, um país onde o francês é a língua oficial. Herdámos esta língua no decurso de uma história marcada pelo conflito e pela resistência — mas também pela capitulação perante o colonizador francês, que deixou a nossa terra nos anos 1960, quando os países africanos conquistaram a sua independência. Sou, portanto, primariamente um escritor francófono, e a questão da minha relação com a língua francesa deve ser considerada no contexto desta nova era. Entregar completamente esta ferramenta de comunicação à IA seria ignorar o facto de que esta língua alberga a história dos povos colonizados, as suas misérias, as suas lutas para pôr fim à escravatura e a conquista, pelas nações africanas, da sua independência. Estaria a ignorar que é desta história turbulenta que emergiu uma consciência africana — uma consciência que ainda está em processo de definir os seus contornos e a sua geografia, construindo-se através de literaturas que bebem dos registos locais ao mesmo tempo que abraçam aspetos da civilização ocidental, para o melhor e para o pior.

A IA pode muito bem ser capaz de absorver esses elementos culturais, mas consegue também reproduzir o sofrimento desses povos oprimidos? Esse tipo de apropriação cultural já ocorreu antes, e o nosso continente ainda paga um preço alto pelos preconceitos persistentes, que resultaram numa imagem fixa e caricatural da África em geral. No início do século XX, por exemplo, assistimos a uma literatura colonial que aspirava a encarnar África. Essa literatura era produzida por ocidentais para ocidentais, aos quais apresentava uma certa África que não tinha nada de particularmente africano. O romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, contemplava África à distância, retratando os africanos através do prisma dos preconceitos ocidentais. Conrad não conseguia capturar a “alma africana”, falar por ela a partir do seu interior, nem navegar pelas mitologias e cosmogonia de África.

O romancista africano tem um pacto tácito com o seu povo: articular o seu sofrimento, reescrever a história do continente e ilustrar as alegrias e o desespero dos seus habitantes. Nascemos com esse sentimento, e os romancistas africanos têm muitas vezes a sensação de que o seu trabalho é coletivo, nascido do povo e a ele destinado. Carregamos essa postura dentro de nós, pois temos consciência de que o nosso lugar na humanidade não é garantido, e que temos de lutar por ele todos os dias. É essa resistência e esse pacto que a IA é incapaz de reconhecer, pelo menos por enquanto.

Claro, alguns poderão acusar-me de evocar o passado e de afirmar que o antigo é melhor do que o novo. (E poderão acrescentar que existem textos “perfeitos” escritos com a ajuda da IA e que o que importa é compreender e popularizar a literatura, etc.). Longe de mim proclamar que o escritor está morto e gritar “Viva o escritor!” O que estou a fazer é soar um alarme, sugerindo ao escritor de hoje que se redefina a si próprio, de modo a proteger a sua criação e a resistir à tentação de se tornar o porta-voz de uma obra que é, no fundo, a de uma máquina. Não podemos esperar que as soluções para os nossos tormentos venham de um repositório de lugares-comuns reunidos por qualquer pessoa capaz de utilizar a IA, disfarçada de criadora daquilo que, na verdade, não é mais do que uma miscelânea do que produzimos até agora e do que produziremos amanhã.

Mas como não temos — ou já não temos — qualquer escolha, devemos fazer as pazes com o nosso tempo, o que implica necessariamente separar o trigo do joio e, acima de tudo, resistir às tentações da literatura fast-food servida nas áreas de serviço das autoestradas da inteligência artificial. Continuo convicto de que a saída passará por o escritor oferecer uma originalidade nascida da sua imaginação e deixar ao leitor a tarefa de dar caça aos aprendizes de feiticeiro, pois tenho a certeza de que eles serão capazes de distinguir uma história autêntica de uma gerada pela programação tecnológica.

E só então, com toda a nossa vigilância e honestidade intelectual, continuaremos a valorizar a criação literária como a morada da nossa alma — uma alma que não trocaríamos por nada neste mundo.

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O autor: Alain Mabanckou [1966 – ] é um escritor e poeta congolês com dupla nacionalidade franco-congolesa. Estudou Direito en Brazzaville e, posteriormente, na França. Após concluir a pós-graduação na Universidade Paris-Dauphine, trabalhou durante vários anos em importantes multinacionais francesas antes de se consagrar por completo à literatura. Reside nos Estados Unidos, como professor convidado desde 2002; inicialmente como professor de literatura francófona e de “escrita criativa” na Universidade de Michigan e, mais recentemente, na Universidade de Califórnia (UCLA), com disciplinas de literatura francófona.

É autor de doze romances, seis livros de poesia, dois livros infanto-juvenis e de diversos relatos que são publicados em distintos periódicos como Le Figaro (Paris), Le Soir (Bruxelas) e em duas obras coletivas: Relatos de África (“Nouvelles d’Afrique”) em 2003 e Visto desde a Lua, relatos otimistas (“Vu de la lune, Nouvelles optimistes”) em 2005. Em 2006, com o romance Memorias de porco-espinho, conseguiu o importante prêmio Renaudot. Em 2008, Mabanckou traduziu do inglês para o francês a obra de Uzodinma Iweala, um escritor nigeriano considerado como um jovem prodígio da literatura norte-americana. Entre 2015 e 2016, o escritor lecionou no Collège de France na cadeira de Criação artística, com o curso intitulado de Letras negras: das trevas à luz (transformado em livro posteriormente).

 

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